31/01/2011
às 15:33 \ ArquivoBack to Buda

Não tem jeito, estou andando em círculos. Passam-se dias, meses, anos, e tenho sempre a mesma sensação: já passei por aqui. Hum…
Domingo voltei de Salvador para o Rio. Claro, já fiz o trecho um milhão de vezes. E Salvador, cidade mística, favorece repetições ritualísticas, como a hipnótica batida rítmica do reggae: o acarajé de Itapoã, a moqueca do Iemanjá, a visão transcendente da janela do quarto do Pestana contemplando o mergulho do sol no mar de Caymmi, a música do vento trazendo sons, batuques e lamentos de cidades fantasmas, o casal que trepa nas pedras, o show dos Titãs com Daniela Mercury, o café da manhã com tapioca e no avião…Jack Kerouac.
Como assim, Jack Kerouac? O que esse cara tem a ver com a Bahia? E há quanto tempo estou esbarrando em Keroauc? A cada dia me deparo com um livro dele que desconhecia. Como isso é possível? O homem morreu em 1969! O que me cai agora ao colo é Despertar: uma vida de Buda. Sim, deve ser isso que chamam de eterno retorno: a Bahia me leva ao Kerouac, que me leva ao Buda, no avião que me leva de volta (pra onde mesmo? Onde começa e onde termina essa viagem? Não precisa responder, são perguntas retóricas, questionamentos de confusos “eus” interiores…).
Buda de novo? Já li tudo sobre o cara. De Herman Hesse a Rajneesh, passando por livros sagrados e outros nem tanto, achei que já conhecia Buda o bastante para me despedir dele. Tchau, Buda. Já fui seu fã, já torci o nariz pra você, já acendi e apaguei incensos em sua homenagem, já reverenciei e duvidei de sua existência, já aprendi e desaprendi com seus ensinamentos. Agora chega, pensei há muito tempo: vou viver sem o Buda. Que nada, a não sei quantos mil metros do chão, flutuando pelos céus do Nordeste, o Buda se materializa na minha frente. Você de novo, Buda? Me deixa em paz…(como bem observou outra dia uma leitora aqui nos comentários: “se você não gosta e desacredita da religião e de Deus, Tony, por que vive falando sobre isso?” Hum)…
Ok, Buda, vamos lá, vamos reler a sua história pra ver se perdi alguma coisa. Quem sabe Jack Keroauc captou algum detalhe que não percebi das vezes anteriores: “O Buda (nascido Sidarta em 563 a.C no distrito de Gorakpur na Índia) era um belo príncipe do clã Sakya que de repente, aos 29 anos de idade, começou a matutar no palácio de seu pai, olhando através das dançarinas como se elas não estivessem ali, até que finalmente jogou tudo para o alto de maneira enfática e cavalgou para a floresta num cavalo de batalha e cortou o longo cabelo dourado com a espada e sentou-se com os homens sagrados da Índia daquele tempo e morreu aos oitenta anos, um venerável andarilho esguio de antigas estradas e bosques de elefantes”. Obrigado, Jack Kerouac. Talvez isso seja tudo a ser dito sobre o Buda. Afinal, ele mesmo – o Buda – afirmou: “nada especial deve ser feito para ser salvo”.
A saga do príncipe Sidarta, o Gautama, é uma historinha maluca, mas é sempre bom saber que de vez em quando surgem tipos assim, pra dar uma variada nessa Roda Viva entediante da qual não conseguimos escapar, nem mesmo quando estamos dentro de um avião, sentindo os eflúvios do dendê ingerido no dia anterior.
Até qualquer hora, Buda. Pressinto que ficarei mais um bom tempo longe de você. Até que Jack Kerouac decida começar tudo de novo.
Livro…
Despertar: uma vida de Buda, de Jack Keroauc. Experimente, dentro ou fora do avião, com ou sem dendê.














