Águas de abril

Num mês em que as águas se mostram particularmente ariscas e agressivas, acompanhei minha mulher (ou namorada, já que nunca nos casamos e estamos completando vinte anos de namoro) a uma reunião dos Mensageiros da Água. Aliás, minha namorada, a Malu Mader, é ela própria uma mensageira da água. Você não sabe o que perde por não namorar um mensageiro da água. Marcos Palmeira também é um mensageiro da água, assim como Raí, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paulo Jobim e outros, anônimos principalmente. Isso só para ficar nos mensageiros brasileiros. Há muitos deles espalhados pelo mundo: Dalai-lama, Philippe Starck, agnès b, Manu Chão e Jane Birkin são alguns dos mais célebres mensageiros da insípida, incolor e inodora substância da qual dependemos para viver. Mensageiros da Água é uma campanha, ou mais, um movimento, ou ainda uma grande onda, provocada pela fundação Danielle Mitterrand e que tem a própria como principal timoneira. O objetivo do movimento é simples e cristalino como água límpida: garantir que o acesso à água – bem comum da humanidade – seja um direito universal. Parece óbvio, mas não é. Com a escassez da água potável, urge que ela não se transforme numa mercadoria, e acabe descambando na vala comum dos itens de consumo pelos quais temos de pagar. Ou seja, mais um daqueles inúmeros tópicos que determinam a velha máxima: ricos se dão bem e pobres se estrepam. Dados da fundação mostram que, a cada dia, 34 mil pessoas morrem por falta de água potável e que mais de um bilhão de pessoas não têm acesso a esse bem de forma adequada. Danielle Mitterrand é uma mulher admirável. Viúva do presidente socialista François Mitterrand, que governou a França por 14 anos, tem um histórico de ativismo e engajamento político em favor dos oprimidos e explorados em todo o mundo. Na reunião dos Mensageiros da Água aqui no Rio, Danielle explicou os objetivos e motivações do movimento. Pouco mais de trinta pessoas – artistas, ambientalistas, professores, cientistas, curiosos, estudantes, ativistas, cidadãos enfim – se reuniam em torno da elegante e vigorosa senhora, assimilando a doce cadência de suas palavras francesas. Para temperar a melodia das mots justes de Danielle, iguarias, champanhe e vinho tinto eram compartilhados pelos convivas, apóstolos numa ceia. Em várias vezes Danielle citou seu marido, François Mitterrand. Numa delas, disse que o estadista francês sempre repetia uma frase do escritor americano William Faulkner, que afirmava que nossos sonhos devem ser grandes o bastante para que não os percamos de vista. Não sei se foi o vinho, mas no dia seguinte acordei morrendo de sede. Maiores informações sobre os Mensageiros da Água no site: www.france-libertes.fr.
Livro: Luz em Agosto, de William Faulkner, que além de excepcional romancista, Nobel de literatura de 1949, foi um emérito mensageiro da água que passarinho não bebe.









