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Arquivo da categoria Arquivo

27/10/2011

às 20:13 \ Arquivo

O estado das coisas

Das inúmeras heranças malditas do governo Lula (populismo babaquara, aparelhamento do estado, lambança generalizada, instituição da corrupção como procedimento político aceitável, segurança, saúde, educação e transportes indigentes etc), a que mais me irrita atualmente é a adoção do substantivo malfeito como eufemismo oficial – e pouco imaginativo – de bandalha, ladroagem, corrupção, crime, assalto, vilipêndio etc. Malfeito não dá a dimensão exata do que esses ladrões de casaca e chinelo andam aprontando por aí. É redutor e empobrecedor, além de um desrespeito com nosso vernáculo. Roubem, desgraçados, mas não despetalem a última e exuberante flor do Lácio!

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Por Tony Bellotto

26/09/2011

às 16:47 \ Arquivo

Notas do subsolo

Um vento forte começa a soprar alvoroçando os presentes no camarim do palco Mundo do Rock in Rio. A poucas horas do início do show, o vento funciona como uma metáfora do que vai por dentro de cada um por ali: uma ansiedade desgraçada. Num camarim Milton Nascimento permanece em silêncio, sentado num sofá. Na área coletiva dos camarins, em que mesas são ocupadas por músicos e suas famílias, técnicos, produtores e empresários, Maria Gaddu, fumando um cigarro, apresenta sua mãe, que também fuma um cigarro, à Malu Mader, minha esposa, que já não fuma mais, mas que deve ter sentido uma vontade danada de fumar naquele momento.

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Por Tony Bellotto

22/09/2011

às 15:47 \ Arquivo

Meu pai e o Rock in Rio

Hoje meu pai morreu. Queria que o parágrafo fosse apenas uma paródia da clássica abertura de O Estrangeiro, de Camus – Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem -, mas infelizmente é a pura verdade. Acabo de saber da morte de meu pai e estou a um dia da abertura do Rock in Rio, numa sequência de dias agitados, com agenda intensa de ensaios e entrevistas e alto grau de ansiedade e expectativa.

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Por Tony Bellotto

11/07/2011

às 17:39 \ Arquivo

A cidade do futuro

Passei o fim de semana em Paraty. Quando penso em Paraty, visualizo mentalmente dois de seus habitantes: Amir Klink e Joãozinho Príncipe. O primeiro, um velejador, aventureiro e escritor. O segundo, um herdeiro da família real brasileira que em tudo honra o seu antepassado dom Pedro II: um homem culto, afável e progressista, antenado com seu tempo. Paraty é assim, antiga e moderna, plural, brasileira até o último paralelepípedo, surpreendente sempre.

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Por Tony Bellotto

04/07/2011

às 13:59 \ Arquivo

O Balzac do Arpoador

Sempre que falo bem de novelas de TV nuvens de polêmica começam a se formar no horizonte. Que venha a polêmica então, contanto que não venha entre 21:00 e 22:00 horas de segunda a sábado, pois estarei assistindo a Insensato Coração, novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Insensato Coração é uma novela espetacular não só porque prende o telespectador com uma trama muito bem urdida, em que a miséria e a mesquinhez humanas jorram como água da torneira e a tragicomédia brasileira nos proporciona o incomparável prazer de rir de nós mesmos.
Por Tony Bellotto

06/06/2011

às 17:26 \ Arquivo, Cenas

Parthenon

Alguma coisa acontece no meu sistema emocional quando chego em Brasília e vislumbro o Eixo Monumental, a Esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional. Não, não sinto náusea ou engulhos, não é na corja de políticos safados e canastrões que penso quando chego à capital federal. Não quero ter uma úlcera. Não é também nenhuma espécie de nacionalismo, sentimento babaca ou ufanista o que me acomete. Nenhuma pátria me pariu, diz uma velha canção que ajudei a compor. É a beleza da cidade e sua arquitetura original que me emocionam.

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Por Tony Bellotto

31/01/2011

às 15:33 \ Arquivo

Back to Buda


Não tem jeito, estou andando em círculos. Passam-se dias, meses, anos, e tenho sempre a mesma sensação: já passei por aqui. Hum…

Domingo voltei de Salvador para o Rio. Claro, já fiz o trecho um milhão de vezes. E Salvador, cidade mística, favorece repetições ritualísticas, como a hipnótica batida rítmica do reggae: o acarajé de Itapoã, a moqueca do Iemanjá, a visão transcendente da janela do quarto do Pestana contemplando o mergulho do sol no mar de Caymmi, a música do vento trazendo sons, batuques e lamentos de cidades fantasmas, o casal que trepa nas pedras, o show dos Titãs com Daniela Mercury, o café da manhã com tapioca e no avião…Jack Kerouac.

Como assim, Jack Kerouac? O que esse cara tem a ver com a Bahia? E há quanto tempo estou esbarrando em Keroauc? A cada dia me deparo com um livro dele que desconhecia. Como isso é possível? O homem morreu em 1969! O que me cai agora ao colo é Despertar: uma vida de Buda. Sim, deve ser isso que chamam de eterno retorno: a Bahia me leva ao Kerouac, que me leva ao Buda, no avião que me leva de volta (pra onde mesmo? Onde começa e onde termina essa viagem? Não precisa responder, são perguntas retóricas, questionamentos de confusos “eus” interiores…).

Buda de novo? Já li tudo sobre o cara. De Herman Hesse a Rajneesh, passando por livros sagrados e outros nem tanto, achei que já conhecia Buda o bastante para me despedir dele. Tchau, Buda. Já fui seu fã, já torci o nariz pra você, já acendi e apaguei incensos em sua homenagem, já reverenciei e duvidei de sua existência, já aprendi e desaprendi com seus ensinamentos. Agora chega, pensei há muito tempo: vou viver sem o Buda. Que nada, a não sei quantos mil metros do chão, flutuando pelos céus do Nordeste, o Buda se materializa na minha frente. Você de novo, Buda? Me deixa em paz…(como bem observou outra dia uma leitora aqui nos comentários: “se você não gosta e desacredita da religião e de Deus, Tony, por que vive falando sobre isso?” Hum)…

Ok, Buda, vamos lá, vamos reler a sua história pra ver se perdi alguma coisa. Quem sabe Jack Keroauc captou algum detalhe que não percebi das vezes anteriores: “O Buda (nascido Sidarta em 563 a.C no distrito de Gorakpur na Índia) era um belo príncipe do clã Sakya que de repente, aos 29 anos de idade, começou a matutar no palácio de seu pai, olhando através das dançarinas como se elas não estivessem ali, até que finalmente jogou tudo para o alto de maneira enfática e cavalgou para a floresta num cavalo de batalha e cortou o longo cabelo dourado com a espada e sentou-se com os homens sagrados da Índia daquele tempo e morreu aos oitenta anos, um venerável andarilho esguio de antigas estradas e bosques de elefantes”. Obrigado, Jack Kerouac. Talvez isso seja tudo a ser dito sobre o Buda. Afinal, ele mesmo – o Buda – afirmou: “nada especial deve ser feito para ser salvo”.

A saga do príncipe Sidarta, o Gautama, é uma historinha maluca, mas é sempre bom saber que de vez em quando surgem tipos assim, pra dar uma variada nessa Roda Viva entediante da qual não conseguimos escapar, nem mesmo quando estamos dentro de um avião, sentindo os eflúvios do dendê ingerido no dia anterior.

Até qualquer hora, Buda. Pressinto que ficarei mais um bom tempo longe de você. Até que Jack Kerouac decida começar tudo de novo.

Livro…

Despertar: uma vida de Buda, de Jack Keroauc. Experimente, dentro ou fora do avião, com ou sem dendê.

Por Tony Bellotto

17/01/2011

às 16:40 \ Arquivo

Desordem e progresso


1- Na terça-feira chuvosa fui assistir ao show de Amy Winehouse aqui no Rio. Comparei-a a uma sereia esquálida com uma voz de furacão dourado capaz de derrubar coliseus. Enquanto Amy cantava na Barra, uma tempestade torrencial destruía cidades inteiras na região serrana carioca. Numa má comparação poética – que em nada redime o descaso das autoridades ou dirime a desgraça dos flagelados – a voz de Amy tem a potência de uma força da natureza. E para aqueles que esperam de artistas profissionalismo e objetividade, observo um paradoxo surgir cristalino como um arco-íris depois da chuva: uma das funções da arte é justamente a transcendência, e com ela a possibilidade de subverter a rigidez dos padrões e da objetividade. É irônico que Amy Winehouse tenha escolhido nossa bandeira como cenário: Ordem e Progresso. Na arte, às vezes, o progresso nasce da desordem.

2- Na quarta-feira chuvosa fui assistir ao Film Socialisme, de Jean-Luc Godard. Como a reafirmar os ensinamentos da noite anterior, a desordem se impôs novamente para a criação de um “progresso”. Godard consegue ser o mais realista dos cineastas: a vida é muito mais parecida com os filmes de Godard do que com os de Hollywood. Na vida, não há dramaturgia, nem trama nem sentido. As coisas acontecem, simplesmente. Os diálogos na vida real são truncados, interrompidos por ruídos e silêncios e sobrepostos por outros diálogos, ruídos e silêncios. As palavras e as imagens não são organizadas e às vezes tremem. Vemos e ouvimos, simplesmente. E sentimos. Imagens, sons, sentimentos e a perene imperfeição humana. Obrigado, Jean-Luc, por me ensinar o que eu já sabia e tinha esquecido. E foi preciso que um velho meio ranzinza de 80 anos (Godard, de óculos escuros) inventasse uma nova forma de escutarmos o som no cinema: suas “tomadas” sonoras do barulho do vento a bordo de um navio são absolutamente revolucionárias. E reveladoras. O cinema progride na desordem de Jean-Luc Godard.

3- Na quinta-feira chuvosa li o jornal enquanto tomava o café-da-manhã. Uma notícia me chamou a atenção – depois de me emocionar e revoltar com, e decidir esquecer, notícias e fotos dos flagelos da chuva, encostas barrentas dos morros devastados, vítimas, vidas e casas destruídas, a grande tragédia brasileira que não escolhe mais só os pobres e desfavorecidos, a chuva é cega, vivas aos governos (todos) ineptos (e não vou nem falar da exploração emocional e pieguice obscena da cobertura jornalística)-: o livro de Reinaldo Moraes, Pornopopéia, vai ganhar novas edições. Na sequencia dos três dias chuvosos em que a Arte devastou minhas encostas, esse último chega com uma revelação: Pornopopéia é um livro enorme, um tijolaço, desses que assustam as pessoas só pelo tamanho. E, no entanto, basta abrí-lo para que se transforme no tijolo mais leve do mundo. É um romance que se lê rapidamente (no fim lamentamos que tenha chegado tão rápido), e com prazer (sexual inclusive). Mais que um sucesso, Pornopopéia é um livro fundamental. “Fundamental”, na acepção do Houaiss: que serve de fundamento, alicerce; que dá início, real ou simbolicamente, a um projeto, construção, obra etc. Desordem, minha gente. Desordem e Progresso. Só a arte constrói.

Diversão…

…Fique à vontade, com Amy Winehouse, Jean-Luc Godard e Reinaldo Moraes, você não precisa ouvir, assistir e ler mais nada.

Por Tony Bellotto

 

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