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Arquivo da categoria Cenas

06/02/2012

às 9:32 \ Cenas

A Vingança do Espelho

Minha história com Betty Gofman tem mais de vinte anos, tendo sido ela um eficiente cupido no início de minha relacão de amor com Malu, que acabaria desaguando num casamento apaixonado, duradouro e frutífero. Betty sempre me proporciona bons augúrios, portanto.

Além de inúmeras risadas e algumas surpresas. Ao seu lado já presenciei uma impressionante cena de paranormalidade canina, ou seja lá como se chama o fenômeno, quando, por ocasião de uma estada em Paraty, durante um jogging matinal, testemunhei que Betty conseguia se comunicar com seu cachorro (uma cadela, na verdade) com a desenvoltura de uma São Francisco de saias (ou de roupa de jogging).

Mas nada que se compare ao seu imenso talento como atriz, o que pode ser comprovado na peça A Vingança do Espelho: a História de Zezé Macedo, em cartaz no Rio e com temporadas já garantidas em outras capitais brasileiras.

Zezé Macedo, para quem tem mais de trinta anos, é aquela atriz feia e magra, quase deformada por inúmeras plásticas, com uma voz aguda e estranha, que se destacou no fim da vida com papéis bizarros como a Biscoito, a esposa do bêbado Tavares – mais uma das criações magistrais de Chico Anísio – e a Bela, da Escolinha do Professor Raimundo, a aluna histérica que interpretava todas as perguntas do professor como fixação pornográfica e se jogava ao chão bradando: “Só pensa naquilo!”.

O que nos revela a peça de Flávio Marinho, com direção de Amir Haddad, é que Zezé Macedo foi bem mais que a atriz caricata das últimas décadas de vida.

Nascida em 1916 no interior do Rio, Zezé teve uma longa carreira no cinema nos anos 50, em que ganhou o título de Rainha da Chanchada, e contracenou com Oscarito – que dizia que ela era a maior comediante do cinema brasileiro – e outros grandes do gênero (Grande Otelo a chamava de Carlitos de saias). Além disso ela escreveu e publicou livros de poesia e demonstrou a vida toda grande sensibilidade e talento artístico. A peça também expõe a face trágica de Zezé, que muito jovem perdeu um filho bebê e que, ao gritar de dor pela morte do filho, comprometeu sua voz para sempre. Zezé Macedo é um personagem que merece ser conhecido em toda a sua dimensão, na interpretação devastadora de Betty Gofman.

Por Tony Bellotto

02/02/2012

às 14:20 \ Cenas

2012, o ano em que o rock renasceu

Numa semana que se iniciou com a notícia da prisão de Rita Lee por “desacatar” policiais truculentos em Sergipe, nada melhor para iluminar uma quinta-feira do que a notícia de que no Irã bandas e músicos clandestinos burlam a lei para botar seus yás-yás para fora, como diria o inesquecível Ezequiel Neves, o Zeca Jagger, parafraseando seu famoso primo rico inglês, o Mick.

Na tenebrosa República Islâmica do Irã, além de serem proibidas as bebidas alcoolicas e os contatos entre homens e mulheres não casados (?), só se pode fazer música com a permissão do governo, o que inviabiliza a publicação ou exibição de qualquer artista sujeito à “má influência musical do Ocidente”. Ou seja, os iranianos não podem fazer ou ouvir música influenciada por gente como Frank Sinatra, Duke Ellington, Miles Davies, Ray Charles, Stevie Wonder, Michael Jackson, Elvis, Beatles, Stones, Clash, Nirvana, Tom Jobim, Charles Aznavour etc etc (não vou nem falar de Beethoven, Mozart e Justin Bieber porque aí é sacanagem). Mas, a galera de bandas iranianas como a Bomrani (foto) e a Palette não estão nem aí, e clandestinamente fazem seu rock rolar aos poucos, provando que rock bom em governo duro, tanto bate até que cai o muro. Ou algo assim.

A cantora Maral, por exemplo, foi presa em 2007 ao fazer um show não autorizado e passou quatro dias na cadeia acusada de “satanismo”. Mas nada disso impede que cada vez haja mais bandas e músicos no Irã tocando onde e como podem. Agora que os governantes islâmicos descobriram que o Diabo é pai do rock’n roll (algo que Raul Seixas sabia há muito tempo), que se cuidem: Satã odeia ditaduras. Rock the Casbah!

Por Tony Bellotto

30/01/2012

às 14:45 \ Cenas, Pessoas

Sergipe já tem uma inimiga pública número 1

Rita Lee despediu-se dos palcos dando uma lição de rock às novas e futuras gerações: protestou contra a truculência da polícia em um show em Aracaju, Sergipe, e acabou presa, acusada de “desacato e apologia ao crime ou ao criminoso”, nas palavras do venerável artigo 287 de nosso Código Penal. Ok, quer dizer que a criminosa é a Rita? Como se já não tivéssemos suficientes problemas de segurança pública, não?

Sergipe já tem sua inimiga pública número 1! Os policiais sergipanos, em vez de escoltarem com reverência a grande dama de nosso rock de volta ao hotel para um merecido e glorioso descanso, depois de lhe pedir autógrafos, claro, preferiram, à moda do que se fazia na ditadura – que Rita muito ajudou a combater -, levá-la à delegacia (e ainda foram cumprimentados pelo governador do estado…).

Parabéns, Rita, mais uma vez você provou que é mesmo nossa rainha. Recolham-se os policiais e seus cavalos aos seus quartéis e estábulos, vanglorie-se o governador de sua polícia violenta, todos vocês serão merecidamente esquecidos. Rita Lee, a eterna menina sapeca vestida de noiva, ficará para sempre na memória dos brasileiros como um exemplo de irreverência, criatividade e liberdade. Se uma roqueira espivetada do alto de seus 60 anos de idade ainda consegue ameaçar a ordem e a segurança pública, o rock no Brasil continua mais vivo do que nunca.

Longa vida ao rock! Viva Rita!

Por Tony Bellotto

26/01/2012

às 15:32 \ Cenas

Crônicas de um mundo em decomposição

(Foto: Thinkstock)

O cara pensa assim: que perrengue passavam nossos ancestrais na idade da pedra! Dificuldade para conseguir alimento, fragilidade diante dos predadores de maior porte e velocidade, incapacidade de lidar com os reveses causados por tempestades, secas e enchentes, falta de defesa contra doenças e epidemias, medo de ataques de tribos rivais.

O cara pensa assim: que sorte a minha, de viver em pleno século XXI, cheio de iPhones, iPads, iPods, net, internet, e-mails, e-books e Facebooks.

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Por Tony Bellotto

23/01/2012

às 15:37 \ Cenas

Deus me livre!

(Foto: Thinkstock)

Outro dia, no táxi a caminho do Galeão, passou por mim um carro vermelho em alta velocidade. O motorista parecia um rapper latino de filme independente americano, com boné virado pra trás e imensos óculos escuros. O interior do carro emanava um funk ensurdecedor que ajudava a compor a barulhenta sinfonia da Linha Vermelha às 8h30 da manhã, em que buzinas, roncos de motores e turbinas de avião se misturam numa música que nem John Cage poderia conceber.

Depois que o carro passou, reparei num plástico enorme no vidro de trás com os dizeres: DEUS É FIEL. Não foi a primeira vez que vi a frase, claro, ela é bastante difundida, mas foi a primeira vez que refleti sobre ela. Essa frase sempre me intrigou. A que se refere, afinal de contas? Deus é fiel a quem? A Ele mesmo?

Ora, se Deus, por definição é “causa necessária e fim último de tudo que existe” Ele não tem que se preocupar em ser fiel a si mesmo, pois já que está acima de todas as coisas não precisa, por definição, “não contrariar a confiança depositada”. O mesmo vale para a sua, digamos assim, ideologia, ou doutrina. Mesmo que Ele envie um planeta em rota de colisão com a Terra e destrua a vida humana por estas plagas, ainda assim continuará sendo fiel aos seus desígnios, já que estes são, também por definicão, insondáveis. Portanto dizer que Deus é fiel a si mesmo é afirmar uma tremenda de uma redundância.

Pode-se, por outro lado, argumentar que Deus é fiel aos que Nele crêem. Mas como todo fiel é por definição passível de ser traído, não seria errado afirmar, no caso de um crente que “abandone” Deus para flertar com o diabo, por exemplo – o que vive acontecendo -, que Deus é traído em alguns casos. Nesse caso seria tão correto afirmar que DEUS É TRAÍDO quanto que DEUS É FIEL.

Isso me remete a uma outra frase, também muito difundida, que me intriga igualmente: DEUS É DEZ. Só dez? Deus deveria ser, no mínimo, Mil, ou Milhão, quando não, Infinito, certo? Claro que a frase quer dizer que Deus está no nível máximo de qualquer escala, o topo da linha. Mas o número dez não me parece à altura do Todo Poderoso, na boa, e olha que eu nem acredito na existência Dele (acredito na do número dez, no entanto).

Mas caso os crentes queiram passar uma dimensão do poder e da força do Senhor, deveriam usar o número zero, já que este, por definição, é o “elemento inicial de qualquer série”, além de representar a “total ausência de quantidade”, ou ainda um “conjunto vazio”, que cabem muito melhor na definição do que seria esse “não lugar” que Deus habita, do que o raquítico número dez. Nesse caso, seria tão correto afirmar que DEUS É ZERO quanto que DEUS É DEZ.

Mas imagine o que aconteceria com alguém que saísse num carro com os dizeres DEUS É TRAÍDO e DEUS É ZERO. Deus me livre…

Por Tony Bellotto

12/01/2012

às 14:00 \ Cenas

Traição

(Foto: Thinkstock)

Embora todo mundo a experimente uma vez ou outra, a traição é uma das sensações mais ásperas e amargas que se pode vivenciar.

A traição amorosa é talvez a maior responsável pelas dores na alma (no cotovelo e nos cornos também) que acometem seres humanos mundo afora. Nem a enxaqueca e a popular dor nas costas conseguem ser tão comuns e tão essencialmente humanas quanto uma boa traição. Um sabor que todos conhecemos, mas evitamos com a determinação de vampiros que correm à visão de cabeças de alho. Apesar de amarga, e talvez por isso mesmo, a traição sempre rendeu grandes personagens e excelentes tramas.

Nós, homens, do alto de nossa imensurável arrogância masculina, criamos ao longo da História personagens femininas que se destacam por trair os homens: Eva, Dalila, Madame Bovary, Capitu…e quem são os grandes “traidores” masculinos da história e da literatura: Marquês de Sade? Don Juan? Dorian Gray? Nathan Zuckerman? Não, os adúlteros masculinos não estão à altura de seus pares femininos.

Se o sabor da traição amorosa é aguda como o sabor do alho, o que dizer da traição de um amigo? Nesse caso, dando continuidade à tradição misógina que nos orienta, o maior “amigo traidor” da humanidade, o popular Traíra-Mor, é obviamente um homem, Judas Iscariotes, o amigo da onça que traiu Jesus Cristo, entregando-o à sanha dos soldados romanos.

No Brasil temos dois outros grandes exemplos: Joaquim Silvério dos Reis, o homem que entregou Tiradentes, e o menos conhecido Calabar, o senhor de engenho pernambucano que no século XVII traiu os colonizadores portugueses, seus antigos aliados, virando a casaca para apoiar os invasores holandeses.

O que comprova que, na traição, assim como em quase tudo na vida, há sempre duas versões: a do traidor e a do traído. Esta, invariavelmente mais amarga que aquela.

Por Tony Bellotto

09/01/2012

às 15:22 \ Cenas

1984

(Foto: Thinkstock)

Estou lendo A Vitória de Orwell, de Christopher Hitchens, que discorre sobre a vida, obra e legado de George Orwell, o grande escritor, jornalista, ensaísta e pensador inglês do século XX. Das inúmeras ideias e obras deixadas por Orwell nos seus 47 intensos anos de vida, a mais conhecida é sem dúvida o romance 1984.

Publicado em 1949, o livro narra as desventuras de um homem comum numa sociedade futurista, repressora e totalitária, em que os cidadãos são constantemente vigiados e julgados por um Grande Irmão onipresente. Mais de meio século depois, o Big Brother voltaria de maneira surpreendente, e muito menos aterradora, na forma do programa de TV que faz tanto sucesso no mundo todo, em particular no Brasil.

Ao contrário das previsões sombrias de Orwell – que dizem respeito muito mais à época em que foi escrito o livro do que propriamente ao futuro – o Big Brother de hoje atesta que a luta e a obra de Orwell em favor de um mundo mais livre e democrático não foram em vão.

Para aqueles que, como eu, acham o Big Brother (o programa de TV) meio sem gração, fica aqui a sugestão da leitura de 1984 e, caso você já o tenha lido, ou relido, a leitura de A Vitória de Orwell. As sugestões valem também para quem gosta do programa, afinal não tenho nada contra e, como Orwell, acredito que as pessoas têm de ter liberdade para fazer o que bem entendem.

Essa ideia, a ideia da liberdade, me remete aos recentes acontecimentos na Cracolândia de São Paulo. Não tenho condições de julgar se a iniciativa do governo e da prefeitura paulistas será eficiente no combate à droga e na recuperação dos viciados. O que acho positivo, e louvável, é que alguma coisa está sendo feita, e que isso não se limita a prender usuários e mandá-los para a cadeia. Pelo contrário, segundo as informação veiculadas na imprensa, os viciados estão sendo conduzidos a instituições de saúde e tratamento.

Esse é o ponto principal na luta contra as drogas. Mais do que repressão e criminalização, é preciso compreender que o problema, assim como o do aborto, é de saúde pública, e não de polícia. Ou assim deveria ser na minha modesta e leiga opinião de cidadão ci-vi-li-za-do. Encontrei enfim um motivo para me alegrar em 2012. Comemoremos a vitória de Orwell!

Por Tony Bellotto

05/01/2012

às 14:30 \ Cenas

Velhas dicas para um ano novo

(Foto: Keith Bedford/Getty Images)

Não sei por quê, mas ainda não me sinto num ano novo. A ficha não caiu. Aliás, essa expressão, “a ficha não caiu”, não faz mais muito sentido hoje em dia, faz? Quem ainda manipula, nos dias de hoje, fichas de telefone ou fichas de máquinas de fliperama que não seja, na melhor das hipóteses, um funcionário de museu ao limpar o pó dos objetos expostos numa mostra sobre o século XX? Viu como estou nostálgico e atolado em algum lugar do passado? Talvez pelo fato de ter cruzado o átimo que dividiu 2011 de 2012 praticamente sobre um palco, trabalhando, o que não fazia desde 1984, a última que vez que os Titãs tinham tocado numa noite de réveillon – adentramos 1985 sobre o palco de uma extinta casa de shows na Lagoa, aqui no Rio – ou talvez pelo fato de que, aos 51 anos de idade tudo me pareça de certa forma igual, tenho passado os dias como um zumbi, me arrastando pelos mesmos lugares de sempre, vivendo uma sensação constante de déjà vu, a bela expressão francesa para algo já visto, ou vivido.

Nessas horas, as horas de melancolia e desespero contido, me refugio na arte, a única e verdadeira autoajuda que conheço.

São as minhas velhas dicas para um ano novo:

Um CD imperdível para esse início de 2012 é o antigo e misógino álbum dos Stones, esses grandes conhecedores da alma e de outras partes mais interessantes da anatomia feminina, agora reeditado numa edição comemorativa: Some Girls. O disco foi lançado em 1978, em plena efervescência punk, e mostra porque os Stones sempre serão a melhor banda de rock em atividade no planeta Terra.

Por falar em planeta Terra, minha segunda dica é o sensacional e perturbador filme de Lars Von Trier, Melancolia, de 2011, que tem como trilha sonora a excelsa Tristão e Isolda, de Wagner. Esqueça as bobagens que Lars falou em Cannes. O filme é revelador.

Por fim, recomendo vivamente o Zuckerman Acorrentado, de Philip Roth, livro lançado no ano passado, mas que reúne livros lançados em 1979, 1981, 1983 e 1985, todos trazendo como protagonista o impagável Nathan Zuckerman, o maravilhoso escritor criado por Roth. Zuckerman parece mais real que a maioria das pessoas reais que conheço. Eu, por exemplo.

Por Tony Bellotto

 

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