Blogs e Colunistas

Arquivo de novembro de 2009

25/11/2009

às 17:36 \ Relacionamentos

Mea-culpa não

Getty
Tenho 28 anos, sou mãe e amo meu filho. Não tenho dúvida alguma em relação a isso. Porém, em alguns momentos, eu perco o controle e agrido o menino que só tem 1 ano e meio. Já fiz isso várias vezes. Não é algo recorrente, mas, sob forte stress, quando ele se recusa a dormir e eu estou exausta, acabo dando um beliscão ou apertando seu bracinho… Logo após a catarse, me sinto péssima. Me acho uma mãe horrível apesar de todo amor e carinho que sinto por ele. Minha mãe também perdia o controle e batia na gente… Será que sou a reprodução pura e simples dela? Quanto estou traumatizando meu filho?

Hoje, depois do súbito ataque, disse a ele: “me perdoa filho por eu sucumbir tão facilmente à raiva”. Às vezes, penso que nunca vou me libertar deste monstro que faz parte de mim. Mas como ser humano, dotado de razão e cultura judaico-cristã, que alimenta a culpa sinto vontade de desaparecer. Morrer não seria o suficiente. Será que posso ser maior do que a raiva que carrego?

Não sei por que você usa a palavra catarse, que designa o efeito salutar provocado pela lembrança de um fato traumatizante até então reprimido. A palavra é originária do grego e designava para Aristóteles o efeito moral e purificador da tragédia, cujas situações dramáticas de extrema intensidade provocam sentimentos de terror e piedade, proporcionando alívio aos espectadores. O ato de bater no seu filho não tem nada de catártico, pelo contrário, deixa você péssima.

Claro que você só faz isso porque a sua mãe perdia o controle e batia nos filhos, o comportamento foi autorizado por ela. Agora, você não é a reprodução pura e simples da sua mãe. Tem a liberdade de encontrar um caminho diferente e se tornar capaz de se conter. Tem e deve, para que o seu filho não bata no seu neto. Ou seja, para mudar o padrão de comportamento da família. Isso nunca é fácil, implica um verdadeiro empenho.

Possível que você reincida neste padrão para depois fazer o mea-culpa e confirmar o pertencimento à cultura judaico-cristã. Você tem um trabalho importante a fazer consigo mesma, por você e pelo seu filho. E, na minha opinião, este trabalho não deve ser adiado. O adiamento acabará custando muito caro. Quanto antes você parar de sucumbir à raiva e de pedir perdão, melhor.

Por Betty Milan

17/11/2009

às 6:23 \ Relacionamentos

O perfeito

Getty
Durante toda a vida me esforcei para ser o melhor filho, o irmão mais querido, o namorado perfeito, o funcionário exemplar, o chefe compreensivo, o amigo de todas as horas… Conquistei a admiração de todos que me cercam. Graças ao seu consultório sentimental, percebi que muito do que fiz foi para satisfazer o desejo do outro e ser adorado, me sentir assim superior. Por conta disso, modéstia, resignação, conformismo, contenção e aparência de humildade são características minhas. Mas, como não poderia deixar de ser, muitas vezes o desejo do outro se mostra incompatível com o meu.

Me casei por conta de uma gravidez inesperada e estou no casamento há oito anos. No início, me esforcei para agradar minha esposa e fiz dela uma mulher feliz. Há algum tempo, no entanto, já não consigo satisfazê-la em nenhum plano. Gostaria muito de me separar, pois somos pessoas que não têm os mesmos objetivos. Só que tenho pavor da reprovação dela, dos meus três filhos e dos amigos.

Caí na armadilha da traição e a história quase foi revelada. Na ocasião, vivi os piores dias da minha existência. Cheguei até a pensar em suicídio. Preciso aprender a decepcionar os outros para viver.

Você sabe o que se passa com você e o que você quer. No entanto, não consegue sair da  posição de objeto do “desejo do outro” em que se encontra. O seu e-mail mostra que a capacidade de analisar a própria situação não basta para mudá-la. Noutras palavras, ele expõe claramente o limite da reflexão. Por isso, para a psicanálise o “Penso, logo existo” de Descartes deve ser substituído por um “Digo, logo existo”. A gente só enxerga o que a consciência não alcança falando e sendo ouvido. Quem fala pode se surpreender com o que diz. Se devidamente escutado, se valerá do que disse e mudará a sua vida.

Para superar o pavor, o melhor é procurar um analista. O pavor é datado do passado e a rememoração permitirá encontrar a explicação que irá libertá-lo. Você tem de fazer um trabalho com você mesmo para conseguir dizer não e conquistar a liberdade desejada. Ademais, é possível se divorciar sem romper. Para tanto, sua esposa, seus filhos e seus amigos deverão ser convencidos da necessidade da separação e isso acontecerá se você estiver convicto e se valer da capacidade de persuasão que tem.

Por Betty Milan

11/11/2009

às 18:26 \ Relacionamentos

Rompante de raiva

Getty
Fiz terapia durante três anos com uma terapeuta suíça, porém inflamada como um espanhol. A terapia me ajudou com minha ansiedade, meus rompantes de raiva, minha falta de empatia com o mundo. Fui obrigado, no entanto, a parar por causa da autoridade sem medida da terapeuta. Mudei inclusive de cidade, por conta do desencontro. Tentei terapia novamente, mas foi inócuo. A falta de limites da minha primeira psicóloga me deixou muito frustrado e com raiva. Não consigo nem quero voltar a um consultório. Você já escreveu sobre a possibilidade de a pessoa se aprimorar por conta própria. Você me ajudaria muito se escrevesse mais sobre isso.

Nem todo suíço é um lago tranquilo e nem todo espanhol é inflamado. O uso do estereótipo revela a falta de empatia com o mundo a que você se refere. Seja como for é melhor evitar o estereótipo. Quando fazemos uma generalização sobre uma ou outra nacionalidade, sobre uma ou outra raça, um ou outro sexo, nós nos cegamos para a realidade do próximo, que é sempre um caso único.

A falta de limites do terapeuta é uma aberração. Não se justifica em hipótese alguma. Você provavelmente só aceitou o “tratamento” por ter-se espelhado na sua psicóloga. Me permito dizer isso porque você tem rompantes de raiva, não se contém, passa dos limites. O terapeuta existe para fazer o paciente encontrar o seu caminho. Para tanto precisa ter autoridade, mas não pode em hipótese alguma ser autoritário. Uma coisa é fazer vigorar a autoridade da lei. A outra é se entregar ao autoritarismo.

Há, para os seus rompantes de raiva, uma explicação que está na sua história. Para encontrar a explicação é preciso fazer análise. Agora, você pode aprender a se controlar através da meditação budista ou do tai chi chuan, prática que ensina a respeitar os próprios limites e os do outro, além de ensinar a paciência.

O tai chi chuan é uma expressão da grande sabedoria chinesa, de que tanto os jovens quanto os mais idosos podem se beneficiar, pois ele propicia a longevidade sem os inconvenientes da velhice. Com esta prática você aprenderá a ficar em paz com você mesmo e talvez possa depois encontrar um verdadeiro analista.

Por Betty Milan

04/11/2009

às 21:22 \ Relacionamentos

Questionamento

56502645

Meu pai: fumante, inteligente, nervoso, incapaz de elogiar, reconhecer, abraçar e beijar o filho – salvo no aniversário ou em alguma situação especial. Estourado no trânsito e na empresa. Se colocado numa situação difícil, fala qualquer coisa para magoar quem está por perto. Vejo-o como uma pessoa frustrada e sempre insatisfeita.  Minha mãe: calma, submissa, de fácil convívio e frágil.

Me casei este ano. Volta e meia penso o quão mal tratei meu pai. Não tenho paciência para ouvi-lo. Me comporto com indiferença e muitas vezes com ressentimento. Quanto à minha mãe, sempre a tratei com muita cobrança e aspereza.

Queria ter tido um convívio mais amoroso, sem mágoa com eles. Agora que me casei, sinto culpa. Meus pais talvez não tenham tido pais amigos, companheiros. O que eu faço? O problema está em mim ou neles? Uma terapia de vidas passadas ajudaria? Aguardo resposta.

Culpa pelo convívio amoroso que você poderia ter tido e não teve? Ora… Se não teve é porque não poderia ter tido. A fantasia é uma coisa, a realidade é outra. No passado, você foi como era dado a você ser. Nem tudo se pode. Agora, a vida muda, e com a mudança a gente tem condições de reconsiderar certas atitudes. Você está no caminho porque está se questionando. Isso já é muito. A condição para reinventar a existência é esta. 

 Possível que os seus avós não tenham tido com os seus pais uma relação que viabilizasse a amizade com você. Digo isso porque a gente ama como foi amado. Refletir sobre a vida passada dos seus ancestrais certamente ajudará a descobrir o porquê das condutas que provocaram o seu ressentimento e a sua aspereza.

Não se trata de fazer uma “terapia de vidas passadas”, mas de se debruçar sobre as vidas dos que o precederam para reinterpretar a sua história com eles e agir de maneira mais adequada. Tanto no que diz respeito a eles  quanto a sua descendência, com a qual você poderá trilhar o caminho da amizade. Um caminho que depende sobretudo do ato generoso da escuta.
Ser amigo do filho é considerar que ganhamos perdendo tempo com ele. É ensinar a importância do ato gratuito. Também é renunciar à luta de prestígio, desacreditar a guerra e valorizar a paz.

Por Betty Milan


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados