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parada gay

05/11/2009

às 22:38 \ Cenas

Derrubar gigantes

marcha-evangelica

Acordei num sobressalto, olhei a primeira página do jornal e vi o senador Marcelo Crivella e os bispos evangélicos Sonia e Estevam Hernandes acenando do alto de um trio elétrico para uma multidão GLS na parada gay. É isso mesmo? Meus óculos! Estou vendo coisas? Estava. Os óculos corrigiram meu desvario óptico matinal: tratava-se de uma parada evangélica, com o sugestivo nome de “marchando para derrubar gigantes”.

Os gigantes – na verdade, as gigantes - a que se referem os religiosos, segundo o jornal, são as diabólicas irmãs siamesas Discriminação e Incompreensão, essas baleias do inferno dignas de toda a extinção. Esqueceram da irmã mais velha, a Intolerância, igualmente execrável. Caramba! E eu que fui dormir achando que os religiosos é que eram os preconceituosos. Apesar da força poética do nome, poderiam ter facilitado nossa vida denominando a passeata de “marchando para derrubar a discriminação e a incompreensão”. Afinal, vindo de um grupo religioso, qualquer ambiguidade pode ser mal compreendida (e até incompreendida). Imaginem um grupo de talebans marchando para derrubar gigantes.

Imediatamente pensaríamos em prédios de Wall Street desabando sobre nossas cabeças. Há quem diga que a marcha evangélica, no entanto, não passou de um ato de desagravo ao casal de bispos Hernandes, condenados pela justiça americana, mas prefiro crer em possibilidades mais magnânimas e libertárias. Sou, afinal de contas, um daqueles sonhadores de que falava John Lennon, o antigo compositor britânico. E não estou sozinho.

O bom disso é que, ao se comprometerem contra o preconceito religioso, os religiosos automaticamente se comprometem contra qualquer preconceito. Como bem sabe qualquer criança minimamente informada, não importa a que modalidades estejam aplicadas, discriminação e incompreensão (e intolerância) são sempre inaceitáveis. De agora em diante estaremos atentos às posturas evangélicas quanto a questões espinhosas como união homossexual, homofobia, pesquisas científicas com células tronco embrionárias, respeito à laicidade do estado etc.

Em contrapartida, respeitaremos igualmente espíritas, católicos, umbandistas, judaístas, testemunhas de Jeová, adventistas, evangélicos, islâmicos, batistas, muçulmanos, budistas, cristãos, crentes, descrentes, pagãos, agnósticos e ateus (perdoem-me os grupos não citados, não é discriminação e incompreensão, é esquecimento e ignorância mesmo). Qualquer hora me abalo pra cima de um trio elétrico desses com o Saramago. Me aguardem.

DVD…
….Crash, filme que investiga o preconceito e a intolerância nos dias de hoje, com uma visão ao mesmo tempo crítica e humanista.

Por Tony Bellotto


 

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