Dom João VI
Semana passada participei de um comercial da comemoração dos 200 anos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Como se sabe, a biblioteca foi implantada no Rio em 1810 por dom João VI, por ocasião da vinda da família real para estas plagas, em fuga de Napoleão. Hesito muito em aceitar convites para comerciais em que preciso atuar como ator, já que não sou ator (engano como guitarrista, compositor, escritor, cronista, roteirista, apresentador de TV e até como garoto não tão garoto assim-propaganda, mas como ator, sou um canastrão de dar dó). Mas um detalhe no convite para esse comercial da Biblioteca Nacional me fez aceitar a empreitada sem pestanejar (bem, talvez eu tenha dado umas duas pestanejadas): eu teria de contracenar com Dom João VI, que seria interpretado por ninguém menos que Tonico Pereira. Tonico Pereira é um grande ator, desses que incorporam os personagens com uma qualidade mediúnica. Já vi – e você também – atuações espetaculares do Tonico na TV, no cinema e no teatro.
Além de todo o talento, Tonico é uma figuraça, um sujeito divertidíssimo, daqueles que fazem você rir o tempo todo. Pois assim foi a tarde que passei na belíssima Biblioteca, em companhia de Dom João VI: hilariante. A premissa do comercial já era ótima, eu (ou aquele eu nem tão eu, o eu público), Tony Bellotto, encontro por acaso Dom João VI pelas dependências da biblioteca, qual um errante fantasma bem humorado. Ao interpelá-lo sobre se ali estava para as comemorações dos 200 anos da Biblioteca que criara, dom João me pega pelo braço e vai me mostrando todas as dependências do espetacular edifício, me apresentando as salas de leitura, de pesquisa, os arquivos, as estantes repletas de livros e documentos raros e preciosos. Logo depois da primeira cena que gravamos, Tonico – com o semblante sério – me perguntou se eu era ator.
Disse que não, claro, mas que era uma honra estar ali, contracenando com ele. Ao que ele retrucou: “Você devia lutar boxe. Sempre recomendo o boxe a alguém que almeja ser um ator”. Eu, interessadíssimo, levando a sério a sugestão, como se a minha frente estivesse um mestre zen, perguntei: “Por que o boxe, mestre?”. E Tonico: “Porque assim você levaria umas porradas no nariz, ele diminuiria de tamanho, e você não encobriria seu companheiro de cena durante a gravação”. Bem, essa foi só a primeira tirada de Tonico. As outras, deixo para futuras crônicas. Vale ressaltar que a “interpretação” que o Tonico fez do Dom João VI para o comercial, por mais fugaz e rápida que tenha sido, deu uma dimensão bastante fiel do grande estadista que foi o pai de Dom Pedro I, ao contrário da imagem que temos dele, a de um corno idiotizado, comedor de coxas de frango.
Recomendo, com urgência, uma visita à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Um dos grandes monumentos da cidade, sem dúvida, de que todos nós, brasileiros, devemos nos orgulhar.










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