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Arquivo da categoria Pessoas

13/01/2011

às 9:00 \ Cenas, Pessoas

O sofá branco da minha sogra

Se o início do ano simboliza mudança e renovação, aqui em casa começamos 2011 da melhor forma possível: uma tremenda reforma em nosso apartamento, que nos obrigou a uma mudança temporária para a casa da minha sogra.

Ao contrário do senso comum, que atribui às sogras a fama de chatas e invasivas, devo dizer que minha sogra, Ângela, é a exceção que confirma a flexibilidade de toda a regra: um amor de pessoa, carinhosa, solícita, agradável, amorosa e profundamente respeitosa. Chegou ao extremo de retirar-se do próprio apartamento – procurando abrigo na casa de outra filha – para que eu não me sentisse constrangido, o que me coloca na posição do genro que invade a casa e enche o saco da sogra, e não o contrário.

Aliás, que delícia o apartamento da minha sogra! Por que a grama do vizinho sempre parece melhor que a nossa? Ou melhor: por que o sofá da sogra sempre parece melhor que o nosso? Há um sofá branco na sala de minha sogra que é simplesmente irresistível. Ao deitar-me nele, e observar pela janela o suave balançar dos galhos das amendoeiras da rua Barão de Jaguaripe, em Ipanema, lembro das mangueiras de minha infância em Assis, no interior de São Paulo.

Havia poucas coisas mais prazerosas do que colher mangas diretamente dos galhos mais altos e saboreá-las deitado na cama do Tarzã (com a Jane). Ou, se o galho fosse espaçoso, no próprio living room da Família Robinson.

O sofá branco da minha sogra me remete também aos beliches da casa de praia da minha avó em Santos. Os beliches (deviam ser uns quatro por quarto) se transformavam rapidamente na nave Enterprise – da série Jornada Nas Estrelas – na nau Santa Maria, da esquadra que conduziu Cristóvão Colombo à América, isso quando não eram simplesmente o palco do Shea Stadium, onde os Beatles se apresentavam, ou o teatro em que era gravado o programa Jovem Guarda, com Roberto, Erasmo e Wanderléa. Dependia, digamos assim, do meu feeling no momento.

Às vezes aqueles beliches eram o gramado do Maracanã, onde Pelé fazia seu milésimo gol, ou só o melhor abrigo possível para um sono profundo de quem passou o dia inteiro na praia e ainda sente o sol nos ombros, o mar nos ouvidos e o sal na alma.

O meu feeling hoje transforma o sofá da minha sogra numa espécie de tapete voador proustiano, em busca das mangas, das Américas e dos gols perdidos. E que não me leiam os engenheiros e pedreiros da reforma do nosso apartamento (nem minha mulher, que é quem organiza tudo e dá as cartas por aqui), mas estou torcendo para a reforma atrasar bastante – e pela minha experiência sei que obras SEMPRE atrasam mais que bastante.

Ótimo. Não estou ainda preparado para abandonar o sofá branco da minha sogra.

CD…

I Feel Like Playing, o mais recente disco solo de Ron Wood, guitarrista dos Stones, é uma aula de boas canções e guitarras transcendentes.

Por Tony Bellotto

03/01/2011

às 10:47 \ Pessoas

Fernando Zarif

Alguns encontros registrados na memória: Paris, 2009. O homem de quase 50 anos, caminhando pela Champs Elysèes de bengala. Ao entrarmos no café da Virgin, nos abrigando do frio, ele comenta que acabara de encontrar Bono Vox no elevador do hotel. “Como ele é baixo!”, diz. E prossegue: “Olhei bem para a cara dele e falei: Sting!”. Seguiu-se à frase a risada característica. Por boa parte dos anos 80 e 90 o apartamento do artista plástico Fernando Zarif, em São Paulo, foi uma verdadeira embaixada do pensamento livre e da celebração da arte e da vida. Encontrava-se de tudo nas noitadas no apê do Zarif. Lembro-me até hoje da quantidade de livros, discos, quadros, esculturas e objetos que se espalhavam pela sala e pelos quartos. E das pessoas que surgiam – e desapareciam – no corredor, na cozinha (que abrigava uma das geladeiras mais bem fornidas de que se tem notícia), no banheiro, na varanda.

Sem contar os sustos que eu levava quando dava de cara, ao dobrar uma das esquinas do apê labirinto transcendental, com a presença etérea do gato Jesus caminhando pelas paredes, o Sancho Pança perfeito para um Quixote como o Zarif. Quanta conversa jogada fora. E outras tantas que se incrustavam dentro de cada um como pedaços de diamante. Zarif fez algumas das melhores capas de discos dos Titãs (no tempo em que ainda havia discos de vinil, e capas que eram consideradas objetos de arte): Tudo ao Mesmo Tempo Agora, Titanomaquia. Titanomaquia, aliás, disco mais pesado e roqueiro que já concebemos, ganhou o belo título do próprio Zarif. Estávamos pensando em algo mais banal, como A Volta dos Mortos Vivos, e Zarif sugeriu o nome da batalha mítica dos Titãs: Titanomaquia. Um grande disco começa pelo título.

Concebeu alguns de nossos melhores cenários também. Compunha música, escrevia (as poucas páginas que li do romance inacabado com um narrador cego eram geniais). Dândi como só um autêntico discípulo de Oscar Wilde conseguiria ser, era visto na primeira fila de nossos shows abanando-se com um belo leque japonês. Culto e bem informado, ao encontrá-lo almoçando sozinho no restaurante Gero, no Rio, aproximou-se de mim e Malu, que acabávamos de entrar, e perguntou, só pra não perder a fama de surpreendente e paradoxal: “E as fofocas? É verdade que fulano está comendo fulana?”. Zarif morreu no dia de Natal, depois de um longo padecimento que lhe custaram os abusos e a “vida de artista”. Restaram-nos algumas obras (esculturas e desenhos) suas espalhadas pela casa, obras que foram dadas de presente – nunca aceitou que pagássemos por elas – e que a partir de agora só reforçarão a ideia de que se a vida é efêmera, a arte é eterna. Beberemos um negrone ao cair da tarde, Zarif, em tua homenagem.

Arte…
Sugiro uma mirada em qualquer das obras de Fernando Zarif: quadros, desenhos, esculturas, objetos e capas de discos.

Por Tony Bellotto

02/12/2010

às 20:10 \ Pessoas

Biografias

Não sou muito chegado a ler biografias. Mas leio de vez em quando. Assim como em qualquer outro gênero literário, o que conta nas biografias é a qualidade literária e não o gênero em si. Adoro ler as biografias escritas por Rui Castro, por exemplo, que é um grande escritor. As biografias de Nelson Rodrigues (O Anjo Pornográfico) e Garrincha (A Estrela Solitária) são particularmente brilhantes.

Fernando Morais é outro que se sai muito bem no gênero. Olga, sobre a vida de Olga Benário, e Chatô, sobre Assis Chateaubriand, são livros excelentes. Nelson Motta também mandou muito bem na biografia de Tim Maia. Registro aqui também o primoroso trabalho que os jornalistas Andre Alzer e Erica Marmo fizeram na biografia dos Titãs, A Vida Até Parece Uma Festa. Há outras muito boas, mas no geral acho biografias desinteressantes – ainda que os biografados sejam interessantes -, não sei explicar por que. Talvez pelo fato de ser um romancista e portanto creditar à imaginação e à invenção a parte mais interessante do trabalho literário.

Por exemplo, sou fã do guitarrista inglês Eric Clapton, e ouvi muitos elogios à sua biografia, mas não consegui abrir o livro e começar a ler. Autobiografias então, dessas eu desconfio muito. Já acho meio esquisito alguém ser biografado antes de morto – pois se a vida de uma pessoa perfaz um ciclo, espera-se que esse ciclo tenha terminado para que se possa analisá-lo por inteiro.

Agora, alguém escrever a própria biografia? Me parece algo absolutamente não confiável. Leio que Fiuk e Luan Santana terão suas biografias publicadas em breve. Nada contra, acho os rapazes gente fina e talentosos, mas não são muito jovens para já merecerem uma biografia? Bem, há demanda, e não faltarão filas de menininhas ardentes a comprar as biografias dos dois mancebos. Estarei com inveja? Papo de tiozão? Sei lá. Pode ser. Keith Richards, que é meu ídolo supremo, acaba de lançar uma autobiografia. Por mais que eu admire o beatífico, ensandecido e enrugado guitar hero inglês, não me sinto animado para ler sua biografia. Vou comprar o livro, claro, principalmente para dar uma olhada nas fotos.

E leio que Lobão também acaba de lançar uma autobiografia. Lobão há muito já provou que é um polemista e frasista bem superior ao compositor relevante que gostaria de ser, e com certeza não faltarão histórias divertidas, algumas alfinetadas e ressentimento nas páginas de sua biografia. Mas acho que não vou ler. Estarei com raiva? Com medo que ele fale mal de mim? Sei lá. Pode ser. De qualquer forma, acho que vou pescar um livro de Jorge Luis Borges na estante, e ler uma biografia imaginária de algum personagem inventado pelo genial escritor argentino. Com certeza me sentirei mais conectado à realidade e um pouco mais sabedor da essência humana.

Livro…

…. Richard Burton, de Edward Rice, uma excelente biografia de um personagem muito interessante, real, um inglês aventureiro cuja vida daria um belo… romance!

Por Tony Bellotto

18/11/2010

às 21:10 \ Pessoas

Beijos são mais eficientes que pedras

Aos que frequentam este blog peço que chequem os comentários sobre a crônica Amai-vos uns aos outros. Sim, refestelemo-nos na doce lama da polêmica! É impressionante o número de pessoas que se sentem agredidas por eu não concordar com certas (quase todas, confesso) afirmações do papa, por exemplo as que condenam o uso de camisinhas e preservativos ou as que endereçam ao fogo dos infernos aqueles que copulam com – ou amam – pessoas do mesmo sexo.

Eu sinceramente não dou a menor pelota para esses comentários, mas fico de queixo caído com a beligerância e obtusão de muitos dos que acreditam no papa (ele mesmo beligerante e obtuso na minha modesta opinião) e navegam pelo meu pedacinho de mar cibernético. Quanta intolerância! Eu não vejo nada de errado com pessoas que acreditam em papas, virgens que procriam, julgamentos morais que determinarão em que tipo de condomínio residiremos na vida eterna – aquela que viveremos à exaustão após a morte -, e em conceitos tipo “a família é sagrada e o sexo deve ser exercido com fins exclusivos de procriação”.

Tudo bem, cada um acredita no que quer e vive como bem entende. Sou a favor da liberdade de culto, de imaginação e de expressão, e cada um que reze a quem quiser e siga os preceitos que prefirir. Só não venham querer me convencer dessas histórias da carochinha com argumentos tipo: “se fossem os seus filhos beijando homens ali, queria ver o que você acharia”. Dãrf! Não desrespeitem a minha e as vossas inteligências, please!

Este é um espaço público, não paguem esse mico na frente de tantos leitores! Se meus filhos forem gays, não farei outra coisa que não o que qualquer pai verdadeiramente cristão faria, ou seja: apoiá-los e desejar que vivam livres dessa maldita culpa religiosa, que causa tanto sofrimento inútil a milhares e milhares de pessoas. Aliás, é disso mesmo que estou falando aqui: da crueldade e da intolerância que se esconde sob os argumentos supostamente magnânimos e benévolos da religião. Tudo bem, não precisam concordar comigo, só peço que reflitam (os que ainda sabem como fazê-lo) sobre o assunto. E se quiserem continuar jogando pedras, sugiro beijos. Como diria Maria Madalena, beijos são mais eficientes que pedras.

Filme…

Minhas Mães e Meu Pai, apesar do nome horroroso – alguém deveria prender quem faz as traduções dos nomes dos filmes no Brasil – é um filme divertido e tocante sobre uma família não-convencional (nem tanto…). O nome verdadeiro do filme é The Kids Are Allright.

Por Tony Bellotto

14/10/2010

às 13:47 \ Pessoas

Fantasmas

Por conta das noites de autógrafos que tenho feito dentro da programação de lançamento de No Buraco, me deparo com alguns fantasmas comuns aos escritores. Aliás, escritores convivem muito com fantasmas. O Fantasma da Folha em Branco, por exemplo, é dos mais recorrentes. Esse costuma aparecer sem avisar, e quando aparece, demora para sumir. O Fantasma da Euforia Desmedida (também conhecido como Dostoiévsky) também é terrível. Esse aparece em momentos de euforia, quando você lê o que anda escrevendo e, aconselhado pelo fantasma, acredita que está escrevendo uma obra-prima e será um forte candidato ao Nobel de Literatura do ano que vem.

Esse fantasma costuma desaparecer após uma ducha de água fria ou a negativa de um editor em publicar sua obra-prima (coisa que acontece muito, também). Depois de publicado o livro, nas desoladas noites de autógrafos, um fantasma bastante corriqueiro é o Fantasma da Livraria Vazia. Esse é barra pesada. E muito sacana. Costuma aparecer quando você se depara com a livraria às moscas (à exceção dos garçons que carregam as bandejas com vinho branco quente, e que parecem se divertir secretamente com o seu desespero, eles, mais as moscas, as únicas testemunhas do seu fracasso) e, do alto de uma pilha do seu último e genial romance, ri em brados fantasmagóricos que só você escuta.

Mas o mais temido dos fantasmas das noites de autógrafos é sem dúvida o Fantasma do Esqueci o Teu Nome. Esse é realmente devastador e pode acabar com sólidas amizades e até mesmo rachar ou comprometer seriamente laços familiares. Não adianta você avisar o pessoal que está vendendo os livros de que é preciso colocar um papelzinho com o nome da pessoa. E a culpa não é dos livreiros. Eles até tentam convencer seus amigos e familiares de que você IMPLOROU para que um lembrete com o nome do comprador fosse anexado à cópia de sua genial e inigualável obra-prima (pra você, pelo menos). Mas não tem jeito. Há sempre um amigo, ou parente, que diz: “Imagina, ele sabe meu nome…”. Ele sabe, é verdade. Mas ele esquece. Ainda mais depois de uma noite mal dormida (no dia anterior houve uma outra noite de autógrafos numa cidade a 400km de distância), e de inúmeros chopes ingeridos nos incontáveis minutos (horas, à vezes…) transcorridos até que o primeiro convidado aparecesse. É nesses momentos, quando você, desesperado, pergunta ao seu melhor amigo “Como é mesmo o teu nome?”, que o Fantasma do Esqueci o Teu Nome abre uma fenda irreparável na tua alma… desculpem, por favor, amigos e parentes que tiveram seus nomes esquecidos por mim. Não é nada pessoal, são só os fantasmas que assolam um escritor.

DVD

Amnésia, um filme perfeito para uma noite após uma sessão de autógrafos.

Por Tony Bellotto

20/09/2010

às 12:40 \ Pessoas

18 de setembro

No meu devaneio – sozinho na tarde de sábado, deitadão na cama do hotel olhando a TV ligada sem som, num estado letárgico entre o sono e a vigília – eu, aos 50 anos, me ajoelho diante do rapaz de 27. Sim, para um cara de 50 alguém de 27 é, no máximo, um rapaz. Ele é preto, tem no rosto algumas espinhas (como resquícios da adolescência a lhe reiterar a juventude), é muito magro e esbelto e sorri um sorriso ambíguo em que transparecem ao mesmo tempo ingenuidade e uma certa arrogância (não é arrogância na verdade, é só uma couraça que um menino preto, pobre e meio índio encontrou para enfrentar um mundo estranho). Eu me ajoelho diante dele, e o reverencio abaixando a cabeça, como um beduíno que se volta para Meca no meio do deserto. Ele ri, claro. E diz, em inglês – sim, o rapaz é americano -: “Corta essa, velho! Pirou? Levanta daí…”.

É um devaneio, eu sei. Tento descansar na tarde de sábado: logo mais nos apresentaremos, os Titãs, numa tradicional casa de rock paulistana e o horário de entrada no palco está marcado para 2 da manhã. Eu, aos 50, acho cada vez mais difícil entrar no palco às 2 da manhã. Tento dormir, não consigo. A TV mostra um desses programas sobre a vida de animais selvagens. Um leão persegue uma gazela na savana africana.

No devaneio seguinte me encontro em Seattle ainda no final dos anos 90. Estou com os Titãs mixando um de nossos discos, As Dez Mais, se não em engano. Numa tarde livre procuro desesperadamente pelo túmulo do rapaz negro de 27 anos. Sim, esqueci de contar, o rapaz preto já está morto. Na tarde fria e chuvosa em Seattle, me irrita pensar que Jim Morrison – outro rapaz americano de 27 anos, só que branco – está enterrado num cemitério charmoso e badalado de Paris, o Père Lachaise, e que seu túmulo é uma atração turística. Por que não consigo agora encontrar em Seattle o túmulo do rapaz negro de 27 anos?

Levanto da cama, desisto dos devaneios – e de tentar dormir à tarde para estar em forma à noite para o show. Desligo a TV. Eu nunca consegui encontrar o túmulo do rapaz negro de 27 anos cuja morte aconteceu há exatos 40 anos deste sábado, 18 de setembro. E como em todo 18 de setembro desde então, me lembro da primeira vez que a vi a foto do rapaz pouco após a sua morte numa reportagem da antiga revista Manchete. Foi ali, há 40 anos, ao ver a foto de Jimi Hendrix, que decidi (ou compreendi?) que meu destino era tocar guitarra.

CD…

…Em homenagem ao maior guitarrista de todos os tempos, Jimi Hendrix, sugiro uma boa audição no CD Are You Experienced.

Por Tony Bellotto

10/09/2010

às 15:00 \ Pessoas

Teenager

Você começa a pensar na brevidade da vida e no fluxo contínuo e irrefreável do tempo quando seu filho caçula faz treze anos. Ele ainda é um bebê, claro. E sempre será.

Você ainda o vê de fraldas carregando a mamadeira, no passo cambaleante dos que aprendem a andar, entrando no seu quarto com o rostinho inchado de sono, desviando dos móveis em sua direção, para deitar ao seu lado e mamar o leite morno na companhia redentora do papai.  Não importa que ele já discuta a questão islâmica com você durante o almoço, ou que o alerte para a ameaça do aquecimento global, ou que o questione sobre aquele candidato a senador em quem você está pensando em votar, ou que o instrua minuciosamente sobre a questão do lixo seletivo.

Não importa também que ele tenha o rosto salpicado por algumas espinhas anunciando a atuação da puberdade a todo vapor e que as pernas dele já estejam mais peludas que as suas próprias e que aquelas penugenzinhas da nuca já se transformam rapidamente em pelos duros como os de um javali.

Tampouco importa que ele já se declare ateu – embasado por declarações recentes do físico Stephen Hawking -, inconformado com as explicações pouco plausíveis da igreja para os fenômenos físicos que observa, e que revele de vez em quando uma sutil desilusão proporcionada pelas questões filosóficas que o acometem e intrigam, e que se orgulhe de vestir uma camiseta do Led Zeppelin ou de que conheça de cor, por obra da memória prodigiosa, todos os personagens e cenas mais importantes da trilogia do Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, e de que concorde com o escritor americano Kurt Vonnegut quando este afirma que todo filho caçula é um piadista. Não, não importa.

Não importa também que ele mergulhe às vezes num silêncio contemplativo, os ouvidos imersos nos headphones do iPod, cumprindo o ritual de introspecção que exigem as paixões românticas avassaladoras. Tampouco importa que ele já conheça melhor que você os discos e bandas que fizeram sua cabeça há mais de quarenta anos, e que também seja flagrado à noite lendo O Apanhador no Campo de Centeio com um olhar crítico que saberá compreender que quase setenta anos o distanciam de Holden Caulfield e com um discernimento generoso que o fará entender por que você vive repetindo que aquele livro foi tão importante na sua adolescência.

Não, nada disso importa. Ele ainda é um bebê, claro. E sempre será.

Filme

A Trilogia do Poderoso Chefão, de Coppola, numa homenagem aos treze anos do meu filho caçula Antônio.

Por Tony Bellotto

23/08/2010

às 14:16 \ Arquivo, Cenas, Pessoas

Solilóquios do sushi-bar I

Toda vez que estou em São Paulo dou um jeito de almoçar, pelo menos uma vez que seja, no Sushigen. Ali me sinto em casa e lembro dos anos 80, quando já frequentava o restaurante, numa época em que restaurantes japoneses eram japoneses mesmo, sem frescuras de alta gastronomia. Antes da fase dos grandes e afetados chefs de cozinha, estes superestimados gênios de nossa era, houve a fase heróica dos sushi-men, gloriosos samurais saídos direto de um filme de Kurosawa para as ruas da Liberdade, o bairro oriental de São Paulo.

Quem viveu aquela época sabe do que estou falando. Bem, voltando ao solilóquio – bela palavra, hein? -, no Sushigen come-se tão bem quanto em qualquer japonês hypado, com a vantagem de se pagar muito, mas muito, menos. Sushi-bares são os lugares ideais para os famintos solitários. Você se senta no sushi-bar, abre um livro, ou o jornal, e fica à vontade, sem ninguém te olhar estranho por estar sozinho num restaurante. Se você não tem, ou não quer ler um livro ou um jornal, tudo bem, pode ficar ali de papo pro ar, degustando sushis e sahimis enquanto admira o sushi man trabalhar. Ou puxar conversa com o vizinho, outro faminto solitário, ou simplesmente bebericar um saquê, ou um chá verde, em doce contemplação e plácido silêncio.

Há sempre um calendário com a foto de uma cerejeira em flor em algum lugar. Por que digressiono aqui sobre o Sushigen? Foi ali que encontrei na semana passada meu amigo Pena Schmidt. Pena Schmidt, mais conhecido como Peninha, foi o produtor do primeiro disco dos Titãs, em 1984, e co-produtor, junto com Liminha, do Cabeça Dinossauro, de 1986. Além de produtor, ele era uma espécie de olheiro da Warner Music, e descobriu outras grandes bandas da época, como Ultraje a Rigor e Ira, entre tantas outras. Pena já se destacava em produção de discos desde a década de 70, quando trabalhou em discos seminais de muitos artistas, Walter Franco entre eles.

O mais engraçado é que Peninha, por mais roqueiro que fosse, nunca perdeu uma aura zen, que o levou, inclusive, a diversificar as atividades profissionais e abrir uma fábrica de pipas e papagaios. Hoje em dia ele continua agitando, e atualmente é o curador de uma das melhores salas de espetáculos de São Paulo. Bem, o Peninha estava ao meu lado no sushi- bar lendo um jornal e degustando as maravilhas do Sushigen. Trocamos abraços, ideias e palavras carinhosas.

Serei sempre agradecido ao Peninha, entre tantas outras coisas, por ter tirado aquele som incrível da minha guitarra em Sonífera Ilha. Aquele timbre de Fender Stratocaster que remete ao timbre clássico do Mark Knopfler, não é fácil de se conseguir. Ficou como uma das marcas principais de Sonífera e dos Titãs no começo da carreira. Como disse Peninha, ao fim de nossa conversa em que muitas lembranças foram evocadas: “O que nós fizemos, agora virou História”. Frase que nos arrancou uma boa gargalhada.

Disco…

…Não quero puxar a brasa para a minha sardinha, mas escutar de vez em quando nosso primeiro disco, Titãs, de 1984, é um tremendo barato.

Por Tony Bellotto

 

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