Blogs e Colunistas

show

18/10/2010

às 15:30 \ Cenas

Questionamentos do mictório I

Em excursão pelo Rio Grande do Sul para shows com os Titãs e lançamentos do meu novo romance, No Buraco, me deparo com um surpreendente e intrigante diálogo durante uma prosaica ida ao banheiro. Comecemos do início. Sim, o Rio Grande – com seu povo hospitaleiro, carnes saborosas e belas cidades de ar europeu – atrai os Titãs desde o início da carreira e lá se vão quase 30 anos. Ali fizemos inesquecíveis excursões, e nos anos 80 alcançamos uma marca invejável, recorde interno até hoje não transposto: 9 shows em 10 dias!

Bons tempos aqueles, mas hoje em dia os cinquentões ainda dão no couro: durante feriados recentes, fizemos 5 shows em 5 dias (eu ainda acrescentei por conta própria mais duas noites de autógrafos) por rincões gauchescos: Porto Alegre, Palmeiras das Missões, Ibirubá, Alvorada e Pelotas nortearam nossa rota, e foi uma excursão agradável, intensa, elétrica e bem sucedida. Depois de terminada a turnê de shows, fui para Caxias do Sul para participar de uma feira literária muito charmosa e bem organizada. Pois foi exatamente nesse último dia, o feriado de 12 de outubro, que se deu em Porto Alegre o inusitado diálogo do mictório.

Depois que me despedi dos Titãs no aeroporto Salgado Filho, me encaminhei a uma tradicional churrascaria para um antepasto carnívoro antes de partir para Caxias do Sul. E foi no banheiro da churrascaria, antes de comer, enquanto lavava as mãos, que notei pelo espelho um gaúcho sorridente a me observar.

“Bah, tu é mais bonito na TV do que ao vivo, chê!”, disse ele, os olhos brilhando de sadismo pampeiro.

Como responder a tal afirmação? Nada de errado em um sujeito me achar mais bonito na tv do que ao vivo, mas o fato de aquilo ser dito num banheiro e de forma tão ostensiva, tendo apenas mictórios solitários, pias vazias e um espelho gigante como testemunhas, me despertou a atenção para o inusitado da situação.

Cogitei mentalmente algumas alternativas de resposta:

Ver resultado

Loading ... Loading ...

Um doce para quem acertar a resposta que dei ao gaucho observador

Livro…

A Dama do Cachorrinho (e outras histórias), contos de Anton Tchekov, um escritor que soube perceber grandes revelações nas situações mais banais e corriqueiras.

Por Tony Bellotto

29/09/2009

às 13:46 \ Cenas

Aranjuez

86159565

Quando eu era criança meus pais viviam viajando. Ora acompanhados dos filhos – eu e minha irmã -, ora apenas os dois juntos e muitas vezes sozinhos, cada um na sua. Não foi à toa que começaram o namoro num trem, ainda universitários. Por conta do trabalho (professores de História, minha mãe também arquivista, e ambos pesquisadores) passavam longos períodos fora de casa. Nos acostumamos todos a esse modo de vida um tanto inconstante, porém interessante, como são todas as experiências de vida, cada uma a sua maneira.

Não sei quanto desse hábito familiar se repete em minha própria opção profissional, autêntico saltimbanco eletrônico que me tornei. Lembro-me de uma tarde em que viajávamos num ônibus pela Espanha eu, minha irmã e minha mãe, ainda na década de 60. No meio de uma paisagem arenosa e desolada envolvida por céu azul, o Concerto de Aranjuez começou a tocar no rádio dentro do ônibus. Minha mãe irrompeu num choro, emocionada pela beleza da música, pela melancolia da paisagem e pela poesia estranha da vida.

Eu, menino, não consegui entender aquele choro. “O que foi, mãe?”, perguntei. “Aconteceu alguma coisa?” Para mim, naquela época, só se chorava por dor ou algum desconforto físico muito intenso. “Nada, filho”, ela respondeu. “É a música, o céu, a Espanha…”. Aceitei a explicação, embora não a tenha compreendido então. Minha mãe mantém até hoje essa “coceira nos pés” e consegue a façanha de, aos 74 anos, passar metade do tempo em São Paulo, metade em Lisboa, onde trabalha.

Como vivo no Rio, nos vemos pouco. Outro dia, eu estava em São Paulo para a estreia do novo show dos Titãs, Sacos Plásticos. Os dias que antecedem uma estreia são cheios de compromissos, ensaios, divulgação em rádio, tv e jornais, reuniões com cenógrafos, técnicos, iluminadores etc. Mesmo sabendo que minha mãe viajaria no sábado – dia da estreia- para Portugal (de onde só voltará em janeiro do ano que vem), não consegui vê-la até sexta feira à noite.

Antes de dormir, pensei em convidá-la para o café da manhã e aplacar minha culpa de filho desnaturado. Como já era tarde, deixei para ligar no próprio sábado bem cedo. Não foi preciso, no sábado de manhã acordei com um telefonema de minha mãe avisando que já estava a caminho do aeroporto. O voo que a levaria a Portugal era diurno! Nos despedimos por telefone mesmo. Alguns minutos depois, desci ao saguão do hotel com meu filho Antônio para tomar café. Quando saio do elevador, numa dessas coincidências significativas e reveladoras, o Concerto de Aranjuez invade o saguão – e a minha alma – de lembranças, nostalgia e emoções contraditórias. Comecei a chorar. E o Antônio: “O que foi, pai? Aconteceu alguma coisa?”.

 

CDs…

O Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo. Belíssimo concerto, um dos mais inspirados trabalhos de música clássica para violão, composto em 1939 pelo grande instrumentista e compositor espanhol, pode ser encontrado em diversas versões. A de Miles Davis, em que o violão é substituído pelo trumpete, é muito interessante.

Por Tony Bellotto

14/09/2009

às 10:38 \ Cenas

Vitória da derrota

onibus-aviao1

 

A vida de um rock star no Brasil não é biscoito. Nem a de um amante de bons shows. Num sábado desses saí do Rio de Janeiro num voo que partiu às 7 horas e 45 minutos do Santos Dumont com destino a Congonhas. Até aí tudo bem. O que me intriga é por que eu tive de ir até São Paulo se meu destino era Ilhéus, na Bahia? Me pareceu um retrocesso. Chegamos em São Paulo, eu e Charles Gavin – os Titãs ‘cariocas’ por adoção – e nos juntamos aos Titãs paulistas. Pegamos um voo para Ilhéus. Ali nos esperava um ônibus que nos conduziria até Vitória da Conquista, nosso destino final, onde nos apresentaríamos no tradicional e badalado Festival de Inverno.

Vitória da Conquista, uma das maiores e mais prósperas cidades da Bahia, terra de gado, pecuária, cultura e turismo, antiga morada de gloriosos aimorés e pataxós, hoje habitada por baianos dinâmicos e modernos, muitos deles admiradores dos Titãs. Estávamos ansiosos por encontrar velhos e novos fãs numa cidade onde não tocávamos há muito tempo. A vitória da derrota começou a se manifestar no momento do pouso no aeroporto de Ilhéus, que leva o belo nome de Jorge Amado: as péssimas condições de tempo – chuva e vento forte -não permitiram que o piloto pousasse.

Foram duas tentativas (e duas arremetidas), e mais uma terceira tentativa no aeroporto de Comandatuba. Resultado: mais uma arremetida. Comandatuba também estava inviável. Rumamos para Salvador, onde o tempo estava bom. Os axés, os santos e as baianas nos forneceram um reconfortante acarajé no aeroporto, mas infelizmente não foi possível fretar um avião para levar-nos – mais a equipe técnica e equipamento de palco – até Vitória da Conquista. A opção foi encarar os quinhentos e doze quilômetros de carro.

Àquela altura, umas três horas da tarde, ainda havia tempo hábil para que chegássemos ao nosso destino. Depois de rodados mais de cem quilômetros, próximos à Feira de Santana, caímos num engarrafamento monstruoso na BR 116. Parecia que estávamos na Marginal Tietê, em São Paulo, em plena sexta-feira às seis e meia da tarde. Ah, mundo globalizado. Em algum ponto da estrada abriu-se uma cratera, e qual uma maldição nos impediu de fazer o show, pois não conseguimos avançar mais que dez quilômetros em três horas.

Simplesmente não conseguimos chegar à Vitória da Conquista. Nós e o público, separados por mais de quinhentos quilômetros, fomos dormir com um gosto amargo na boca. E com a certeza de que às vezes os ossos do ofício são duros de roer.

Guia Quatro Rodas, o inseparável companheiro dos Titãs pelas estradas e cidades brasileiras. Imprescindível para quem quer se aventurar pelo Impávido Colosso.

Por Tony Bellotto


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados