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Viagem

28/04/2011

às 20:33 \ Cenas

Reforma!!!


Há dois testes fundamentais para um casal que queira se arriscar na aventura insana (e maravilhosa) que John Lennon e Yoko Ono apropriadamente batizaram de Double Fantasy: o casamento romântico, ou a união de duas pessoas pelo amor (ou a projeção que duas pessoas fazem de um mesmo e único sonho). Um dos sustentáculos principais – além de atração física e identidade espiritual – dessa fantasia, é justamente a capacidade do casal de empreender planos e projetos. A gravidez, a aquisição de um cachorro, a compra de uma casa de campo, o sonho de morar fora por um tempo, o cineminha terça à noite, a corridinha no final da tarde, aquele filminho de sacanagem antes de dormir, o passeio de bike no domingo de manhã, a ida à missa ou ao clube de suingue, a viagem de férias, tudo é fantasia dupla, tudo é imagem de um mesmo sonho em duas cabeças diferentes. Mas há dois testes cruciais nessa empreitada, e quem já passou por eles – não são poucos! -, sabem do que falo: A Viagem e a Reforma. Sim, estes são os dois quesitos principais para aqueles que querem se aventurar pela deliciosa e multipolar loucura chamada “casamento”. Se me permitem uma dica, eu sugiro que o teste seja feito na seguinte ordem: 1) A Viagem. Logo de cara, após aqueles idílicos meses em que a paixão inebria como um vinho divino, o casal deve encarar sozinho uma longa viagem. Se as pequenas irritações e descobertas desagradáveis sobre o outro não prevalecerem sobre a admiração e o desejo de continuar projetando juntos o mesmo sonho, o casal terá passado pelo teste da viagem. Parabéns!

Mas nenhum casal chegará com méritos a uma medalha de ouro (ou mesmo de prata), se não enfrentar o Segundo e tenebroso teste: 2) A Reforma. Sim, a reforma da casa, ou do apartamento (ou do sítio, da fazenda, da casa da praia, do barraco ou do apê de Nova York), chegará inevitavelmente para todo casal, assim como chegam os filhos, as reuniões de pais, as crises conjugais e as visitas inesperadas de parentes chatos (parentes do outro, claro. O nossos nunca são tão chatos). A Reforma testa o casal em toda a sua capacidade de resistência a ataques externos: sempre duram mais tempo e custam mais caro que o esperado, nunca ficam exatamente da maneira que pareciam no desenho do arquiteto, obrigam o casal a meses de convívio improvisado em campos de batalha (no caso daqueles infelizes que acreditam que é possível morar numa casa em obras…), quitinetes ou mansões alugadas, casas da sogra e até mesmo no olho da rua (em casos mais extremos), isso sem contar as reclamações dos vizinhos e dos fiscais da prefeitura. Se o casal sobreviver a tudo isso com um sorriso aberto e um jantar a luz de velas após a hecatombe, terá passado também pelo teste da reforma. Parabéns!
Bem, felicito-me, e principalmente à minha mulher- que além de grande atriz é uma obstinada mestre de obras -, por mais uma reforma (já devemos estar na nossa terceira ou quarta) que atravessamos mais ou menos incólumes, sem cicatrizes visíveis ou feridas profundas. E com muita alegria no olhar e paixão renovada no coração. Que bela vista do céu de Ipanema tenho do meu novo escritório…

Ao som, claro, de Double Fantasy.

Por Tony Bellotto

13/10/2009

às 11:19 \ Viagem

Trens

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Num dos ensaios de O Último Leitor o escritor argentino Ricardo Piglia disserta sobre uma cena muito significativa do romance Anna Karenina , de Tolstoi. No capítulo 29 Anna Karenina lê um romance inglês no vagão de um trem. A cena é emblemática por vários motivos: no século XIX, época em que o romance foi escrito, o trem simboliza o máximo da modernidade. Ele expressa progresso, indústria, mobilidade, velocidade, autonomia e liberdade em contraponto à vida doméstica como representação de imobilidade, monotonia, atraso e conservadorismo. Em que outro lugar, afinal de contas, em pleno século XIX, pode-se encontrar uma mulher sozinha lendo um romance? Inglês, ainda por cima.

Segundo Piglia, o filósofo e ensaísta alemão Walter Benjamim tem um texto muito interessante sobre a leitura nos trens. “O que a viagem proporciona ao leitor?”, pergunta-se Benjamim. “Em que outra circunstância está tão compenetrado na leitura e consegue sentir sua existência misturar-se tão fortemente à do herói? Seu corpo não é a laçadeira do tecelão, que cruza o urdume incansavelmente ao compasso das rodas? Não se lia na carroça e não se lê no automóvel. A leitura de viagem está tão ligada a viajar de trem quanto à permanência nas estações”.

Já tive meus dias de Anna Karenina. Na minha infância e juventude viajei incontáveis vezes de trem de Assis, onde morava com meus pais, para São Paulo, onde viviam nossos parentes. Alguns trens da antiga Sorocabana – nome poético que mais tarde deu lugar ao mais pragmático e modernoso Fepasa – possuíam vagões dormitório. Atravessar naqueles vagões as doze horas que durava a viagem – sem contar os contumazes atrasos – era uma experiência encantadora. O filé a cavalo com fritas no vagão restaurante, o atrito metálico das rodas nos trilhos a reverberar pela noite como o rufar de um tambor gigante, o vento que invadia as pequenas plataformas entre os vagões, os passageiros nas estações observados da janela da cabine, tudo me remetia a uma experiência transcendente e literária.

Ler no beliche antes de dormir embalado pelos solavancos do trem tinha um sabor único. Em nenhum outro lugar o romance A Estrada, de Jack London, foi tão intenso e magistral quanto nos trens da Sorocabana. Se naquele tempo, anos sessenta e setenta, os trens já eram decadentes, o que veio depois foi pura ruína. Nunca me conformei com o fato de termos optado por matar os trens no Brasil. E a cada estrada esburacada que atravesso, a cada voo atrasado por causa da chuva que encaro, me conformo menos. É alguma coisa que trago no sangue, meu bisavô era maquinista de trem. Lembro sempre da velha casa da minha avó na rua dos ferroviários, no bairro do Tucuruvi, em São Paulo.

Por onde andam os ferroviários hoje em dia? Leio sobre o projeto da construção do trem bala (perdida) ligando Rio e São Paulo e cruzo os dedos para que dê certo. Espero que seja o início de uma nova era para ferrovias, ferroviários, leitores, escritores, viajantes, sonhadores e jovens aventureiros brasileiros.

Livro…
O Último Leitor, de Ricardo Piglia. O escritor argentino disseca em ensaios brilhantes o personagem principal de toda a literatura: O Leitor.

Por Tony Bellotto

29/09/2009

às 13:46 \ Cenas

Aranjuez

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Quando eu era criança meus pais viviam viajando. Ora acompanhados dos filhos – eu e minha irmã -, ora apenas os dois juntos e muitas vezes sozinhos, cada um na sua. Não foi à toa que começaram o namoro num trem, ainda universitários. Por conta do trabalho (professores de História, minha mãe também arquivista, e ambos pesquisadores) passavam longos períodos fora de casa. Nos acostumamos todos a esse modo de vida um tanto inconstante, porém interessante, como são todas as experiências de vida, cada uma a sua maneira.

Não sei quanto desse hábito familiar se repete em minha própria opção profissional, autêntico saltimbanco eletrônico que me tornei. Lembro-me de uma tarde em que viajávamos num ônibus pela Espanha eu, minha irmã e minha mãe, ainda na década de 60. No meio de uma paisagem arenosa e desolada envolvida por céu azul, o Concerto de Aranjuez começou a tocar no rádio dentro do ônibus. Minha mãe irrompeu num choro, emocionada pela beleza da música, pela melancolia da paisagem e pela poesia estranha da vida.

Eu, menino, não consegui entender aquele choro. “O que foi, mãe?”, perguntei. “Aconteceu alguma coisa?” Para mim, naquela época, só se chorava por dor ou algum desconforto físico muito intenso. “Nada, filho”, ela respondeu. “É a música, o céu, a Espanha…”. Aceitei a explicação, embora não a tenha compreendido então. Minha mãe mantém até hoje essa “coceira nos pés” e consegue a façanha de, aos 74 anos, passar metade do tempo em São Paulo, metade em Lisboa, onde trabalha.

Como vivo no Rio, nos vemos pouco. Outro dia, eu estava em São Paulo para a estreia do novo show dos Titãs, Sacos Plásticos. Os dias que antecedem uma estreia são cheios de compromissos, ensaios, divulgação em rádio, tv e jornais, reuniões com cenógrafos, técnicos, iluminadores etc. Mesmo sabendo que minha mãe viajaria no sábado – dia da estreia- para Portugal (de onde só voltará em janeiro do ano que vem), não consegui vê-la até sexta feira à noite.

Antes de dormir, pensei em convidá-la para o café da manhã e aplacar minha culpa de filho desnaturado. Como já era tarde, deixei para ligar no próprio sábado bem cedo. Não foi preciso, no sábado de manhã acordei com um telefonema de minha mãe avisando que já estava a caminho do aeroporto. O voo que a levaria a Portugal era diurno! Nos despedimos por telefone mesmo. Alguns minutos depois, desci ao saguão do hotel com meu filho Antônio para tomar café. Quando saio do elevador, numa dessas coincidências significativas e reveladoras, o Concerto de Aranjuez invade o saguão – e a minha alma – de lembranças, nostalgia e emoções contraditórias. Comecei a chorar. E o Antônio: “O que foi, pai? Aconteceu alguma coisa?”.

 

CDs…

O Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo. Belíssimo concerto, um dos mais inspirados trabalhos de música clássica para violão, composto em 1939 pelo grande instrumentista e compositor espanhol, pode ser encontrado em diversas versões. A de Miles Davis, em que o violão é substituído pelo trumpete, é muito interessante.

Por Tony Bellotto

03/08/2009

às 10:42 \ Viagem

Imagine

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Há datas que nos marcam como ferro em brasa: todo mundo lembra do que estava fazendo no dia em que as torres gêmeas de Nova York foram destruídas por terroristas islâmicos (eu conversava com meu amigo escritor Antônio Torres numa livraria em Ipanema). Os mais velhos lembram também do que faziam no dia em que John Lennon foi assassinado na mesma Nova York por um imbecil. Em 8 de dezembro de 1980 eu estava num ônibus, em São Paulo, a caminho de um ensaio. Olhando a rua pela janela, recebi a notícia pela televisão numa vitrine de uma loja de eletrodomésticos.

Na época, além de fã da música, eu era muito influenciado pelas atitudes e posturas políticas do ex-beatle. Sou até hoje. 29 anos depois, de passagem pela Big Apple, levo meus filhos para visitar a calçada do edifício Dakota, onde John foi assassinado. Numa tarde ensolarada de verão, passamos alguns minutos ali, em mórbida contemplação. Alguns turistas e fãs nos acompanham. Prevalece um silêncio reverente, que nem as buzinas, roncos de motores e sirenes de ambulâncias conseguem quebrar. Em seguida caminhamos até o local do Central Park chamado de Strawberry Fields, uma pequena praça em que se cultua a memória de Lennon.

Há uma espécie de rosa dos ventos desenhada no chão, com a palavra Imagine no centro. Eu e meus filhos nos sentamos num banco. Um quarentão nostálgico, com um rabo de cavalo grisalho, toca músicas de Lennon num violão. Um garoto usando óculos acompanha uma velha numa cadeira de rodas. Ele não tira os olhos de um gameboy que manipula obsessivamente.

A velha move o rosto em direção às copas dos olmos, aparentando estar muito distante dali. Um velho careca de terno e gravata lê um jornal gay. Alguns bêbados cochilam nos bancos. O quarentão começa a cantar Mind Games. Uma ex-hippie, bêbada, passa por nós. Jogo uma moeda no estojo do violão do quarentão. Vamos embora?, propõe meu filho caçula, sentindo uma vibração estranha no ar.

Para quem vai a Nova York, programa imperdível é a exposição Imagine, sobre John Lennon, no museu do rock (Rock and Roll Hall of Fame Museum), no Soho. Letras manuscritas de músicas, instrumentos, roupas, óculos e filmes mostram a trajetória desse grande artista.

Por Tony Bellotto


 

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