05/08/2010
às 16:22 \ PessoasLiselle
Liselle Bailey é dessas figuras que transcendem a vida real e viram personagens de ficção. Não sei que livros a inspiraram, mas qual uma madame Bovary do século XXI Liselle deixou-se conduzir pelo encantamento da literatura e, de uma pacata e bem comportada professora de literatura numa escola inglesa, tornou-se produtora e atriz de filmes pornô. Não é uma bela história?
Não façamos julgamentos morais. Apreciemos a poesia da vida: num mundo em que uma mulher está prestes a ser morta a pedradas no Irã por ter cometido adultério é de se comemorar o fato de uma mulher largar a profissão de professora e se tornar atriz pornô. Eis a beleza da liberdade.
E num mundo em que o advogado de um famoso goleiro brasileiro acusado de um provável homicídio usa do fato da vítima ser uma atriz pornô como possível atenuante do crime – como se matar uma atriz pornô não fosse tão grave quanto matar, por exemplo, uma professora de literatura –, é de se tirar cavalheirescamente o chapéu para a atitude da bela e corajosa Liselle.
O quê a terá levado a optar por guinada tão radical em seu estilo de vida? As jornadas monótonas na escola inglesa? A imagem plúmbea do céu londrino a invadir a janela da sala de aula como um sonho melancólico a reafirmar a consumação do tempo e da vida lá fora? Os livros de Harry Potter? Os sonetos perfeitos de Shakespeare? Os contos de Dickens? Uma sutil decepção com a recente produção dos autores ingleses contemporâneos – Ian MacEwan, Martin Amis, Julien Barnes? O que levou Liselle a abandonar a placidez de livros, alunos e salas de aula em troca da agitação dos sets de filmagem e dos cenários pornô? Melhoria de vida? Salário mais alto? Desejo de romancear e surpreender o destino? Escrever um livro com palavras de sangue?
Nunca saberemos as verdadeiras razões que levaram Liselle a tomar tal decisão. Quem sabe um dia no futuro, já cansada da atribulada e desgastante vida de estrela pornô, a madura Liselle não nos revele num livro – mais que os motivos de suas decisões – o talento de uma escritora que fez literatura da própria vida.
DVD
Boogie Nights, que mostra em bom cinema o ambiente tresloucado do cinema pornô nos Estados Unidos no final dos anos 70 e início dos 80.
Tags: intolerância, liberdade










