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Arquivo da categoria Brasil

04/10/2010

às 19:07 \ Arquivo, Brasil

Dom João VI

Semana passada participei de um comercial da comemoração dos 200 anos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Como se sabe, a biblioteca foi implantada no Rio em 1810 por dom João VI, por ocasião da vinda da família real para estas plagas, em fuga de Napoleão. Hesito muito em aceitar convites para comerciais em que preciso atuar como ator, já que não sou ator (engano como guitarrista, compositor, escritor, cronista, roteirista, apresentador de TV e até como garoto não tão garoto assim-propaganda, mas como ator, sou um canastrão de dar dó). Mas um detalhe no convite para esse comercial da Biblioteca Nacional me fez aceitar a empreitada sem pestanejar (bem, talvez eu tenha dado umas duas pestanejadas): eu teria de contracenar com Dom João VI, que seria interpretado por ninguém menos que Tonico Pereira. Tonico Pereira é um grande ator, desses que incorporam os personagens com uma qualidade mediúnica. Já vi – e você também – atuações espetaculares do Tonico na TV, no cinema e no teatro.

Além de todo o talento, Tonico é uma figuraça, um sujeito divertidíssimo, daqueles que fazem você rir o tempo todo. Pois assim foi a tarde que passei na belíssima Biblioteca, em companhia de Dom João VI: hilariante. A premissa do comercial já era ótima, eu (ou aquele eu nem tão eu, o eu público), Tony Bellotto, encontro por acaso Dom João VI pelas dependências da biblioteca, qual um errante fantasma bem humorado. Ao interpelá-lo sobre se ali estava para as comemorações dos 200 anos da Biblioteca que criara, dom João me pega pelo braço e vai me mostrando todas as dependências do espetacular edifício, me apresentando as salas de leitura, de pesquisa, os arquivos, as estantes repletas de livros e documentos raros e preciosos. Logo depois da primeira cena que gravamos, Tonico – com o semblante sério – me perguntou se eu era ator.

Disse que não, claro, mas que era uma honra estar ali, contracenando com ele. Ao que ele retrucou: “Você devia lutar boxe. Sempre recomendo o boxe a alguém que almeja ser um ator”. Eu, interessadíssimo, levando a sério a sugestão, como se a minha frente estivesse um mestre zen, perguntei: “Por que o boxe, mestre?”. E Tonico: “Porque assim você levaria umas porradas no nariz, ele diminuiria de tamanho, e você não encobriria seu companheiro de cena durante a gravação”. Bem, essa foi só a primeira tirada de Tonico. As outras, deixo para futuras crônicas. Vale ressaltar que a “interpretação” que o Tonico fez do Dom João VI para o comercial, por mais fugaz e rápida que tenha sido, deu uma dimensão bastante fiel do grande estadista que foi o pai de Dom Pedro I, ao contrário da imagem que temos dele, a de um corno idiotizado, comedor de coxas de frango.

Recomendo, com urgência, uma visita à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Um dos grandes monumentos da cidade, sem dúvida, de que todos nós, brasileiros, devemos nos orgulhar.

Por Tony Bellotto

19/07/2010

às 16:59 \ Brasil

Riobaldo, o indefinido

Riobaldo é ateu, mas isso não tem a menor importância. Pra ele tem. Na hora de votar, Riobaldo pensa: não interessa a religião do candidato, interessa a sua plataforma política, sua integridade e suas propostas. E que não use sua religião, ou sua não-religião, como bandeira política. Ok, pensa Riobaldo. Vamos lá. Ele sabe que se um candidato se declarar ateu, não ganha a eleição nem que a vaca tussa ou o Lula esperneie. O cara pode ser tudo, até ladrão, menos ateu. Mas isso não tem a menor importância. Pro Riobaldo tem. Ok, vamos lá. Marina Silva parece ser a candidata mais independente, desvinculada do ranço político e distanciada dos horripilantes ogros que dominam os currais eleitorais dessa nossa grande e anestesiada nação. Ela é a candidata mais jovem, mais moderna, e está sintonizada com as questões ambientais que ameaçam desandar a maionese do vasto mundão que habitamos. Certo, pensa Riobaldo. Mas hesita e resiste em votar em Marina. Sabe que ela, numa atitude respeitável, não coloca sua religião como programa político. Ainda assim, embora convicto de que Marina é bem intencionada, ao imaginar uma presidente criacionista, Riobaldo brocha. A candidata mais moderna, criacionista. Êta paradoxo. Riobaldo não consegue imaginar um presidente comprometido com questões ambientais que acredita que o mundo foi “criado” há oito mil anos. Aí já é demais. Vamos lá, o próximo, José Serra. Riobaldo simpatiza com os tucanos, sempre votou no Mário Covas e sabe que FHC perdeu uma eleição em São Paulo por ter se declarado ateu. Depois que voltou a crer em deus, FHC virou presidente, estabilizou a economia nacional e ganhou duas vezes do Lula. Riobaldo sabe que deus, embora não exista, gosta do FHC. E acredita que Serra é o candidato mais preparado e liberal, mas acha estranho – ainda que compreensível – que ele se declare de forma tão veemente contra o aborto. Essa posição, embora prudente e adequada do ponto de vista eleitoral, soa como um contrasenso aos ouvidos de Riobaldo. Tantas mulheres pobres se estrepando a cada ano por abortos malfeitos e vem um sujeito instruído como o Serra – ex e bem avaliado ministro da Saúde – com essa lengalenga hipócrita? Riobaldo fica indignado. Será que deus, embora não exista, implica com o Serra? Não se sabe. Já o Jereissati, o Alckmin, o Aécio e o DEM…êta oposiçãozinha desunida. E então, pela segunda vez, Riobaldo brocha. Vamos lá, Dilma Roussef. Riobaldo detesta a ideia de votar num fantoche para presidente. Ainda que seja um fantoche com topete fashion. Alguém que jamais se destacou nacionalmente e ao que se sabe, nunca fez lhufas, de repente vira a candidata preferencial simplesmente por que Lula quer. Riobaldo não se vê a engrossar o coro dos contentes. Acha cafona posicionar-se ao lado do Sarney e do Collor a soprar a vuvuzela dos inocentes úteis. Coisa mais brega. Mas Riobaldo concorda que Dilma, embora disfarce, é notoriamente a mais atéia dos candidatos, embora isso não tenha a menor importância. Para o Riobaldo tem. Dilma se enrola toda quando tem de declarar sua religião, e já se posicionou inequivocamente a favor do aborto em algumas ocasiões, ao afirmar acertadamente que “aborto é questão de saúde pública”. Ora bolas, Riobaldo sabe reconhecer um ateu. E concorda plenamente com Dilma na questão do aborto. Mas no resto… aparelhamento do Estado não faz a cabeça do Riobaldo, um entusiasta da livre iniciativa. Muito menos voto de cabresto ou política assistencialista. Então, pela terceira vez, Riobaldo brocha. Tá difícil, Riobaldo. Já tentou os nanicos?

Livro

Um livro que o Riobaldo está louco para ler, Do Fundo do Poço se Vê a Lua, de Joca Reiners Terron, um matogrossense cosmopolita que escreve com muita originalidade e talento.

Por Tony Bellotto

05/07/2010

às 16:19 \ Brasil

The cow went to the swamp

The cow went to the swamp, diria o filósofo Millôr Fernandes. Para os não letrados em filosofia, aqui vai a complexa interpretação literal: a vaca foi pro brejo. The dream is over, vaticinou o profeta John Lennon. O sonho acabou, quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou, traduziu o não menos profeta Gilberto Gil em estilo tropicalista e meio rococó. Perdemos para a Holanda e de repente tudo aquilo que já sabíamos se revelou como num satori (a iluminação súbita zen): que time ruinzinho esse, hein? Sim, todos nós já tínhamos a mais cristalina certeza de que essa seleção era meia-boca, mas ainda assim, cegados por maya (a ilusão segundo os hinduístas), acreditamos até o último momento.

Eis a beleza do futebol, sua dimensão trágica, mítica e ridícula. Nos ferramos e nossos super craques, os melhores do mundo, já estão de volta pra casa, assistindo à Copa do Mundo pela tv como reles cabeças de bagre. E tão pouco os separou do Olimpo: bastava que tivessem ganhado o jogo. Mas como ganhar quando não se tem um mínimo de controle emocional? Ninguém ensinou aos nossos craques que à vezes se toma um gol e que faz parte do jogo ficar em desvantagem no placar? A vida, essa Louca, Paradoxal e Incoerente Mestra, não é assim? Faltou uma palestra do Zeca Pagodinho no vestiário? Não seria o caso de se contratar psicanalistas com a mesma urgência com que se contrata médicos, preparadores físicos e assessores moralistas? E toda aquela lengalenga militarista e ufanista do Dunga e companhia (aí incluído Jorginho, o homem que quis eliminar o diabinho como símbolo do América numa das mais ridículas manifestações de radicalismo religioso que se tem notícia), a união do grupo, a coerência e a abstinência, tudo foi por água abaixo, da mesma forma como foi com a seleção desorganizada, gorda e auto-complacente do Parreira em 2006. Seis é igual a meia dúzia, diria o Dalai Lama. No fim das contas o que faz a diferença mesmo é futebol bem jogado e ponto final. Deixo as análises e comparações para os especialistas, que aliás são inúmeros no país. E fica a consolação de que, pelo menos, não teremos o uso patético e ufanista que governantes costumam fazer de vitórias da seleção em copas do mundo. Além, claro – delícia -, da derrota da Argentina para a Alemanha (há os que preferem o termo “chocolate”), sempre um consolo muito bem-vindo numa manhã de sábado com ares de ressaca.

Não entendo muito de futebol. Comecei a tocar violão na adolescência porque era um irremediável perna de pau e precisava encontrar uma forma de chamar a atenção das meninas. Nunca tinha ouvido falar de Felipe Melo até o início da Copa. Espero esquecer logo dele. Felipe Melo, eis um nome a ser esquecido. Mas não concordo que se apedreje Felipe Melo ou Dunga. Em última instância a culpa, ainda que ele também não mereça pedras – it’s only foot’n ball, galera -, é do Ricardo Teixeira, né não? Olhaí, já estou me metendo numa seara que desconheço. Não sou de Ramos. Alô, alô Juca Kfouri, help!

E para aqueles que previam uma semifinal com times sul americanos a comprovar a supremacia da escola sul americana, terão de se consolar com a presença solitária e meio zebrosa do Uruguai, a gloriosa e mofada Celeste, a nos honrar nas etapas finais da Copa (dá-lhe, Loco Abreu!).

E para 2014, um alerta: em vez de atletas de Cristo com instintos assassinos, que tal convocar simplesmente os melhores jogadores de cada posição? Não é isso que faziam Vicente Feola, Aimoré Moreira, Zagalo, Telê Santana e todos aqueles antigos “professores”? Ganso e Neymar, por exemplo, mereciam ganhar um pouco de experiência antes de terem de entrar em campo na Copa do Brasil com a responsabilidade (agora sim hercúlea) de serem campeões.

Estamos aí, se não aparecer nome melhor, pode me chamar para técnico, Ricardo Teixeira. Ou pra vice do Serra se o Indio da Costa não segurar a onda. Estou aqui para servir. Eu e o Aécio.

Livro, Pelé, Minha Vida em Imagens, da CosacNaify, uma autobiografia ilustrada do rei único, inequívoco e absoluto do futebol, com fotos raras e itens de colecionador. Ganhei de presente de aniversário de minha sobrinha Mariana e seu namorado Leo, e estou fascinado. Um consolo para aqueles que ainda acreditam que temos o melhor futebol do mundo

Por Tony Bellotto

22/01/2010

às 0:24 \ Brasil

Brasília fashion

dinheiro-meia

O deputado da meia será afastado do cargo. E assim entrará para a história: como o deputado da meia. Não se fazem mais políticos importantes com nomes imponentes como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves ou Rui Barbosa. Agora os políticos se imortalizam por alcunhas edificantes como o deputado da meia, o senador do bigode, o prefeito da cueca, o vereador da peruca, o governador do panetone, a deputada da bolsa, o assessor da mala, a senadora da propina, o ministro do cartão corporativo, o suplente da pochete e assim por diante.

Já que São Paulo e Rio fervem nesta época do ano com grandes acontecimentos da moda, sugiro que Brasília também crie sua fashion week. A capital federal está precisando de uma hypada, gente! Imagine só, um desfile transadíssimo pelas passarelas desanimadas do senado e da assembleia. Manecos sarados e manecas anoréxicas desfilando os modelos exclusivos para políticos corruptos, assessores propineiros, suplentes mau caráter, lobistas safados, simpatizantes e puxa-sacos em geral.

Meias equipadas com bolsinhos para facilitar o armazenamento do dinheiro, com divisórias para moedas. Cuecas aerodinâmicas com compartimento especial para cheques: o político, além de rechear a cueca de dinheiro público, ainda dará a impressão de que é bem dotado. Perucas com fios sintéticos à prova d’água: o senador ou deputado pode sair na chuva apertando as mãos de eleitores que o dindin não vai ficar molhado. Barrigas falsas com capacidade para armazenar grandes fortunas em dinheiro vivo, revestidas de camada fina de chumbo para não serem detectadas por raios-X.

Para as mulheres, toda uma coleção específica: falsos absorventes íntimos no formato opcional de notas de dólares, euros ou reais. Bolsas Luis Vuitton com fundo falso. Sutiãs que modulam, além do tamanho dos seios, o montante da propina. Isso sem contar os acessórios especiais unissex, como falsos bigodes com chips contendo senhas de contas na Suíça, Ilhas Cayman e outros paraísos fiscais, e o luxo dos luxos: um chapéu deslumbrante em forma de urna eleitoral, que serve também como um cofrinho ambulante, para que as nobres excelências não fiquem nem um minuto longe de seu precioso e suado dinheirinho. O DJ do desfile será o Jesus Luz, para dar um tom mais espiritual ao evento. Tudo pago, evidentemente, com dinheiro público.

hangoverFilme…

Se rir é mesmo o melhor remédio, não percam Hangover, que no Brasil recebeu o título idiota de Se Beber Não Case. Uma comédia divertidíssima, para lavar a alma e desopilar o fígado.

Por Tony Bellotto

05/01/2010

às 8:17 \ Brasil

Amor por dinheiro

A imagem não fala por si. Ela fala para si, que me lê agora. Para si e para todos nós. Ela diz – ou melhor, grita, berra, urra: “Otários!”. E prossegue, em tom jocoso, a desgraçada da imagem que fala – ou melhor, vocifera, brada, exclama: “Rá, rá, rá, se ferraram de novo, imbecis! Vocês não aprendem mesmo, né?”. E depois de uma pausa rápida para respirar (afinal, imagem que fala também respira), a imagem prossegue, reflexiva: “Que caso terrível de masoquismo coletivo esse de vocês! Rá rá rá. Não reagem nunca a todas essas calhordices e falcatruas…”

Estou delirando, a imagem realmente não fala. Ela simplesmente ri, gargalha e escarnece de si, que me lê agora. De si e de todos nós. Lula poderia ter dito: “A imagem não fala por si, mas gargalha de si, otário que me ouve”. O que mais me impressiona nessas infelizmente corriqueiras imagens de corruptos com a mão na massa é a volúpia com que se lançam ao dinheiro. Pupilas brilhantes, maxilares contraídos e mãozinhas afoitas mal disfarçam a euforia que lhes inspira o vil papel. E vão metendo os maços de dinheiro atabalhoadamente por bolsos, cuecas, perucas, meias, fundilhos e qualquer outra fenda ou buraco que se apresente. E fazem isso com a maior desfaçatez, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Os corruptos demonstram um desejo incontido de serem “possuídos” pela grana, de serem “comidos” pelo dinheiro, numa síndrome que talvez nem Freud explicasse, a estranha pulsão patológica que leva seres humanos a enfiar cédulas de dinheiro por orifícios do corpo. Às vezes, ao contrário, parecem querer “comer” a grana, ou “possuí-la”, num eterno e maçante troca-troca monetário. A imagem – sem palavras – que mais me comove é a dos corruptos rezando. O que é aquilo? A quem oram e agradecem pelas granas surrupiadas? O deus dos corruptos deve ser um imenso George Washington sentado num trono kitsch folheado a ouro. Ou um imensurável Benjamin Franklin, Abraham Lincoln ou qualquer outra carantonha que estampe uma nota de dólar (para os corruptos não importa que Washington, Franklin e Lincoln tenham sido políticos importantes, o que vale é que simbolizam dólares).

A imagem que fala para si, caro leitor, reza assim: “O panetone nosso de cada dia, nos dai hoje”. E o grande deus dos corruptos, milagreiro que é, dará um jeito de logo multiplicar não peixes e pães, mas panetones e pizzas. Sempre nos restará o prazer amargo de testemunhar o reality show macabro, o eterno Big Brother da Corrupção. Quem se importa em ver mulheres nuas? Rapazes de tonificados peitorais? Se temos políticos metendo dinheiro por seus recônditos, como cavaleiros do apocalipse ético? Amém.

CD…

…uma edição especial do primeiro disco do Nirvana, Bleach, com fotos, textos e material inédito sobre a grande banda de rock dos anos 90.

Por Tony Bellotto

26/11/2009

às 21:38 \ Brasil

A culpa é minha

Getty
O apagão de Ipanema foi muito pior pra mim que o apagão da Dilma e do Lobão. Digo de Ipanema porque ainda não sei a quem creditá-lo, ao Eduardo Paes, ao Sérgio Cabral, ou à Dilma e ao Lobão mesmo. Ou boto a culpa toda no Lula logo de uma vez? Tenho medo de ser perseguido pelas patrulhas lulistas, vou me contentar por ora com Apagão de Ipanema, pois soa mais poético e impessoal. Lembra um primo pobre da Garota de Ipanema, Tom e Vinícius que me perdoem.

O apagão da Dilma durou, aqui em casa, pouco mais de três horas, se não me falha a memória (brasileiro não tem memória), e o apagão de Ipanema, dois dias, nas minhas contas. O apagão de Ipanema esteve mais próximo de um cenário End Of The World. Não seria tudo simples estratégia de propaganda do filme 2012? Acho que não, já que cinemas também ficaram sem luz. Talvez tenha sido uma vingança pessoal, dirigida a mim, de Dilma e Lobão por eu ter reclamado numa crônica do outro apagão. Tá bom, tá bom, megalomania tem limite. Menos, Tony, menos.

Uma vingança das lides governistas contra a zelite? Quer coisa mais zelite que Ipanema? Ou um projeto top secret de igualdade social, pra ninguém dizer que só o pessoal da perifa e da zona norte é que se ferra? Menos, Tony, bem menos. Nesse caso, melhor seria botar às escuras a rua Oscar Freire e o bairro de Vila Nova Conceição em São Paulo, por exemplo. Lá tem muito mais zelite que Ipanema, com certeza.

Ok, pensemos em outras possibilidades. O Serra, de novo? Sempre sabotando o governo, de uma forma ou de outra. Ou será o apagão de Ipanema um resquício tardio da herança maldita de FHC? Tudo é possível. Rola também um boato de que a Cemig, ao comprar a Light, teria colocado dedo do Aécio nesse apagão. Mas logo em Ipanema, onde o Aécio é visto volta e meia, feliz como pinto no lixo? Tá difícil encontrar o culpado. Os ventos uivantes e os rútilos relâmpagos por aqui não foram testemunhados, portanto não podemos culpar as mudanças climáticas, essa verdadeira Geni dos tempos modernos, culpada de tudo que não conseguimos explicar.

Não sei, de alguma forma tenho a sensação de que a culpa do apagão de Ipanema é minha, não sei por que. Ao ver meu amigo Tande passando pela minha rua cabisbaixo, muito provavelmente chateado pelos prejuízos sofridos por seu excelente restaurante Cria da Terra, quase pedi desculpas. O mesmo ocorreu com meu cunhado, pediatra, que perdeu várias vacinas no consultório pela falta de refrigeração. Desculpe, implorei ao jantar. É isso, estou convencido: o culpado pelo apagão de Ipanema sou eu.

É Proibido FumarFilme…

É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, estreando nos
cinemas, depois de arrebatar quase todos os prêmios
disponíveis no Festival de Brasília. Meus amigos Glória
Pires e Paulo Miklos arrasam na interpretação do casal
protagonista. Cinema inteligente, criativo e humano.
Nota dez

Por Tony Bellotto

23/11/2009

às 10:19 \ Brasil

Bobão

marionete

Participei da campanha de Mário Covas para presidente, dando um depoimento para seu programa de TV no horário eleitoral. Confiava nele, adorava seu jeito – peculiar para um político – de homem comum, bem intencionado e sincero. Nunca me arrependi de ter participado da campanha do Covas. Não encontro mais políticos como ele por aí.

Participei também, com os Titãs, da campanha do Lula, no segundo turno da eleição que ele acabou perdendo para o Collor. Tocamos num show pró Lula em Salvador. Foi a única vez em que o vi pessoalmente. Também não me arrependo de ter participado desse show. A história confirmou que eu estava certo quando as maracutaias do Caçador de Marajás vieram a público algum tempo depois.

Mas não sei como reagiria se, naquele palco em Salvador, uma mãe de santo do Gantois me dissesse, “se liga, mané, daqui a alguns anos o Lula e o Collor estarão abraçados, pisando o mesmo palanque, com interesses políticos comuns”. Eu teria dito: “Pirou, baiana? Me dá um pouco dessa cachaça que você bebeu, tô muito careta…”. Hoje me sinto meio bobo de ver o Collor e o Lula lado a lado, amigões da vida toda. Tudo bem, o próprio Lula já se explicou, parafraseando o grande Raul : “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”. E tem o Sarney, o Jader, o Jefferson… haja, metamorfose, presidente. Dá-lhe, Kafka! Pena que nosso presidente, confessadamente, não é chegado a uma leitura.

Tocamos também, os Titãs, num comício na campanha do FHC para a prefeitura de São Paulo, na eleição que ele acabou perdendo para o Jânio. Uma das causas de sua derrota, dizem, foi ter se declarado ateu. Não foi sem espanto que anos depois, já na presidência, vi o FHC se unir ao ACM em nome da governabilidade. Imagino que FHC, a essa altura, não se declarasse mais ateu.

Com o tempo fui percebendo que o jogo político é muito complexo. E que eu sou mesmo um trouxa. Não consigo entender o que passa na cabeça desses caras. Sou muito bobo pra isso. Me falta malícia. Mas aprendi que muitas vezes o que eles dizem é exatamente o contrário do que querem dizer. Por exemplo, esse encontro do Ciro e do Aécio. Os governistas vivem dizendo que o Aécio seria um candidato mais forte, portanto mais difícil de ser derrotado. Então eles resolveram confessar isso assim, de mão beijada? Acreditam mesmo que o Aécio é o candidato mais forte e resolveram fortalecê-lo, dando uma mãozinha para o PSDB se decidir logo? Jura? E o Ciro? Disse que se o Aécio for o candidato do PSDB, ele desiste de sua própria candidatura. É mesmo? A única motivação dele é se opor ao Serra? Eu não aprendo, não tem jeito. Na última campanha para prefeitura do Rio, dei um depoimento a favor do Gabeira no programa eleitoral, e não me arrependo. De bobo, passei a bobão. Estou evoluindo.

 
livroLivro…

O Seminarista, de Rubem Fonseca. Romance novo do Rubem Fonseca, um escritor que sabe que as palavras são importantes demais para serem tratadas como bala de padaria.

Por Tony Bellotto

19/11/2009

às 23:19 \ Brasil

Verdade nua

Modigliani (Reprodução)

Em seu livro A Arte de Escrever, o filósofo alemão Schopenhauer afirma que A verdade fica mais bonita nua, e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão. O grande Schop se refere aqui à clareza de expressão na escrita, mas podemos adaptar o conceito a outras áreas. Uma verdade se evidenciou nesse episódio da expulsão da estudante Geisy Arruda pela faculdade Uni(tali)ban: o preconceito que existe não só contra as mulheres, mas contra a nudez em si. Não sei se um rapagão que chegasse seminu às aulas teria sofrido os mesmos insultos que sofreu Geisy – é claro que as mulheres são sempre muito mais destratadas -, mas é provável que o varão seminu também causasse algum alvoroço.

Não estou aqui defendendo a tese de que alunos devam comparecer às aulas pelados, mas é inegável que esse acontecimento serviu para, desculpe o trocadilho, desnudar alguns preconceitos latentes entre nós. Quanto mais reacionária e opressiva uma sociedade, mais ela combate a nudez. O que a nudez esconde de tão perigoso? Não nascemos todos nus, afinal de contas?

Até mesmo Adão e Eva, antes de cometerem a besteira de comer aquela maçã apetitosa, andavam nus pelo paraíso, balangando inocentemente suas genitálias ao sabor do vento. Quando Colombo, e depois Cabral, chegaram à nossa América, os verdadeiros donos da terra, os índios, andavam nus sem o menor problema.

No Brasil, somos famosos por nossas mulheres seminuas nas praias, nos desfiles de carnaval, nas tribos e nas ruas das cidades calorentas. Qual o problema, afinal? O que membros sexuais têm de tão ameaçador?

É provável que, a essa altura, Geisy já tenha recebido um convite da Playboy para posar nua. E Fernanda Young, na mesma Playboy, fez de sua nudez um ato político de confrontação a nossas caretices. Na Universidade de Brasília alunos se despiram em solidariedade a Geisy.

Quer saber? Resolvi tirar a roupa também. Escrevo essa crônica pelado, em solidariedade a Geisy. Tô pelado, oba! Viva a nudez! Se alguém quiser me acompanhar, enquanto lê a crônica, sinta-se à vontade.

1492DVD…

…1492, A Descoberta Do Paraíso, filme de Ridley Scott,
com Gerard Depardieu no papel de Colombo, narra a
descoberta da América. Uma aula de História, numa
interpretação sensacional de Depardieu

Por Tony Bellotto

 

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