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religião

17/10/2011

às 12:24 \ Cenas

Não sou o único

Imagine um mundo sem religião. É fácil se você tentar. Ok, talvez eu esteja pedindo demais (eu e o John Lennon). Imagine então um mundo em que não se doutrinariam as crianças nas escolas, deixando que elas, depois de adultas e intelectualmente formadas, escolhessem seus próprios caminhos. Isso não é pedir demais, é? Leio consternado que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, está prestes a sancionar um projeto de lei que prevê a contratação de 600 professores para darem aulas de religião em escolas municipais. Isso é um retrocesso, e uma violência intelectual contra as crianças do Rio de Janeiro.

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Por Tony Bellotto

10/10/2011

às 14:51 \ Cenas

Um Cristo sem religião

Não sou de maneira nenhuma o que se chama de um cristão, e se existiu mesmo esse profeta tal como é descrito, admiro muitas de suas ideias e palavras, embora não consiga acreditar que homens possam ser concebidos em úteros de mulheres virgens (não naquela época, pelo menos, em que a medicina reprodutiva inexistia), ou que tenham a capacidade de fato de ressuscitar mortos ou multiplicar peixes e pães.

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Por Tony Bellotto

25/08/2011

às 20:47 \ Cenas

Contem comigo!

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostra que diminui o número de católicos no Brasil. De 2003 a 2009 houve uma queda de 74% para 68% de pessoas que se dizem católicas no país. A queda ocorre em todas as classes sociais. Até aí tudo bem. Não é preciso ser nenhum especialista em pesquisas da FGV para perceber que o catolicismo perde força no Brasil. A boa notícia – para mim, que sou ateu e não tenho religião – é que a pesquisa atesta também um crescimento no número de pessoas sem religião em todos os grupos de renda. Todos. Essa me espantou.

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Por Tony Bellotto

27/05/2010

às 19:30 \ Mundo

Brincando nos campos do senhor

Muitos acusam o cientista Craig Venter de estar brincando de Deus. A brincadeira, no caso, foi criar vida do nada. A façanha, até então atribuída única e exclusivamente ao Velho Senhor de Barbas (o Outro, já que barbas, Venter também as tem), tem causado rebuliço. Bem, qual o problema de alguém brincar de Deus? Não é o que fazemos sempre quando matamos formigas ou baratas? Deuses menos brilhantes, claro, mas ainda assim arvorados da capacidade de devolver ao nada formas vivas criadas ao custo de tanto esforço e esmero (de Deus, dos deuses ou da evolução biológica, escolha a alternativa que melhor lhe convenha). Quem aqui nunca matou uma barata? Se criar a vida é atributo exclusivo Dele, não seria também Dele o atributo de dar cabo dela? Tudo certo, podemos conviver em paz com esse complexo de Deus que costuma nos acometer. E também com os dês maiúsculos e minúsculos que a lei das propriedades nominais nos obriga a usar, assim como com os cacófatos que a pressa e a desatenção dos cronistas nos forçam a ler. Não fosse nossa curiosidade infantil e infinita vontade de inventar moda, talvez ainda estivéssemos a correr de leopardos pelas savanas. Nus e descalços, com toda certeza. A capacidade de criar é de tal forma inerente aos humanos, que até prova em contrário (com o sincero respeito, até hoje não se conseguiu provar a existência Dele) Deus é uma criação do homem, e não vice-versa. O que nos leva a pensar se não seria Deus aquele que brinca de homem. No que também não vejo o menor problema. Brincadeiras inocentes são muitas vezes o motor de grandes invenções. Por exemplo, só pra ficar na minha seara, Elvis e seus companheiros de banda tocando irresponsavelmente um blues num andamento de country music, o que gerou o rock’n roll, esse estilo musical atribuído por muitos ao demônio. Ou Benjamin Franklin durante uma tempestade empinando perigosamente uma pipa que, ao ser atingida por um raio, possibilitou a invenção do para-raios, esse grande salvador de vidas, televisões e outros aparelhos domésticos. Gostamos tanto de criar e inventar, que mesmo dormindo costumamos brincar de Deus, o que confirma a lenda de que Isaac Newton teria percebido a lei da gravitação universal ao ser alvejado na cabeça por uma maçã que se desprendera da macieira sob a qual tirava um cochilo. E para provar que a capacidade de brincar e fazer trocadilhos – ainda que infames – é das mais nobres que possuimos, alguém já reparou como o nome de Craig (in) Venter é adequado a um inVentor?

Não dá pra falar de brincadeira como fonte de criação séria sem lembrar do Bussunda. O livro Bussunda: A vida do casseta, de Guilherme Fiúza, é pra ser lido já.

Por Tony Bellotto

25/02/2010

às 21:01 \ Mundo

2012

embriao-humano

Preparem as pedras e as lanças! Afiem as espadas! Aqueles que concordarem comigo podem atirar pétalas vermelhas e amarelas. Falaremos de – tchan-tchan-tchan-tchan! -: Espanha! Calma, infelizmente não dissertarei sobre castanholas, paellas, touradas ou Penélope Cruz. Sei que decepcionarei muita gente, mas vamos debater assuntos menos glamurosos. Religião e…aborto. Desculpe. É o que dá ler o jornal todo dia.

Está lá, li hoje de manhã na Folha de São Paulo: o Senado da Espanha aprovou em definitivo lei que libera o aborto até a 14ª semana de gestação e permite a adolescentes entre 16 e 18 anos interromper a gravidez mesmo sem o consentimento dos pais. Façamos uma reflexão. A Espanha é um estado moderno, democrático, cuja maioria absoluta da população é católica, certo? Os senadores espanhóis, ao que me consta, não são monstros eleitos para aprovar leis que permitam matanças generalizadas (com exceção dos touros, talvez), correto?

Calma, continue comigo, depois você poderá argumentar. O que a Espanha acaba de fazer – como muitos outros países já fizeram – foi reconhecer o direito das mulheres à assistência médica e psicológica em casos de gravidez interrompida. É diferente de dizer: aprovamos o aborto porque somos sádicos, desalmados, insanos, cruéis e antirreligiosos. É muito diferente, não?

Sei que sempre que abordo o assunto sou alvejado por críticas e chuvas de impropérios, mas eu não estou sozinho. Tenho comigo, pelo menos, a maioria do senado espanhol. Não acompanho a política espanhola em profundidade, e sei que o país vive no momento reflexos negativos da crise financeira mundial. Mas não é difícil deduzir que a imagem dos senadores espanhóis é bem melhor que a dos nossos senadores brazucas, confere? (precisamos relembrar de todos os escândalos? Teremos tempo para tanto?). Então vamos dar um crédito aos senadores espanhóis e acreditar que um país civilizado e decente (e religioso) pode sim aprovar o aborto. Ainda vamos chegar lá, boto fé.

Ok, falei da Espanha e do aborto. Onde entra a religião nessa crônica? É que toda vez que falo de estado laico sempre me aparece um engraçadinho – um, não, dezenas – vociferando contra minhas convicções o mais pueril e estúpido dos argumentos: “Quer dizer, Tony, que se levarmos em conta as suas propostas, teremos de implodir o Cristo Redentor?”.

Ai, ai. Preciso responder a uma bobagem dessas? A França (outro país razoavelmente confiável, não?) proibiu imagens religiosas em suas escolas públicas e nem por isso determinou a implosão da igreja de Notre-Dame. Aliás, quem costuma implodir – e explodir – imagens religiosas, que eu saiba, são justamente fanáticos religiosos. E sempre o fazem em nome de alguma religião, invariavelmente a sua própria. Como os talibãs, por exemplo, que mandaram pelos ares imagens antiquíssimas de Budas de imenso valor artístico, histórico, cultural e religioso. Mas isso não vem ao caso. É que li no jornal – além da notícia da aprovação do aborto na Espanha – uma outra notícia interessante: a de que a Arquidiocese do Rio quer processar a produtora de cinema Columbia por usar sem autorização a imagem do Cristo Redentor despencando do Corcovado no filme 2012. Não é piada, juro. A Arquidiocese do Rio não tem nada melhor pra fazer? Dá o que pensar.

filme-educacao1

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Filme…

Educação, com roteiro de Nick Hornby,
mostra os conflitos de uma moça inglesa na década de
1960, em busca de liberdade e realização pessoal.

Por Tony Bellotto

04/02/2010

às 21:47 \ Cenas

Mais do mesmo

sexo-figura2

Vamos lá, esta promete ser uma daquelas minhas crônicas clássicas: falaremos de sexo (oba!), mulheres, homossexualismo, religião, bispos, generais, política, direitos individuais etc, etc. Meus detratores já estarão pensando: “Lá vem ele de novo, propor alguma polêmica para ganhar Ibope!” Uma torrente de comentários indignados de meus inúmeros leitores pode gerar algum transtorno no trânsito online, assim como a avalanche de comentários favoráveis talvez entupa alguns dos bueiros de nosso site. Peço desculpas pelo incômodo desde já. Duas notícias me deixaram com a pulga atrás da orelha essa semana. A primeira, a divulgação do manifesto dos bispos católicos contra pontos do Programa Nacional de Direitos Humanos. É a mesma ladainha de sempre, e não se poderia esperar outra coisa de um manifesto de bispos católicos: rejeição à legalização do aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao direito de adoção por casais homoafetivos e à criação de mecanismos para impedir a exibição de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos. Ok, ok.

Surpreendente seria se os bispos decidissem apoiar tais medidas. Senhores bispos, permitam-me respeitosamente apresentar algumas questões: continuaremos deixando que milhares de mulheres brasileiras morram ou sofram sequelas físicas e psicológicas por conta de abortos mal feitos? Ou os senhores acreditam que elas deixarão de fazer abortos só porque a igreja condena a prática? Não estariam melhor assistidas se o governo as apoiasse e criasse campanhas preventivas para evitar a gravidez indesejada? E os homossexuais? Dois homens ou mulheres que se amem não têm o direito de viver juntos e formar uma família? Tenho um amigo que foi impedido num hospital de visitar o companheiro que agonizava na UTI. Motivo: só a parentes ou cônjuges era permitida a entrada. Os senhores definiriam isso como um comportamento cristão? Desculpem-me, talvez eu não tenha entendido nada quando li o sermão da montanha de Jesus Cristo. Quanto aos símbolos religiosos em estabelecimentos públicos, bem, os senhores estariam dispostos a dividir o espaço dos crucifixos com imagens de Iemanjá e fotos do Chico Xavier?

Agora vamos à segunda notícia: um general do Exército afirmou no Congresso que os gays só devem ser aceitos nos quartéis se mantiverem a opção sexual em segredo. Puxa, senhor general, com todo o respeito, o Obama tenta aprovar uma lei nos Estados Unidos que determina exatamente o contrário: gays devem ser aceitos nas forças armadas norte-americanas. E existe Exército mais poderoso e macho que o americano? Sei que não precisamos imitar os americanos em tudo, mas entendo que a afirmação do general é motivada por preconceito. Segundo ele soldados não se sentem à vontade para obedecer a um superior gay etc, etc. Se não se sentem é por puro preconceito, nada mais. Não é por que o sujeito é homossexual que ele vai querer comandar uma tropa vestido de Carmen Miranda e dando gritinhos histéricos. Essa visão estereotipada do homossexual também é fruto do mais abominável preconceito. E a melhor forma de combatê-lo é mostrando aos soldados que um homem (ou uma mulher) pode ser digno independente de sua opção sexual.

Despidos das fardas, senhor general, e das batinas, senhores bispos, somos todos iguais.

Livro…

… Já que falamos de polêmicas, não percam o novo livro de contos de Marcelo Mirisola, Memórias da Sauna Finlandesa. O homem é um dos expoentes da nossa literatura atual, e escreve de uma maneira única, numa linguagem ao mesmo tempo iconoclasta e sedutora.

Por Tony Bellotto

15/12/2009

às 9:05 \ Cenas

Padre enrustido

padre

Outro dia um leitor postou aqui um comentário em que reclamava de minha obsessão dicotômica com os temas religião e homossexualismo. Muda o disco, Tony!, alertava o arguto leitor, não sem alguma razão. Refleti sobre a questão. É verdade que tenho insistido nos temas. Tinha inclusive preparado para a semana duas crônicas que abordariam adivinhem quais questões? Religião e homossexualismo! A primeira versaria sobre a proibição na Itália de crucifixos em escolas públicas. É claro que eu defenderia no texto – com palavras agudas como unhas e dentes – a proibição de qualquer símbolo religioso em escolas públicas de estados laicos, e argumentaria que essa proibição era, em última análise, uma preservação do direito de cada um seguir a religião que bem entender (ou de não seguir nenhuma).

A crônica sobre o homossexualismo dissertaria sobre o fato de sermos um estado conservador e titubeante em relação aos direitos dos homossexuais, mas por outro lado, paradoxalmente, famosos mundialmente por nossos homossexuais. O Rio foi considerado o melhor destino gay do planeta, travestis brasileiros formam uma entidade das mais respeitadas e desejadas da Europa – uma verdadeira grife -, e nossas bichas são admiradas e imitadas planeta afora por sua criatividade e alegria.

Reli os rascunhos das duas protocrônicas e refleti. Serei eu um padre gay enrustido? Guardarei no armário um crucifixo e uma calcinha? Com medo de abrir o armário, resolvi variar os temas das crônicas. Menos trabalhoso. Pensei em falar sobre algum tema premente. Corrupção no Detrito Federal, Flamengo campeão brasileiro, polêmica em torno do filme O Filho do Brasil. Mas aí me deu uma preguiça danada.

Todo mundo já falou tudo o que podia ser falado sobre esses temas. Resolvi então olhar para dentro e contar sobre uma breve epifania que me aconteceu há algumas semanas numa turnê pelo sul do país. Ela não terá a menor importância para ninguém (a não ser confirmar, para alguns, que eu sou mesmo um padre gay enrustido). Numa viagem entre Horizontina e Cascavel, paramos num simpático restaurante próximo a Frederico Westphalen, no Rio Grande. Ali, à beira do rio Uruguai, comemos um dourado frito com cerveja. De repente, uma ventania balançou as árvores. Folhas voaram pelo ar, e um falcão voou solitário até a Argentina, do outro lado do rio.

O Leitor Apaixonado

 
Livro…

O Leitor Apaixonado, obra que reúne
crônicas de Rui Castro sobre literatura e
escritores. Eu, sempre um leitor apaixonado
do Rui, com seu estilo elegante e irônico,
devorei o livro em duas tardes.

Por Tony Bellotto

16/07/2009

às 21:46 \ Cenas

Propaganda é a alma do negócio

O artigo 4 do livro de regras da FIFA recomenda que jogadores de futebol não usem camisas com mensagens religiosas e slogans políticos em jogos oficiais, sob ameaça de punição. Fica assim alertado aquele jogador de um obscuro time do interior paulista que aponta o dedo para o chão a cada gol marcado, em agradecimento a Satanás, a quem atribui as glórias satânicas conquistadas com seus dribles e chutes. Se mensagem religiosa e mensagem anti-religiosa se equivalem, ficam também devidamente avisados do risco que correm jogadores ateus que vestem camisetas com dizeres como “Eu não amo Jesus” e “Deus não existe” a cada título comemorado.

O centroavante índio de um time do Mato Grosso – não me lembro o nome dele agora – também está proibido de levantar a camisa e deixar à mostra a frase “Tupã é meu guia” estampada no peito. O mesmo vale para o conhecido e chatíssimo lateral esquerdo que insiste em ler aos jornalistas – ao término de cada jogo – trechos do célebre discurso de Bertrand Russel, “Por que não sou cristão”.

Parece bobagem? Não é. A FIFA acaba de entregar à CBF um documento em que adverte os jogadores brasileiros a não exibirem camisas com mensagens religiosas. A FIFA está certíssima. Reage à recente manifestação de fervor religioso do jogador Lúcio que, ao comemorar o título da Copa das Confederações na África do Sul, exibiu uma camiseta com a frase “I love Jesus”. Kaká trazia um “I belong to Jesus” na camisa. “Aquelas imagens chocaram”, declarou um jornalista sueco. “Pareceu fundamentalismo religioso. Não se mistura futebol com religião. A seleção brasileira corre o risco de perder a admiração”.

Concordo. Religião (e não-religião), crença (e descrença) são assuntos íntimos e opções pessoais. Me desagradou a imagem daquelas camisas fazendo propaganda religiosa num evento esportivo. Um alto executivo de uma grande empresa de material esportivo, presente à final, resmungou: “Queria saber quanto Jesus pagou…”

 

Livro…

Indignação, o mais recente livro de Philip Roth publicado no
Brasil. Não me canso de recomendar – e ler e reler – os livros desse genial
escritor norte-americano.

Por Tony Bellotto


 

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