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cachorro

26/10/2009

às 9:09 \ Cenas

Aprender a morrer

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Na semana passada escrevi sobre as peripécias de meu cão Guga para cruzar com a cadela Luna. Não só a Luna não emprenhou, como o Guga – meu adorável amigo de 16.000 anos – morreu. Sério. Em duas semanas, o vistoso golden retriver de oito anos, célebre no nosso quarteirão em Ipanema por sua docilidade, sabedoria, maturidade, beleza e inteligência, foi diagnosticado com um devastador câncer no cérebro que acabou por matá-lo rapidamente. A morte de um cão doméstico pode ser muito instrutiva.

Não sei se existe em algum Não Lugar um Osíris canino a conduzir almas de cães mortos por pet paradises abundantes em ossos suculentos a serem roídos pela eternidade e gatos serelepes prontos para divertidas e infindáveis perseguições até o infinito. O que sei é que a morte do Guga foi muito essencial. E triste, como toda boa morte deve ser.

A morte de um animal doméstico é desprovida de todos os véus, neblinas, subterfúgios e eufemismos que inventamos para as nossas pomposas e trágicas mortes humanas. Não há discursos, velórios ou extremas-unções. Não há promessas de vida eterna, perdão, castigo ou redenção, nem sessões espíritas que nos coloquem em contato com os latidos, miados, pios, cricrilares e relinchos dos animais mortos queridos. Não há religiões, ritos, obituários, bandeiras a meio pau, réquiens, marchas fúnebres, feriados ou minutos de silêncio. Não há roupas negras ou desesperos extremados. No máximo uma dor silenciosa, um choro resignado ou o grito doce de uma criança inconsolável.

Na morte de um cão, a morte está nua. A ceifadora das vidas animais irracionais não se veste de preto, nem carrega uma sinistra gadanha nas mãos descarnadas. A morte dos bichos é simples e didática como um último suspiro. Se eles sofrem demais, podemos até optar por sacrificá-los sem enfrentar problemas na justiça terrena ou divina. O Guga sofreu bastante nos seus últimos dias de vida. Pensamos até em sacrificá-lo. Mas a morte, essa sábia companheira sempre à espreita, chegou ao amanhecer e levou em silêncio o nosso amiguinho peludo e arfante. Restou a tristeza de todos na casa, febre num filho, sangramento no nariz do outro, e a pureza da morte pairando no ar como um bálsamo.

melhor-impossivelDVD…
Melhor é Impossível (As Good As It Gets), com Jack Nicholson e Helen Hunt, comédia perfeita para assistir em casa, numa noite em que se sofre pela morte de um cão querido.

Por Tony Bellotto


 

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