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Consultório Sentimental

Betty Milan

Escritora e psicanalista | email: bettymilan@gmail.com

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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Amarração


Eu me envolvi com um homem que conheci num dia em que estava sozinha. Saí, mas já avisando que não desejava me relacionar seriamente. No começo, ele pareceu aceitar a proposta, mas com o tempo fui deixando que ele me enredasse, eu e minha filha. Sempre que brigávamos, ele montava guarda em frente da minha casa e eu acabava  cedendo.

Agora, me sinto ameaçada. Ele não entende que eu não quero esta relação. Sempre que tento me afastar, minha consciência dói e eu me deixo manipular. Ele emagrece, me liga insistentemente, me acusa de egoísmo e, como ele foi bom em momentos difíceis, eu acabo cedendo. Parece uma doença.

Preciso de ajuda. Não quero ficar com ele e não consigo me livrar.

Ele "montava guarda", ou seja, ficava policiando. Você o afastava e ele não aceitava. Ele não dava ouvidos ao que você dizia e forçava a mão. Por que você acabava cedendo? Por que não tomava uma providência para o afastá-lo de vez? Que relação tem essa conduta com a sua história passada? Deve ter algo a ver com o medo, pois você diz que se sente ameaçada. E deve ter algo a ver com a culpa - porque a sua consciência dói. Ouço a frase de um ancestral seu que poderia ter dito: "Se você se afastar, não conte mais comigo" ou "Se você se afastar eu morro'.

Você é presa de um discurso inconsciente que tira a sua liberdade. Para deixar de estar às voltas com essa eterna dor de consciência, é preciso dar ouvidos ao seu inconsciente. Procure um analista porque nada é mais precioso do que ser livre. E este é o melhor ensinamento que você pode dar à sua filha. A gente só transmite o que tem. E, ainda que fosse só por isso, a mãe tem que se cuidar.

Às vezes, não é preciso muito para sair de uma situação em que estamos amarrados, impossibilitados de agir. Embora a análise seja interminável, porque a vida nos surpreende continuamente, ela não precisa ser longa. Tudo depende da escuta do analista e da disposição do analisando. Encontrando a pessoa certa, você alcança sua meta e tira o time de campo.

Ao conseguirmos sair da posição em que estávamos, querendo ou não, o outro também sai. Quando Lacan considerava que a sessão estava terminada, ele se levantava. Se o analisando continuasse deitado no divã,  ele simplesmente saía da sala. Só restava ao analisando ir embora e aceitar o término da sessão indicado por Lacan, ou seja, a sua interpretação.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Condenação


Tenho 44 anos e estou fazendo análise comportamental para me reestruturar, ser o que realmente quero ser. Tive muitos problemas emocionais na infância, por causa da separação dos meus pais. Minha mãe, que morreu há mais de 15 anos, ficou muito amargurada e costumava dizer coisas horrorosas quando estava com raiva. Gostaria de ter tido uma relação mais verdadeira com ela, ter vivido momentos alegres, ido ao cinema, ao shopping, à sorveteria. Só falava mal do meu pai, amaldiçoava o mundo. Nunca sorria.

Não sou feliz nos relacionamentos amorosos, porque minha mãe não foi. Eu nunca tive um incentivo neste sentido. Estudei, me formei e me dediquei ao trabalho. Até largar tudo por causa de uma depressão profunda. Estou fazendo terapia, mas há horas em que me sinto culpada pela infelicidade dos meus pais.

Será que esta culpa pode acabar um dia? Ou será que só me resta aprender a conviver com ela? Às vezes, penso que o desejo inconsciente de minha mãe era que eu morresse. Ou fosse tão infeliz quanto ela era. Nunca achei que me amasse ou desejasse a minha felicidade. Mesmo assim, não consigo me desligar completamente.

Não há nada pior do que a mãe falar mal do pai ou o contrário. Trata-se de uma injustiça em relação ao filho, que tem o direito de ter pai e mãe. Sua mãe foi tão irresponsável em relação a você quanto em relação a ela mesma. Possível que tenha desejado a sua morte, porque deu à luz e não foi capaz de se separar de você.

Mas a questão aqui é saber por que você não se separa dela? Por que satisfaz o desejo sádico de sua mãe e fica numa posição masoquista? Será que a análise comportamental permite responder a esta questão? Em princípio não é a meta dela. Esse tipo de terapia focaliza só o comportamento. Como se este não fosse decorrente de uma história subjetiva.

Acho que  seria bom repassar a sua história com alguém que saiba escutar, rememorar para não repetir; cortar o cordão umbilical e se tornar a boa mãe de si própria, aprendendo a contar no seu jardim  as flores e os frutos e não as folhas que tombaram. É disso que todos precisamos.

O mea culpa é uma condenação para a qual você pode escapar. Quando as portas estão fechadas, a gente escapa pela janela, como dizia Carlito Maia. Falando, você encontra uma saída. O maior recurso que nós temos é a fala e a escuta.

Terça-feira, 09 de Junho de 2009

Peguei


Peguei meu marido se masturbando em frente ao computador, olhando uma página de pornografia. Sei que, mesmo tendo uma relação estável, os homens se masturbam. Mas fiquei arrasada.

Olhei o histórico no computador e vi que ele havia consultado muitas páginas. Pensei na história da nossa vida sexual e me dei conta de que ele é totalmente viciado. Entrei em sites americanos de apoio a viciados em pornografia e isso tem me ajudado.

O mais difícil é voltar a ter confiança nele, pois me senti traída e a minha autoestima despencou. Ele diz que está "limpo" há três meses. Só que agora  despe as mulheres na rua com o olhar. Parece que é uma síndrome de abstinência. Como lidar com isso tudo? Como ajudá-lo? Por favor, me dê uma luz.

A expressão "peguei meu marido" é persecutória. Você o pegou como quem pega um ladrão e põe na cadeia, prende e incrimina. Masturbação não é crime e você só ficou arrasada porque para você existe um gozo em ficar assim.

Com que direito você olhou o histórico do seu marido no computador? Acha que ele não tem direito a uma vida sexual imaginária secreta? Todos vivemos divididos entre o que revelamos e o que vivemos secretamente, como mostra Tarja Negra, a peça de Contardo Calligaris. Trata da impossibilidade de fundar a identidade subjetiva na identidade sexual  e mostra que, além da identidade oficial, nós temos uma identidade sexual secreta. Vale a pena assistir este monólogo dirigido por Bete Coelho. Nele, Ricardo Bittencourt está impressionante. Sua interpretação tão forte quanto delicada nos leva a refletir sobre uma das grandes questões da modernidade e incita a superar o preconceito em relação a nós mesmos e aos outros.

Agora, pode ser que o seu marido seja viciado em pornografia e, nesse caso, como qualquer viciado, ele precisa ser ajudado. Mas enquanto você se sentir traída, exigir fidelidade real e imaginária, não poderá ajudá-lo. Não enquanto não aceitar a liberdade do seu marido e a sua.
A fidelidade absoluta é um ideal que raramente se cumpre e isso é decorrente da nossa disposição para imaginar. Uma disposição que  explica o caráter errático do desejo, que passa de um objeto para o outro e pode nos impedir de cumprir as nossas juras de amor.
Quem deseja viver no contexto do casamento tem que ser realista e  consentir na fantasia do outro. Dar ao outro um espaço de liberdade. Em francês existe até uma expressão para isso: donner du large. Significa dar espaço.

Terça-feira, 02 de Junho de 2009

Geladeira


Pensei muito antes de escrever este e-mail. Por vergonha, talvez. Tenho 31 anos, sou casada há dez com um homem maravilhoso. Tenho um filho lindo e a  vida que pedi a Deus, mas o sexo é péssimo. Não tenho vontade alguma. O problema existe há anos e meu marido sofre com isso. Já troquei a pílula, larguei a pílula, experimentei testosterona e nada... a vontade não vem.

Meu pai, nos momentos de briga com minha mãe, dizia que ela era uma geladeira, e eu me sinto assim. Será que os comentários dele entraram na minha cabeça para não sair mais? As expressões que ele usava para falar de sexo eram de dar nojo.

Meu marido é um homem paciente, porém a frustração dele é visível, especialmente quando tenta uma aproximação e eu me viro para o outro lado. Passamos meses sem nada. Queria sentir uma vontade louca de sexo. Existe algo que eu possa fazer?

"Geladeira", o seu pai dizia para a sua mãe quando eles brigavam. E você agora se sente como ela. Entrou no lugar que ela ocupava, o da mulher que não gosta de sexo. Isso é claro.

Como o seu pai usava expressões 'que davam nojo' para falar do assunto, a resposta à sua questão pode estar na obra de Nelson Rodrigues. Em Álbum de Família, Dona Senhorinha chama Tia Rute de sem-vergonha e esta responde que homem nenhum jamais a tocou. No universo da peça, que pode ter sido o mesmo de seus pais, sexo é sinônimo de sem-vergonhice e a mulher deve resistir a toda investida - ser uma geladeira. O sexo degrada e a mulher que goza é uma perdida. Se não se encolhe, ela é uma safada.

Até hoje, você se encolheu, agora não quer mais. A questão não é tomar ou não a pílula, ingerir ou não testosterona. Você precisa descobrir por que o discurso arcaico de seu pai e a reação de sua mãe calaram assim no seu espírito. Por que você ficou identificada com eles a ponto de não ter prazer sexual. Poderia ter desqualificado o machismo, que é um discurso fundado na inimizade entre os sexos, só gera infelicidade.

Em outras palavras, você precisa ousar o 'não aos ancestrais' para dizer 'sim a você mesma' e renascer descobrindo o seu corpo. É isso o que o seu marido maravilhoso quer. Uma mulher que transa porque ama o próprio corpo e deseja acolher o outro. Uma mulher quente por ter um sexo erotizado pelo amor, que adora transar.

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Preguiça


Pode a preguiça ser a maior inimiga de alguém? Ou seja, eu sou minha pior inimiga. Tenho 32 anos e já superei muitos complexos. Hoje, eu sou menos vítima do sentimento de incapacidade que sempre me rondou e me atrapalhou demais. Escrevi menos vítima, porque vejo que este sentimento ainda tem vez quando sinto preguiça.

Eu era virgem até um ano atrás, quando me relacionei com uma pessoa que conheci na internet. O relacionamento acabou há dez meses e eu ainda me recupero. Tento refazer a minha vida. Acho que também é por causa disso que tenho andado assim. Mas está demais. Não consigo dar conta das minhas tarefas. Como pode alguém trabalhar contra si mesmo? Sei que isso tem relação com a preguiça.

"Ai que preguiça", dizia o heroi de nossa gente, Macunaíma, o tempo todo. Inclusive quando transava com Ci. Ele parava esquecido bem no meio da ação, obrigando a companheira a se valer do "estratagema sublime", urtiga, para provocar uma "coça coçadeira no chuí do herói e no nalachitchi dela". Mas esta preguiça nada tinha a ver com qualquer incapacidade. Só com o fato de que o herói não sabia o que é o dever do orgasmo, não obedecia a nenhum programa sexual. Ele só queria brincar e inventar artes novas de brincar.

A preguiça, no seu caso, incapacita e prejudica. Por isso deve ser vista como indício de depressão. Você, aliás, se dá conta disso porque diz que trabalha contra si mesma. E me pergunta como essa contradição é possível. Pelo simples fato de termos um inconsciente e de que ele não está concernido pela racionalidade. A lógica a que o inconsciente obedece não é a lógica da consciência. Ele não leva em conta o princípio da não-contradição. Por isso precisa ser decifrado.

A resposta acima é a que a Psicanálise daria. Porém, bem antes de Freud, no século XVII, Pascal, que também escreveu um livro sobre o amor, já havia escrito: "Os homens são tão necessariamente loucos que seria loucura não ser louco."

Por que você não se aceita e não procura quem possa ajudá-la a entender o motivo do mal estar? Em outras palavras, por que você não se torna amiga de si mesma? Falando, poderá abrir uma via nova e viver um segundo amor diferente. O do ano passado não deu certo, o próximo pode dar se você estiver mais preparada, mais confiante. Quem não confia em si mesmo não acredita que pode ser amado e tem medo de se entregar. 

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