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polícia

07/11/2011

às 18:17 \ Cenas

Dois minutos de sua atenção, por favor!

Primeiro minuto: sobre a invasão da reitoria da USP por estudantes que protestam contra a presença da polícia no campus da universidade, dois Tonys se digladiam dentro de mim. O primeiro, guitarrista de uma banda consagrada e escritor, uma celebridade de médio porte, mas com algum verniz cultural, definamos assim, um pai de família de classe média de 51 anos, não usuário de drogas ilícitas (bebe socialmente e de vez em quando, por solicitação médica, ingere um ou um outro ansiolítico), posiciona-se como alguém que acredita que ninguém pode estar acima da – ou incólume à – lei, e portanto condena a atitude irresponsável e um tanto quixotesca dos estudantes mascarados, embora lhes admire a atitude revoltosa e a férrea determinação, sem as quais os heróis não se fomentam. Ah, ele também inveja a juventude dos estudantes.

Segundo minuto: do outro lado do coliseu metafísico, o segundo Tony, um jovem e praticamente desconhecido músico de 25 anos de idade, mergulhado num vazio existencial proporcionado por um recente flagrante por porte de drogas, em vias de compor uma música que terá por refrão a frase Polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia, e que constará de um disco que fará a fama e a fortuna da banda à qual pertence, usuário contumaz de vários tipos de drogas, embora já experimente as responsabilidades da paternidade e sustente e eduque uma graciosa menina de 4 anos de idade, perfila-se filosoficamente ao lado dos estudantes que invadem a USP, por acreditar que a voz da sociedade – ou do povo – manifesta-se de maneiras variadas, e acredita que dispor do próprio corpo é um direito inalienável do homem, e que consumir drogas não deveria ser um crime – como roubar ou matar são -, e portanto entende que a luta pelo reconhecimento oficial desse direito é justa e admirável.

Ah, a menina graciosa de 4 anos é uma mulher de quase trinta hoje em dia, mãe do primeiro neto do referido guitarrista, atualmente mais que um pai, um avô de família.

Façam suas apostas e desfiem seus argumentos, por favor. E obrigado pelos dois minutos de atenção.

Por Tony Bellotto

29/10/2009

às 23:08 \ Cenas

Bizarro

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O sobrenome do PM é emblemático: Bizarro. O capitão Denis Leonard Nogueira Bizarro e seu companheiro cabo Marcos de Oliveira Salles, PMs cariocas, não só deixaram de socorrer o corpo agonizante largado na calçada, como ainda levaram dos assaltantes assassinos (a quem graciosamente concederam a liberdade) o butim do latrocínio: um par de tênis e uma jaqueta.

É quanto custou a vida de Evandro Silva, coordenador de projetos sociais do grupo AfroReggae, responsável por ações sociais que utilizam a arte e a cultura como forma de inclusão social e recuperação de jovens cooptados pelo tráfico de drogas e crime organizado. Uma bizarrice e tanto. Trágica, corriqueira, revoltante e inaceitável.

Dias de fogo e de sangue estes que vivemos no Rio olímpico fraturado. A polícia carioca exibe para o resto do Brasil e do mundo as suas duas exuberantes e horrorosas faces: uma, a de homens honrados e corajosos que sobem o morro trocando tiros com bandidos, lutando para pacificar comunidades tomadas pelo crime e pela irracionalidade, muitas vezes pagando com a própria vida (e a vida de civis inocentes) o preço de uma luta inglória e devastadora.

Outra, a de homens sem caráter, zumbis guiados pela imensa e acomodada bússola corrupta verde amarela que a todos norteia, PMs que ao verem o corpo de Evandro Silva caído no chão, se esvaindo em sangue, não fizeram nada. Sequer socorreram-no. Mas correram afoitos até os assassinos e os liberaram em troca da jaqueta e do par de tênis de Evandro. A cidade partida também tem uma polícia partida. E enquanto não resolver essa dicotomia fundamental, essa contradição primária, esse paradoxo essencial, não contará com uma Polícia digna do nome (na acepção do Houaiss: conjunto de leis e disposições que asseguram a ordem, a moralidade e a segurança em uma sociedade).

Entre erros e acertos, mais acertos que erros, não há como negar que o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, é um homem sério e disposto a descascar com competência esse totêmico e gigantesco abacaxi podre que é a segurança pública do Rio. Depois de sucessivos governos ambíguos e ineficientes, o momento é de reconstrução. Que a luz da razão ilumine o caminho desse homem corajoso nessa hercúlea missão abacaxi. Que os exemplos e inspirações – de Elliot Ness a Sigmund Freud, de Mahatma Gandhi a Rudolph Giuliani – o conduzam a unir e pacificar antes de tudo a própria polícia.

 

DVD…

Favela Rising, produção brasileira e americana, dirigido por Matt Mochary e Fred Zimbalist, o filme conta a história do grupo cultural Afroreggae.

Por Tony Bellotto


 

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