Blogs e Colunistas

Arquivo de dezembro de 2009

29/12/2009

às 6:31 \ Análise

Infeliz

Getty
Tenho 21 anos e sou gay. Nenhum problema quanto à minha condição sexual. Me aceito. Quando eu era criança, apesar de ausente e violento, meu pai brincava de manipular meu pênis. Minha mãe tem vários problemas de saúde e nunca se importou com a sexualidade do filho. Não sou assumido em casa.

Na infância, fantasiava que era uma garota. Na pré-adolescência, me via como um ser ‘híbrido’, cujo pênis não impediria os outros garotos de se aproximarem. Hoje, que posso manter relações sexuais livremente, não encontro o meu papel.  Me sinto mal na condição de passivo, tenho dores e desconforto. Também não  sou física e mentalmente ativo. Isso me deixa ansioso.

Manipular o pênis de uma criança é um ato abusivo, que deveria ser punido por lei. Quando a criança é o filho, trata-se de um ato incestuoso. Óbvio que o seu pai interferiu na sua sexualidade. Era ausente, mas com o prazer que proporcionava ‘brincando’ com o seu pênis, tornava-se presente. Você se apegou à brincadeira porque com ela deixava de ser órfão. E a palavra órfão aqui não é casual, pois a sua mãe também era ausente.

Você cresceu sendo a garota do próprio pai. Normal que, na condição de passivo, tenha dores e desconforto. Anormal seria se tivesse prazer. Por outro lado, você não se dá bem na posição de ativo e nem podia se dar. Ativo era o seu pai, um homem com quem você não tem como se identificar.

Quando você se separar da criança que você foi e do pai que teve, a sua vida sexual se tornará possível. Você ficará livre de um pênis que o atormenta e saberá do falo, a flor da qual jorra alegria.

Para se liberar, você precisa reconstruir sua história, vir a ser um outro para  você mesmo. A reconstrução requer trabalho e o melhor recurso, no seu caso,  é a análise porque levará a uma simbolização nova. Se eu fosse você, não hesitaria. Quanto antes você se dispuser a falar para ser ouvido e se ouvir verdadeiramente, melhor. A vida é uma só.

Por Betty Milan

22/12/2009

às 2:58 \ Casamento

A impermanência

casamento-pecas

Tenho 34 anos e sou casado há 15 com minha mulher, de 32.  Somos pai e mãe de um menino de 12 e de uma menina de 9. Ou seja, tudo aconteceu muito cedo. O fato é que o nosso relacionamento anda muito mal… Minha mulher se trata, há mais ou menos seis anos, com medicação pesada, por ser bipolar. Recentemente, saiu de uma empresa multinacional onde tinha uma função de destaque, e o nosso padrão de vida caiu.

A causa principal dos últimos atritos tem sido o distúrbio de humor dela. Diz que vai voltar para o trabalho, porém eu não sinto comprometimento. Antes de sair do último emprego, conseguiu gerar uma dívida absurda. Tive que bloquear o cartão. Hoje, está recebendo seguro-desemprego e não ajuda nada em casa. Eu não cobro porque o humor dela depende da sua autoestima, que está diretamente ligada à compra de roupas novas e ao salão de beleza.

A variação de humor é absurda. Cada vez que ela me pede para conversar, eu me preparo para absolutamente tudo. Inclusive para a separação…

Antes, ela se queixava de trabalhar demais. Agora, se queixa da falta de dinheiro. Sexo, quando rola, é sempre bom… mas a frequência é baixa. A minha paciência está se esgotando. Gostaria de viver a minha vida ao lado dela, porém não sei se esse caminho me fará feliz.

O que primeiro me chamou a atenção no seu e-mail foi a repetição da palavra minha, “minha mulher”, “minha esposa”, que revela  uma ligação forte com a sua companheira. Agora, como viver com uma pessoa cujo humor varia continuamente? Primeiro, ajudando-a a encontrar um equilíbrio. Não acredito que a medicação pesada seja suficiente para isso. A medicação é imprescindível, porém não basta.

A bipolaridade tem origem numa disfunção do cérebro, mas pode ser agravada pela história subjetiva da pessoa, que precisa se conhecer para lidar com a doença. Quanto mais a pessoa se conhece, mais condições terá para se tratar e se curar ou conviver com o problema.

A vida implica saúde e doença. Por isso a paciência é fundamental. Sem ela, ninguém pode ser feliz ou longevo. A paciência nunca é fácil, mas pode ser conquistada. Resulta da aceitação da realidade e da relativização do problema, através de uma consciência particular, a “consciência da impermanência” em que os budistas insistem. Eles sabem que nem o bem é permanente, e nem o mal. Ou, mais simplesmente, que tudo passa.

Por Betty Milan

15/12/2009

às 9:50 \ Infância

O fascínio

mulher-demonios

Da minha infância eu tenho duas lembranças relativas à minha aparência física. Na primeira, o médico conversava com minha mãe e dizia que eu ia ser uma moça bonita. Na segunda, uma colega dizia na porta da escola que de bonita eu só tinha a cor dos olhos, verdes.

Na adolescência, não tive namorados facilmente. Flertava muito (sou bonita de longe), porém os que se aproximavam logo sumiam. Já adulta, no trabalho, as colegas paqueravam e eu não conseguia namorar ninguém.

Não sei como consegui atrair meu marido. Ele talvez tenha ficado comigo por ter sérios problemas familiares e ter encontrado o apoio de que precisava. Estamos juntos há 20 anos. Durante esse tempo, enfrentamos muitos problemas. O meu desejo sexual desapareceu (ele faz que não vê) e eu me deprimi. Ele aceita tudo e, aparentemente, não está insatisfeito. Eu o desvalorizo por gostar de mim (como pode um homem tão bonito gostar de uma mulher feia?).

Racionalmente sei que a falta de beleza é compensada pelo fato de eu ser inteligente, interessante e até atraente (muitos colegas hoje me paqueram). Mas eu sou fascinada pela beleza e me sinto um monstro repugnante. Como seria bom ter um rosto cujo formato é equilibrado, de traços delicados. Não sei como vencer o problema para ser feliz com meu marido, valorizar o seu amor por mim e transmitir auto-estima aos meus filhos. 

O fascínio pela beleza está  na origem de uma grande guerra. Foi a irresistível beleza de Helena que desencadeou a guerra narrada por Homero entre os gregos e os troianos. No seu caso, o fascínio a coloca numa guerra contra você mesma. Você não se suporta por não ter um rosto de formato equilibrado e traços delicados, conforme o modelo de beleza clássica. Você se considera repugnante por não corresponder a este ideal. Noutras palavras, não gosta de si mesma porque a realidade não satisfaz a sua fantasia.

Você é vítima de uma relação com o imaginário que a impede de aceitar os fatos. O seu desejo de ser como você não é escraviza e obriga você a uma contínua auto-flagelação. É preciso livrar-se desta escravidão. Do contrário, sua vida não muda. Para se liberar, tem que falar e ser ouvida até descobrir qual a origem do desejo que a martiriza e causa a sua depressão.

Nas lembranças de infância que você menciona, está a sua mãe a quem o médico prometia uma moça bonita. Será que você é presa desta promessa do médico e do desejo materno que ela suscitou? O trabalho analítico possibilitará a você revisitar o passado e se deixar visitar por ele até encontrar uma resposta e parar de se fustigar.

Por Betty Milan

09/12/2009

às 18:39 \ Infância

O uso do kilt

Getty
Gosto de usar saia e usaria fora de casa, se não fosse o preconceito. Isso começou quando meu pai me obrigou a pôr a saia da minha irmã, por eu ter ido brincar na rua, contra sua vontade. Meu pai era um sujeito violento. Agredia minha mãe verbal e fisicamente. Na ocasião, passei a maior vergonha, pois ele chamou meus amigos e disse que, a partir daquele momento, deveriam me dar um nome de menina. Comecei a usar saia escondido e acabei gostando. Parei ao associar a saia  com “coisa de  mulher”. Acho que desencanei por um tempo, mas o gosto ficou apesar do medo de parecer gay.

Morei nos Estado Unidos quase cinco anos e lá comecei a ver alguns caras usando kilt. Descobri que há um movimento de homens que querem usar saia em vários lugares do mundo: EUA, Canadá, Europa, Argentina e recentemente Brasil. Antes da II Guerra Mundial,  as mulheres não podiam usar calças e agora podem usar tudo. Por que os homens não têm a mesma liberdade de escolha, por que se privam, por que essa repressão? O fato é que eu agora quero poder usar saia em qualquer lugar.

Tenho feito terapia e trabalhado muitas questões, principalmente a da ausência do meu pai como figura paterna e a da  sua violência. Apesar de estar com a cabeça mais esclarecida,  não consigo entender por que o meu pai fez aquilo. Será que a sexualidade dele não estava resolvida?

Você deve poder usar saia e até mesmo saia curta onde quer que você esteja sem ser recriminado. O direito à vestimenta que nos agrada é tão importante quanto o direito ao parceiro do mesmo sexo ou do outro. E você deve inclusive considerar a possibilidade de aderir ao movimento, que você menciona, e sustentar publicamente o seu desejo. Desde que não seja uma maneira de se vingar do seu pai. Porque a vingança maltrata quem se vinga.

Não saberia responder à questão relativa à sexualidade dele. Primeiro, porque não sei o que é uma sexualidade resolvida. Segundo, porque não sei nada sobre ele. Agora, seja qual for a problemática de um pai, ele não tem o direito de humilhar o filho. E o seu foi particularmente perverso. O que ele fez com você é ainda pior do que uma agressão verbal ou física.

O melhor partido que você pode tirar da sua análise, é se valer dela para se separar do seu ancestral, procurando entender qual o efeito da conduta perversa dele sobre a sua vida, ou seja, se existe ou não relação entre a humilhação a que você foi submetido e o gosto da saia. Se você está ou não às voltas com um gozo masoquista.

Por Betty Milan

01/12/2009

às 20:21 \ Relacionamentos

Ambivalência

mascara-teatro

Tenho 23 anos e namoro um rapaz maravilhoso, da minha idade. Às vezes temos algumas brigas, mas de forma geral confio nele e o amo muito.  No entanto, comecei a me relacionar por e-mail com um outro 20 anos mais velho e casado. Este segundo é um cara genial, que me ajudou muito e é superquerido. Trocamos e-mails muito interessantes. Quando nos encontramos, rolou uma atração física muito forte. Só que não transamos porque não tenho intenção de trair meu namorado e não teria coragem de ficar com um homem casado.

Algumas amigas me dizem que estou na fase de aproveitar, ter experiências, correr riscos, e, principalmente, respeitar meus sentimentos. Não sei o que fazer. Nunca traí ninguém, mas neste momento estou nutrindo fortes sentimentos por duas pessoas. Devo  correr o risco de ter um amante?

Como eu poderia responder à sua questão? Dizem que Deus dá o frio conforme o cobertor. E do seu cobertor ou do risco que você pode correr, só  quem sabe é você. O namoro aberto existe, mas não é o caso do seu.  Se falar do outro para o namorado, ele provavelmente não suportará e irá embora.  Se não falar e viver clandestinamente a nova relação, vai ter de arcar com a traição e a deslealdade. A situação não é fácil. Suas amigas não respeitam os seus sentimentos ambivalentes quando a incitam a ir em frente. Também não levam em conta que a prudência pode evitar o erro e a infelicidade. Sempre que a gente não sabe o que fazer, é melhor não fazer nada. Só faz sentido ir em frente quando não é possível  se conter porque a atração física é irresistível e a contenção causa um sofrimento muito grande. 

Seja como for, você precisa descobrir o motivo pelo qual está neste triângulo sentimental. Ao ler que de “de forma geral” você ama o namorado, fiquei com a pulga atrás da orelha. Quem ama verdadeiramente não faz esse tipo de consideração, tem certeza do amor. De forma geral é uma expressão que se explica numa relação conjugal, porém é estranha quando se trata de namoro,  pois os namorados têm total liberdade de ficar juntos ou de se separar.

Será que você está vivendo o namoro como se fosse casamento e precisa de um amante por estar insatisfeita? O e-mail que você me escreveu obriga você a se questionar sobre a relação atual para saber se quer continuar nela.

Por Betty Milan


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados