Blogs e Colunistas

Ipanema

29/07/2010

às 20:31 \ Pessoas

Hello Goodbye

Leio em VEJA desta semana que Diogo Mainardi vai embora do Rio. Ou melhor, vai embora de Ipanema, que, de certa forma, é maior que o Rio. Fiquei um pouco triste, confesso. Não que eu e Diogo sejamos amigos, ou companheiros contumazes, pelo contrário. Esbarrei com ele em rota de colisão umas três ou quatro vezes se tanto, sempre aqui em Ipanema – na Nascimento Silva entre Vinícius e Joana Angélica para ser exato -, cada um na sua bike. Uma vez o vi na mesa de um restaurante italiano que Malu e eu frequentamos aqui ao lado de casa, na Aníbal com Redentor. Nestas poucas ocasiões em que nos encontramos, eu e Diogo trocamos sorrisos, ois e alguns comentários rápidos sobre o Rio e VEJA.com. Mas saber que ele habitava as imediações confirmava para mim o cosmopolitismo e universalidade de Ipanema.

Como Diogo, também sou um andarilho errante, embora já esteja empacado – graças aos deuses pagãos que administram o bairro e à ipanemice incurável de minha namorada hiperipanemense, aqui nascida e criada – nestas bandas há quase duas décadas. Ao contrário do Diogo daqui não pretendo sair nem em forma de cinzas. Sim, já instrui meus familiares sobre o ponto exato da lagoa Rodrigo de Freitas em que desejo passar a eternidade em forma de cinzas (eu em forma de cinzas, não a eternidade). Bem, voltando ao Diogo Mainardi: ele é um enfant terrible do jornalismo brasileiro, um homem que não tem medo de desafinar e ridicularizar o coro dos contentes, razões que o tornaram raro, relevante e um pouco irritante na imprensa tupiniquim. Além disso, escreve muitíssimo bem e sabe como poucos destilar ironia, sarcasmo e amargura em textos sempre deliciosos de ler. Textos que invariavelmente provocam reações intensas e apaixonadas. Por mais que se discorde do que Diogo escreve, não se pode negar sua importância num país que adotou dissimulação, subserviência, mediocridade e hipocrisia como normas de convivência.

Talvez por que Diogo não tenha medo de fazer inimigos é que sempre me considerei uma espécie de amigo, embora só o conheça desses ois fugazes na Nascimento Silva. Só espero que ele não esteja deixando Ipanema por ter se sentido desprestigiado com o fato de que hoje em dia até guitarristas de rock se metem a escrever crônicas na imprensa. Sabe como é, Diogo, com a crise do disco a gente tem de se virar como pode…

Fica aqui de qualquer forma meu hello goodbye, e a certeza de que o espírito provocativo de Diogo Mainardi continuará vagando de bicicleta pela Nascimento Silva no quarteirão entre Vinícius e Joana Angélica. Ah, e os textos dele continuarão provocando reações intensas em VEJA também, para alívio de seus incontáveis leitores, admiradores, detratores, fãs e inimigos, claro.

Livro

Sugiro a leitura de O Luar e a Rainha, de Ivan Lessa, um dos “mestres” do Diogo Mainardi na arte de escrever bem e provocar a ira alheia.

Por Tony Bellotto

26/11/2009

às 21:38 \ Brasil

A culpa é minha

Getty
O apagão de Ipanema foi muito pior pra mim que o apagão da Dilma e do Lobão. Digo de Ipanema porque ainda não sei a quem creditá-lo, ao Eduardo Paes, ao Sérgio Cabral, ou à Dilma e ao Lobão mesmo. Ou boto a culpa toda no Lula logo de uma vez? Tenho medo de ser perseguido pelas patrulhas lulistas, vou me contentar por ora com Apagão de Ipanema, pois soa mais poético e impessoal. Lembra um primo pobre da Garota de Ipanema, Tom e Vinícius que me perdoem.

O apagão da Dilma durou, aqui em casa, pouco mais de três horas, se não me falha a memória (brasileiro não tem memória), e o apagão de Ipanema, dois dias, nas minhas contas. O apagão de Ipanema esteve mais próximo de um cenário End Of The World. Não seria tudo simples estratégia de propaganda do filme 2012? Acho que não, já que cinemas também ficaram sem luz. Talvez tenha sido uma vingança pessoal, dirigida a mim, de Dilma e Lobão por eu ter reclamado numa crônica do outro apagão. Tá bom, tá bom, megalomania tem limite. Menos, Tony, menos.

Uma vingança das lides governistas contra a zelite? Quer coisa mais zelite que Ipanema? Ou um projeto top secret de igualdade social, pra ninguém dizer que só o pessoal da perifa e da zona norte é que se ferra? Menos, Tony, bem menos. Nesse caso, melhor seria botar às escuras a rua Oscar Freire e o bairro de Vila Nova Conceição em São Paulo, por exemplo. Lá tem muito mais zelite que Ipanema, com certeza.

Ok, pensemos em outras possibilidades. O Serra, de novo? Sempre sabotando o governo, de uma forma ou de outra. Ou será o apagão de Ipanema um resquício tardio da herança maldita de FHC? Tudo é possível. Rola também um boato de que a Cemig, ao comprar a Light, teria colocado dedo do Aécio nesse apagão. Mas logo em Ipanema, onde o Aécio é visto volta e meia, feliz como pinto no lixo? Tá difícil encontrar o culpado. Os ventos uivantes e os rútilos relâmpagos por aqui não foram testemunhados, portanto não podemos culpar as mudanças climáticas, essa verdadeira Geni dos tempos modernos, culpada de tudo que não conseguimos explicar.

Não sei, de alguma forma tenho a sensação de que a culpa do apagão de Ipanema é minha, não sei por que. Ao ver meu amigo Tande passando pela minha rua cabisbaixo, muito provavelmente chateado pelos prejuízos sofridos por seu excelente restaurante Cria da Terra, quase pedi desculpas. O mesmo ocorreu com meu cunhado, pediatra, que perdeu várias vacinas no consultório pela falta de refrigeração. Desculpe, implorei ao jantar. É isso, estou convencido: o culpado pelo apagão de Ipanema sou eu.

É Proibido FumarFilme…

É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, estreando nos
cinemas, depois de arrebatar quase todos os prêmios
disponíveis no Festival de Brasília. Meus amigos Glória
Pires e Paulo Miklos arrasam na interpretação do casal
protagonista. Cinema inteligente, criativo e humano.
Nota dez

Por Tony Bellotto

27/08/2009

às 20:50 \ Pessoas

I-O-S-I-F

fantasmas-tony
Delmore Schwartz, poeta e contista americano, foi professor de Lou Reed – o roqueiro repórter literário do submundo – na Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos. Uma vez, ao fim de uma aula, Delmore disse a Lou: “Você sabe escrever. E se algum dia você vender bem, e se houver um paraíso aonde possa ser assombrado, eu vou te assombrar”. Quando Delmore morreu, em 1966, o jovem Lou esteve presente ao funeral do poeta.

Muitos anos depois, Lou Reed escreveu uma música em que conta que, ao mudar com a mulher para uma nova casa, se depara com um tabuleiro em que letras formaram ao acaso o nome D-E-L-M-O-R-E. Ao invés de se assustar com a presença do fantasma, Lou se inspira por ela. Eu não pude ir à cremação de Iosif Landau, estava viajando a trabalho. Iosif nasceu na Romênia em 1924, chegou ao Rio em 1940 e se naturalizou brasileiro em 1946. Formou-se em engenharia em 1949 e viajou muito pelo Brasil no exercício da profissão. Depois de aposentado, em 1993, Iosif começou a escrever. Escreveu poemas e três romances policiais, Comissário Alfredo, Os Anjos Também Morrem e O Diabo Vestia Seda.

O comissário Alfredo, personagem alter-ego de Iosif, é um típico policial hard boiled à moda dos detetives durões da literatura noir americana clássica, na linhagem de Hammet e Chandler, com toques da literatura beat, outra de suas influências marcantes. Livros gostosos de ler, na escrita viril e durona de Iosif. Conquanto o comissário Alfredo seja meio casca-grossa, sem papas na língua, Iosif era um cavalheiro. Sempre o encontrava no clube que frequento aqui em Ipanema. Minha simpatia por ele foi imediata, Iosif usava cabelo comprido, tatuagens pelo corpo, e tinha um ar transgressor que me lembrava um poeta beat. Algum companheiro desgarrado de Jack Kerouac que terminou de sunga, tomando sol numa piscina em Ipanema.

Iosif trazia no rosto a tristeza silenciosa dos poetas. Nossas conversas nunca eram muito longas, mas havia entre nós um entendimento sólido que talvez só as palavras de um poeta possam explicar. “Mais nada para ser dito e mais nada para ser chorado, só os seres no Sonho agarrados ao desaparecerem”, diz Allen Ginsberg num de seus poemas. Éramos companheiros, à nossa maneira. Quando voltei de viagem, e fui informado de que meu escritório estava com um vazamento d’água no teto, fiquei preocupado. Meus livros, pensei. Corri ao escritório. A água vazada no teto adquirira a forma de letras esparsas. Uma palavra? Um nome: I-O-S-I-F. Como Lou Reed, em vez de me assustar com a presença do fantasma, me inspirei por ela.

Livro…

O Comissário Alfredo, de Iosif Landau.

CD…

…Blue Mask, de Lou Reed, em que se pode ouvir a faixa My House,
em homenagem a Delmore Schwartz.

Por Tony Bellotto


 

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