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políticos

05/09/2011

às 12:48 \ Cenas

Fantasmas na piscina

( ** Por sugestão da redação e com a concordância dos colunistas, Betty Milan comentou este post de Tony Bellotto. Leia: Tony Bellotto entre fantasmas)

Hoje sonhei que nadava sozinho numa piscina. Era noite, e de repente as luzes se apagaram. Fiquei nadando na escuridão, um pouco assustado, e quando as luzes voltaram, menos intensas, a piscina estava cheia de fantasmas. Pareciam pessoas normais – elas nadavam, conversavam e riam – mas eu sabia que eram fantasmas. Saí da piscina muito assustado e comecei a gritar. Meus gritos, não sei por que motivo, tinham a capacidade de fazer os fantasmas se desintegrar na água. Mas eles eram muitos, e senti que aquela gritaria, que tinha o estranho poder de aniquilar fantasmas, ia me dar um trabalho danado.

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Por Tony Bellotto

22/01/2010

às 0:24 \ Brasil

Brasília fashion

dinheiro-meia

O deputado da meia será afastado do cargo. E assim entrará para a história: como o deputado da meia. Não se fazem mais políticos importantes com nomes imponentes como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves ou Rui Barbosa. Agora os políticos se imortalizam por alcunhas edificantes como o deputado da meia, o senador do bigode, o prefeito da cueca, o vereador da peruca, o governador do panetone, a deputada da bolsa, o assessor da mala, a senadora da propina, o ministro do cartão corporativo, o suplente da pochete e assim por diante.

Já que São Paulo e Rio fervem nesta época do ano com grandes acontecimentos da moda, sugiro que Brasília também crie sua fashion week. A capital federal está precisando de uma hypada, gente! Imagine só, um desfile transadíssimo pelas passarelas desanimadas do senado e da assembleia. Manecos sarados e manecas anoréxicas desfilando os modelos exclusivos para políticos corruptos, assessores propineiros, suplentes mau caráter, lobistas safados, simpatizantes e puxa-sacos em geral.

Meias equipadas com bolsinhos para facilitar o armazenamento do dinheiro, com divisórias para moedas. Cuecas aerodinâmicas com compartimento especial para cheques: o político, além de rechear a cueca de dinheiro público, ainda dará a impressão de que é bem dotado. Perucas com fios sintéticos à prova d’água: o senador ou deputado pode sair na chuva apertando as mãos de eleitores que o dindin não vai ficar molhado. Barrigas falsas com capacidade para armazenar grandes fortunas em dinheiro vivo, revestidas de camada fina de chumbo para não serem detectadas por raios-X.

Para as mulheres, toda uma coleção específica: falsos absorventes íntimos no formato opcional de notas de dólares, euros ou reais. Bolsas Luis Vuitton com fundo falso. Sutiãs que modulam, além do tamanho dos seios, o montante da propina. Isso sem contar os acessórios especiais unissex, como falsos bigodes com chips contendo senhas de contas na Suíça, Ilhas Cayman e outros paraísos fiscais, e o luxo dos luxos: um chapéu deslumbrante em forma de urna eleitoral, que serve também como um cofrinho ambulante, para que as nobres excelências não fiquem nem um minuto longe de seu precioso e suado dinheirinho. O DJ do desfile será o Jesus Luz, para dar um tom mais espiritual ao evento. Tudo pago, evidentemente, com dinheiro público.

hangoverFilme…

Se rir é mesmo o melhor remédio, não percam Hangover, que no Brasil recebeu o título idiota de Se Beber Não Case. Uma comédia divertidíssima, para lavar a alma e desopilar o fígado.

Por Tony Bellotto

05/01/2010

às 8:17 \ Brasil

Amor por dinheiro

A imagem não fala por si. Ela fala para si, que me lê agora. Para si e para todos nós. Ela diz – ou melhor, grita, berra, urra: “Otários!”. E prossegue, em tom jocoso, a desgraçada da imagem que fala – ou melhor, vocifera, brada, exclama: “Rá, rá, rá, se ferraram de novo, imbecis! Vocês não aprendem mesmo, né?”. E depois de uma pausa rápida para respirar (afinal, imagem que fala também respira), a imagem prossegue, reflexiva: “Que caso terrível de masoquismo coletivo esse de vocês! Rá rá rá. Não reagem nunca a todas essas calhordices e falcatruas…”

Estou delirando, a imagem realmente não fala. Ela simplesmente ri, gargalha e escarnece de si, que me lê agora. De si e de todos nós. Lula poderia ter dito: “A imagem não fala por si, mas gargalha de si, otário que me ouve”. O que mais me impressiona nessas infelizmente corriqueiras imagens de corruptos com a mão na massa é a volúpia com que se lançam ao dinheiro. Pupilas brilhantes, maxilares contraídos e mãozinhas afoitas mal disfarçam a euforia que lhes inspira o vil papel. E vão metendo os maços de dinheiro atabalhoadamente por bolsos, cuecas, perucas, meias, fundilhos e qualquer outra fenda ou buraco que se apresente. E fazem isso com a maior desfaçatez, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Os corruptos demonstram um desejo incontido de serem “possuídos” pela grana, de serem “comidos” pelo dinheiro, numa síndrome que talvez nem Freud explicasse, a estranha pulsão patológica que leva seres humanos a enfiar cédulas de dinheiro por orifícios do corpo. Às vezes, ao contrário, parecem querer “comer” a grana, ou “possuí-la”, num eterno e maçante troca-troca monetário. A imagem – sem palavras – que mais me comove é a dos corruptos rezando. O que é aquilo? A quem oram e agradecem pelas granas surrupiadas? O deus dos corruptos deve ser um imenso George Washington sentado num trono kitsch folheado a ouro. Ou um imensurável Benjamin Franklin, Abraham Lincoln ou qualquer outra carantonha que estampe uma nota de dólar (para os corruptos não importa que Washington, Franklin e Lincoln tenham sido políticos importantes, o que vale é que simbolizam dólares).

A imagem que fala para si, caro leitor, reza assim: “O panetone nosso de cada dia, nos dai hoje”. E o grande deus dos corruptos, milagreiro que é, dará um jeito de logo multiplicar não peixes e pães, mas panetones e pizzas. Sempre nos restará o prazer amargo de testemunhar o reality show macabro, o eterno Big Brother da Corrupção. Quem se importa em ver mulheres nuas? Rapazes de tonificados peitorais? Se temos políticos metendo dinheiro por seus recônditos, como cavaleiros do apocalipse ético? Amém.

CD…

…uma edição especial do primeiro disco do Nirvana, Bleach, com fotos, textos e material inédito sobre a grande banda de rock dos anos 90.

Por Tony Bellotto

23/11/2009

às 10:19 \ Brasil

Bobão

marionete

Participei da campanha de Mário Covas para presidente, dando um depoimento para seu programa de TV no horário eleitoral. Confiava nele, adorava seu jeito – peculiar para um político – de homem comum, bem intencionado e sincero. Nunca me arrependi de ter participado da campanha do Covas. Não encontro mais políticos como ele por aí.

Participei também, com os Titãs, da campanha do Lula, no segundo turno da eleição que ele acabou perdendo para o Collor. Tocamos num show pró Lula em Salvador. Foi a única vez em que o vi pessoalmente. Também não me arrependo de ter participado desse show. A história confirmou que eu estava certo quando as maracutaias do Caçador de Marajás vieram a público algum tempo depois.

Mas não sei como reagiria se, naquele palco em Salvador, uma mãe de santo do Gantois me dissesse, “se liga, mané, daqui a alguns anos o Lula e o Collor estarão abraçados, pisando o mesmo palanque, com interesses políticos comuns”. Eu teria dito: “Pirou, baiana? Me dá um pouco dessa cachaça que você bebeu, tô muito careta…”. Hoje me sinto meio bobo de ver o Collor e o Lula lado a lado, amigões da vida toda. Tudo bem, o próprio Lula já se explicou, parafraseando o grande Raul : “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”. E tem o Sarney, o Jader, o Jefferson… haja, metamorfose, presidente. Dá-lhe, Kafka! Pena que nosso presidente, confessadamente, não é chegado a uma leitura.

Tocamos também, os Titãs, num comício na campanha do FHC para a prefeitura de São Paulo, na eleição que ele acabou perdendo para o Jânio. Uma das causas de sua derrota, dizem, foi ter se declarado ateu. Não foi sem espanto que anos depois, já na presidência, vi o FHC se unir ao ACM em nome da governabilidade. Imagino que FHC, a essa altura, não se declarasse mais ateu.

Com o tempo fui percebendo que o jogo político é muito complexo. E que eu sou mesmo um trouxa. Não consigo entender o que passa na cabeça desses caras. Sou muito bobo pra isso. Me falta malícia. Mas aprendi que muitas vezes o que eles dizem é exatamente o contrário do que querem dizer. Por exemplo, esse encontro do Ciro e do Aécio. Os governistas vivem dizendo que o Aécio seria um candidato mais forte, portanto mais difícil de ser derrotado. Então eles resolveram confessar isso assim, de mão beijada? Acreditam mesmo que o Aécio é o candidato mais forte e resolveram fortalecê-lo, dando uma mãozinha para o PSDB se decidir logo? Jura? E o Ciro? Disse que se o Aécio for o candidato do PSDB, ele desiste de sua própria candidatura. É mesmo? A única motivação dele é se opor ao Serra? Eu não aprendo, não tem jeito. Na última campanha para prefeitura do Rio, dei um depoimento a favor do Gabeira no programa eleitoral, e não me arrependo. De bobo, passei a bobão. Estou evoluindo.

 
livroLivro…

O Seminarista, de Rubem Fonseca. Romance novo do Rubem Fonseca, um escritor que sabe que as palavras são importantes demais para serem tratadas como bala de padaria.

Por Tony Bellotto

22/10/2009

às 22:15 \ Cenas

Clowns

 

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O show não pode parar. A última do senado é de rolar de rir. Querem processar o Suplicy por falta de decoro. O que ele fez? Roubou o erário? Deu emprego no senado ao Supla? Levou a namorada para viajar com dinheiro público? Esquartejou algum desafeto? Criou uma fundação desviando dindim do povo? Xingou alguma nobre excelência de jagunço filho duma égua? Pegou no sono durante uma sessão?

Nada disso. O ato indecoroso do Suplicy foi desfilar sorridente pelas dependências do Senado trajando uma singela sunga vermelha de Super-Homem. É mole? Romeu Tuma insiste em dizer que Suplicy desfilou de “calcinha”. Mas o Super-Homem usava calcinha? E eu nem desconfiava. Será que esse negócio de identidade secreta era metáfora de gay enrustido? Super-Homem é o lado gay do pacato Clark Kent? Ou seria o contrário? Calcinha vermelha é mais indecorosa que calção vermelho?

Bem, estou me desviando do assunto. O que se discute no senado não é se o Suplicy vestiu calção ou calcinha. O que se discute é se constitui falta de decoro um senador desfilar com uma sunguinha vermelha sobre a calça do paletó. Realmente um assunto de suma importância. É para isso que pagamos os salários deles, afinal de contas. Para desfilarem como bobos da corte fazendo gracinhas para mídia, e depois discutirem se isso é falta de decoro ou não.

Muito relevante. Questão de suma importância, excelências. Sugiro uma sessão extraordinária para discutir a pauta urgentíssima. Então quem faltou com o decoro foi o Suplicy? Parabéns! Depois eu falo que esses caras não fazem outra coisa senão divertir-nos e os leitores ficam bravos. Mandam comentários para a coluna reclamando da minha postura, como se eu fosse um alienado resignado ridente escarnecedor. Devemos protestar!, exclamam. Indignar-nos com a situação!, redarguem. Encarar o problema com seriedade!, sugerem. Revoltar-nos, arrancar-lhes os escalpos!, bradam os mais destemperados. Como se os cínicos no plenário dessem a mínima para o que pensamos ou deixamos de pensar.

Livro…
…o impagável Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, uma epopéia pornográfica, literatura da melhor cepa, na nobre linhagem de um Henry Miller, provando que há maneiras mais inteligentes de dar risada do que assistir aos noticiários políticos.

Por Tony Bellotto

03/09/2009

às 21:04 \ Pessoas

A obra

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Vamos combinar. De hoje em diante não mais nos irritaremos com nossos políticos. Nos divertiremos com eles, riremos deles, gargalharemos. Nenhum humorista conseguirá superar Vossas Excelências na capacidade de nos fazer rir. Esqueçam Jô Soares, Chico Anísio, Tom Cavalcante, A Praça É Nossa, Caceta e Planeta, Marcelo Adnet, CQC, Bruno Mazzeo etc. Esqueçam do palhaço Arrelia, do Zorra Total, do Golias e da Família Trapo. Lúcio Mauro, Paulo Silvino, pobres deles! O Primo Rico e o Primo Pobre, Ofélia, Mazzaropi, Manoel da Nóbrega ai, ai.

Ninguém será capaz de arrancar gargalhadas tão histéricas quanto as que brotarão do âmago de nossas gargantas e estômagos irritados. Riremos a valer, rolaremos pelo chão, ensurdeceremos os políticos com nossas gargalhadas incontroláveis. Nos divertiremos até perder o fôlego com suas pantomimas, farsas, embustes, gestos teatrais e comédias. Sofreremos de câimbras na barriga, faremos xixi na calça. Não controlaremos a histeria ensurdecedora de nossa alegria estúpida. Escarneceremos de suas desculpas, subterfúgios, meias palavras, tergiversações, balbucios, inverdades, desculpas, vaivens, golpes baixos e votos envergonhados.

Zombaremos de seus ataques de ira, cinismo, hipocrisia, empáfia, arrogância e arrependimento falso. Nos refestelaremos com suas arguições, canastrices e maneiras empoladas de falar. Engasgaremos, ficaremos com soluço de tanto rir. Tombaremos em êxtase divertido com seus cortes de cabelo, barrigas, bigodes, perucas, pirâmides, castelos, tinturas, figurinos, pragmatismos, demagogias, amantes, secretárias, esposas, filhos, netos e namorados das netas.

Suas palavras e promessas terão o efeito de cócegas em nossas axilas. Balança Mas Não Cai, Pânico, stand up comedies e reality shows no máximo nos arrancarão sorrisos amarelos. Nada de sorrir com a ironia fina de um Veríssimo, de um Millôr. Estaremos chorando de rir com nossos políticos exuberantes e seus usos e abusos do vernáculo, do dinheiro público, das benesses e de nossa santa paciência. De suas roubalheiras, falcatruas, populismos, atos secretos, favorecimentos e dedos em riste riremos. Riremos, riremos. Até explodir. E esperaremos que chafurdem em sua Obra (aqui como produto do verbo “obrar” na acepção por eles usada) até que deles só reste uma lembrança triste e obscena.

DVD…

Doutor Fantástico, essa comédia genial e apocalíptica do grande
Stanley Kubrick. Quase tão divertida quanto uma sessão do senado.

Por Tony Bellotto


 

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