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Arquivo de fevereiro de 2010

24/02/2010

às 0:52 \ Relacionamentos

O fio de Ariadne

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Tenho 33 anos, sou solteira e não tenho filhos. Moro com minha mãe e minha irmã mais velha. Faço tratamento de uma depressão que tive há um ano e que resultou de uma decepção amorosa. Na ocasião, tive alucinações e sentimentos de perseguição. Meu pai ficou muito afetado com o que me aconteceu. Teve um enfarte há um ano e morreu de câncer há um mês. Por sorte, há três meses estou num emprego que foi a minha salvação para lidar com a depressão e com a perda do meu pai. Mostro quem sou no trabalho, me esforço, me dedico.

O problema é que sou muito fechada. Embora isso não tenha me impedido de  estudar, me formar e ter meus empregos, eu não tenho amigos. O relacionamento com namorado também é difícil. Não sei o que fazer para conquistar as pessoas, mas sei que tenho talento para elas e não quero desperdiçá-lo. Preciso deixar quem se interessa por mim se aproximar ao invés de descartar a pessoa. Por onde começar? Como disse Vinícius de Moraes: “a pior solidão é do homem que se fecha na sua torre inalcançável…”. Não quero  mais ser assim. Não quero sofrer por antecipação. Quero viver. Você pode me ajudar?

Há torres e torres. Existe, por exemplo, a torre onde Montaigne se fechou no século XVI para escrever Os Ensaios, livro precursor da obra de Freud porque o escritor ousou se debruçar sobre a  própria vida, tomando-a como a matéria do livro. Nos ensaios, Montaigne meditou sobre o amor, a amizade, a juventude, o envelhecimento, a morte, os temas que nunca saem de moda.    Fechando-se, ele se abriu para a existência e nos deixou um grande legado.

No seu caso, a torre é você mesma. Você se fecha nela de medo e o seu afastamento  não  traz nada além de tristeza. Como você quer sair  da posição em que está, precisa encontrar alguém que a ajude nessa aventura. Nem tudo nós podemos sozinhos. A mitologia ilustra isso com o mito de Teseu e Ariadne.

Teseu vai a Creta matar o Minotauro que se encontra no labirinto. Tendo se apaixonado por ele, Ariadne lhe dá um fio com a ajuda do qual ele pode entrar e sair do labirinto sem se perder.  A ponta do fio amarrada  no pilar de entrada do labirinto e a outra ponta na mão, Teseu cumpre a sua missão e sai com vida. Além do fio, Ariadne deu as palavras de que o herói precisava para  não se perder: “Você vai encontrar o caminho de volta, pode ir.” Ou seja, deu lhe a confiança necessária.

Você pode encontrar quem estenda o fio afim de que você consiga usar o seu talento para conquistar as pessoas. Procure a sua Ariadne.

Por Betty Milan

17/02/2010

às 10:17 \ Casamento, Relacionamentos

Deslealdade

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Vou ter um ataque de nervos se não falar com você. Tenho 43 anos e sou casado há 23. Amo a minha esposa desde que a vi no colégio. Nos casamos porque ela engravidou. O casamento foi pontuado por insatisfações dela, mas eu sempre procurei evitar a separação. Temos dois filhos e uma neta. De 1994 até 2000, nossa relação sexual foi maravilhosa, ela atingia orgasmos intensos, éramos amantes “quentes”. Até 2007, imaginei que vivia em um paraíso por estar com minha esposa, embora ela tenha me traído em 2004 com um vizinho e em 2005 com um colega de trabalho e um amigo dos tempos de escola. Perdoei e ela prometeu que não aconteceria mais.

Ocorre que em 2009 ela teve um caso com um homem casado de quem só se separou por ter se apaixonado pelo auxiliar. Decobri a rede de mentiras com as quais fui enganado. Minha esposa garante que isso tudo acabou, mas o meu sofrimento é grande e não sei se quero continuar junto. Pode um amor de mais de vinte anos acabar dessa forma? Estou muito triste, choro todos os dias e pensei inclusive em suicídio. Será que devo dar a ela uma quinta chance ou tomar um novo rumo? Estou sem referência, porque nunca amei ninguém além dela e não penso em ter outra ao meu lado.

Não sei se a sua esposa te traiu por estar sujeita a uma insatisfação que ela não controla ou por querer outros amantes e ponto. Seria bom esclarecer isso. O mais grave é a deslealdade, a mentira, que corrói qualquer relação e a qual você não pode mais se sujeitar. Nada é pior do que não confiar na palavra do outro. Se a sua esposa de fato o ama e quer continuar com você, ela precisa se tratar para não mentir mais. Acho que você não pode deixar por menos. Do contrário, a relação acaba mesmo.

A deslealdade justifica a sua depressão, mas não basta para explicá-la. Na mesma situação uma outra pessoa pode não chorar e não pensar em suicídio. Por que isso está acontecendo com você? Por que você lamenta o ocorrido quando lamentar a infelicidade só atrai a infelicidade? O que a sua reação tem a ver com a sua história familiar? Procure responder a isso para sair do buraco e enxergar a luz do dia. O sofrimento não leva a nada, só ao sofrimento. Este é um dos grandes ensinamentos do budismo, que só por ele merece ser estudado. Uma boa referência é o livro escrito por Jorge Luis Borges com Alicia Jurado, sua esposa: O Que É o Budismo?

Por Betty Milan

10/02/2010

às 12:32 \ Relacionamentos

A boca

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Tenho 26 anos e estou namorando uma moça de 20. Ela cursa Psicologia e não gosta da abordagem psicanalítica. Há algum tempo está muito ansiosa para emagrecer. Embora seja bonita de rosto e de corpo, se acha gorda e feia, não se aceita. A irmã dela teve uma anorexia grave, que felizmente foi superada. Hoje, vive bem.

A minha namorada também tem um desvio de coluna perto da nuca e isso a incomoda. Ela é relaxada e não cuida bem da saúde. Faz uma dieta errada e não encontra motivação para mudar. Às vezes, a  falta de motivação é tamanha, que ela não sai de casa. Por outro lado, não quer se trocar perto de mim. Chega  a exigir, quando tomamos banho juntos que a luz fique apagada para eu não a ver. É capaz de destruir quase tudo que faz bem a ela e a deixa feliz. Quis convencê-la a procurarmos um profissional que nos ajude. Ela aceitou a ideia, mas um dia jogou, na minha cara, que eu só sabia dizer que ela precisa de tratamento.

A sua namorada precisa mesmo se tratar e você não pode abrir mão disso. Terá que encontrar as palavras convincentes. Do contrário, o namoro acabará ou será infeliz. No caso dela, se tratar significa, por um lado, descobrir por que não se aceita, e, por outro, aprender a se alimentar. Se ela não gosta da abordagem psicanalítica terá que  procurar uma outra que seja eficiente. Além disso, precisa consultar um nutricionista, que a ensina a comer, ter uma relação  saudável com a boca. A vida depende – e muito – disso.

A expressão “o peixe morre pela boca” é normalmente associada à palavra, mas bem pode ser associada à comida porque nós nos matamos comendo como na infância ao invés de comer o que nos faz bem. Ou bem ingerindo os mesmos alimentos de então ou a mesma quantidade, quando o corpo muda e as necessidades são outras.

Não é por acaso que procedemos assim. Quando crianças, nós também comemos para satisfazer os pais e o desejo de satisfazê-los pode perdurar inconscientemente ao longo da vida. Perdurar fazendo mal. Para viver bem é preciso romper com os velhos hábitos e se transformar. Quem come, além da conta, tem que examinar a relação dos seus familiares com a comida para estabelecer uma relação diferente, adequada às suas necessidades no presente.

Por Betty Milan

01/02/2010

às 20:26 \ Relacionamentos

Insensatez

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Há três anos eu namoro um rapaz que já foi casado e tem uma filha. No começo do relacionamento, a ex-mulher dele fez de tudo para perturbar a nossa relação. Hoje, eu às vezes sinto ódio, uma raiva incontrolável da tal mulher. Mesmo sem nunca a encontrar.

Meu namorado e eu brigamos muito. Eu quero que ele tenha o ódio que eu tenho. Sou infeliz por não esquecer dela e transformo o namoro num verdadeiro inferno por causa de uma mulher que faz parte do passado dele e só. O pior é que eu já sabia, quando comecei a namorar, que ele havia sido casado. Como superar o problema?

“Diga que você odeia a sua ex-mulher como eu. Se você não disser, é porque você não me ama.” Parece telenovela, mas é o seu discurso. Você exige do namorado que ele se entregue ao ódio e prove que a ama sofrendo e sendo como você. Uma insensatez porque não traz benefício algum, ou melhor, só o benefício de uma satisfação narcísica.

O seu e-mail me lembrou o poema de Drummond: “Dois amantes se amam cruelmente/ e com se amarem tanto não se vêem/ um se beija no outro, refletido/ Dois amantes que são? Dois inimigos”. Além de cruel, a sua exigência é tão contrária ao seu namorado quanto a você mesma. Como se livrar  dela? Perguntando-se, por exemplo, que relação existe entre o triângulo formado por você, seu namorado e a ex-mulher e o outro triângulo em que você  viveu primeiro, formado por você, seu pai e sua mãe.

A resposta talvez permita entender por que você não deixa a ‘ex’ existir no passado e não ocupa sozinha a cena do presente. Ou seja, por que você precisa estar continuamente em companhia de uma outra mulher, imaginando que ela ameaça a sua vida? O que tem isso a ver com a sua mãe?

Você é vítima de um gozo masoquista e seria bom saber qual a origem do mesmo para se desapegar dele e entender que o amor não requer provas. Que as provas são para os atletas. Os amantes se amam e nada mais.

A sua paixão de hoje é a do ódio, que se alimenta da paixão da ignorância. Superar o problema é renunciar a estas duas paixões, e, para tanto, você precisa se voltar para a sua história.

Por Betty Milan


 

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