24/05/2010
às 12:45 \ MúsicaParadigmas e ex-paradigmas

Termino essa semana as gravações de mais uma temporada do programa Afinando a Língua, da TV Futura. Para quem não sabe, apresento um programa que une música e literatura, com o intuito de provar que esta pode ser tão interessante quanto aquela. Aos que não entenderam a que me refiro com esta e aquela, esclareço: literatura e música. É claro que o programa não se resume a isso, há muitos casos em que aquela (agora, a literatura) mostra-se bem mais interessante que esta (sim, a música), e o objetivo principal do Afinando é mostrar as infinitas, divertidas e interessantes relações e possibilidades da palavra como forma de expressão e comunicação. Mas no geral existe uma ideia de que jovens não lêem tanto quanto escutam música, e um dos motivos para isso é o preconceito que desenvolvem em relação aos livros a que são obrigados a ler na escola.
Isso é compreensível, se você parte do princípio que ler um livro de, por exemplo, Machado de Assis é obrigatório e ouvir um disco de, digamos, Marilyn Manson, é opcional. Tudo que é obrigatório é mais chato. Serviço militar, por exemplo. Ou horário eleitoral. Visita ao dentista. Bem, vou parar com as digressões e voltar ao fio da meada. O Afinando a Língua tem agora um novo formato e pela primeira vez posso entrevistar de verdade meus convidados. Digo isso porque nas outras temporadas o tempo para entrevistas era limitado, pois era preciso dividi-lo com clipes de música e outras informações didáticas. Agora optou-se por uma forma mais orgânica, em que os entrevistados falam mais longamente de si e de seus trabalhos, e também tocam músicas de outros autores cujas obras são abordadas no programa.
As últimas semanas se revelaram surpreendentes. Não que eu tenha me transformado numa espécie de Marílio Gabrielo, mas é que tomei contato com músicos e músicas que ainda não conhecia, ou não conhecia direito, e isso me fez um bem danado. Para um velho (sim, meus cinquenta anos se aproximam como um trem desgovernado, eu amarrado aos trilhos) e desiludido roqueiro e escritor, nada melhor do que sangue fresco, suor recente e volume alto para derrubar alguns velhos paradigmas.
Paradigma um: com a derrocada da indústria do disco, velhos melancólicos como eu tendem a achar que tudo está perdido, que já não se faz música como antigamente, que “no meu tempo é que era bom” etc. Errado: a garotada – alguns nem tão garotos assim – vem fazendo música de alta inventividade e depurada técnica, cavando espaços reais e virtuais para divulgar seus trabalhos. Falo de bandas como Sobrado 112 e Fino Coletivo, e cantores e compositores como Márcio Local e Rodrigo Maranhão, por exemplo.
Paradigma dois: meninas e moças delicadas e magrinhas não podem compor e cantar sobre temas densos e profundos que sua pouca idade e exíguo peso não lhes permitiram ainda vivenciar. Errado: as meninas – algumas nem tão meninas assim – transformam-se em gigantes furacões de vivências e emoções cantadas com sangue e suor dignos de Rimbauds de saias. Falo de cantoras e compositoras como Ana Ratto, Ana Cañas, Mallu Magalhães e Maria Gaddu, por exemplo. Assim, o velho roqueiro escritor livra-se de seus paradigmas, transformando-os em inúteis ex-paradigmas, e em êxtase solitário aguarda em paz (embora ainda amarrado aos trilhos, pois não eram apenas paradigmas que o imobilizavam) a iminente chegada de seus cinquenta anos.
… Um livro divertido e cáustico, que se lê com o mesmo prazer com que se lê um policial ou romance histórico, A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato, do escritor catalão Eduardo Mendoza.
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