20/06/2011
às 18:53 \ CenasMeia-noite no Leblon
Tags: Blitz, Serginho Groismann, Titãs
20/06/2011
às 18:53 \ CenasTags: Blitz, Serginho Groismann, Titãs
28/03/2011
às 16:29 \ Cenas
Sábado passado fiz um show com os Titãs em Pará de Minas, uma simpática cidade no interior de Minas Gerais. Diz a história (e a Wikipédia) que já em fins do século XVI um povoado se formou à beira do ribeirão Paciência, na rota dos bandeirantes paulistas que se aventuravam pela região em busca do ouro. Das figuras que ali se fixaram ao longo das décadas, estava o português Manuel Batista, mais conhecido como Pato Fofo.
O Pato Fofo, como o próprio apelido atesta, devia ser um sujeito boa praça e empreendedor, pois construiu em sua fazenda uma capela dedicada à Nossa Senhora da Piedade. Em pouco tempo nascia ali o Arraial do Patofofo. Pena que o tempo tenha transformado o Arraial do Patofofo em Vila do Pará, pois se o nome ganhou em gravidade e imponência, perdeu em simpatia e originalidade.
Teria sido sensacional tocar em Patofofo, em vez de em Pará de Minas, como é conhecida hoje a pujante cidade que se desenvolveu às margens do Paciência. Mas isso não quer dizer que não foi muito bom tocar em Pará de Minas. Depois de quase 30 anos de profissão, quando você sai para fazer um show, às vezes bate uma preguiça. Puxa, deixar a família num sabadão ensolarado, para encarar um voo até Confins, e depois um busum até Pará de Minas… ficar à tarde no hotel, sozinho, assistindo a programas desinteressantes na televisão só pra matar o tempo até a hora do show… nessas horas, confesso, você se sente às vezes como um velho bandeirante paulista em busca do ouro… cáspite!
Mas quando você entra no palco, toda a preguiça – e o delírio de bandeirante paulista ranzinza em busca do ouro – se desfaz e você entende de novo (pela enésima ao cubo vez) a razão de estar ali, fazendo aquele barulho todo e entrando numa espécie de extâse coletivo com o público. A sensação torna-se, com o passar do tempo, mais que um hábito, um vício. Um vício sem efeitos colaterais, a não ser, talvez, um pouco de saudades de casa e dores nas costas de vez em quando.
Como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, numa blague que repete sempre que é apresentado no palco por Mick Jagger: “It’s good to be here. It’s good to be anywhere”. É bom estar aqui. É bom estar em qualquer lugar. Com isso ele quer dizer que o bom mesmo é estar no palco, não importa em que cidade esteja. Pois Keith, às margens do ribeirão Paciência, eu afirmo: “Foi muito bom tocar no Arraial do Patofofo!”.
Tags: Pará de Minas, Pato Fofo, Titãs
26/08/2010
às 17:18 \ CenasTags: Ivete Sangalo, livro, Rock’n Rio, Titãs, voo
22/02/2010
às 10:49 \ Pessoas
Não sou dos foliões mais animados. Já dei minhas voltas no salão do clube Recreativo de Assis, os braços estendidos aos céus, os cabelos – outrora bastos e encaracolados – salpicados de confete, cantando: “A estrela dalva, no céu desponta…”. Já molhei os pés na avenida, como alguém que não sabe nadar, uma vez na Vai-Vai, em São Paulo, outra na Mangueira, no Rio. Sim, eu vi a Mangueira entrar, se me permitem o trocadilho infame. Vi também o chão deslocar-se até minha cabeça, vitimado por inalações exageradas de lança perfume (exagero do chão, não meu).
Teve um carnaval em que me embrenhei pelas dantescas antesalas do inferno conhecidas como camarotes de cervejarias famosas. Lembro de ver o Millôr Fernandes cochilando no sofá de um desses camarotes enquanto o sol raiava lá fora. Grande Millôr. Quem sabe, sabe. Com tantas mulheres gostosas saltitando daqui pra lá e eu me lembro logo do Millôr roncando no sofá como um Cérbero extenuado. Se dependesse de mim, o carnaval seria tão popular quanto o dia internacional da meditação transcendental. Sabe que dia é esse? Nem eu.
Esse último carnaval passei em retiro espiritual – e etílico – numa casa de campo. Estava mais preocupado com a repercussão da nota que anunciava que Charles Gavin, baterista dos Titãs – minha banda -, decidira deixar o grupo por “motivos pessoais”. Existe alegação mais impessoal do que “motivos pessoais”? Bem, pelo que sei, o querido Charlão deixou a banda porque é difícil envelhecer num grupo de rock. O Jethro Tull, uma banda inglesa dos anos setenta, tem um disco chamado Too Old to Rock and Roll, Too Young To Die (muito velho pro rock, muito jovem pra morrer, numa tradução apressada). O título, irônico, expressa um conflito imperioso para um roqueiro. Como envelhecer – ok, amadurecer, se você prefere um eufemismo – numa banda de rock, se o rock é, acima de tudo, a celebração máxima da juventude e da irresponsabilidade?
Qualquer roqueiro que se preze, qual Hamlet, já passou por esse questionamento fundamental: to be or not to be? Imagine Elvis Presley, gordo e inchado, com um crânio nas mãos, proferindo a frase de Shakespeare num banheiro cheio de espelhos na suíte de um hotel em Las Vegas. Isso é rock’n roll.
Os Rolling Stones estão aí pra provar que toda a regra tem várias exceções. E olha que eles já perderam um baixista, Bill Wyman, que decidiu – como o Charles – se afastar da banda por estar cansado da estrada e de todo o desgaste proporcionado por excursões intermináveis, paradoxalmente cansativas e divertidésimas. Eu, do alto de meus quase cinquenta irresponsáveis anos, prefiro pensar como Keith Richards – o guitarrista dos Stones – que, ao observar a platéia em êxtase ensandecido enquanto ele dedilha as três notas que compõe o imortal riff (frase de guitarra) de Satisfaction, conclui: e ainda me pagam pra isso!
Nós, os Titãs remanescentes – Eu, Paulo Miklos, Branco Mello e Sérgio Britto – continuaremos a poluir sonoramente os céus brasileiros com nossa música. Sinto-me, apesar de tudo, ainda muito jovem para me aposentar. E àqueles que imaginam – ou comemoram – que a cada perda ou impasse nos enfraquecemos, um segredo: as adversidades nos fortalecem. Como uma lagartixa, quando nos decepam um membro, ele renasce com força e vigor renovados.
DVD…
… Some Kind Of Monster, um documentário sobre o Metallica, que mostra a banda de rock em crise, no eterno paradoxo que é envelhecer e permanecer ativo e relevante no Rock and Roll.
Tags: charles gavin, rock, Stones, Titãs
08/12/2009
às 9:20 \ Cenas
O Conjunto Nacional, em São Paulo, é um prédio modernista fincado na avenida Paulista. Quem passa por ali tem a impressão de que aquele edifício sempre existiu, como uma montanha de pedra remanescente de eras remotas. O andar térreo é também uma galeria tradicional, e passagem que liga a avenida Paulista à alameda Santos e a rua Augusta à Padre João Manoel, ocupando todo o quarteirão.
Na galeria há lojas, livrarias, farmácias, bancos, cinemas, restaurantes, cafés, barbearias, joalherias e outros pontos comerciais. É um lugar mítico pra mim. Passei grande parte da infância, adolescência e juventude perambulando pelo Conjunto Nacional. Até meus 30 anos, sempre vivi ali por perto. Quando voltava da escola, e saltava do ônibus na avenida Paulista, antes de descer a Padre João Manuel rumo à minha casa, dava sempre uma fuçada nas lojas de discos. Foi ali que descobri The Who e Rolling Stones.
Nas livrarias fui apresentado a John Fante, Bukowski, Cortazar e outros autores. Assisti a inúmeros filmes nos cinemas – hoje em dia um deles virou a maior livraria da América Latina, onde já lancei alguns livros – em que vislumbrei pela primeira vez a arte refinada de Kurosawa e Kubrick (isso só para ficar nos cineastas em K) e, se não me falha a memória, dei meus primeiros beijos.
Quando formamos os Titãs, várias vezes nos encontrávamos ali para irmos juntos a ensaios e outros compromissos. Quando lançamos o primeiro disco, eu passava pelas lojas e ficava olhando disfarçadamente meu disco na vitrine entre Led Zeppelins e Caetanos. O Branco Mello morou por uns tempos num apartamento no prédio, e era como se frequentássemos uma cobertura na pirâmide de Gizé.
A primeira vez em que ouvi uma música minha tocando no rádio – Sonífera Ilha – eu estava ali ao lado, no Longchamp, um bar na rua Augusta. Conto tudo isso porque, há poucos dias, estava em São Paulo hospedado num hotel na avenida Paulista e decidi dar uma voltinha na galeria do Conjunto Nacional. Olhei as lojas e livrarias, andei pra lá e pra cá reconhecendo velhos e novos fantasmas. Quando parei para um espresso num bar, escutei um sujeito assobiando distraído o solo de Sonífera Ilha. Agradeci em silêncio e segui andando, nostálgico, com a impressão de que o Conjunto Nacional me agradecia por alguma coisa.
DVD…
…. eu já recomendei o filme, não é porque é a história da minha banda, mas o filme é muito bom e agora foi lançado o DVD com cenas extras. Titãs, A Vida Até Parece Uma Festa, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves. Imperdível.
Tags: Avenida Paulista, São Paulo, Titãs
29/09/2009
às 13:46 \ Cenas
Quando eu era criança meus pais viviam viajando. Ora acompanhados dos filhos – eu e minha irmã -, ora apenas os dois juntos e muitas vezes sozinhos, cada um na sua. Não foi à toa que começaram o namoro num trem, ainda universitários. Por conta do trabalho (professores de História, minha mãe também arquivista, e ambos pesquisadores) passavam longos períodos fora de casa. Nos acostumamos todos a esse modo de vida um tanto inconstante, porém interessante, como são todas as experiências de vida, cada uma a sua maneira.
Não sei quanto desse hábito familiar se repete em minha própria opção profissional, autêntico saltimbanco eletrônico que me tornei. Lembro-me de uma tarde em que viajávamos num ônibus pela Espanha eu, minha irmã e minha mãe, ainda na década de 60. No meio de uma paisagem arenosa e desolada envolvida por céu azul, o Concerto de Aranjuez começou a tocar no rádio dentro do ônibus. Minha mãe irrompeu num choro, emocionada pela beleza da música, pela melancolia da paisagem e pela poesia estranha da vida.
Eu, menino, não consegui entender aquele choro. “O que foi, mãe?”, perguntei. “Aconteceu alguma coisa?” Para mim, naquela época, só se chorava por dor ou algum desconforto físico muito intenso. “Nada, filho”, ela respondeu. “É a música, o céu, a Espanha…”. Aceitei a explicação, embora não a tenha compreendido então. Minha mãe mantém até hoje essa “coceira nos pés” e consegue a façanha de, aos 74 anos, passar metade do tempo em São Paulo, metade em Lisboa, onde trabalha.
Como vivo no Rio, nos vemos pouco. Outro dia, eu estava em São Paulo para a estreia do novo show dos Titãs, Sacos Plásticos. Os dias que antecedem uma estreia são cheios de compromissos, ensaios, divulgação em rádio, tv e jornais, reuniões com cenógrafos, técnicos, iluminadores etc. Mesmo sabendo que minha mãe viajaria no sábado – dia da estreia- para Portugal (de onde só voltará em janeiro do ano que vem), não consegui vê-la até sexta feira à noite.
Antes de dormir, pensei em convidá-la para o café da manhã e aplacar minha culpa de filho desnaturado. Como já era tarde, deixei para ligar no próprio sábado bem cedo. Não foi preciso, no sábado de manhã acordei com um telefonema de minha mãe avisando que já estava a caminho do aeroporto. O voo que a levaria a Portugal era diurno! Nos despedimos por telefone mesmo. Alguns minutos depois, desci ao saguão do hotel com meu filho Antônio para tomar café. Quando saio do elevador, numa dessas coincidências significativas e reveladoras, o Concerto de Aranjuez invade o saguão – e a minha alma – de lembranças, nostalgia e emoções contraditórias. Comecei a chorar. E o Antônio: “O que foi, pai? Aconteceu alguma coisa?”.
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CDs…… O Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo. Belíssimo concerto, um dos mais inspirados trabalhos de música clássica para violão, composto em 1939 pelo grande instrumentista e compositor espanhol, pode ser encontrado em diversas versões. A de Miles Davis, em que o violão é substituído pelo trumpete, é muito interessante. |
21/09/2009
às 9:52 \ Viagem
Eu poderia dizer que é uma forma rápida de fazer turismo. Ou uma maneira eficaz de manter a saúde. Um tipo novo de meditação em movimento. Um passatempo em manhãs ociosas enquanto o resto da galera ainda não acordou. Ou tudo isso junto. Talvez apenas uma maneira de lutar contra a ansiedade. Costumo correr pelas cidades que visito.
Às vezes a trabalho, às vezes de férias, corro logo que acordo. Outro dia, por exemplo, estava em Belo Horizonte e corri por uma avenida à beira de um canal. Não vi nada de mais, nada que atestasse a mineirice do local. Eu não estava correndo em torno da lagoa da Pampulha – aliás, um lugar bem mais bonito do que a avenida em que eu corria -, mas o bom de minhas corridas é isso mesmo: não há um roteiro pré-determinado. Não é um turista correndo. Muito menos um morador da cidade. Atleta, nem pensar. Não, não sou um jogger.
Gosto de me sentir como um fantasma invisível conduzido pelo vento. Nem sempre é possível ficar invisível. “É o marido da Malu Mader!”, exclamou uma senhora em Santa Maria. “O cara dos Titãs”, constatou o vendedor de cocos em Maceió. “Aquele cantor…”, disse alguém em Londrina. “Tens religião, che?”, indagou-me um simpático jogger numa pista entre ipês amarelos e paineiras em flor no coração de Passo Fundo. Uma vez, em Itaperuna, um grupo enorme de fãs não deu a mínima para mim quando atravessei o saguão do hotel suado, de calção e tênis. Confesso que fiquei decepcionado: elas estavam ali à espera do Leonardo, hospedado no mesmo hotel.
Vou aprendendo sobre o local em que me encontro. Vejo as lojas, os táxis parados no ponto, as tampinhas de refrigerantes largadas na sarjeta. Um mendigo dormindo aqui, uma babá empurrando um carrinho de criança ali. Assim vou despertando, me preparando para o resto do dia.
Já vi centenas de andorinhas pousadas nos fios elétricos de Macapá – como numa versão tropical de Os Pássaros, de Hitchcock -, hortênsias azuis psicodélicas nos arredores de Caxias, estradas recém-abertas por tratores em Palmas. Vi ciganos numa aldeia de pedra em Portugal, saltei sobre um caranguejo dançarino numa calçada em Salvador. Percebi que meu brinco congelava no Central Park e espiei um casal de adolescentes se beijando em Floripa. Cruzei um punk rocker Bósnio à beira do Sena, um travesti goiano às margens do Tamisa. No Mercado de Ver-O-Peso, em Belém, tive a impressão de que uma cobra morta se movia. Como Raul Seixas (ou Elvis Presley, autor verdadeiro da frase), às vezes eu tenho a impressão de que nasci há dez mil anos atrás.
DVD…
…. Marathon Man, com Dustin Hoffman, Roy Scheider e Lawrence Olivier, um thriller clássico dos anos 70, dirigido por John Schlesinger. O filme, além de manter o suspense o tempo todo, prova que vale a pena manter a forma correndo.
14/09/2009
às 10:38 \ Cenas
A vida de um rock star no Brasil não é biscoito. Nem a de um amante de bons shows. Num sábado desses saí do Rio de Janeiro num voo que partiu às 7 horas e 45 minutos do Santos Dumont com destino a Congonhas. Até aí tudo bem. O que me intriga é por que eu tive de ir até São Paulo se meu destino era Ilhéus, na Bahia? Me pareceu um retrocesso. Chegamos em São Paulo, eu e Charles Gavin – os Titãs ‘cariocas’ por adoção – e nos juntamos aos Titãs paulistas. Pegamos um voo para Ilhéus. Ali nos esperava um ônibus que nos conduziria até Vitória da Conquista, nosso destino final, onde nos apresentaríamos no tradicional e badalado Festival de Inverno.
Vitória da Conquista, uma das maiores e mais prósperas cidades da Bahia, terra de gado, pecuária, cultura e turismo, antiga morada de gloriosos aimorés e pataxós, hoje habitada por baianos dinâmicos e modernos, muitos deles admiradores dos Titãs. Estávamos ansiosos por encontrar velhos e novos fãs numa cidade onde não tocávamos há muito tempo. A vitória da derrota começou a se manifestar no momento do pouso no aeroporto de Ilhéus, que leva o belo nome de Jorge Amado: as péssimas condições de tempo – chuva e vento forte -não permitiram que o piloto pousasse.
Foram duas tentativas (e duas arremetidas), e mais uma terceira tentativa no aeroporto de Comandatuba. Resultado: mais uma arremetida. Comandatuba também estava inviável. Rumamos para Salvador, onde o tempo estava bom. Os axés, os santos e as baianas nos forneceram um reconfortante acarajé no aeroporto, mas infelizmente não foi possível fretar um avião para levar-nos – mais a equipe técnica e equipamento de palco – até Vitória da Conquista. A opção foi encarar os quinhentos e doze quilômetros de carro.
Àquela altura, umas três horas da tarde, ainda havia tempo hábil para que chegássemos ao nosso destino. Depois de rodados mais de cem quilômetros, próximos à Feira de Santana, caímos num engarrafamento monstruoso na BR 116. Parecia que estávamos na Marginal Tietê, em São Paulo, em plena sexta-feira às seis e meia da tarde. Ah, mundo globalizado. Em algum ponto da estrada abriu-se uma cratera, e qual uma maldição nos impediu de fazer o show, pois não conseguimos avançar mais que dez quilômetros em três horas.
Simplesmente não conseguimos chegar à Vitória da Conquista. Nós e o público, separados por mais de quinhentos quilômetros, fomos dormir com um gosto amargo na boca. E com a certeza de que às vezes os ossos do ofício são duros de roer.
Guia Quatro Rodas, o inseparável companheiro dos Titãs pelas estradas e cidades brasileiras. Imprescindível para quem quer se aventurar pelo Impávido Colosso.
Tags: Bahia, Jorge Amado, São Paulo, show, Titãs