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São Paulo

23/08/2010

às 14:16 \ Arquivo, Cenas, Pessoas

Solilóquios do sushi-bar I

Toda vez que estou em São Paulo dou um jeito de almoçar, pelo menos uma vez que seja, no Sushigen. Ali me sinto em casa e lembro dos anos 80, quando já frequentava o restaurante, numa época em que restaurantes japoneses eram japoneses mesmo, sem frescuras de alta gastronomia. Antes da fase dos grandes e afetados chefs de cozinha, estes superestimados gênios de nossa era, houve a fase heróica dos sushi-men, gloriosos samurais saídos direto de um filme de Kurosawa para as ruas da Liberdade, o bairro oriental de São Paulo.

Quem viveu aquela época sabe do que estou falando. Bem, voltando ao solilóquio – bela palavra, hein? -, no Sushigen come-se tão bem quanto em qualquer japonês hypado, com a vantagem de se pagar muito, mas muito, menos. Sushi-bares são os lugares ideais para os famintos solitários. Você se senta no sushi-bar, abre um livro, ou o jornal, e fica à vontade, sem ninguém te olhar estranho por estar sozinho num restaurante. Se você não tem, ou não quer ler um livro ou um jornal, tudo bem, pode ficar ali de papo pro ar, degustando sushis e sahimis enquanto admira o sushi man trabalhar. Ou puxar conversa com o vizinho, outro faminto solitário, ou simplesmente bebericar um saquê, ou um chá verde, em doce contemplação e plácido silêncio.

Há sempre um calendário com a foto de uma cerejeira em flor em algum lugar. Por que digressiono aqui sobre o Sushigen? Foi ali que encontrei na semana passada meu amigo Pena Schmidt. Pena Schmidt, mais conhecido como Peninha, foi o produtor do primeiro disco dos Titãs, em 1984, e co-produtor, junto com Liminha, do Cabeça Dinossauro, de 1986. Além de produtor, ele era uma espécie de olheiro da Warner Music, e descobriu outras grandes bandas da época, como Ultraje a Rigor e Ira, entre tantas outras. Pena já se destacava em produção de discos desde a década de 70, quando trabalhou em discos seminais de muitos artistas, Walter Franco entre eles.

O mais engraçado é que Peninha, por mais roqueiro que fosse, nunca perdeu uma aura zen, que o levou, inclusive, a diversificar as atividades profissionais e abrir uma fábrica de pipas e papagaios. Hoje em dia ele continua agitando, e atualmente é o curador de uma das melhores salas de espetáculos de São Paulo. Bem, o Peninha estava ao meu lado no sushi- bar lendo um jornal e degustando as maravilhas do Sushigen. Trocamos abraços, ideias e palavras carinhosas.

Serei sempre agradecido ao Peninha, entre tantas outras coisas, por ter tirado aquele som incrível da minha guitarra em Sonífera Ilha. Aquele timbre de Fender Stratocaster que remete ao timbre clássico do Mark Knopfler, não é fácil de se conseguir. Ficou como uma das marcas principais de Sonífera e dos Titãs no começo da carreira. Como disse Peninha, ao fim de nossa conversa em que muitas lembranças foram evocadas: “O que nós fizemos, agora virou História”. Frase que nos arrancou uma boa gargalhada.

Disco…

…Não quero puxar a brasa para a minha sardinha, mas escutar de vez em quando nosso primeiro disco, Titãs, de 1984, é um tremendo barato.

Por Tony Bellotto

08/02/2010

às 12:49 \ Cenas

Singing in the rain

singing-in-the-rain

Amigos paulistas me contam que já marcam encontros e compromissos para antes ou depois da ‘chuva’. Antigamente comentava-se que isso acontecia em Belém e Manaus e parecia a todos uma história pitoresca amazônica, como a lenda do boto rosa e a da Iara. Que legal, eu pensava, um sujeito chega para o outro e diz: te encontro depois da chuva para um cafezinho. Ou um açaí. E imaginava um pacato cidadão belenense aguardando calmamente sob uma bela mangueira a chuva passar. Ao que me consta, os paulistanos não têm a mesma sorte: as árvores de São Paulo têm despencado durante os sinistros temporais que assolam a cidade nesse verão.

As imagens de ruas e casa cobertas pela água já viraram um cartão postal da cidade tão genuíno quanto a foto do Monumento às Bandeiras, do Victor Brecheret, ali no Ibirapuera, o popular Deixa que Eu Empurro. Fugir das enchentes é atualmente um programa tão paulistano quanto era, no passado, ir até o aeroporto de Congonhas ver os aviões pousar e decolar ou passear pelo Salão do Automóvel numa tarde triste de domingo.

Passei pelos sufocos das chuvas paulistas na semana passada. Saí do Rio na quinta-feira no voo das 15hs15 e relaxei quando o piloto avisou:  “São Paulo com tempo nublado, 30 graus, previsão de chuva para o fim da tarde, bem depois do nosso voo”. Menos de vinte minutos depois, a não sei quantos mil quilômetros acima do nível do mar, volta o piloto: “Parece que a chuva chegou um pouco antes do esperado…”, e assim passei as duas horas seguintes dando voltas no ar sobre Santos. Sensação fantástica, bastante relaxante.

Quando conseguimos pousar, depois da chuva, o estrago estava feito: nosso voo para Londrina – programado para sair às 18:30, acabou saindo às 22:00 hs. Não fui o único operário pop vitimado pela chuva, é claro. Encontrei Zezé de Camargo no restaurante do aeroporto, aguardando seu voo para Goiânia. E vi Eduardo Suplicy (posso chamá-lo de operário pop também? Vida de senador não é fácil…) saindo com uma cara de “até que enfim” de um avião que chegara de Brasília. E olha que o Suplicy é um cara tranquilo, hein? No fim das contas deu tudo certo, chegamos a Londrina a tempo de fazer o show – só não deu pra passar no hotel – mas decidi que durante o verão, voos para São Paulo, só pela manhã. Catch me if you can, São Pedro! Aliás, o mais petista dos santos, não?    

singingSugestão …

…. Sem sacanagem, sugiro aqui o kit chuva: DVD de Singing In The Rain, o clássico musical estrelado por Gene Kelly, e o livro cult Deus da Chuva e da Morte, do Jorge Mautner. Depois de lido o livro e visto o filme, a canção Chove Chuva, para cantar junto com o Benjor: hoje eu vou fazer uma prece, pra deus, nosso senhor, que é pra chuva parar, de molhar, o meu amor assim…

Por Tony Bellotto

21/12/2009

às 2:04 \ Cenas

Dia de sorte

avenida-paulista

Caminho pela avenida Paulista – eis a avenida onde vive minha literatura! Entre bitucas de amaldiçoados cigarros, chicletes desgraçadamente mascados, fuligem, excremento de pombos e sujeira generalizada, lá está ela, a minha literatura! Se você se deparar por acaso com minha literatura ao caminhar pela avenida Paulista, não se sinta tão sortudo quanto alguém que encontra um maço de dinheiro vivo, tampouco azarado como aquele que pisa em cocô de cachorro, sinta-se apenas como alguém que conseguiu algo que eu ainda não consegui: encontrar minha literatura.

Aliás, se algum de vocês realmente encontrar minha literatura – na avenida Paulista ou em qualquer outro lugar – por favor avise-me. Vivo à procura dela, e nunca a encontrei. Intuo que ela viva na avenida Paulista, escondida numa esquina. É algo que eu sinto, embora perca tardes e tardes procurando por ela nas alamedas de Ipanema. Nessas horas, entre uma amendoeira e um flamboyant ipanemenses, eu penso: estou no lugar errado, minha literatura é como a sombra do Peter Pan, sempre fugindo de mim. Ela (a minha literatura, não a sombra do Peter Pan) deve estar agora na esquina da Peixoto Gomide com a Paulista, sob uma folha seca ou dentro de uma caixa de fósforos vazia.

A verdade é que não sei onde exatamente minha literatura se esconde, mas posso apostar que é na Paulista. Mas voltando ao início da crônica, caminho pela avenida Paulista e vejo fumantes por todos os lados. Como não podem mais fumar em recintos fechados, os fumantes se aglomeram na avenida em busca das tragadas redentoras. É uma coisa bonita de ver. Sei que o cigarro faz mal e tudo mais, mas o que é que NÃO faz mal? Se tivéssemos de sair à rua toda vez de fazer alguma coisa errada, haveria multidões a céu aberto comendo doces, manteiga, churros e pastéis embebidos em óleo reciclado; bebendo cerveja, pinga e uísque, agredindo-se uns aos outros; transando sem camisinha; usando todo tipo de droga e respirando o ar poluído por gases tóxicos e monóxido de carbono (e não é isso o que acontece pelas ruas o tempo todo?).

Bem, o que vejo agora é uma multidão de fumantes nas calçadas da Paulista. Alguns fumam com orgulho, como Robespierre, o boy de uma empresa de contabilidade. Ele traga o cigarro e me olha desafiadoramente, como quem diz, “fumo sim, mano, e daí? Problema meu!”. Há os que fumam envergonhados, como se sofressem uma humilhação ao serem testemunhados na fruição do prazer solitário (como se sabe, prazer solitário era como se denominava a masturbação no passado. Hoje em dia o termo se aplica perfeitamente ao tabagismo). Como Janete, por exemplo, secretária de uma grande multinacional. Ela solta a fumaça pelo nariz como a desculpar-se, “Perdão, juro que vou parar de fumar no dia 31 de dezembro…”. Teófilo Silva, o mendigo que esmola encostado às grades verdes do parque Trianon, mantém o meio cigarro aceso acoplado à boca banguela, como se o cilindro de papel e o tabaco fizessem parte de sua anatomia. E parece pensar, sorrindo: “Dia de sorte. Encontrei na rua uma bituca que era quase um cigarro inteiro. Tem alguém lá em cima olhando por mim”.

Diários da Bicicleta
Livro…

Diários da Bicicleta, de David Byrne. O
roqueiro escocês, habitante de Nova York,
narra suas aventuras de bicicleta por
várias cidades do mundo. Para
aqueles, como eu, que acreditam no poder do
rock, da literatura e da bicicleta, um guia inestimável.

Por Tony Bellotto

08/12/2009

às 9:20 \ Cenas

Conjunto Nacional

conjunto-nacional

O Conjunto Nacional, em São Paulo, é um prédio modernista fincado na avenida Paulista. Quem passa por ali tem a impressão de que aquele edifício sempre existiu, como uma montanha de pedra remanescente de eras remotas. O andar térreo é também uma galeria tradicional, e passagem que liga a avenida Paulista à alameda Santos e a rua Augusta à Padre João Manoel, ocupando todo o quarteirão.

Na galeria há lojas, livrarias, farmácias, bancos, cinemas, restaurantes, cafés, barbearias, joalherias e outros pontos comerciais. É um lugar mítico pra mim. Passei grande parte da infância, adolescência e juventude perambulando pelo Conjunto Nacional. Até meus 30 anos, sempre vivi ali por perto. Quando voltava da escola, e saltava do ônibus na avenida Paulista, antes de descer a Padre João Manuel rumo à minha casa, dava sempre uma fuçada nas lojas de discos. Foi ali que descobri The Who e Rolling Stones.

Nas livrarias fui apresentado a John Fante, Bukowski, Cortazar e outros autores. Assisti a inúmeros filmes nos cinemas – hoje em dia um deles virou a maior livraria da América Latina, onde já lancei alguns livros – em que vislumbrei pela primeira vez a arte refinada de Kurosawa e Kubrick (isso só para ficar nos cineastas em K) e, se não me falha a memória, dei meus primeiros beijos.

Quando formamos os Titãs, várias vezes nos encontrávamos ali para irmos juntos a ensaios e outros compromissos. Quando lançamos o primeiro disco, eu passava pelas lojas e ficava olhando disfarçadamente meu disco na vitrine entre Led Zeppelins e Caetanos. O Branco Mello morou por uns tempos num apartamento no prédio, e era como se frequentássemos uma cobertura na pirâmide de Gizé.

A primeira vez em que ouvi uma música minha tocando no rádio – Sonífera Ilha – eu estava ali ao lado, no Longchamp, um bar na rua Augusta. Conto tudo isso porque, há poucos dias, estava em São Paulo hospedado num hotel na avenida Paulista e decidi dar uma voltinha na galeria do Conjunto Nacional. Olhei as lojas e livrarias, andei pra lá e pra cá reconhecendo velhos e novos fantasmas. Quando parei para um espresso num bar, escutei um sujeito assobiando distraído o solo de Sonífera Ilha. Agradeci em silêncio e segui andando, nostálgico, com a impressão de que o Conjunto Nacional me agradecia por alguma coisa.

dvd DVD…

…. eu já recomendei o filme, não é porque é a história da minha banda, mas o filme é muito bom e agora foi lançado o DVD com cenas extras. Titãs, A Vida Até Parece Uma Festa, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves. Imperdível.

Por Tony Bellotto

14/09/2009

às 10:38 \ Cenas

Vitória da derrota

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A vida de um rock star no Brasil não é biscoito. Nem a de um amante de bons shows. Num sábado desses saí do Rio de Janeiro num voo que partiu às 7 horas e 45 minutos do Santos Dumont com destino a Congonhas. Até aí tudo bem. O que me intriga é por que eu tive de ir até São Paulo se meu destino era Ilhéus, na Bahia? Me pareceu um retrocesso. Chegamos em São Paulo, eu e Charles Gavin – os Titãs ‘cariocas’ por adoção – e nos juntamos aos Titãs paulistas. Pegamos um voo para Ilhéus. Ali nos esperava um ônibus que nos conduziria até Vitória da Conquista, nosso destino final, onde nos apresentaríamos no tradicional e badalado Festival de Inverno.

Vitória da Conquista, uma das maiores e mais prósperas cidades da Bahia, terra de gado, pecuária, cultura e turismo, antiga morada de gloriosos aimorés e pataxós, hoje habitada por baianos dinâmicos e modernos, muitos deles admiradores dos Titãs. Estávamos ansiosos por encontrar velhos e novos fãs numa cidade onde não tocávamos há muito tempo. A vitória da derrota começou a se manifestar no momento do pouso no aeroporto de Ilhéus, que leva o belo nome de Jorge Amado: as péssimas condições de tempo – chuva e vento forte -não permitiram que o piloto pousasse.

Foram duas tentativas (e duas arremetidas), e mais uma terceira tentativa no aeroporto de Comandatuba. Resultado: mais uma arremetida. Comandatuba também estava inviável. Rumamos para Salvador, onde o tempo estava bom. Os axés, os santos e as baianas nos forneceram um reconfortante acarajé no aeroporto, mas infelizmente não foi possível fretar um avião para levar-nos – mais a equipe técnica e equipamento de palco – até Vitória da Conquista. A opção foi encarar os quinhentos e doze quilômetros de carro.

Àquela altura, umas três horas da tarde, ainda havia tempo hábil para que chegássemos ao nosso destino. Depois de rodados mais de cem quilômetros, próximos à Feira de Santana, caímos num engarrafamento monstruoso na BR 116. Parecia que estávamos na Marginal Tietê, em São Paulo, em plena sexta-feira às seis e meia da tarde. Ah, mundo globalizado. Em algum ponto da estrada abriu-se uma cratera, e qual uma maldição nos impediu de fazer o show, pois não conseguimos avançar mais que dez quilômetros em três horas.

Simplesmente não conseguimos chegar à Vitória da Conquista. Nós e o público, separados por mais de quinhentos quilômetros, fomos dormir com um gosto amargo na boca. E com a certeza de que às vezes os ossos do ofício são duros de roer.

Guia Quatro Rodas, o inseparável companheiro dos Titãs pelas estradas e cidades brasileiras. Imprescindível para quem quer se aventurar pelo Impávido Colosso.

Por Tony Bellotto


 

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