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Malu

30/04/2010

às 17:51 \ Mundo, Pessoas

Águas de abril

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Num mês em que as águas se mostram particularmente ariscas e agressivas, acompanhei minha mulher (ou namorada, já que nunca nos casamos e estamos completando vinte anos de namoro) a uma reunião dos Mensageiros da Água. Aliás, minha namorada, a Malu Mader, é ela própria uma mensageira da água. Você não sabe o que perde por não namorar um mensageiro da água. Marcos Palmeira também é um mensageiro da água, assim como Raí, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paulo Jobim e outros, anônimos principalmente. Isso só para ficar nos mensageiros brasileiros. Há muitos deles espalhados pelo mundo: Dalai-lama, Philippe Starck, agnès b, Manu Chão e Jane Birkin são alguns dos mais célebres mensageiros da insípida, incolor e inodora substância da qual dependemos para viver. Mensageiros da Água é uma campanha, ou mais, um movimento, ou ainda uma grande onda, provocada pela fundação Danielle Mitterrand e que tem a própria como principal timoneira. O objetivo do movimento é simples e cristalino como água límpida: garantir que o acesso à água – bem comum da humanidade – seja um direito universal. Parece óbvio, mas não é. Com a escassez da água potável, urge que ela não se transforme numa mercadoria, e acabe descambando na vala comum dos itens de consumo pelos quais temos de pagar. Ou seja, mais um daqueles inúmeros tópicos que determinam a velha máxima: ricos se dão bem e pobres se estrepam. Dados da fundação mostram que, a cada dia, 34 mil pessoas morrem por falta de água potável e que mais de um bilhão de pessoas não têm acesso a esse bem de forma adequada. Danielle Mitterrand é uma mulher admirável. Viúva do presidente socialista François Mitterrand, que governou a França por 14 anos, tem um histórico de ativismo e engajamento político em favor dos oprimidos e explorados em todo o mundo. Na reunião dos Mensageiros da Água aqui no Rio, Danielle explicou os objetivos e motivações do movimento. Pouco mais de trinta pessoas – artistas, ambientalistas, professores, cientistas, curiosos, estudantes, ativistas, cidadãos enfim – se reuniam em torno da elegante e vigorosa senhora, assimilando a doce cadência de suas palavras francesas. Para temperar a melodia das mots justes de Danielle, iguarias, champanhe e vinho tinto eram compartilhados pelos convivas, apóstolos numa ceia. Em várias vezes Danielle citou seu marido, François Mitterrand. Numa delas, disse que o estadista francês sempre repetia uma frase do escritor americano William Faulkner, que afirmava que nossos sonhos devem ser grandes o bastante para que não os percamos de vista. Não sei se foi o vinho, mas no dia seguinte acordei morrendo de sede. Maiores informações sobre os Mensageiros da Água no site: www.france-libertes.fr.

faulkner-luz-agosto-cenas-80Livro: Luz em Agosto, de William Faulkner, que além de excepcional romancista, Nobel de literatura de 1949, foi um emérito mensageiro da água que passarinho não bebe.

Por Tony Bellotto

21/09/2009

às 9:52 \ Viagem

Correndo

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Eu poderia dizer que é uma forma rápida de fazer turismo. Ou uma maneira eficaz de manter a saúde. Um tipo novo de meditação em movimento. Um passatempo em manhãs ociosas enquanto o resto da galera ainda não acordou. Ou tudo isso junto. Talvez apenas uma maneira de lutar contra a ansiedade. Costumo correr pelas cidades que visito.

Às vezes a trabalho, às vezes de férias, corro logo que acordo. Outro dia, por exemplo, estava em Belo Horizonte e corri por uma avenida à beira de um canal. Não vi nada de mais, nada que atestasse a mineirice do local. Eu não estava correndo em torno da lagoa da Pampulha – aliás, um lugar bem mais bonito do que a avenida em que eu corria -, mas o bom de minhas corridas é isso mesmo: não há um roteiro pré-determinado. Não é um turista correndo. Muito menos um morador da cidade. Atleta, nem pensar. Não, não sou um jogger.

Gosto de me sentir como um fantasma invisível conduzido pelo vento. Nem sempre é possível ficar invisível. “É o marido da Malu Mader!”, exclamou uma senhora em Santa Maria. “O cara dos Titãs”, constatou o vendedor de cocos em Maceió. “Aquele cantor…”, disse alguém em Londrina. “Tens religião, che?”, indagou-me um simpático jogger numa pista entre ipês amarelos e paineiras em flor no coração de Passo Fundo. Uma vez, em Itaperuna, um grupo enorme de fãs não deu a mínima para mim quando atravessei o saguão do hotel suado, de calção e tênis. Confesso que fiquei decepcionado: elas estavam ali à espera do Leonardo, hospedado no mesmo hotel.

Vou aprendendo sobre o local em que me encontro. Vejo as lojas, os táxis parados no ponto, as tampinhas de refrigerantes largadas na sarjeta. Um mendigo dormindo aqui, uma babá empurrando um carrinho de criança ali. Assim vou despertando, me preparando para o resto do dia.

Já vi centenas de andorinhas pousadas nos fios elétricos de Macapá – como numa versão tropical de Os Pássaros, de Hitchcock -, hortênsias azuis psicodélicas nos arredores de Caxias, estradas recém-abertas por tratores em Palmas. Vi ciganos numa aldeia de pedra em Portugal, saltei sobre um caranguejo dançarino numa calçada em Salvador. Percebi que meu brinco congelava no Central Park e espiei um casal de adolescentes se beijando em Floripa. Cruzei um punk rocker Bósnio à beira do Sena, um travesti goiano às margens do Tamisa. No Mercado de Ver-O-Peso, em Belém, tive a impressão de que uma cobra morta se movia. Como Raul Seixas (ou Elvis Presley, autor verdadeiro da frase), às vezes eu tenho a impressão de que nasci há dez mil anos atrás.

DVD…
…. Marathon Man, com Dustin Hoffman, Roy Scheider e Lawrence Olivier, um thriller clássico dos anos 70, dirigido por John Schlesinger. O filme, além de manter o suspense o tempo todo, prova que vale a pena manter a forma correndo.

Por Tony Bellotto

17/08/2009

às 15:03 \ Cenas

Gambás, baleias e macacos


Na minha infância, quando morava em Assis, algumas vezes subia ao forro de minha casa com meu pai para desalojar famílias de gambás que se alojavam sob nosso teto. Era uma experiência terrível, não tanto pelo fedor dos animais, mas por sua ferocidade. Gambás – naturalmente, como humanos – ficam muito bravos quando são expulsos de casa com a família. Sob a lei do mais forte, saíam eles, ficávamos nós.

Agora, vivendo no Rio, me deparo com dois macacos na minha varanda. A primeira reação de minha família é a surpresa. Macacos sempre são vistos por quem mora perto das florestas, mas em Ipanema é a primeira vez. Nossa segunda reação, a ternura. “Que lindos bichinhos!”. “Parecem humanos!”. Nos apressamos em colocar pedaços de frutas na varanda.

No dia seguinte aparecem mais dois macacos. Agora são quatro a nos visitar frequentemente. A terceira reação familiar: um certo temor. “Será que não trazem alguma doença?”. “Serão mesmo tão pacíficos quanto aparentam?”. No dia em que o primeiro deles entra em casa, o temor vira pavor histérico: empregadas gritando, crianças correndo e o chefe da casa (sou eu, pessoal) procurando um bom esconderijo debaixo da mesa.

Minha mulher – que antes de se tornar atriz desejou seguir a carreira de veterinária -, é como sempre quem resolve a situação: nada mais de frutas na varanda. Ela está certa, em pouco tempo nossa casa viraria uma versão compacta do Planeta dos Macacos.

Alguns amigos me explicam o fenômeno como consequência do desequilíbrio ecológico: com o desmatamento, os macacos são obrigados a abandonar a floresta e procurar comida nas áreas urbanas. Não sei se uma coisa tem a ver com a outra, mas outro dia, passeando pela orla da praia, vi duas baleias muito próximas da areia. Embevecido, não conseguia tirar os olhos das graciosas mamíferas, esguichando água para o alto. “Esquece”, diz minha mulher. “Nada de dar comidinha para as baleias…”

Filme…

Inimigos Públicos, com Johnny Depp, do diretor Michael Mann. É só um filme de gângster, daqueles com muitos tiros e sangue, mas é muito bem feito. Um prato cheio para os fãs do gênero, como eu.

Por Tony Bellotto

11/08/2009

às 14:58 \ Viagem

Chambers Street

“Isso tudo que vou contar aconteceu antes do 11 de setembro”, diz Antino, o vendedor grego de hot dogs. “Nova York era uma outra cidade, o mundo era um outro mundo…”

Estou na esquina das ruas Greenwich com Chambers, em Tribeca, bairro de Manhattan em que vivi com minha mulher por alguns meses em  1994. As palavras de Antino me fazem viajar na memória. Em 1994, onde quer que estivéssemos, eu e Malu víamos as torres gêmeas como gigantes monolitos a nos observar. O apartamento em que morávamos era muito próximo do World Trade Center e às vezes nos sentíamos como um casal egípcio que vivesse próximo da pirâmide de Gizé.

Estar à sombra das torres gêmeas nos confortava, como se nos abrigássemos sob duas enormes asas celestiais. A sensação de estar em Nova York era incrível. Parecia que tudo acontecia ali. Filmes, shows, lojas de discos e livrarias. Algumas vezes, só por diversão, subíamos ao alto de uma das torres para tomar um café. Por que não? Estávamos a dois quarteirões de casa! Ali em cima, saboreávamos a emoção de estar não no centro, mas no topo do mundo.

Tudo parecia tão pequeno e irreal ali de cima. Nossos dias transcorriam tranquilos como o outono: caminhada de manhã pela margem do rio Hudson (Malu estava grávida de nosso primeiro filho, João), almoço em casa, aulas de cinema (Malu) e guitarra de blues (eu) à tarde, na New School. No fim da tarde nos encontrávamos para um café em algum ponto escondido do Village. Uma passada pela loja de discos Towers podia levar horas. Depois um jantar em casa, preparado por mim (sopas incríveis e saborosas, perguntem à Malu). À noite, um filme no Angelika, o cinema descolado na fronteira do Village com o Soho.

“Não é incrível o que me aconteceu?”, pergunta Antino, meu amigo grego vendedor de hot dogs em Manhattan. “É sim”, respondo, sem lembrar do que me contara Antino. Era uma história relacionada a um adultério que terminou num crime passional. Aliás, acho que era a história dele mesmo. Mas eu estava concentrado nas minhas lembranças e não posso dizer mais nada sobre a história de Antino.

 

Livro…

Paris é Uma Festa, de Ernest Hemingway. “Se você teve a sorte
de viver em Paris quando jovem”, diz Hemingway, “então a levará consigo
por toda parte, pois Paris é uma festa móvel”. Troque Paris por Nova York,
Londres ou qualquer outra cidade cosmopolita, e o sentido da frase continuará
o mesmo. O livro traz textos em que o escritor norte americano lembra de
seus dias de juventude (e aprendizado do ofício da escrita) passados em
Paris. O título em inglês, bem mais significativo, é A Moveable Feast.
Quem lê em inglês, não pode deixar de adquirir a nova edição do livro, editada
pelo neto de Hemingway, Seán. Traz textos inéditos que não foram incluídos
na versão original e um prefácio de Patrick, filho de Hemingway.

Por Tony Bellotto


 

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