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olimpíada

10/12/2009

às 22:49 \ Pessoas

Piada

 Getty

A celeuma causada pelas declarações do ator Robin Williams no programa do David Letterman – disse o ator que o Rio só ganhou a indicação de cidade sede das Olimpíadas de 2016 porque seus representantes seduziram os eleitores olímpicos com cocaína e strippers – é descabida. Foi uma piada, e como tal deve ser entendida. Ou alguém acredita que isso aconteceu de verdade?

Boas piadas costumam ser assim, politicamente incorretas, provocativas e até grosseiras. Por essa razão é que rimos delas. A declaração de Williams, ele mesmo um natural de Chicago, era muito mais crítica em relação a Michele Obama e Oprah Winfrey, pois sugere que cocaína e strippers brasileiras sejam mais convincentes que as duas damas em questão, enviadas como representantes de Chicago à votação do comitê olímpico (e não são?).

Não sei se Michele e Oprah se manifestaram a respeito, mas é provável que tenham entendido a piada e até rido dela. Há algum tempo houve situação parecida, com a indignação oficial do então prefeito do Rio, César Maia, com um episódio dos Simpsons que mostrava a cidade como uma selva subdesenvolvida. Não dá pra negar que o Brasil, e o Rio em especial, é em alguns momentos uma selva subdesenvolvida reinada por traficantes de cocaína e frequentada por mulheres nuas. Basta ler os jornais.

Atitudes ufanistas de indignação por parte de governantes contra piadas desse tipo só evidenciam nosso provincianismo. Temos problemas suficientes – como a violência urbana e o tráfico de drogas, por exemplo – com que nos preocupar para perder tempo com uma piada do Robin Williams. Mesmo que seja uma boa piada.

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Sociedade Dos Poetas Mortos, uma bela atuação de Robin Williams, grande ator, que não merece virar um vilão só porque contou uma (boa) piada grosseira.

Por Tony Bellotto

02/10/2009

às 14:29 \ Brasil

Rio!!!

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Minha sogra sempre fala do silêncio no Maracanã na final da Copa de 1950, depois que perdemos o jogo para o Uruguai. Mesmo quem não estava lá, ou quem ainda nem tinha nascido, conhece aquele silêncio. Faz parte de nosso DNA. É um tijolo importante na construção da nossa identidade cultural. Se o Brasil estava na época preparado ou não para realizar uma Copa eu não sei. Mas a poesia e a tristeza daquele silêncio permanecem como a inauguração de alguma coisa difusa, porém fundamental para nós, brasileiros.

Imagens do Rio povoam a mente de qualquer brasileiro. Seja num cartão postal, num calendário ou numa cena de novela. Algumas imagens eu não vou esquecer nunca: a noite em que os Titãs abriram o show dos Rolling Stones, eu em cima do palco, o coração saindo pela boca, vislumbrando aquele formigueiro sem fim, mais de um milhão de pessoas na praia de Copacabana. E o que mais me impressionou: o número de barcos ancorados na baía, uma verdadeira favela iluminada em que barracos se transformaram em barcos. E os Stones, intrigados: um milhão de pessoas e nenhum incidente grave, nenhuma rebelião, nenhum pisoteamento?

Para os cariocas nada demais, todos os revéillons na praia são assim, brother. Como é que um negócio desses pode dar certo? Numa das cidades mais violentas do mundo? Ninguém jamais saberá explicar. Ou entender. A insustentável leveza do ser carioca. A cidade em que o aeroporto leva o nome de um compositor de música popular. Aqui estão o bom-humor, a corrupção, a alegria, as balas perdidas e as licenças poéticas.

Das velhinhas de cabelo azul passeando por Copacabana aos gringos em safári pela favela, dos flanelinhas banguelas guardando carros na Barra às madames botocadas saindo do Gero, dos sambistas sorridentes da velha guarda aos clubbers doidões, virados de ecstasy, dos fotógrafos de celebridades aos bebês chorões, brincando na areia, dos pitboys lutadores de jiu-jitsu aos casais gays abraçados na Farme de Amoedo, ninguém se preocupará em entender. Ou explicar.

Continuam as imagens na minha cabeça: a ECO 92, Jello Biafra passeando despercebido pelos stands ecológicos. Não é o cara do Dead Kennedys? Rubem Fonseca caminhando pelo Leblon, finjo que não vejo pra não encher o saco do Mestre. Não é a Juliana Paes? Onde? Ali! Os arrastões na praia, o abraço na Lagoa.

Meu filho de catorze anos foi assaltado pela primeira vez na semana passada. Não liga, João, é assim mesmo. Ser assaltado, nessa cidade, é como participar de um rito de passagem. Como uma primeira comunhão, ou um bar mitzvah. Como sair numa escola de samba, ou comer biscoito de polvilho Globo na praia de Ipanema num domingo de sol. Ou assistir a um Fla Flu no Maracanã. Ver uma peça de Nelson Rodrigues, adentrar um prédio projetado por Oscar Niemeyer.

A cidade vai penetrando a gente, mineiros, paulistas, franceses, marcianos, e não desgruda mais. Rock in Rio em Lisboa. Na boa. O Brasil como ele é. Ronald Biggs, lembram dele? O mais carioca dos ingleses, a prova viva de que aqui até o crime compensa. Ex-terroristas, generais de pijama, maconheiros e padres surfistas, crianças cheirando cola, empresários contando grana, ninguém jamais poderá explicar. Ou entender.

Meca de todos os grandes golpistas no cinema e na vida real, ex-capital da colônia, ex-capital do Império Lusitano durante as guerras napoleônicas, ex-capital do Império do Brasil, ex-capital da República, perene cidade maravilhosa, terra da beleza e do caos, o paraíso depois que Adão e Eva foram expulsos, mas ainda sob as bênçãos sólidas de um barbudo concreto com braços permanentemente abertos. As contradições desabando sobre nossas cabeças como pedras numa avalanche. Eu explico: as cidades, como as mulheres, não precisam ser entendidas, precisam ser amadas. O barulho que escuto agora vindo da rua – buzinas, gritos, rojões – contrasta com o silêncio do Maracanã em 1950. Mas confirma que vivemos novamente a inauguração de alguma coisa difusa, porém fundamental para nós, brasileiros. A mim, resta conjugar na primeira pessoa do singular do presente do indicativo o verbo que expressa a alegria: Rio!!!

Por Tony Bellotto


 

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