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Arquivo da categoria Arquivo

31/01/2011

às 15:33 \ Arquivo

Back to Buda


Não tem jeito, estou andando em círculos. Passam-se dias, meses, anos, e tenho sempre a mesma sensação: já passei por aqui. Hum…

Domingo voltei de Salvador para o Rio. Claro, já fiz o trecho um milhão de vezes. E Salvador, cidade mística, favorece repetições ritualísticas, como a hipnótica batida rítmica do reggae: o acarajé de Itapoã, a moqueca do Iemanjá, a visão transcendente da janela do quarto do Pestana contemplando o mergulho do sol no mar de Caymmi, a música do vento trazendo sons, batuques e lamentos de cidades fantasmas, o casal que trepa nas pedras, o show dos Titãs com Daniela Mercury, o café da manhã com tapioca e no avião…Jack Kerouac.

Como assim, Jack Kerouac? O que esse cara tem a ver com a Bahia? E há quanto tempo estou esbarrando em Keroauc? A cada dia me deparo com um livro dele que desconhecia. Como isso é possível? O homem morreu em 1969! O que me cai agora ao colo é Despertar: uma vida de Buda. Sim, deve ser isso que chamam de eterno retorno: a Bahia me leva ao Kerouac, que me leva ao Buda, no avião que me leva de volta (pra onde mesmo? Onde começa e onde termina essa viagem? Não precisa responder, são perguntas retóricas, questionamentos de confusos “eus” interiores…).

Buda de novo? Já li tudo sobre o cara. De Herman Hesse a Rajneesh, passando por livros sagrados e outros nem tanto, achei que já conhecia Buda o bastante para me despedir dele. Tchau, Buda. Já fui seu fã, já torci o nariz pra você, já acendi e apaguei incensos em sua homenagem, já reverenciei e duvidei de sua existência, já aprendi e desaprendi com seus ensinamentos. Agora chega, pensei há muito tempo: vou viver sem o Buda. Que nada, a não sei quantos mil metros do chão, flutuando pelos céus do Nordeste, o Buda se materializa na minha frente. Você de novo, Buda? Me deixa em paz…(como bem observou outra dia uma leitora aqui nos comentários: “se você não gosta e desacredita da religião e de Deus, Tony, por que vive falando sobre isso?” Hum)…

Ok, Buda, vamos lá, vamos reler a sua história pra ver se perdi alguma coisa. Quem sabe Jack Keroauc captou algum detalhe que não percebi das vezes anteriores: “O Buda (nascido Sidarta em 563 a.C no distrito de Gorakpur na Índia) era um belo príncipe do clã Sakya que de repente, aos 29 anos de idade, começou a matutar no palácio de seu pai, olhando através das dançarinas como se elas não estivessem ali, até que finalmente jogou tudo para o alto de maneira enfática e cavalgou para a floresta num cavalo de batalha e cortou o longo cabelo dourado com a espada e sentou-se com os homens sagrados da Índia daquele tempo e morreu aos oitenta anos, um venerável andarilho esguio de antigas estradas e bosques de elefantes”. Obrigado, Jack Kerouac. Talvez isso seja tudo a ser dito sobre o Buda. Afinal, ele mesmo – o Buda – afirmou: “nada especial deve ser feito para ser salvo”.

A saga do príncipe Sidarta, o Gautama, é uma historinha maluca, mas é sempre bom saber que de vez em quando surgem tipos assim, pra dar uma variada nessa Roda Viva entediante da qual não conseguimos escapar, nem mesmo quando estamos dentro de um avião, sentindo os eflúvios do dendê ingerido no dia anterior.

Até qualquer hora, Buda. Pressinto que ficarei mais um bom tempo longe de você. Até que Jack Kerouac decida começar tudo de novo.

Livro…

Despertar: uma vida de Buda, de Jack Keroauc. Experimente, dentro ou fora do avião, com ou sem dendê.

Por Tony Bellotto

17/01/2011

às 16:40 \ Arquivo

Desordem e progresso


1- Na terça-feira chuvosa fui assistir ao show de Amy Winehouse aqui no Rio. Comparei-a a uma sereia esquálida com uma voz de furacão dourado capaz de derrubar coliseus. Enquanto Amy cantava na Barra, uma tempestade torrencial destruía cidades inteiras na região serrana carioca. Numa má comparação poética – que em nada redime o descaso das autoridades ou dirime a desgraça dos flagelados – a voz de Amy tem a potência de uma força da natureza. E para aqueles que esperam de artistas profissionalismo e objetividade, observo um paradoxo surgir cristalino como um arco-íris depois da chuva: uma das funções da arte é justamente a transcendência, e com ela a possibilidade de subverter a rigidez dos padrões e da objetividade. É irônico que Amy Winehouse tenha escolhido nossa bandeira como cenário: Ordem e Progresso. Na arte, às vezes, o progresso nasce da desordem.

2- Na quarta-feira chuvosa fui assistir ao Film Socialisme, de Jean-Luc Godard. Como a reafirmar os ensinamentos da noite anterior, a desordem se impôs novamente para a criação de um “progresso”. Godard consegue ser o mais realista dos cineastas: a vida é muito mais parecida com os filmes de Godard do que com os de Hollywood. Na vida, não há dramaturgia, nem trama nem sentido. As coisas acontecem, simplesmente. Os diálogos na vida real são truncados, interrompidos por ruídos e silêncios e sobrepostos por outros diálogos, ruídos e silêncios. As palavras e as imagens não são organizadas e às vezes tremem. Vemos e ouvimos, simplesmente. E sentimos. Imagens, sons, sentimentos e a perene imperfeição humana. Obrigado, Jean-Luc, por me ensinar o que eu já sabia e tinha esquecido. E foi preciso que um velho meio ranzinza de 80 anos (Godard, de óculos escuros) inventasse uma nova forma de escutarmos o som no cinema: suas “tomadas” sonoras do barulho do vento a bordo de um navio são absolutamente revolucionárias. E reveladoras. O cinema progride na desordem de Jean-Luc Godard.

3- Na quinta-feira chuvosa li o jornal enquanto tomava o café-da-manhã. Uma notícia me chamou a atenção – depois de me emocionar e revoltar com, e decidir esquecer, notícias e fotos dos flagelos da chuva, encostas barrentas dos morros devastados, vítimas, vidas e casas destruídas, a grande tragédia brasileira que não escolhe mais só os pobres e desfavorecidos, a chuva é cega, vivas aos governos (todos) ineptos (e não vou nem falar da exploração emocional e pieguice obscena da cobertura jornalística)-: o livro de Reinaldo Moraes, Pornopopéia, vai ganhar novas edições. Na sequencia dos três dias chuvosos em que a Arte devastou minhas encostas, esse último chega com uma revelação: Pornopopéia é um livro enorme, um tijolaço, desses que assustam as pessoas só pelo tamanho. E, no entanto, basta abrí-lo para que se transforme no tijolo mais leve do mundo. É um romance que se lê rapidamente (no fim lamentamos que tenha chegado tão rápido), e com prazer (sexual inclusive). Mais que um sucesso, Pornopopéia é um livro fundamental. “Fundamental”, na acepção do Houaiss: que serve de fundamento, alicerce; que dá início, real ou simbolicamente, a um projeto, construção, obra etc. Desordem, minha gente. Desordem e Progresso. Só a arte constrói.

Diversão…

…Fique à vontade, com Amy Winehouse, Jean-Luc Godard e Reinaldo Moraes, você não precisa ouvir, assistir e ler mais nada.

Por Tony Bellotto

10/01/2011

às 15:13 \ Arquivo

Telepatia

Leio um livro de Truman Capote, Ensaiosjá o indiquei aqui -, uma coletânea de artigos, crônicas e textos variados do genial e finamente humorado prosador norte-americano do século XX. Um dos textos, Ouvindo as Musas, narra uma excursão de um grupo de teatro americano à União Soviética em 1955, em plena vigência da guerra fria, com o musical Porgy and Bess, de George e Ira Gershwin.

O título do texto de Capote vem da declaração de boas-vindas aos empresários, técnicos, músicos, cantores e atores do grupo, proferida por um membro do ministério da cultura soviético: “Quando os canhões silenciam, as musas são ouvidas”. Truman Capote acompanhou a trupe no trem que os conduziu de Berlim Oriental até São Petersburgo (Leningrado, na época) e faz uma narrativa brilhante desse evento, no estilo literário que ele inventou – e Truman se orgulhava muuiiito disso -, a chamada literatura de não-ficção (ou literatura sem-ficção), aquela que aborda acontecimentos reais sob a ótica e técnicas narrativas da ficção (ou do ficcionista).

As peripécias do grupo de artistas americanos num regime comunista, inflexível, antidemocrático, anticapitalista (antiamericano portanto), e profundamente provinciano, são divertidas e muito bem descritas por Capote. Talvez influenciado por esse texto – leio sempre antes de dormir -, sonhei à noite que conversava com um homem extremamente culto e inteligente num pequeno escritório. De alguma forma, eu sabia que estávamos num país comunista, ainda na guerra fria, e tinha consciência de que esse homem que falava comigo era um defensor do regime totalitário. Ainda assim, não conseguia deixar de admirá-lo, pois sua conversa era brilhante, e seus conhecimentos, vastos.

Em determinado momento da conversa o homem falou alguma coisa sobre telepatia. Ele me relatava uma informação que recebera por telepatia, e a maneira como disse aquilo – demonstrando sua total convicção na eficiência da técnica de transmissão de pensamento -, fez com que eu me decepcionasse com ele, como se o fato de ele crer em telepatia me fizesse descrer do que me parecia uma inteligência racional e científica.

Quando acordei, domingo de sol no Rio de Janeiro, fui dar uma corrida na praia. Durante a corrida, comecei a pensar na crônica que escreveria para a publicação aqui no site de VEJA. Lembrei de um velho saxofonista argentino que eu conhecera na praia do Arpoador no fim de 2009, um homem de cabelos brancos presos num rabo-de-cavalo, que me confessara ter vivido em Barcelona nos anos 90, e lá ter conhecido pessoalmente o escritor chileno Roberto Bolaño num pequeno clube de jazz no subsolo de uma das ruelas do bairro gótico.

Estou há tempos tentando escrever essa crônica, pois me parece interessante – embora não totalmente crível – que aquele argentino com ares de malandro carioca tenha conhecido Bolaño (de quem ele sabe que sou fã), e até conversado com ele, numa situação tão…literária (ou seja, com ares de lorota). Eis que enquanto penso – e corro -, percebo um sujeito de bicicleta ao meu lado. É um homem ainda jovem, de óculos escuros e calção de banho, e estranho que ande na mesma velocidade que eu, como se me acompanhasse de propósito. Um jornalista? Um paparazzo? Um admirador? Ele não diz nada, e continua ao meu lado, pedalando.

Sigo correndo, pensando na crônica. E então ele diz, com um meio sorriso assustador: “Bolaño. Grande Bolaño!”. E parte em velocidade, desaparecendo entre os transeuntes, joggers e ciclistas que lotam a avenida Vieira Souto.

Musical…

Porgy and Bess, de George Gershwin, um musical – uma ópera na verdade – com personagens negros, que abordam a problemática dos negros americanos no início do século XX. Entre as belíssimas canções compostas por George e Ira Gershwin (autor das letras), está a clássica Summertime.

Por Tony Bellotto

06/01/2011

às 9:02 \ Arquivo

Penedo

Penedo é uma pequena cidade localizada entre São Paulo e Rio, a alguns quilômetros das margens da via Dutra. Faz parte do município de Itatiaia e fica próxima de Resende, situando-se à direita do rio Paraíba do Sul, se você vai do Rio para São Paulo. Depois de passar pela Academia Militar de Agulhas Negras, e antes de chegar à Itatiaia, você entra à direita e pega a estrada que conduz a Penedo, seis quilômetros adiante, e a Visconde de Mauá – mais distante um pouco, por volta de 30 quilômetros –, já no alto da serra e quase em Minas Gerais.

Essa estrada leva o nome de Coronel Rubens Tramujas Mader. O coronel homenageado vem a ser meu sogro, já falecido. Rubão, como é até hoje chamado pela família, morreu poucas semanas após o nascimento de João, meu primogênito com a Malu, nascido em 14 de maio de 1995.

Rubão não tinha completado ainda os 70 anos de idade quando morreu, vítima de um enfarto. Ele nascera em Curitiba, e chegou jovem à Academia das Agulhas Negras – ali pelo final da década de 1940 –, para fazer carreira no exército. Foi nessa época, ainda um aspirante, que conheceu minha sogra, Ângela, natural de Resende. Ângela e Rubens casaram-se, tiveram filhos, viveram em algumas cidades do Rio Grande do Sul, mas acabaram se estabelecendo no Rio de Janeiro. Apesar de nascido na fria Curitiba, Rubão sempre buscou o calor de Ipanema.

Reformado pelo Exército na década de 1960 – abandonou as Forças Armadas antes do recrudescimento da ditadura militar –, Rubão nunca abandonou Penedo, cidade em que construiu uma casa de campo para os fins de semana da família, trabalhou e atuou politicamente, e que acabou se tornando sua última morada.

Foi ali que praticamente o conheci, com seu jeito peculiar de ornitólogo suíço e guerrilheiro basco (se alguém poderia unir duas personalidades tão distintas – ornitólogo suíço e guerrilheiro basco –, esse alguém era Rubens Tramujas Mader). Até hoje a família mantém a casa em Penedo – que já sofreu reformas e vai se ampliando à medida que a família cresce –, e é lá que passamos, quase sempre, os réveillons.

Penedo é uma cidade turística, muito aprazível, com eucaliptos perfumados, córregos sussurrantes, riachos sinuosos e cachoeiras geladas a emoldurar suas ruazinhas simpáticas e tranquilas. É uma colônia finlandesa, e lá você encontra descendentes de finlandeses passando pela rua, como o velho de longas barbas que conduz uma charrete puxada por um pangaré branco, ou a moça loura e descolada que dirige uma scooter amarela em alta velocidade. Em Penedo você encontra um Museu Finlandês, um clube Finlandês (em que se pode apreciar danças folclóricas, e até dançar danças folclóricas, o que Malu, minha mulher, faz muito bem, modéstia à parte, e onde eu levei uma vez meu amigo Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura e um dos melhores guitarristas de metal do mundo que, reconhecido por um jovem turista alemão, teve de posar para fotos e assinar autógrafos destinados aos amigos do rapaz em Frankfurt), e vários restaurantes de pratos típicos finlandeses de nomes impronunciáveis e ilegíveis, em que redundam vogais repetidas e tremas desgovernadas.

Um pedaço do Brasil em que é possível você sentir nostalgia de Helsinque sem nunca ter pisado em Helsinque. Em Penedo você pode visitar a casa do Papai Noel e depois tomar um chope artesanal acompanhado de salsichas ou trutas grelhadas num bar ao lado, e, se tiver sorte, ainda encontrar Jards Macalé, um célebre cidadão penedense, para um papinho relaxado ao cair da tarde, antes da tradicional sauna do fim do dia.

Bem, pois é assim, recém-chegado de uma reconfortante estadia de dez dias em Penedo, que retorno ao batente, desejando a todos um feliz 2011.

Disco

…Nada como começar o ano dando uma escutada no clássico disco do “penedense” de coração Jards Macalé: Contrastes.

Por Tony Bellotto

06/12/2010

às 15:16 \ Arquivo

Crônicas de Ipanema

Ipanema é a capital do mundo. Esqueça a quinta Avenida de Nova York. Esqueça os Champs Elysèes de Paris. Esqueça a Avenida Paulista e o Taj Mahal. Esqueça a Praça da Paz Celestial em Pequim. Venha comigo, localize-se agora – como num Google Earth mental – na praça General Osório, em Ipanema. Cá estamos, na esquina da rua Teixeira de Melo com Prudente de Morais.

Estamos num pequeno barzinho, um lugar charmoso, um cantinho paraense em pleno Rio libertado (até quando?) da ação abusada dos traficantes de drogas. O que estamos comendo? Comida típica paraense: maniçoba (a “feijoada” paraense, feita a partir do cozimento da folha de mandioca brava), tacacá (beberagem indígena capaz de amortecer a língua e estimular a mente de quem a experimenta), pato ao tucupi, pirarucu desfiado. Hum, delicioso. Mas guarde um pouco de espaço, o prato principal – ao contrário do que se supõe -, vem depois, na sobremesa: açaí, o fruto mágico da floresta, considerado um super alimento pelos mais notáveis nutricionistas do planeta.

A cultura do açaí já é relativamente antiga no Rio. Data do início dos anos 80: aqui o açaí é consumido em lojas de sucos – com acompanhamentos opcionais de xarope de guaraná, mel, banana, morango, granola etc – por surfistas, praticantes de jiu-jitsu e malhadores em geral. O fruto amazônico é sabidamente uma fonte de energia natural muito apreciado por esportistas e cariocas de todos os quadrantes.

Há alguns anos, levei meu caçula, Antônio, a uma viagem a Belém, onde faria shows com os Titãs. Um dos motivos principais da viagem era apresentar ao Antônio o açaí em seu habitat natural, já que meu filhote é um grande apreciador do alimento. Mas ao chegarmos em Belém nos deparamos com açais salgados, degustados com peixes e carnes. Foi então que percebemos que o açaí da forma como o consumimos aqui no Rio era uma peculiaridade carioca, um item da variada cultura gastronômica pop local.

Bem, voltemos à nossa esquina em Ipanema. Acione novamente o Google Earth mental: estamos à mesa do barzinho paraense, um pequeno grão da alma amazônica em plena “selva” carioca. Cá estamos (eu e você, você e eu), degustando nossos açaís suculentos. De repente um grupo de jovens turistas americanos entra no bar. Perguntam em inglês do que se trata aquele convidativo creme roxo em nossas tigelas. “It is an ice-cream?”, indagam, curiosos, salivando. A pergunta só pode ser respondida depois que experimentam o açaí, e se maravilham com ele. Este é o Rio: o pau comendo lá no Alemão, e nós (eu e você e os turistas gringos) nos refestelando no açaí.

Livro…

Vício Inerente, livro divertidíssimo – protagonizado por um detetive doidão nos anos 70 – de Thomas Pynchon.

Por Tony Bellotto

08/11/2010

às 13:03 \ Arquivo

Amai-vos uns aos outros

Que bela imagem nos chega de Barcelona, uma imensa fila de casais gays se beijando à passagem de Bento XVI. É tocante a imagem. Uma bela forma de protesto aos discursos retrógrados do papa, condenando a união homossexual e qualquer outra forma de amor não ortodoxo. As bobagens ditas pelo papa contra o uso de preservativos, por exemplo, beiram a irresponsabilidade. Não adianta que me falem de dogmas, ou de palavras proferidas em desertos por profetas ancestrais. Que se queira acreditar em virgens que procriam ou homens que caminham sobre as águas, tudo bem. Mas a mim, tudo isso parece uma grande bobagem que se leva a sério demais. E que acaba por desrespeitar alguns dos aspectos mais belos de nossa natureza humana, como o amor, exuberante e poderoso, imune às interpretações redutoras e moralistas das religiões.

Só posso me regozijar com as fotos que chegam de Barcelona, nas imediações da belíssima catedral projetada por Gaudí, cujo nome significativo, Sagrada Família, poderia ser compreendido por Bento XVI como uma dica de que a família, por mais sagrada, também muda e se transforma. Como tudo nesse mundo. Que os caminhos de Bento XVI sejam inundados por homens beijando homens e mulheres beijando mulheres. Que o amor atropele o papamóvel com a força transformadora da mudança. Que os beijos gays possam iluminar o papa, e que o façam lembrar-se das palavras do Cristo: Amai-vos uns aos outros.

Uma imagem, afinal, vale por mil palavras.

Livros…

…. A obra de Gaudí, espalhada por Barcelona, a prova viva do gênio humano. Se não der pra ir até lá, vale a pena apreciar os livros que registram os edifícios, praças e esculturas desse genial arquiteto e artista plástico.

Por Tony Bellotto

04/10/2010

às 19:07 \ Arquivo, Brasil

Dom João VI

Semana passada participei de um comercial da comemoração dos 200 anos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Como se sabe, a biblioteca foi implantada no Rio em 1810 por dom João VI, por ocasião da vinda da família real para estas plagas, em fuga de Napoleão. Hesito muito em aceitar convites para comerciais em que preciso atuar como ator, já que não sou ator (engano como guitarrista, compositor, escritor, cronista, roteirista, apresentador de TV e até como garoto não tão garoto assim-propaganda, mas como ator, sou um canastrão de dar dó). Mas um detalhe no convite para esse comercial da Biblioteca Nacional me fez aceitar a empreitada sem pestanejar (bem, talvez eu tenha dado umas duas pestanejadas): eu teria de contracenar com Dom João VI, que seria interpretado por ninguém menos que Tonico Pereira. Tonico Pereira é um grande ator, desses que incorporam os personagens com uma qualidade mediúnica. Já vi – e você também – atuações espetaculares do Tonico na TV, no cinema e no teatro.

Além de todo o talento, Tonico é uma figuraça, um sujeito divertidíssimo, daqueles que fazem você rir o tempo todo. Pois assim foi a tarde que passei na belíssima Biblioteca, em companhia de Dom João VI: hilariante. A premissa do comercial já era ótima, eu (ou aquele eu nem tão eu, o eu público), Tony Bellotto, encontro por acaso Dom João VI pelas dependências da biblioteca, qual um errante fantasma bem humorado. Ao interpelá-lo sobre se ali estava para as comemorações dos 200 anos da Biblioteca que criara, dom João me pega pelo braço e vai me mostrando todas as dependências do espetacular edifício, me apresentando as salas de leitura, de pesquisa, os arquivos, as estantes repletas de livros e documentos raros e preciosos. Logo depois da primeira cena que gravamos, Tonico – com o semblante sério – me perguntou se eu era ator.

Disse que não, claro, mas que era uma honra estar ali, contracenando com ele. Ao que ele retrucou: “Você devia lutar boxe. Sempre recomendo o boxe a alguém que almeja ser um ator”. Eu, interessadíssimo, levando a sério a sugestão, como se a minha frente estivesse um mestre zen, perguntei: “Por que o boxe, mestre?”. E Tonico: “Porque assim você levaria umas porradas no nariz, ele diminuiria de tamanho, e você não encobriria seu companheiro de cena durante a gravação”. Bem, essa foi só a primeira tirada de Tonico. As outras, deixo para futuras crônicas. Vale ressaltar que a “interpretação” que o Tonico fez do Dom João VI para o comercial, por mais fugaz e rápida que tenha sido, deu uma dimensão bastante fiel do grande estadista que foi o pai de Dom Pedro I, ao contrário da imagem que temos dele, a de um corno idiotizado, comedor de coxas de frango.

Recomendo, com urgência, uma visita à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Um dos grandes monumentos da cidade, sem dúvida, de que todos nós, brasileiros, devemos nos orgulhar.

Por Tony Bellotto

13/09/2010

às 18:24 \ Arquivo

Diários de Viagem

Vivo viajando. Jack Kerouac, o escritor americano, também vivia. Num livro amargo e muito divertido, chamado Big Sur, ele conta que ao fazer uma viagem de carro com alguns velhos companheiros doidões, senta-se no banco da frente, ao lado do motorista – algum poeta disfarçado sob o nome de Dave Wain -, e percebe que o assento está quebrado. “A beleza de tudo isso”, diz Kerouac, “…é que o assento da frente está quebrado e fica balançando um pouquinho para frente e para trás com cada movimento de Dave ao volante – É como estar sentado numa cadeira de balanço em uma varanda só que é uma varanda móvel e ainda por cima uma varanda para bater papo – E em vez de ficar olhando os velhos atirarem ferraduras em nossa animada varanda tudo se resume àquela linha branca bem-definida no meio da estrada…”.

É como me sinto. Meu assento não está quebrado, mas ainda assim sinto-me numa varanda. A paisagem que se descortina aos meus olhos são as margens da via Dutra no trajeto entre Taubaté e Rio de Janeiro. Ao meu lado, não um velho companheiro doidão (ainda bem, quero chegar inteiro ao meu destino), mas o Gilberto, o motorista que reveza com o Beto a honra de dirigir o Tonymóvel (doidão ali, só eu).

De minha varanda móvel, penso na solidão de Kerouac. Apesar dos grandes e bons amigos da chamada beat generation – William Burroughs, Neal Cassidy, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti e muitos outros – Jack Kerouac sempre foi um homem muito solitário. E essa solidão é um pouco paradoxal, pois a BG (beat generation) tem como uma de suas características principais justamente o aspecto gregário e grupal de seus integrantes. E além de solitário Kerouac me dá a impressão de nunca ter vivido um grande amor (à exceção, talvez, do amor que sentia pela mãe, mas a este não podemos chamar de um amor romântico).

Talvez as viagens e a introspecção e concentração necessárias ao trabalho de escrever tenham impedido que se dedicasse aos afazeres corriqueiros dos que amam. Mas viagens e dedicação à escrita não são necessariamente inimigas de grandes, sólidas e duradouras paixões (eu e minha mulher que o digamos, e dizemos). Conversando outro dia com um velho e experiente piloto da TAM – foi piloto de voos internacionais da VARIG por muitos anos -, ele me contou sua história. Há pouco tempo atrás, já resignado a sua condição de solteirão, sentia-se entediado pelas constantes viagens, em que Paris, por exemplo, se limitava a uma burocrática pista de pouso e um despersonalizado Hollyday Inn próximo ao aeroporto.

Nada muito diferente de Londres, Bogotá, Madri ou São José do Rio Preto. Convidado a uma festa da empresa, conheceu uma moça (nem tão moça, aí pelos quarenta e poucos) que vende passagens numa loja da companhia aérea no aeroporto de Cumbica. Ela, também já resignada a sua condição de solteirona, sentia-se cansada por ter de passar os dias sentada, vendendo passagens para os lugares mais distantes, sem nunca poder viajar até estes lugares, em sua imaginação sempre lugares irremediavelmente idílicos, perfumados e excitantes. Resumo: os dois se conheceram e se apaixonaram na tal festa. Ele continua viajando e ela vendendo passagens. Mas não se sentem mais cansados ou entediados.

Livro….

Big Sur, de Jack Kerouac. Segundo o New York Times, o livro mais ousado do escritor.

Por Tony Bellotto

 

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