13/10/2009
às 11:19 \ ViagemTrens

Num dos ensaios de O Último Leitor o escritor argentino Ricardo Piglia disserta sobre uma cena muito significativa do romance Anna Karenina , de Tolstoi. No capítulo 29 Anna Karenina lê um romance inglês no vagão de um trem. A cena é emblemática por vários motivos: no século XIX, época em que o romance foi escrito, o trem simboliza o máximo da modernidade. Ele expressa progresso, indústria, mobilidade, velocidade, autonomia e liberdade em contraponto à vida doméstica como representação de imobilidade, monotonia, atraso e conservadorismo. Em que outro lugar, afinal de contas, em pleno século XIX, pode-se encontrar uma mulher sozinha lendo um romance? Inglês, ainda por cima.
Segundo Piglia, o filósofo e ensaísta alemão Walter Benjamim tem um texto muito interessante sobre a leitura nos trens. “O que a viagem proporciona ao leitor?”, pergunta-se Benjamim. “Em que outra circunstância está tão compenetrado na leitura e consegue sentir sua existência misturar-se tão fortemente à do herói? Seu corpo não é a laçadeira do tecelão, que cruza o urdume incansavelmente ao compasso das rodas? Não se lia na carroça e não se lê no automóvel. A leitura de viagem está tão ligada a viajar de trem quanto à permanência nas estações”.
Já tive meus dias de Anna Karenina. Na minha infância e juventude viajei incontáveis vezes de trem de Assis, onde morava com meus pais, para São Paulo, onde viviam nossos parentes. Alguns trens da antiga Sorocabana – nome poético que mais tarde deu lugar ao mais pragmático e modernoso Fepasa – possuíam vagões dormitório. Atravessar naqueles vagões as doze horas que durava a viagem – sem contar os contumazes atrasos – era uma experiência encantadora. O filé a cavalo com fritas no vagão restaurante, o atrito metálico das rodas nos trilhos a reverberar pela noite como o rufar de um tambor gigante, o vento que invadia as pequenas plataformas entre os vagões, os passageiros nas estações observados da janela da cabine, tudo me remetia a uma experiência transcendente e literária.
Ler no beliche antes de dormir embalado pelos solavancos do trem tinha um sabor único. Em nenhum outro lugar o romance A Estrada, de Jack London, foi tão intenso e magistral quanto nos trens da Sorocabana. Se naquele tempo, anos sessenta e setenta, os trens já eram decadentes, o que veio depois foi pura ruína. Nunca me conformei com o fato de termos optado por matar os trens no Brasil. E a cada estrada esburacada que atravesso, a cada voo atrasado por causa da chuva que encaro, me conformo menos. É alguma coisa que trago no sangue, meu bisavô era maquinista de trem. Lembro sempre da velha casa da minha avó na rua dos ferroviários, no bairro do Tucuruvi, em São Paulo.
Por onde andam os ferroviários hoje em dia? Leio sobre o projeto da construção do trem bala (perdida) ligando Rio e São Paulo e cruzo os dedos para que dê certo. Espero que seja o início de uma nova era para ferrovias, ferroviários, leitores, escritores, viajantes, sonhadores e jovens aventureiros brasileiros.
Livro…
…O Último Leitor, de Ricardo Piglia. O escritor argentino disseca em ensaios brilhantes o personagem principal de toda a literatura: O Leitor.


















