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morte

20/10/2011

às 15:07 \ Cenas

Besouros

Há alguns dias, por ocasião de um show dos Titãs em Junqueirópolis, no interior do estado de São Paulo, fiquei hospedado num hotel na cidade de Dracena. Ao entrar no quarto do hotel, num fim de tarde típico de verão – embora vigorasse ainda a primavera -, com uma brisa quente que entrava pela janela aberta às nuvens carregadas no horizonte e andorinhas voando em formação, me deparei com centenas de besouros. Meu quarto de hotel em Dracena estava literalmente ocupado por hordas de pequenos escaravelhos marrons que subiam e desciam pelas paredes e deslizavam pelo chão. Ao me deitar para assistir à televisão e descansar antes de sair para o show, percebi besouros andando pelo travesseiro. Ao contrário de alguns outros insetos, de aspecto repugnante, os besouros, ou escaravelhos, são bichinhos misteriosos e carregados de uma simbologia quase inquietante.

Os besouros, é sabido, eram animais sagrados no antigo Egito, e simbolizavam, na forma do deus Khepra (escaravelho em egípcio), o mito da ressurreição. Como não sou religioso, e não creio na ressurreição em sua interpretação “religiosa”, a que apregoa o renascimento literal dos mortos, entendi a presença daqueles besouros como um símbolo da ressurreição em seu significado alegórico, o de “voltar à vida”. A morte abriu suas asas sobre minha família nas últimas semanas, e sob sua sombra vislumbrei os besouros, que me ensinaram que morrer é tão natural quanto nascer e que, entre esses dois momentos – nascimento e morte -, o breve suspiro da vida é o grande e mais fascinante mistério que podemos experimentar.

Por Tony Bellotto

25/03/2011

às 13:50 \ Pessoas

Olhos de Liz


Acordo com uma melancolia difusa, uma pequena nota dissonante reverberando no peito. Como se uma das cordas da minha guitarra estivesse um pouco desafinada. Olhando-me no espelho momentos antes de lavar o rosto, descubro duas ruguinhas que não estavam ali ontem. Enquanto espremo o tubo da pasta de dente, numa tentativa quase inútil de encontar alguma pasta dentro daquele tubinho tantas vezes espremido e reespremido, distingo uma sombra inusitada no meu próprio olhar. Na pia jazem alguns fios de cabelo branco. Já na mesa do café, enumero mentalmente as razões que poderiam estar me causando aquela sutil melancolia matinal:

1- A anulação pelo STF da validade da Lei da Ficha Limpa nas eleições do ano passado. Hum. Por que razão, excelsas excelências? Não, não precisam explicar. Eu só queria entender. Sinceramente, admito minha insensibilidade, não me dou mais ao trabalho de compreender as obscuras razões por trás das intrincadas decisões de nossos ministros, políticos e governantes.

2- Os níveis de radiação nuclear no Japão continuam preocupantes. Mas eu já sabia disso ontem e, admito minha insensibilidade, não estou tão preocupado com os problemas dos japoneses.

3- As inevitáveis mortes de civis acarretadas por esses duvidosos ataques aéreos “cirúrgicos” à Líbia. Sim, são lamentáveis mas, admito minha insensibilidade novamente, não estou mobilizado com essa questão, ou com qualquer outra. Estou me tornando um insensível, é verdade.

Mas ao abrir o jornal, lá estava a foto. Compreendi de repente o motivo da minha pequena depressão matinal (e a razão das notas desafinadas que continuavam soando no meu cérebro). Eles me fitavam translúcidos, como duas pérolas a indicar que a vida é um sonho muito fugaz e passageiro porém infinitamente belo. E trágico.

Os olhos de Liz Taylor ainda conseguem me sensibilizar.

Por Tony Bellotto

26/10/2009

às 9:09 \ Cenas

Aprender a morrer

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Na semana passada escrevi sobre as peripécias de meu cão Guga para cruzar com a cadela Luna. Não só a Luna não emprenhou, como o Guga – meu adorável amigo de 16.000 anos – morreu. Sério. Em duas semanas, o vistoso golden retriver de oito anos, célebre no nosso quarteirão em Ipanema por sua docilidade, sabedoria, maturidade, beleza e inteligência, foi diagnosticado com um devastador câncer no cérebro que acabou por matá-lo rapidamente. A morte de um cão doméstico pode ser muito instrutiva.

Não sei se existe em algum Não Lugar um Osíris canino a conduzir almas de cães mortos por pet paradises abundantes em ossos suculentos a serem roídos pela eternidade e gatos serelepes prontos para divertidas e infindáveis perseguições até o infinito. O que sei é que a morte do Guga foi muito essencial. E triste, como toda boa morte deve ser.

A morte de um animal doméstico é desprovida de todos os véus, neblinas, subterfúgios e eufemismos que inventamos para as nossas pomposas e trágicas mortes humanas. Não há discursos, velórios ou extremas-unções. Não há promessas de vida eterna, perdão, castigo ou redenção, nem sessões espíritas que nos coloquem em contato com os latidos, miados, pios, cricrilares e relinchos dos animais mortos queridos. Não há religiões, ritos, obituários, bandeiras a meio pau, réquiens, marchas fúnebres, feriados ou minutos de silêncio. Não há roupas negras ou desesperos extremados. No máximo uma dor silenciosa, um choro resignado ou o grito doce de uma criança inconsolável.

Na morte de um cão, a morte está nua. A ceifadora das vidas animais irracionais não se veste de preto, nem carrega uma sinistra gadanha nas mãos descarnadas. A morte dos bichos é simples e didática como um último suspiro. Se eles sofrem demais, podemos até optar por sacrificá-los sem enfrentar problemas na justiça terrena ou divina. O Guga sofreu bastante nos seus últimos dias de vida. Pensamos até em sacrificá-lo. Mas a morte, essa sábia companheira sempre à espreita, chegou ao amanhecer e levou em silêncio o nosso amiguinho peludo e arfante. Restou a tristeza de todos na casa, febre num filho, sangramento no nariz do outro, e a pureza da morte pairando no ar como um bálsamo.

melhor-impossivelDVD…
Melhor é Impossível (As Good As It Gets), com Jack Nicholson e Helen Hunt, comédia perfeita para assistir em casa, numa noite em que se sofre pela morte de um cão querido.

Por Tony Bellotto


 

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