Solilóquios do sushi-bar I
Toda vez que estou em São Paulo dou um jeito de almoçar, pelo menos uma vez que seja, no Sushigen. Ali me sinto em casa e lembro dos anos 80, quando já frequentava o restaurante, numa época em que restaurantes japoneses eram japoneses mesmo, sem frescuras de alta gastronomia. Antes da fase dos grandes e afetados chefs de cozinha, estes superestimados gênios de nossa era, houve a fase heróica dos sushi-men, gloriosos samurais saídos direto de um filme de Kurosawa para as ruas da Liberdade, o bairro oriental de São Paulo.
Quem viveu aquela época sabe do que estou falando. Bem, voltando ao solilóquio – bela palavra, hein? -, no Sushigen come-se tão bem quanto em qualquer japonês hypado, com a vantagem de se pagar muito, mas muito, menos. Sushi-bares são os lugares ideais para os famintos solitários. Você se senta no sushi-bar, abre um livro, ou o jornal, e fica à vontade, sem ninguém te olhar estranho por estar sozinho num restaurante. Se você não tem, ou não quer ler um livro ou um jornal, tudo bem, pode ficar ali de papo pro ar, degustando sushis e sahimis enquanto admira o sushi man trabalhar. Ou puxar conversa com o vizinho, outro faminto solitário, ou simplesmente bebericar um saquê, ou um chá verde, em doce contemplação e plácido silêncio.
Há sempre um calendário com a foto de uma cerejeira em flor em algum lugar. Por que digressiono aqui sobre o Sushigen? Foi ali que encontrei na semana passada meu amigo Pena Schmidt. Pena Schmidt, mais conhecido como Peninha, foi o produtor do primeiro disco dos Titãs, em 1984, e co-produtor, junto com Liminha, do Cabeça Dinossauro, de 1986. Além de produtor, ele era uma espécie de olheiro da Warner Music, e descobriu outras grandes bandas da época, como Ultraje a Rigor e Ira, entre tantas outras. Pena já se destacava em produção de discos desde a década de 70, quando trabalhou em discos seminais de muitos artistas, Walter Franco entre eles.
O mais engraçado é que Peninha, por mais roqueiro que fosse, nunca perdeu uma aura zen, que o levou, inclusive, a diversificar as atividades profissionais e abrir uma fábrica de pipas e papagaios. Hoje em dia ele continua agitando, e atualmente é o curador de uma das melhores salas de espetáculos de São Paulo. Bem, o Peninha estava ao meu lado no sushi- bar lendo um jornal e degustando as maravilhas do Sushigen. Trocamos abraços, ideias e palavras carinhosas.
Serei sempre agradecido ao Peninha, entre tantas outras coisas, por ter tirado aquele som incrível da minha guitarra em Sonífera Ilha. Aquele timbre de Fender Stratocaster que remete ao timbre clássico do Mark Knopfler, não é fácil de se conseguir. Ficou como uma das marcas principais de Sonífera e dos Titãs no começo da carreira. Como disse Peninha, ao fim de nossa conversa em que muitas lembranças foram evocadas: “O que nós fizemos, agora virou História”. Frase que nos arrancou uma boa gargalhada.
Disco…
…Não quero puxar a brasa para a minha sardinha, mas escutar de vez em quando nosso primeiro disco, Titãs, de 1984, é um tremendo barato.
Tags: cerejeiras, restaurante japones, São Paulo




Sugestão …


DVD…




