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diário

07/07/2009

às 14:56 \ Viagem

Minha vida em hotéis – Parte I

Músicos de rock – assim como comissários de bordo, pilotos de avião, prostitutas, executivos de telefonia e caixeiros viajantes – são habitantes contumazes de quartos de hotel. O grande segredo é tentar transformar o quarto num lugar aprazível e menos desumano. Minha primeira atitude ao entrar no quarto de hotel é ligar a televisão. Ela permanece ligada o tempo todo. Com isso tenho a impressão de que tenho uma companhia constante, alguém que fala comigo ininterruptamente.

Tudo bem que essa pessoa é um ser em permanente mutação, com o rosto da Fátima Bernardes, o cabelo do Tom Hanks (sem chapinha, de preferência), a voz do Galvão Bueno, o charme da moça do tempo, o corpo do Robinho e de repente, plim, não é mais ninguém. Só um amontoado de chiados e chuviscos. Aí finjo que estou apreciando uma obra de arte em pleno museu do MOMA, em Nova York. Mesmo que esteja em Curitibanos, Sinop ou Patos de Minas (para quem não sabe, nomes de cidades brasileiras).

Imaginação é o segredo. Há quartos de hotel em que as paredes são muito finas. Nesses casos deve-se aproveitar para escutar brigas de casais, gritos de prazer, choro de bebês, ruídos fisiológicos, roncos em geral e até emocionar-se às lágrimas com um companheiro de banda cantando uma velha canção de Rod Stewart no quarto ao lado.

Outra questão importante é o serviço de quarto. Há hotéis que oferecem uma cozinha que fará o hóspede sentir-se no restaurante do Alan Ducasse e outros que servem uma comida indigna de um cachorro vira-lata. Há casos piores, como aqueles hotéis que encerram as atividades do serviço de quarto às 23h. São muito comuns. Para um músico que entra no palco à meia-noite e meia e chega ao hotel às duas da manhã, não pode haver notícia pior. Como matar a fome de madrugada na cidade de Varre-e-Sai? Existe uma cidade com esse nome, juro.

Geralmente há um pacote de castanhas vencidas sobre o frigobar, mas não aconselho. Melhor fechar os olhos e esperar pelo café da manhã. Importante: ligar-se no horário do café da manhã. Quando dizem “das 6h às 10h”, pode ter certeza de que às 10h05 um esquadrão de garçons se aglomerará em torno da mesa e retirará todas as frutas, pães, geleias e queijos da sua frente. Alguns deles começarão a preparar a mesa ao lado, e dirão enquanto ajeitam os talheres: “Fique à vontade, pode terminar seu café tranquilamente, só estamos adiantando a arrumação para a hora do almoço”.

 

CD…

Morrison Hotel, do The Doors, uma banda que dispensa apresentações.

Por Tony Bellotto


 

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