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espanha

25/02/2010

às 21:01 \ Mundo

2012

embriao-humano

Preparem as pedras e as lanças! Afiem as espadas! Aqueles que concordarem comigo podem atirar pétalas vermelhas e amarelas. Falaremos de – tchan-tchan-tchan-tchan! -: Espanha! Calma, infelizmente não dissertarei sobre castanholas, paellas, touradas ou Penélope Cruz. Sei que decepcionarei muita gente, mas vamos debater assuntos menos glamurosos. Religião e…aborto. Desculpe. É o que dá ler o jornal todo dia.

Está lá, li hoje de manhã na Folha de São Paulo: o Senado da Espanha aprovou em definitivo lei que libera o aborto até a 14ª semana de gestação e permite a adolescentes entre 16 e 18 anos interromper a gravidez mesmo sem o consentimento dos pais. Façamos uma reflexão. A Espanha é um estado moderno, democrático, cuja maioria absoluta da população é católica, certo? Os senadores espanhóis, ao que me consta, não são monstros eleitos para aprovar leis que permitam matanças generalizadas (com exceção dos touros, talvez), correto?

Calma, continue comigo, depois você poderá argumentar. O que a Espanha acaba de fazer – como muitos outros países já fizeram – foi reconhecer o direito das mulheres à assistência médica e psicológica em casos de gravidez interrompida. É diferente de dizer: aprovamos o aborto porque somos sádicos, desalmados, insanos, cruéis e antirreligiosos. É muito diferente, não?

Sei que sempre que abordo o assunto sou alvejado por críticas e chuvas de impropérios, mas eu não estou sozinho. Tenho comigo, pelo menos, a maioria do senado espanhol. Não acompanho a política espanhola em profundidade, e sei que o país vive no momento reflexos negativos da crise financeira mundial. Mas não é difícil deduzir que a imagem dos senadores espanhóis é bem melhor que a dos nossos senadores brazucas, confere? (precisamos relembrar de todos os escândalos? Teremos tempo para tanto?). Então vamos dar um crédito aos senadores espanhóis e acreditar que um país civilizado e decente (e religioso) pode sim aprovar o aborto. Ainda vamos chegar lá, boto fé.

Ok, falei da Espanha e do aborto. Onde entra a religião nessa crônica? É que toda vez que falo de estado laico sempre me aparece um engraçadinho – um, não, dezenas – vociferando contra minhas convicções o mais pueril e estúpido dos argumentos: “Quer dizer, Tony, que se levarmos em conta as suas propostas, teremos de implodir o Cristo Redentor?”.

Ai, ai. Preciso responder a uma bobagem dessas? A França (outro país razoavelmente confiável, não?) proibiu imagens religiosas em suas escolas públicas e nem por isso determinou a implosão da igreja de Notre-Dame. Aliás, quem costuma implodir – e explodir – imagens religiosas, que eu saiba, são justamente fanáticos religiosos. E sempre o fazem em nome de alguma religião, invariavelmente a sua própria. Como os talibãs, por exemplo, que mandaram pelos ares imagens antiquíssimas de Budas de imenso valor artístico, histórico, cultural e religioso. Mas isso não vem ao caso. É que li no jornal – além da notícia da aprovação do aborto na Espanha – uma outra notícia interessante: a de que a Arquidiocese do Rio quer processar a produtora de cinema Columbia por usar sem autorização a imagem do Cristo Redentor despencando do Corcovado no filme 2012. Não é piada, juro. A Arquidiocese do Rio não tem nada melhor pra fazer? Dá o que pensar.

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Filme…

Educação, com roteiro de Nick Hornby,
mostra os conflitos de uma moça inglesa na década de
1960, em busca de liberdade e realização pessoal.

Por Tony Bellotto

29/09/2009

às 13:46 \ Cenas

Aranjuez

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Quando eu era criança meus pais viviam viajando. Ora acompanhados dos filhos – eu e minha irmã -, ora apenas os dois juntos e muitas vezes sozinhos, cada um na sua. Não foi à toa que começaram o namoro num trem, ainda universitários. Por conta do trabalho (professores de História, minha mãe também arquivista, e ambos pesquisadores) passavam longos períodos fora de casa. Nos acostumamos todos a esse modo de vida um tanto inconstante, porém interessante, como são todas as experiências de vida, cada uma a sua maneira.

Não sei quanto desse hábito familiar se repete em minha própria opção profissional, autêntico saltimbanco eletrônico que me tornei. Lembro-me de uma tarde em que viajávamos num ônibus pela Espanha eu, minha irmã e minha mãe, ainda na década de 60. No meio de uma paisagem arenosa e desolada envolvida por céu azul, o Concerto de Aranjuez começou a tocar no rádio dentro do ônibus. Minha mãe irrompeu num choro, emocionada pela beleza da música, pela melancolia da paisagem e pela poesia estranha da vida.

Eu, menino, não consegui entender aquele choro. “O que foi, mãe?”, perguntei. “Aconteceu alguma coisa?” Para mim, naquela época, só se chorava por dor ou algum desconforto físico muito intenso. “Nada, filho”, ela respondeu. “É a música, o céu, a Espanha…”. Aceitei a explicação, embora não a tenha compreendido então. Minha mãe mantém até hoje essa “coceira nos pés” e consegue a façanha de, aos 74 anos, passar metade do tempo em São Paulo, metade em Lisboa, onde trabalha.

Como vivo no Rio, nos vemos pouco. Outro dia, eu estava em São Paulo para a estreia do novo show dos Titãs, Sacos Plásticos. Os dias que antecedem uma estreia são cheios de compromissos, ensaios, divulgação em rádio, tv e jornais, reuniões com cenógrafos, técnicos, iluminadores etc. Mesmo sabendo que minha mãe viajaria no sábado – dia da estreia- para Portugal (de onde só voltará em janeiro do ano que vem), não consegui vê-la até sexta feira à noite.

Antes de dormir, pensei em convidá-la para o café da manhã e aplacar minha culpa de filho desnaturado. Como já era tarde, deixei para ligar no próprio sábado bem cedo. Não foi preciso, no sábado de manhã acordei com um telefonema de minha mãe avisando que já estava a caminho do aeroporto. O voo que a levaria a Portugal era diurno! Nos despedimos por telefone mesmo. Alguns minutos depois, desci ao saguão do hotel com meu filho Antônio para tomar café. Quando saio do elevador, numa dessas coincidências significativas e reveladoras, o Concerto de Aranjuez invade o saguão – e a minha alma – de lembranças, nostalgia e emoções contraditórias. Comecei a chorar. E o Antônio: “O que foi, pai? Aconteceu alguma coisa?”.

 

CDs…

O Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo. Belíssimo concerto, um dos mais inspirados trabalhos de música clássica para violão, composto em 1939 pelo grande instrumentista e compositor espanhol, pode ser encontrado em diversas versões. A de Miles Davis, em que o violão é substituído pelo trumpete, é muito interessante.

Por Tony Bellotto


 

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