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corrupção

28/07/2011

às 8:00 \ Brasil

Movimento dos Caras Enrugadas

Estudantes brasileiros, mirem-se no exemplo de Camila Vallejo. Ela tem 23 anos e é uma das líderes dos estudantes chilenos que protestam por reformas na educação naquele país.

Um jornalista espanhol perguntou outro dia por que os brasileiros não saem às ruas em protesto contra a corrupção. Eu também me pergunto a mesma coisa. Talvez porque a corrupção esteja irremediavelmente introjetada em nossos corações e mentes, talvez porque o governo tenha cooptado estudantes e movimentos sindicais, talvez porque estejamos todos de saco cheio, anestesiados, com medo de parecer elitistas reacionários ou talvez porque sejamos mesmo um bando de babacas. Não sei.

Eu preferia falar de outras coisas, arte, música, ficção e ornitologia, mas essa acomodação generalizada me incomoda e me irrita. Quando eu era estudante, saí às ruas pelo fim da ditadura e pelas eleições diretas. Vi, tempos depois, os caras-pintadas ajudarem a derrubar a corrupção na era Collor. Não entendo porque hoje todo mundo é tão conivente e/ou indiferente com a corrupção galopante do governo – o atual e o anterior, tudo farinha do mesmo saco.

Sei que o Lula gostaria de ser lembrado como o pai dos pobres do século XXI, mas talvez o futuro esteja lhe reservando o título de presidente do governo mais corrupto da História do Brasil. Sei lá, pouco me importa como Lula ou Dilma serão lembrados. Ou FHC ou Collor ou Itamar. Eu só não queria ver os estudantes tão domesticados e apáticos.

Será que na falta de caras pintadas eu vou ter de criar o movimento dos caras enrugadas?

Não aguento ver essas corjas atacando o dinheiro público e enriquecendo ilicitamente nas nossas fuças e às nossas custas. Cambada de safados! Dilma afasta um aqui, outro ali e tudo bem? Não vão ser investigados não? Como assim? E não reagimos?

Caras enrugadas, às ruas, já! Vamos mostrar a essa juventude como se faz. Talvez cheguemos a Lugar Nenhum, mas Lugar Nenhum é melhor do que a República da Corrupção, não?

Por Tony Bellotto

22/01/2010

às 0:24 \ Brasil

Brasília fashion

dinheiro-meia

O deputado da meia será afastado do cargo. E assim entrará para a história: como o deputado da meia. Não se fazem mais políticos importantes com nomes imponentes como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves ou Rui Barbosa. Agora os políticos se imortalizam por alcunhas edificantes como o deputado da meia, o senador do bigode, o prefeito da cueca, o vereador da peruca, o governador do panetone, a deputada da bolsa, o assessor da mala, a senadora da propina, o ministro do cartão corporativo, o suplente da pochete e assim por diante.

Já que São Paulo e Rio fervem nesta época do ano com grandes acontecimentos da moda, sugiro que Brasília também crie sua fashion week. A capital federal está precisando de uma hypada, gente! Imagine só, um desfile transadíssimo pelas passarelas desanimadas do senado e da assembleia. Manecos sarados e manecas anoréxicas desfilando os modelos exclusivos para políticos corruptos, assessores propineiros, suplentes mau caráter, lobistas safados, simpatizantes e puxa-sacos em geral.

Meias equipadas com bolsinhos para facilitar o armazenamento do dinheiro, com divisórias para moedas. Cuecas aerodinâmicas com compartimento especial para cheques: o político, além de rechear a cueca de dinheiro público, ainda dará a impressão de que é bem dotado. Perucas com fios sintéticos à prova d’água: o senador ou deputado pode sair na chuva apertando as mãos de eleitores que o dindin não vai ficar molhado. Barrigas falsas com capacidade para armazenar grandes fortunas em dinheiro vivo, revestidas de camada fina de chumbo para não serem detectadas por raios-X.

Para as mulheres, toda uma coleção específica: falsos absorventes íntimos no formato opcional de notas de dólares, euros ou reais. Bolsas Luis Vuitton com fundo falso. Sutiãs que modulam, além do tamanho dos seios, o montante da propina. Isso sem contar os acessórios especiais unissex, como falsos bigodes com chips contendo senhas de contas na Suíça, Ilhas Cayman e outros paraísos fiscais, e o luxo dos luxos: um chapéu deslumbrante em forma de urna eleitoral, que serve também como um cofrinho ambulante, para que as nobres excelências não fiquem nem um minuto longe de seu precioso e suado dinheirinho. O DJ do desfile será o Jesus Luz, para dar um tom mais espiritual ao evento. Tudo pago, evidentemente, com dinheiro público.

hangoverFilme…

Se rir é mesmo o melhor remédio, não percam Hangover, que no Brasil recebeu o título idiota de Se Beber Não Case. Uma comédia divertidíssima, para lavar a alma e desopilar o fígado.

Por Tony Bellotto

05/01/2010

às 8:17 \ Brasil

Amor por dinheiro

A imagem não fala por si. Ela fala para si, que me lê agora. Para si e para todos nós. Ela diz – ou melhor, grita, berra, urra: “Otários!”. E prossegue, em tom jocoso, a desgraçada da imagem que fala – ou melhor, vocifera, brada, exclama: “Rá, rá, rá, se ferraram de novo, imbecis! Vocês não aprendem mesmo, né?”. E depois de uma pausa rápida para respirar (afinal, imagem que fala também respira), a imagem prossegue, reflexiva: “Que caso terrível de masoquismo coletivo esse de vocês! Rá rá rá. Não reagem nunca a todas essas calhordices e falcatruas…”

Estou delirando, a imagem realmente não fala. Ela simplesmente ri, gargalha e escarnece de si, que me lê agora. De si e de todos nós. Lula poderia ter dito: “A imagem não fala por si, mas gargalha de si, otário que me ouve”. O que mais me impressiona nessas infelizmente corriqueiras imagens de corruptos com a mão na massa é a volúpia com que se lançam ao dinheiro. Pupilas brilhantes, maxilares contraídos e mãozinhas afoitas mal disfarçam a euforia que lhes inspira o vil papel. E vão metendo os maços de dinheiro atabalhoadamente por bolsos, cuecas, perucas, meias, fundilhos e qualquer outra fenda ou buraco que se apresente. E fazem isso com a maior desfaçatez, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Os corruptos demonstram um desejo incontido de serem “possuídos” pela grana, de serem “comidos” pelo dinheiro, numa síndrome que talvez nem Freud explicasse, a estranha pulsão patológica que leva seres humanos a enfiar cédulas de dinheiro por orifícios do corpo. Às vezes, ao contrário, parecem querer “comer” a grana, ou “possuí-la”, num eterno e maçante troca-troca monetário. A imagem – sem palavras – que mais me comove é a dos corruptos rezando. O que é aquilo? A quem oram e agradecem pelas granas surrupiadas? O deus dos corruptos deve ser um imenso George Washington sentado num trono kitsch folheado a ouro. Ou um imensurável Benjamin Franklin, Abraham Lincoln ou qualquer outra carantonha que estampe uma nota de dólar (para os corruptos não importa que Washington, Franklin e Lincoln tenham sido políticos importantes, o que vale é que simbolizam dólares).

A imagem que fala para si, caro leitor, reza assim: “O panetone nosso de cada dia, nos dai hoje”. E o grande deus dos corruptos, milagreiro que é, dará um jeito de logo multiplicar não peixes e pães, mas panetones e pizzas. Sempre nos restará o prazer amargo de testemunhar o reality show macabro, o eterno Big Brother da Corrupção. Quem se importa em ver mulheres nuas? Rapazes de tonificados peitorais? Se temos políticos metendo dinheiro por seus recônditos, como cavaleiros do apocalipse ético? Amém.

CD…

…uma edição especial do primeiro disco do Nirvana, Bleach, com fotos, textos e material inédito sobre a grande banda de rock dos anos 90.

Por Tony Bellotto


 

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