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Questionamento

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 | 21:22

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Meu pai: fumante, inteligente, nervoso, incapaz de elogiar, reconhecer, abraçar e beijar o filho - salvo no aniversário ou em alguma situação especial. Estourado no trânsito e na empresa. Se colocado numa situação difícil, fala qualquer coisa para magoar quem está por perto. Vejo-o como uma pessoa frustrada e sempre insatisfeita.  Minha mãe: calma, submissa, de fácil convívio e frágil.

Me casei este ano. Volta e meia penso o quão mal tratei meu pai. Não tenho paciência para ouvi-lo. Me comporto com indiferença e muitas vezes com ressentimento. Quanto à minha mãe, sempre a tratei com muita cobrança e aspereza.

Queria ter tido um convívio mais amoroso, sem mágoa com eles. Agora que me casei, sinto culpa. Meus pais talvez não tenham tido pais amigos, companheiros. O que eu faço? O problema está em mim ou neles? Uma terapia de vidas passadas ajudaria? Aguardo resposta.

Culpa pelo convívio amoroso que você poderia ter tido e não teve? Ora… Se não teve é porque não poderia ter tido. A fantasia é uma coisa, a realidade é outra. No passado, você foi como era dado a você ser. Nem tudo se pode. Agora, a vida muda, e com a mudança a gente tem condições de reconsiderar certas atitudes. Você está no caminho porque está se questionando. Isso já é muito. A condição para reinventar a existência é esta. 

 Possível que os seus avós não tenham tido com os seus pais uma relação que viabilizasse a amizade com você. Digo isso porque a gente ama como foi amado. Refletir sobre a vida passada dos seus ancestrais certamente ajudará a descobrir o porquê das condutas que provocaram o seu ressentimento e a sua aspereza.

Não se trata de fazer uma “terapia de vidas passadas”, mas de se debruçar sobre as vidas dos que o precederam para reinterpretar a sua história com eles e agir de maneira mais adequada. Tanto no que diz respeito a eles  quanto a sua descendência, com a qual você poderá trilhar o caminho da amizade. Um caminho que depende sobretudo do ato generoso da escuta.
Ser amigo do filho é considerar que ganhamos perdendo tempo com ele. É ensinar a importância do ato gratuito. Também é renunciar à luta de prestígio, desacreditar a guerra e valorizar a paz.

Por Betty Milan

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O lapso

quarta-feira, 28 de outubro de 2009 | 21:28

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O meu histórico é de baixa autoestima e melancolia. Em decorrência disso, a minha automotivação não dura, resultando na desistência  das coisas  que inicio e me impedindo de concluir estudo, trabalho e relacionamento afetivo. Tenho 34 anos e faço psicanálise lacaniana há quase cinco anos com o mesmo profissional, em quem confio muito, e não penso em parar. Pedi  ao meu analista que indicasse um psiquiatra. Disse que se não  indicasse eu procuraria o analista sozinha. Ele então me indicou um de sua confiança,  dizendo, com um sorriso no rosto: “Vá tomar o seu ‘efeito placebo!’”

Fui e constatei que meu analista tinha razão, pois poucos meses depois do início do medicamento os problemas continuavam e minha falta de vontade reapareceu. Minha angústia por não ver a minha vida decolar persiste.  Não sei o que fazer, embora não pense em desistir do processo analítico.

Você me escreveu como quem narra uma história clínica e não como quem conta a própria história. A linguagem do seu e-mail é a de quem fala de um problema com distância e domínio da situação, é a do especialista que apresenta um caso para ser discutido com os colegas. Por sorte, você cometeu um lapso revelador. Em vez de escrever “se ele não indicasse eu procuraria o psiquiatra sozinha”, escreveu: “se ele não indicase eu procuraria o analista sozinha”.

Você que faz análise há cinco anos sabe que o lapso é a realização do desejo e precisa se perguntar qual a razão do lapso. Não pode deixar passar isso. Será que inconscientemente você deseja mudar de analista?

Não entendo por que o seu chamou o antidepressivo de placebo, dando a entender que o remédio age por sugestão quando o antidepressivo regulariza mediadores químicos desregulados e pode ser extremamente eficaz. Às vezes, inclusive é  necessário para que a pessoa consiga fazer análise. Outras, é imprescindível para não morrer.

O seu analista indicou a você um psiquiatra, mas  fez isso desqualificando o antidepressivo. Dada a sua transferência, o remédio não podia funcionar. Se funcionasse, desqualificaria o analista. O fato é que você ficou entre a cruz e a caldeirinha. Vai ter de falar sobre isso com alguém.

Por Betty Milan

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Compulsão por compras

quarta-feira, 21 de outubro de 2009 | 18:59

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Tenho 27 anos, sou professora de escola pública e curso Direito. Resolvi escrever para você porque perdi o rumo. Destruí todos os meus planos por irresponsabilidade e imprudência. Por ter a compulsão de comprar. Comprei tudo o que precisava e o que não precisava e acabei num endividamento total. Hoje, não tenho mais cartão de crédito e recebo menos da metade do meu salário, por causa dos empréstimos que fiz. Estou sendo insistentemente cobrada.

Meu emprego é o pior do mundo. Além de ser mal remunerada, ainda tenho de aguentar coordenadores fingidos e adolescentes sem interesse algum em aprender. Por isso, fui fazer Direito para tentar outro emprego. Mas como estou endividada não posso investir e me preparar para a carreira jurídica.
 
Sinto ódio de mim mesma, porque poderia ter usado o meu salário de professora para me formar. Só me restou a angústia e o desespero. O que eu faço? Será que é possível recomeçar? Ou será que é tarde? Necessito de uma resposta urgente.

Em 1919, Freud escreveu: “Podemos reconhecer no inconsciente a supremacia de uma compulsão de repetição… dependente da natureza íntima das pulsões, suficientemente poderosa para se sobrepujar ao princípio do prazer, dando a certos aspectos da vida psíquica o seu caráter demoníaco”.

Esse texto, que sintetiza o drama narrado por você, bastaria para desculpabilizá-la. Mas eu cito ainda um texto de 1938, em que Freud se vale da palavra compulsão, zwang em alemão, para designar a palavra do oráculo: “… o zwang do oráculo, que deveria inocentar o herói, é um reconhecimento da implacabilidade do destino…”

O inconsciente é implacável como foi no seu caso. Você agiu compelida por ele e precisa parar de fazer o mea culpa. Só precisa se perguntar o que tem a compulsão de comprar a ver com a sua história. Procure descobrir. Isso é decisivo para você não se repetir, escapar ao que há de demoníaco na condição humana, a pulsão de morte.

Claro que é possível recomeçar, sempre é. Você deve se valer do que aconteceu para aprender a se refrear. O termo usado para isso nas empresas é redirecionar e cabe a cada um de nós ser o empreendedor da própria vida. O segredo do bem-estar é fazer tudo de propósito. Não é fácil, requer aprendizado, porém é possível.

Por Betty Milan

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A coluna

quarta-feira, 14 de outubro de 2009 | 18:14

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Leio sua coluna desde que começou e ela tem sido um consultório sentimental para mim. Tiro partido dos relatos de pessoas com problemas diferentes e das observações que você faz para resolver os percalços da minha vida.

Cheguei a mandar uma mensagem para você há dois anos, quando eu ainda era casada e vivia uma crise que culminou com a separação. Na época, o que me afligia era uma dúvida quanto à separação. Me separo ou não? Porque estava casada havia 23 anos com o meu único parceiro sexual, mas com quem eu já não sentia mais prazer.

Não obtive resposta para a minha dúvida. Talvez porque, embora estivesse muito aflita, o meu caso fosse prosaico. No momento, passo por uma experiência que me parece absurda, louca, porém é absolutamente prazerosa.

Prosaico significa comum. Eu não deixo de responder a um e-mail porque a história do consulente é comum. Através da análise, é possível chegar ao que há de particular na história e mostrar a universalidade do drama. Com isso, todos os leitores da coluna podem se beneficiar.

Um dos critérios da seleção do e-mail  é a possibilidade que o consulente me dá de chegar a uma resposta bem fundada. Você talvez não tenha me dado elementos suficientes no primeiro e-mail que enviou.  Mas o que importa agora é você ter deixado um casamento que não dava prazer para viver uma experiência prazerosa.

Folgo em saber que isso decorre da leitura desta coluna, já que você tira partido dos relatos de pessoas e das minhas observações para resolver os percalços da sua vida. O consultório sentimental tem de funcionar assim mesmo, exatamente aliás, como o romance.

Nele, a pessoa se debruça sobre uma história que nada tem a ver com a própria e tira  ensinamentos preciosos. Não há livro mais importante do que Madame Bovary, de Flaubert, o precursor do romance moderno, para refletir sobre o casamento e o adultério. As mulheres adúlteras que escrevem para esta coluna vivem num tempo em que o imperativo da fidelidade não tem o mesmo peso e a infidelidade não tem as mesmas consequências – porque tivemos a revolução dos anos 60 e a luta feminista -, mas a leitura de Madame Bovary permite refletir sobre o descompasso entre o casamento e o ideal do amor. Descompasso que a vida cotidiana produz inevitavelmente.

Por Betty Milan

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Desejo e pó

terça-feira, 6 de outubro de 2009 | 15:41

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Aos 42 anos, depois de ter sido casada durante  23 anos e ter uma existência absolutamente regrada, me pego vivendo uma aventura com um rapaz de 20, que me faz pensar na música da Violeta Parra, Volver a los Dezessiete. Passei os últimos anos do meu casamento achando que tinha algum problema hormonal, pois não sentia o menor desejo, e agora vivo numa grande euforia desde que conheci o rapaz. Penso em sexo o tempo todo. Meu namorado me excita de uma forma que dá medo.

Ele é o avesso de tudo que eu planejo para mim em termos de relação. Nós pertencemos a mundos opostos, sou doutora por uma universidade estrangeira e ele não tem sequer o ensino médio. No começo, resisti muito ao assédio dele, pois tive medo de cair num golpe desses que rapazes mais jovens e mais pobres pregam em coroas. O fato é que, além de não ser rica, não aparento 42 e ele diz que precisa da segurança que eu dou.

Não desejo fazer planos com ninguém, mas tenho de aceitar melhor esse relacionamento. Já faz quase um ano que nos encontramos e não consigo apresentá-lo aos meus amigos. Sinto vergonha dele e isso me deixa mal. Como posso sentir vergonha de um homem tão bonito, trabalhador, que não me pede nada em troca do prazer?

Você se casou aos 19, se divorciou aos 42 e voltou a ter 17, graças ao amor, que suspende a realidade e confere aos amantes a idade que eles se atribuem. A intensidade do seu sentimento dá medo, como se a morte imaginária vivida na relação sexual fosse a morte propriamente dita. Sexo não mata, revitaliza. Salvo quando o fogo da paixão é tomado pelo fogo do inferno porque o sexo está associado à culpa.

Penso que, no seu caso, esta associação explica uma vergonha que não se justifica pois, como você diz, o rapaz é bonito, trabalhador e não pede nada em troca do prazer. O que a envergonha é o tesão que você sente, você que foi educada para viver uma vida regrada e viveu assim durante 23 anos com o ex. Você está presa a uma educação que desautoriza a paixão amorosa, pois ela subverte a ordem.
 
Agora, não há como escapar à paixão. Ela é imperiosa. Por que não vivê-la, aproveitando o máximo já que a morte real existe e a vida é datada? Já que o futuro é incerto e o presente é o que nós efetivamente temos? Como tão bem diz a escritora Márcia Denser, no livro Prosa Escolhida, nós somos ‘desejo e pó’.

Por Betty Milan

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Contrariedade

terça-feira, 29 de setembro de 2009 | 19:20


Sou casada há quase sete anos. Meu marido tem uma empresa com um sócio e os dois decidiram que as mulheres não trabalhariam na empresa. Depois que eu tive a nossa filha, o mercado de trabalho se fechou para mim. Migrei da área administrativa para a comercial. Mas esta área pede um desdobramento de horário absurdo. Me rouba  tempo com a família, com a igreja e comigo mesma. Imaginava que quando a empresa do meu marido crescesse,  eu poderia trabalhar com ele, contribuindo para melhorar a nossa renda familiar. Nós temos quatro filhos (dois do meu primeiro casamento, um do primeiro casamento dele e um do casamento atual). Só que o meu marido não aceita. Insiste em manter duas funcionárias bem pagas.

Tenho  o sentimento de ser traída e me deprimo com isso. Ele afirma que a vida em comum poderia ser prejudicada se  nós trabalhássemos juntos. Que não dá certo porque tenho muitos defeitos e posso atrapalhar a sociedade. Somos muito felizes no casamento, porém eu estou amarga. Um ano e meio que eu não rio. Fico muito mal quando encontro algum conhecido que trabalha com a mulher. Preciso da sua  orientação.

Entendo que você esteja contrariada, mas não que tenha perdido a possibilidade de rir por causa da contrariedade. Duas pessoas podem se dar muito bem no convívio conjugal e menos bem no trabalho. Ser casado com uma pessoa e trabalhar com ela pode não ser uma boa solução. O ponto de vista do seu marido também é respeitável. Ele quer independência no trabalho e ponto. Isso não significa necessariamente que a esteja excluindo.

Você precisa se perguntar por que se sente excluída. Que relação o sentimento de exclusão tem com o seu passado. Sabendo, você poderá mudar e nada é melhor do que esta possibilidade. A mudança é o resultado de uma conquista e a prova de que estamos vivos. Aprender a mudar é uma grande arte. Quem pratica o tai chi chuan adquire a consciência disso. Os chineses são longevos por causa desta prática, que ensina a se deslocar e a se valer da oposição do outro em benefício próprio.

Além de se debruçar sobre a sua história, você pode perguntar ao seu marido quais os defeitos que ele vê em você no trabalho e  analisar a resposta dele. Saberá assim se a resposta é convincente ou não e tirará proveito disso.

Por Betty Milan

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Três x dois

terça-feira, 22 de setembro de 2009 | 19:10

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Somos casados há 27 anos. Sempre tive vontade de fazer sexo com duas mulheres. Minha mulher nunca aceitou, pois sempre foi muito romântica. Dizia que não teria prazer se me visse com outra. Nosso relacionamento entrou numa fase de acomodação. Quando eu ficava deprimido, não tinha ereção. Falava que seria mais feliz se ela tivesse amante. Pois ela arrumou uma amante. Uma menina linda, bem mais jovem. Deseja viver esta relação intensamente, sem a minha presença, porque a menina é lésbica e não aceita homem. Me dei conta do quanto amo minha mulher. Não quero perdê-la, estou sofrendo. Ela diz que não vai me abandonar, mas vai viver o novo amor até o fim. Estou perdido. Sinto ciúmes, estou inseguro. O que faço?

Para você, o três é o número que dá prazer. Você quer transar com duas mulheres. Já a sua mulher é romântica, gosta do número dois. Quer exclusividade na relação sexual. Mas o fato é que, por vias tortas, ela satisfez o seu desejo, tornando-se indissociável da menina linda com quem vive um novo amor. Você conhece o provérbio segundo o qual “quem diz o que quer ouve o que não quer?” Pois é, você não esperava ser surpreendido.

Agora, você tem de esperar para ver como fica e se perguntar por que você se expôs ao que está acontecendo. Quem tem uma conduta libertina no casamento corre o risco de perder o parceiro e quem não tem condições de se arriscar precisa se refrear. A equação é simples. O mais difícil é decifrar a sua história para não se tornar vítima dela.

Quanto ao ciúme, como diz a renomada libertina Catherine Millet no livro Dia de Sofrimento, ele nasce das dúvidas que temos em relação ao outro e se nutre das fabulações através das quais preenchemos as lacunas da vida. Ou seja, quem tem ciúme sofre por causa da imaginação e continua ligado ao outro pelo sofrimento. Você está às voltas com o seu masoquismo e também a razão disso você terá de entender para sair da posição difícil em que está. Tanto uma análise quanto a leitura dos romances libertinos clássicos poderão iluminá-lo.

Por Betty Milan

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O gosto da escrita

terça-feira, 15 de setembro de 2009 | 18:19

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Venho de uma família religiosa. Tenho baixa auto-estima desde a infância e luto contra isso. Casei-me  há 2 anos e meio. Durante o namoro, meu marido morava a 2.000 km de distância. Só me mudei para a cidade dele três meses antes do casamento. Rolou sexo e ele não era muito bom na cama. Achei que fosse timidez. Passaram-se quatro meses e nada mudou. Fazíamos sexo, ele se satisfazia e eu nada. Com o tempo, as coisas foram piorando e ele já não me procurava mais.

Após sete meses, mudamos para uma cidade horrível, que fica a 3.500 km dos meus familiares. Aceitei acompanhá-lo porque o casamento para mim sempre foi sagrado, mas um ano depois de casada,  já tinha engordado 25 quilos.

Estava mal e comecei a fazer ‘loucuras’. Criei um MSN falso, com um nome diferente e usava fotos de uma conhecida minha. Depois, criei um Orkut. Encontrei um rapaz e começamos a conversar pelo MSN. Sentia por ele o que nunca havia sentido, ficávamos a noite inteira conversando. Um dia, resolvi contar que o meu nome era outro e a garota das fotos não era eu.
Ele me excluiu do Orkut dele e me bloqueou no MSN. Sofri demais, comecei a tomar um antidepressivo  e a  fazer psicoterapia. Não adiantou nada. 

Passado um mês,  voltamos a teclar e ele quis me ver na webcam. Demorei para aceitar. Nesse dia, ele constatou que eu havia mentido e rompeu de novo. Vivo triste por saber que brinquei com os sentimentos dele, que não consigo parar de “criar uma história”. Continuo mentindo pelo MSN, embora já use uma foto verdadeira. O que eu faço?
 
O seu casamento é um desastre. E é obvio que, apesar de religiosa,  você  precisa considerar a possibilidade de se separar porque ele é incompatível com a sua vida. Nenhuma religião pode negar o direito ao divórcio num caso como o seu.

O uso que você faz da vida virtual como uma compensação para a vida real tem limites e você sabe disso. Agora, não me parece que você use a internet só para se compensar da frustração no casamento. Digo isso por duas razões. Por um lado, porque você me escreveu o maior e-mail que eu já recebi. Por outro, por você ter escrito que não consegue parar de ‘criar uma história’. Ora,  é precisamente o que o ficcionista faz, e sem isso ele não vive.

A sua vida virtual revela  o gosto pela dissimulação, que talvez esteja na origem de uma vocação de escritora. Você já considerou esta possibilidade? A escrita é um caminho fecundo pelo qual você pode enveredar. Mas este caminho não exclui a análise, que você precisa fazer para conquistar uma outra vida. Escrevi análise porque você tem que se escutar e analisar o que você diz para se liberar do discurso da família.

Por Betty Milan

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