Blogs e Colunistas

aborto

14/02/2012

às 9:03 \ Arquivo

O dia em que o bispo levou um sermão

Thinckstock

 

A declaração cafajeste vem de ninguém menos que o bispo de Assis, SP, José Benedito Simão, que chamou a recém empossada ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, de “uma pessoa infeliz, mal-amada e irresponsável” por ter defendido o aborto em declarações à imprensa.

Que falta de educação, senhor bispo! Muito me admira que um homem que tenha se imposto o celibato, e portanto renunciado ao amor na sua expressão física, possa dizer que alguém é mal-amado. Além do mais, chamar uma mulher de mal-amada é expressão típica de machistas e misóginos, e não condiz com a conduta que se espera de um líder religioso.

Ninguém é à favor do aborto pelo aborto e o senhor sabe disso muito bem. O que muitas pessoas defendem, inúmeras mulheres católicas entre elas, é que as mulheres que pratiquem o aborto não sejam criminalizadas pela lei e que tenham uma política eficiente de saúde pública para ampará-las.

Que as religiões não recomendem a prática do aborto aos seus seguidores e fiéis é legítimo, assim como são legítimas as campanhas de conscientização para evitar a gravidez não desejada. Mas condenar ao crime mulheres que praticam o aborto não é uma atitude digna de um estado laico, responsável e democrático.

Dom José, há muitos cidadãos brasileiros, eu entre eles, que não pautam suas vidas e condutas pela moral religiosa, mas pelo humanismo e o respeito aos direitos individuais. O senhor tem todo o direito de pregar contra o aborto na sua paróquia e no seu templo. Mas não tem o direito de agredir uma mulher de forma tão deselegante.

Senhor bispo desça do púlpito e dê uma voltinha qualquer hora dessas pela vida real, isso lhe fará bem. Take a walk on the wild side, como diria Lou Reed.

E por favor, considere meu sermão: peça desculpas à ministra Eleonora por tê-la ofendido. Isso é o que se espera de um homem digno, bispo ou não.

Por Tony Bellotto

07/10/2010

às 20:52 \ Cenas

Casa de ateu, empregada evangélica

Eu não queria falar das eleições. Apesar de premente, acho um papo chato. E há gente muito mais bem preparada para falar do assunto. Mas não tem jeito. Essa questão do aborto, que tomou importância na reta final da campanha, me leva a entrar na briga. Em primeiro lugar, quero deixar claro que sou a favor da legalização do aborto, pois a considero sim uma questão de saúde pública. O fato de o aborto já ser legalizado em inúmeros países, inclusive países predominantemente católicos (Espanha e Portugal, por exemplo) me leva a ter certeza de que é possível conciliar a legalização do aborto com os direitos dos religiosos.

Afinal vivemos numa democracia, e o direito individual deve estar acima de crenças e descrenças. Bem, quem me acompanha aqui sabe que sou a favor da alternância no poder e torci muito por esse segundo turno. E o único ponto que me agradava no discurso de Dilma Rousseff era justamente a posição dela em relação à legalização do aborto. Ela sempre foi a favor da legalização, e deixou isso bem claro em entrevistas inclusive durante a campanha. Minto ao dizer que o apoio à legalização do aborto era o único ponto que me agradava na campanha de Dilma. Me agradava também sua posição favorável à união civil entre pessoas do mesmo sexo. Ora, essa sempre foi uma bandeira do PT, e um dos pontos fortes da luta política da Marta Suplicy, por exemplo, a quem sempre admirei por isso.

A postura do Serra – macaco velho – em relação à legalização do aborto sempre foi categórica: é contra. Serra sabe o preço político de uma afirmação que não essa. Marina, por suas conhecidas crenças religiosas, é contra também, e chegou a dizer que proporia um plebiscito para saber se o povo se posicionava a favor ou contra a legalização do aborto. Pois foi aí exatamente que Marina perdeu toda e qualquer chance de receber o meu voto. Questões como a legalização do aborto, assim como a união civil entre homossexuais, não devem ser colocadas em plebiscito, já que o direito individual tem de prevalecer sobre a opinião da maioria, que pode ser – e com certeza é, no Brasil – conservadora e orientada por conceitos (e preconceitos) religiosos e morais.

A mesma questão se apresenta, por outro lado, em relação à pena de morte: é muito provável que se fosse colocada em plebiscito a pena de morte seria aprovada pela maioria da população, o que parece terrível, concordam? Bem, conto tudo isso para justificar o título da crônica. A cozinheira aqui de casa é evangélica. A vida é cheia de contradições, e numa casa de ateus convictos convivemos muitíssimo bem com uma competente e simpaticíssima cozinheira evangélica. Isso inclui o rádio da cozinha ligado o dia inteiro numa rádio evangélica. Sim, o roqueiro toma seu café da manhã ao som da pregação de pastores e angelicais canções evangélicas. Sem problemas, vivemos numa democracia.

Numa tarde a poucos dias da votação do primeiro turno, flagrei minha cozinheira tentando convencer a irmã a NÃO votar em Dilma Roussef justamente por conta das supostas posições da candidata, favoráveis à legalização do aborto e à união civil de homossexuais. E o que fiz eu, ao escutar sorrateiramente a conversa, eu, um defensor da legalização do aborto e da união civil entre homossexuais? Calei-me, vibrando pela possibilidade de Dilma perder mais um voto e o segundo turno se concretizar. A vida é mesmo muito contraditória.

Filme…

Eu e meu Guarda-Chuva, o filme musical dirigido por Toni Vanzolini baseado na obra do meu companheiro Branco Mello, é imperdível para adultos, crianças e adolescentes. A produção é de cair o queixo, confiram!

Por Tony Bellotto

25/02/2010

às 21:01 \ Mundo

2012

embriao-humano

Preparem as pedras e as lanças! Afiem as espadas! Aqueles que concordarem comigo podem atirar pétalas vermelhas e amarelas. Falaremos de – tchan-tchan-tchan-tchan! -: Espanha! Calma, infelizmente não dissertarei sobre castanholas, paellas, touradas ou Penélope Cruz. Sei que decepcionarei muita gente, mas vamos debater assuntos menos glamurosos. Religião e…aborto. Desculpe. É o que dá ler o jornal todo dia.

Está lá, li hoje de manhã na Folha de São Paulo: o Senado da Espanha aprovou em definitivo lei que libera o aborto até a 14ª semana de gestação e permite a adolescentes entre 16 e 18 anos interromper a gravidez mesmo sem o consentimento dos pais. Façamos uma reflexão. A Espanha é um estado moderno, democrático, cuja maioria absoluta da população é católica, certo? Os senadores espanhóis, ao que me consta, não são monstros eleitos para aprovar leis que permitam matanças generalizadas (com exceção dos touros, talvez), correto?

Calma, continue comigo, depois você poderá argumentar. O que a Espanha acaba de fazer – como muitos outros países já fizeram – foi reconhecer o direito das mulheres à assistência médica e psicológica em casos de gravidez interrompida. É diferente de dizer: aprovamos o aborto porque somos sádicos, desalmados, insanos, cruéis e antirreligiosos. É muito diferente, não?

Sei que sempre que abordo o assunto sou alvejado por críticas e chuvas de impropérios, mas eu não estou sozinho. Tenho comigo, pelo menos, a maioria do senado espanhol. Não acompanho a política espanhola em profundidade, e sei que o país vive no momento reflexos negativos da crise financeira mundial. Mas não é difícil deduzir que a imagem dos senadores espanhóis é bem melhor que a dos nossos senadores brazucas, confere? (precisamos relembrar de todos os escândalos? Teremos tempo para tanto?). Então vamos dar um crédito aos senadores espanhóis e acreditar que um país civilizado e decente (e religioso) pode sim aprovar o aborto. Ainda vamos chegar lá, boto fé.

Ok, falei da Espanha e do aborto. Onde entra a religião nessa crônica? É que toda vez que falo de estado laico sempre me aparece um engraçadinho – um, não, dezenas – vociferando contra minhas convicções o mais pueril e estúpido dos argumentos: “Quer dizer, Tony, que se levarmos em conta as suas propostas, teremos de implodir o Cristo Redentor?”.

Ai, ai. Preciso responder a uma bobagem dessas? A França (outro país razoavelmente confiável, não?) proibiu imagens religiosas em suas escolas públicas e nem por isso determinou a implosão da igreja de Notre-Dame. Aliás, quem costuma implodir – e explodir – imagens religiosas, que eu saiba, são justamente fanáticos religiosos. E sempre o fazem em nome de alguma religião, invariavelmente a sua própria. Como os talibãs, por exemplo, que mandaram pelos ares imagens antiquíssimas de Budas de imenso valor artístico, histórico, cultural e religioso. Mas isso não vem ao caso. É que li no jornal – além da notícia da aprovação do aborto na Espanha – uma outra notícia interessante: a de que a Arquidiocese do Rio quer processar a produtora de cinema Columbia por usar sem autorização a imagem do Cristo Redentor despencando do Corcovado no filme 2012. Não é piada, juro. A Arquidiocese do Rio não tem nada melhor pra fazer? Dá o que pensar.

filme-educacao1

.

.

Filme…

Educação, com roteiro de Nick Hornby,
mostra os conflitos de uma moça inglesa na década de
1960, em busca de liberdade e realização pessoal.

Por Tony Bellotto

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados