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rio

09/04/2010

às 18:17 \ Cenas

Pesadelo

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A semana começou estranha, eu ainda abalado pela foto de Dzhennet Abdurakhmanova, a menina bomba que nublou minha Páscoa (e a de uma infinidade de seres humanos, incluindo os russos que perderam amigos, parentes, conhecidos, entes queridos, amantes, cônjuges ou simples compatriotas naquela sinistra explosão no metrô de Moscou). Na ida para São Paulo, na segunda-feira, uma inquietação inusitada no Santos Dumont – com voos atrasados e muita gente ansiosa perambulando pra lá e pra cá – chamava a atenção como uma rajada de vento frio fora de época.

E então, ainda no saguão lotado do aeroporto, a confirmação de mais um prenúncio de que a semana não seria um doce de leite: num jornal, a foto assustadora de Dilma Rousseff afagando a cabeça de Antony Garotinho. Argh! Belisquei-me. Estaria tendo um pesadelo à luz do dia? Ou entrado num trem-fantasma por engano? Não. Aquele retrato era real. O Rio não merece. Não mesmo, vivi aqui os oito anos de governo garotinho e sei do que falo. Mas não podia imaginar, naquele momento, que a foto dos sorridentes Dilma e Garotinho era ao mesmo tempo presságio e metáfora de algo ainda mais terrível que se anunciava, literalmente, nas nuvens que acinzentavam os céus cariocas.

O voo para São Paulo foi tranquilo. Uma leve turbulência alguns minutos após a decolagem não faria supor a devastadora tempestade que se deslocava resoluta na direção contrária à minha, como um exército de cavaleiros cegos do apocalipse. Só em São Paulo, mais tarde, tive notícias da catástrofe que se abateu como uma bomba de Hiroshima sobre Niterói e Rio, a ex-cidade maravilhosa.

E por mais que governador, prefeitos e presidente queiram culpar a estrondosa força da natureza e a imprevisível ira dos eventos climáticos extraordinários pelos estragos, não há como negar que calamidades como essa, se não podem ser evitadas, podem sim ter seus efeitos minimizados se nossos governantes e também nós, cidadãos, tivermos mais vontade, educação, organização, respeito, responsabilidade etc etc.

Você conhece o filme. Eu também. Ele é horrível. Não é só no Rio. Chuvas e deslizamentos tem matado gente em São Paulo, Santa Catarina, Angra dos Reis, nordeste e por aí afora (ou adentro). Uma pena que tantas vidas sejam sacrificadas e ainda assim incapazes de nos despertar de nossa ilusão ufanista. Não somos o país emergente do Brics, o país da Copa e da Olimpíada, não somos o país governado pelo “cara” que se arvora em artífice da paz no Oriente Médio, não somos uma nação séria. Somos um monte de Haitis empilhados, entremeados eventualmente por uma Oscar Freire, uma Vieira Souto e até um Eike Batista. Somos um monte de Haitis amontoados e soterrados, e a foto de Dilma e Garotinho sorrindo não nos deixará esquecer disso.

Filme…

…Não consigo pensar em nada melhor do que um filme de terror, daqueles bem bagaceiras, para nos distrair em tempos tão esquisitos. Sexta-Feira 13, por exemplo, é um clássico do gênero.

Por Tony Bellotto

12/02/2010

às 11:29 \ Pessoas

Boa viagem, vizinho!

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O prédio onde moro aqui em Ipanema tem algumas peculiaridades. Aparentemente um edifício comum, desses que se erguem não muito altos (cinco andares) pelas alamedas ensolaradas do bairro, revela-se único a um olhar mais atento. Abriga uma memória triste e outra feliz de nossa história. Situado na rua Nascimento Silva, rua imortalizada por Vinícius e Toquinho em sua Carta ao Tom (não, não moro no número 107, ali morou o Tom, não o Tony), foi a última morada do general Castelo Branco, o primeiro presidente da ditadura militar, que daqui zarpou numa viagem da qual não regressaria. Um voo nos céus do Ceará onde nascera conduziu-o à morte. Há até hoje especulações de que o acidente aéreo que o vitimou teria sido proposital. É o que dizem também do acidente automobilístico que matou Juscelino Kubitschek na via Dutra (outro presidente). Pelo jeito, presidentes e ex-presidentes não têm o direito de morrer em acidentes. Acabam, de uma maneira ou de outra, dando nomes a rodovias e aeroportos. Mesmo que se discorde – e eu discordo! – das posições políticas do general Castelo Branco, não há como negar que ele faz parte da história do Brasil. Uma parte trágica dessa história, com certeza.

Então meu prédio abriga uma parte triste da história do nosso país. Mas abriga igualmente uma parte feliz dessa mesma história. E agora eu falo de um vizinho – por muito tempo também o síndico – de que me orgulho muito. Orlando Peçanha, um dos titãs do futebol brasileiro, zagueiro titular – ao lado de Bellini – da seleção que conquistou nossa primeira Copa do Mundo em 1958 na Suécia. Ontem acordei com a triste notícia de que o Orlando morreu. É estranho perder um vizinho. Porque vizinho não é amigo – embora sejam, em alguns casos. Às vezes se tornam inimigos também, e dos mais ferrenhos.

Não era o meu caso com o Orlando. Nem amigos, nem inimigos, vizinhos simplesmente. Tínhamos uma convivência esporádica e pacífica, composta de bons dias e boas noites, mas sempre com olhares simpáticos e sorrisos mútuos. Não sei se ele curtia rock and roll, mas eu sempre o olhava com admiração. Além da participação nas Copas de 58 e 66 (a copa de 62 ele não jogou por estar atuando no futebol argentino, defendendo a zaga do Boca Juniors), Orlando foi várias vezes campeão pelo Vasco, Boca Juniors e Santos, o glorioso alvinegro praiano, que vem a ser o meu time de coração (hoje em dia ele divide a vaga com o Flamengo, que me conquistou pelos corações dos meus filhos e o da minha mulher). Quando Castelo Branco morreu, eu ainda não morava aqui. Se morasse, não sei se teria desejado a ele uma boa viagem naquele julho cinzento de 1967. Também não consegui me despedir do Orlando Peçanha. A ele eu teria desejado sorte. Fica então registrado aqui, vizinho campeão, meu desejo de uma boa viagem.

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…Futebol e Rio de Janeiro inspiram a música de Benjor, o imortal Jorge Ben para os íntimos. A recém lançada caixa de CDs SALVE, JORGE! que reúne seus sucessos e algumas raridades é absolutamente imperdível. Boa pedida para o Carnaval (e para a Páscoa, Dia dos Namorados, das Mães, dos Pais, da Criança etc).

Por Tony Bellotto

10/12/2009

às 22:49 \ Pessoas

Piada

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A celeuma causada pelas declarações do ator Robin Williams no programa do David Letterman – disse o ator que o Rio só ganhou a indicação de cidade sede das Olimpíadas de 2016 porque seus representantes seduziram os eleitores olímpicos com cocaína e strippers – é descabida. Foi uma piada, e como tal deve ser entendida. Ou alguém acredita que isso aconteceu de verdade?

Boas piadas costumam ser assim, politicamente incorretas, provocativas e até grosseiras. Por essa razão é que rimos delas. A declaração de Williams, ele mesmo um natural de Chicago, era muito mais crítica em relação a Michele Obama e Oprah Winfrey, pois sugere que cocaína e strippers brasileiras sejam mais convincentes que as duas damas em questão, enviadas como representantes de Chicago à votação do comitê olímpico (e não são?).

Não sei se Michele e Oprah se manifestaram a respeito, mas é provável que tenham entendido a piada e até rido dela. Há algum tempo houve situação parecida, com a indignação oficial do então prefeito do Rio, César Maia, com um episódio dos Simpsons que mostrava a cidade como uma selva subdesenvolvida. Não dá pra negar que o Brasil, e o Rio em especial, é em alguns momentos uma selva subdesenvolvida reinada por traficantes de cocaína e frequentada por mulheres nuas. Basta ler os jornais.

Atitudes ufanistas de indignação por parte de governantes contra piadas desse tipo só evidenciam nosso provincianismo. Temos problemas suficientes – como a violência urbana e o tráfico de drogas, por exemplo – com que nos preocupar para perder tempo com uma piada do Robin Williams. Mesmo que seja uma boa piada.

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Sociedade Dos Poetas Mortos, uma bela atuação de Robin Williams, grande ator, que não merece virar um vilão só porque contou uma (boa) piada grosseira.

Por Tony Bellotto

29/10/2009

às 23:08 \ Cenas

Bizarro

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O sobrenome do PM é emblemático: Bizarro. O capitão Denis Leonard Nogueira Bizarro e seu companheiro cabo Marcos de Oliveira Salles, PMs cariocas, não só deixaram de socorrer o corpo agonizante largado na calçada, como ainda levaram dos assaltantes assassinos (a quem graciosamente concederam a liberdade) o butim do latrocínio: um par de tênis e uma jaqueta.

É quanto custou a vida de Evandro Silva, coordenador de projetos sociais do grupo AfroReggae, responsável por ações sociais que utilizam a arte e a cultura como forma de inclusão social e recuperação de jovens cooptados pelo tráfico de drogas e crime organizado. Uma bizarrice e tanto. Trágica, corriqueira, revoltante e inaceitável.

Dias de fogo e de sangue estes que vivemos no Rio olímpico fraturado. A polícia carioca exibe para o resto do Brasil e do mundo as suas duas exuberantes e horrorosas faces: uma, a de homens honrados e corajosos que sobem o morro trocando tiros com bandidos, lutando para pacificar comunidades tomadas pelo crime e pela irracionalidade, muitas vezes pagando com a própria vida (e a vida de civis inocentes) o preço de uma luta inglória e devastadora.

Outra, a de homens sem caráter, zumbis guiados pela imensa e acomodada bússola corrupta verde amarela que a todos norteia, PMs que ao verem o corpo de Evandro Silva caído no chão, se esvaindo em sangue, não fizeram nada. Sequer socorreram-no. Mas correram afoitos até os assassinos e os liberaram em troca da jaqueta e do par de tênis de Evandro. A cidade partida também tem uma polícia partida. E enquanto não resolver essa dicotomia fundamental, essa contradição primária, esse paradoxo essencial, não contará com uma Polícia digna do nome (na acepção do Houaiss: conjunto de leis e disposições que asseguram a ordem, a moralidade e a segurança em uma sociedade).

Entre erros e acertos, mais acertos que erros, não há como negar que o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, é um homem sério e disposto a descascar com competência esse totêmico e gigantesco abacaxi podre que é a segurança pública do Rio. Depois de sucessivos governos ambíguos e ineficientes, o momento é de reconstrução. Que a luz da razão ilumine o caminho desse homem corajoso nessa hercúlea missão abacaxi. Que os exemplos e inspirações – de Elliot Ness a Sigmund Freud, de Mahatma Gandhi a Rudolph Giuliani – o conduzam a unir e pacificar antes de tudo a própria polícia.

 

DVD…

Favela Rising, produção brasileira e americana, dirigido por Matt Mochary e Fred Zimbalist, o filme conta a história do grupo cultural Afroreggae.

Por Tony Bellotto

02/10/2009

às 14:29 \ Brasil

Rio!!!

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Minha sogra sempre fala do silêncio no Maracanã na final da Copa de 1950, depois que perdemos o jogo para o Uruguai. Mesmo quem não estava lá, ou quem ainda nem tinha nascido, conhece aquele silêncio. Faz parte de nosso DNA. É um tijolo importante na construção da nossa identidade cultural. Se o Brasil estava na época preparado ou não para realizar uma Copa eu não sei. Mas a poesia e a tristeza daquele silêncio permanecem como a inauguração de alguma coisa difusa, porém fundamental para nós, brasileiros.

Imagens do Rio povoam a mente de qualquer brasileiro. Seja num cartão postal, num calendário ou numa cena de novela. Algumas imagens eu não vou esquecer nunca: a noite em que os Titãs abriram o show dos Rolling Stones, eu em cima do palco, o coração saindo pela boca, vislumbrando aquele formigueiro sem fim, mais de um milhão de pessoas na praia de Copacabana. E o que mais me impressionou: o número de barcos ancorados na baía, uma verdadeira favela iluminada em que barracos se transformaram em barcos. E os Stones, intrigados: um milhão de pessoas e nenhum incidente grave, nenhuma rebelião, nenhum pisoteamento?

Para os cariocas nada demais, todos os revéillons na praia são assim, brother. Como é que um negócio desses pode dar certo? Numa das cidades mais violentas do mundo? Ninguém jamais saberá explicar. Ou entender. A insustentável leveza do ser carioca. A cidade em que o aeroporto leva o nome de um compositor de música popular. Aqui estão o bom-humor, a corrupção, a alegria, as balas perdidas e as licenças poéticas.

Das velhinhas de cabelo azul passeando por Copacabana aos gringos em safári pela favela, dos flanelinhas banguelas guardando carros na Barra às madames botocadas saindo do Gero, dos sambistas sorridentes da velha guarda aos clubbers doidões, virados de ecstasy, dos fotógrafos de celebridades aos bebês chorões, brincando na areia, dos pitboys lutadores de jiu-jitsu aos casais gays abraçados na Farme de Amoedo, ninguém se preocupará em entender. Ou explicar.

Continuam as imagens na minha cabeça: a ECO 92, Jello Biafra passeando despercebido pelos stands ecológicos. Não é o cara do Dead Kennedys? Rubem Fonseca caminhando pelo Leblon, finjo que não vejo pra não encher o saco do Mestre. Não é a Juliana Paes? Onde? Ali! Os arrastões na praia, o abraço na Lagoa.

Meu filho de catorze anos foi assaltado pela primeira vez na semana passada. Não liga, João, é assim mesmo. Ser assaltado, nessa cidade, é como participar de um rito de passagem. Como uma primeira comunhão, ou um bar mitzvah. Como sair numa escola de samba, ou comer biscoito de polvilho Globo na praia de Ipanema num domingo de sol. Ou assistir a um Fla Flu no Maracanã. Ver uma peça de Nelson Rodrigues, adentrar um prédio projetado por Oscar Niemeyer.

A cidade vai penetrando a gente, mineiros, paulistas, franceses, marcianos, e não desgruda mais. Rock in Rio em Lisboa. Na boa. O Brasil como ele é. Ronald Biggs, lembram dele? O mais carioca dos ingleses, a prova viva de que aqui até o crime compensa. Ex-terroristas, generais de pijama, maconheiros e padres surfistas, crianças cheirando cola, empresários contando grana, ninguém jamais poderá explicar. Ou entender.

Meca de todos os grandes golpistas no cinema e na vida real, ex-capital da colônia, ex-capital do Império Lusitano durante as guerras napoleônicas, ex-capital do Império do Brasil, ex-capital da República, perene cidade maravilhosa, terra da beleza e do caos, o paraíso depois que Adão e Eva foram expulsos, mas ainda sob as bênçãos sólidas de um barbudo concreto com braços permanentemente abertos. As contradições desabando sobre nossas cabeças como pedras numa avalanche. Eu explico: as cidades, como as mulheres, não precisam ser entendidas, precisam ser amadas. O barulho que escuto agora vindo da rua – buzinas, gritos, rojões – contrasta com o silêncio do Maracanã em 1950. Mas confirma que vivemos novamente a inauguração de alguma coisa difusa, porém fundamental para nós, brasileiros. A mim, resta conjugar na primeira pessoa do singular do presente do indicativo o verbo que expressa a alegria: Rio!!!

Por Tony Bellotto


 

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