Amarração
Eu me envolvi com um homem que conheci num dia em que estava sozinha. Saí, mas já avisando que não desejava me relacionar seriamente. No começo, ele pareceu aceitar a proposta, mas com o tempo fui deixando que ele me enredasse, eu e minha filha. Sempre que brigávamos, ele montava guarda em frente da minha casa e eu acabava cedendo.
Agora, me sinto ameaçada. Ele não entende que eu não quero esta relação. Sempre que tento me afastar, minha consciência dói e eu me deixo manipular. Ele emagrece, me liga insistentemente, me acusa de egoísmo e, como ele foi bom em momentos difíceis, eu acabo cedendo. Parece uma doença.
Preciso de ajuda. Não quero ficar com ele e não consigo me livrar.
Ele "montava guarda", ou seja, ficava policiando. Você o afastava e ele não aceitava. Ele não dava ouvidos ao que você dizia e forçava a mão. Por que você acabava cedendo? Por que não tomava uma providência para o afastá-lo de vez? Que relação tem essa conduta com a sua história passada? Deve ter algo a ver com o medo, pois você diz que se sente ameaçada. E deve ter algo a ver com a culpa - porque a sua consciência dói. Ouço a frase de um ancestral seu que poderia ter dito: "Se você se afastar, não conte mais comigo" ou "Se você se afastar eu morro'.
Você é presa de um discurso inconsciente que tira a sua liberdade. Para deixar de estar às voltas com essa eterna dor de consciência, é preciso dar ouvidos ao seu inconsciente. Procure um analista porque nada é mais precioso do que ser livre. E este é o melhor ensinamento que você pode dar à sua filha. A gente só transmite o que tem. E, ainda que fosse só por isso, a mãe tem que se cuidar.
Às vezes, não é preciso muito para sair de uma situação em que estamos amarrados, impossibilitados de agir. Embora a análise seja interminável, porque a vida nos surpreende continuamente, ela não precisa ser longa. Tudo depende da escuta do analista e da disposição do analisando. Encontrando a pessoa certa, você alcança sua meta e tira o time de campo.
Ao conseguirmos sair da posição em que estávamos, querendo ou não, o outro também sai. Quando Lacan considerava que a sessão estava terminada, ele se levantava. Se o analisando continuasse deitado no divã, ele simplesmente saía da sala. Só restava ao analisando ir embora e aceitar o término da sessão indicado por Lacan, ou seja, a sua interpretação.

