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lar

20/07/2009

às 16:54 \ Cenas

Lar doce lar

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Ao retornar para casa depois de cinco dias ausente, trabalhando, me deparo com um trailer estacionado em frente à entrada do prédio onde moro. O trailer chama a atenção por ser amarelo e trazer uma jardineira florida na janela traseira. Trailers e flores não costumam andar juntos. Desço do táxi, pergunto ao zelador, o seu Pedro – meu companheiro de corridas pela lagoa Rodrigo de Freitas: “Que trailer é esse?” Seu Pedro me fornece as informações disponíveis. Está estacionado ali há três dias. As placas são de Brasília, mas segundo comentários de porteiros bisbilhoteiros os habitantes são argentinos. Um homem, uma mulher e um cachorro. “O cachorro também é argentino?”, pergunto. Seu Pedro não sabe me responder. Nesse instante uma mulher, jovem, trinta anos no máximo, sai do trailer. Está bem vestida. Ela tranca a porta e caminha decidida pela rua. “A argentina?”, pergunto ao seu Pedro. Ele me responde com um gesto indeciso. “Será esposa do argentino?”, insisto. “Ou filha”, ele supõe. “O argentino é bem mais velho. Se é que é mesmo argentino”. “Ele tem cara de argentino?”, prossigo. Seu Pedro repete o gesto indeciso. “Não sei como é cara de argentino. Nunca fui para a Argentina. Parece um velho marinheiro, de barbas longas, rosto bronzeado e olhar perdido”. “Um escritor, talvez?”, arrisco. “O único escritor que eu conheço é você”, diz seu Pedro. Desisto de perguntar ao seu Pedro se ele me acha parecido com um velho marinheiro.

Fico sabendo em seguida que a prefeitura, alertada por alguns de meus vizinhos, já foi informada da presença do trailer. O que significa que os argentinos – ou brasilienses – mais o cachorro (argentino?) terão de sair logo dali. Subo pelo elevador pensando nos moradores do trailer. Cogito convidá-los para um café antes que se mudem. E se forem ladrões?, penso. Serial killers? Não, estou muito paranoico e desconfiado. Mais provável é que seja um poeta argentino acompanhado da namorada jovem e do cachorro (argentino? Alguém conhece um cachorro argentino? Os que os diferencia de um cachorro brasileiro?). Haverá uma grande biblioteca no trailer? Uma adega com malbecs saborosos? Será o trailer do poeta argentino uma versão da casa do Snoopy? Um lugar pequeno como uma casa de cachorro por fora, mas espaçoso como o museu do Louvre por dentro? Dúvidas assim me ocupam a tarde. Paro de escrever, desço as escadas para ver se o trailer ainda está estacionado em frente à entrada do meu prédio.

Livro…

O Aleph, de Jorge Luis Borges. Intrigante e genial, como todo
livro de Borges. Recomendo a leitura de suas pequenas histórias em homenagem
ao misterioso habitante do trailer estacionado em frente ao meu prédio (o
trailer ainda está lá).

Por Tony Bellotto


 

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