13/01/2012
às 23:04 \ AnáliseA mãe
Tenho uma relação muito difÃcil com minha famÃlia. Minha mãe me teve sozinha. Não contou para o meu pai que estava grávida porque já havia feito alguns abortos antes. Depois, passou a ter um sentimento de culpa muito grande e me sufoca até hoje. Tive muitas dúvidas sobre quem eu era e fiz terapia durante anos. Casei, me realizei profissionalmente e agora estou grávida.Â
Ela continua me tratando como troféu, como se eu fosse a prova de que ela deu certo. Não só ela, a famÃlia toda, que sofreu muito quando ela engravidou. Não quero ser o troféu de ninguém. O que eu mais quero é criar meu filho de outra forma, deixar que ele seja livre. Não quero que ele tenha a responsabilidade de agradar a tanta gente! Ando preocupada com isso. Como exercer a maternidade com o exemplo que eu tive?
Sua questão é da maior importância, porque diz respeito aos tantos filhos que não querem ser o troféu das mães e às tantas mães que deles fazem um troféu, ou seja, o objeto comemorativo de uma vitória.
Por um lado, sempre que o filho é desejado, dar à luz é inegavelmente uma vitória. Por outro lado, filho adulto nenhum quer continuar a ser a prova da vitória da mãe. Inclusive porque, para sê-lo, é preciso que ele satisfaça o desejo dela em vez de satisfazer o próprio. Que ele seja objeto do desejo alheio, e não sujeito do seu próprio desejo.
Precisamente porque sua mãe não lhe deu liberdade e você tem consciência de quanto isso pesou, você pode dá-la ao seu filho, pondo-se à escuta do que ele quer para não repetir a conduta dela. Ser mãe é uma arte, na qual é necessário exercitar-se continuamente. A mãe tem algo da enfermeira, no começo dos tempos, da professora e da psicanalista, quando o filho cresce.
Mas não é enfermeira, nem professora, nem psicanalista, embora deva cuidar, ensinar e escutar para abrir mão do próprio desejo e deixar que o do filho se manifeste. Em outras palavras, precisa não mais se espelhar na sua criatura e aceitar a independência dela.
Ser mãe é mudar continuamente, porque, sem ela, o filho, primeiro, não vive.
Depois, só encontra seu caminho se ela se afastar. Isso não é fácil, mas pode ser conseguido, claro. Como diz a psicanalista Yvete Villalba, o filho não é da mãe, é do mundo. Acrescento que, se não for assim, ele não é de ninguém.
Tags: maternidade












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5 Comentários
Olavo Tozatti Cavalcante
-28/01/2012 às 18:03
Ótimo!!! como sempre – muito sucesso!!!!
Sérgio Dutra
-27/01/2012 às 15:41
Concordo que filhos não são dos pais, são do mundo. É para criá-los para esta condição que servem os pais. Ser pai/mãe é uma missão especialmente escolhida por Deus. Essa missão consiste em cuidar daqueles “seres” enquanto filhos, para que um dia, se escolhidos, possam receber a mesma missão.
A questão é quando os pais se esforçam ao máximo, oferecem todas as condições para gerar a autonomia dos filhos, em fim, para criar os filhos para mundo e quando crescidos, os filhos apesar de terem entendido a importância de conduzirem a própria vida, não querem fazê-lo.
Nina
-19/01/2012 às 12:10
Esse relato tem dois lados, o da mãe e o da filha, a mãe solteira, deve ter passado poucas e boas par educar uma filha sózinha, ela tinha o livre arbitrio de dar para adoção, embrulhar em cobertores e deixar na porta de um convento, mas foi heroina, pois deixou de lado muita coisa e criou a filha, e isso deve ser para ela motivo de grande orgulho.
Por sua vez a filha se sente incomodada, sendo mostrada assim como um troféu, voce filha se casou e a criação do seu bebê será bem diferente da sua, com famÃlia estruturada e carinho de pai e mãe, então tenha sua filha dê a ela todo carinho, e valores que voce puder, lá na frente você poderá avaliar a diferença que agora reveindica….
Ana
-18/01/2012 às 8:40
Não entendo essa martirização das maes….
Andréia
-15/01/2012 às 15:45
Ótimo texto.