18/01/2010
às 9:48 \ PessoasUm alô para o velho Buck
A história é relativamente conhecida, e já falei sobre ela numa crônica passada (o Denis Russo, meu colega colunista aí ao lado, também): o homem de 32 anos olha desolado para o lago. Está em silêncio, os olhos inchados pelo choro. Passara a noite em claro, bebendo. Quando o dia nasceu, foi até o lago com a determinação de acabar com a própria vida. Agora ele apenas pensa de que forma consumará o suicídio. Há inúmeras maneiras de se matar. Veneno, forca, revólver. Saltar de um prédio, jogar-se em frente ao trem em movimento, nadar pelo lago até que as forças lhe faltem ou o frio lhe paralise os braços e pernas. Ele analisa as possibilidades com a racionalidade de um cientista. E pensa em Alexandra, sua filhinha morta há poucos dias, vítima de pneumonia.
A lembrança da filha é insuportável e ele sabe que só a morte poderá livrá-lo daquela dor. Decide matar-se ali mesmo, no lago. Nesse instante ele vê um pássaro riscar o céu gélido e azul num voo rasante. E então seu espírito reage. O espírito inquieto e insubordinando, que o levou a ser expulso da universidade apesar de aluno brilhante. O espírito curioso que sempre o impelira a querer entender como e por que as coisas são como são. Em vez de suicidar-se, decidiu fazer uma experiência. Em suas palavras: “descobrir o quanto poderia um único indivíduo contribuir para mudar o mundo e beneficiar toda a humanidade”. Falo de Richard Buckminster Fuller, o arquiteto, designer e inventor norte-americano, que só viria a morrer cinquenta e seis anos depois, em 1983.
Buck (se me permitem chamá-lo pelo apelido carinhoso, tenho-o como um velho amigo, apesar de nunca tê-lo conhecido pessoalmente) deixou uma vasta obra, inúmeras invenções – das quais a mais conhecida é o Domo geodésico -, fecundos pensamentos e vários livros. Entre eles o Manual de Operação da Espaçonave Terra, uma obra visionária que antecedeu em muitos anos a preocupação objetiva com a preservação do meio ambiente. Buck afirmava que no século XXI a humanidade teria de decidir se quer continuar a existir.
Na época, parecia uma figura de retórica, ou um delírio de profeta. Hoje, com todas as evidências desabando literalmente sobre nossas cabeças, as palavras e pensamentos do velho Buck parecem mais urgentes e realistas do que nunca. Quem me conhece sabe que não creio em deus, religiões, políticos, Papai Noel, milagres, mandingas e desconfio piamente da humanidade em geral. Mas alguns poucos homens ainda fazem com que eu consiga levantar de manhã, caminhar até o lago e continuar acreditando que um único indivíduo pode mudar o mundo e beneficiar toda a humanidade.
Livro…
Acho que já sugeri a leitura do Manual de Operação da Espaçonave Terra, do Buckminster Fuller, numa outra crônica (o Denis Russo com certeza também já recomendou alguns outros textos do Buck). Por isso, recomendo aqui a leitura de um livro de um outro Buk (sem o “c”), também um amigo inseparável que nunca conheci pessoalmente, um outro profeta imprescindível: Charles Bukowski, autor de Misto Quente. De Buck em Buk quem sabe a gente não acaba salvando a humanidade da extinção?
Tags: Buckminster Fuller, Manual de Operação da Espaçonave Terra








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15 Comentários
João Diniz
-01/03/2010 às 21:30
Tony, sou arquiteto, músico e poeta, atividades afins que chamo de transArquitetura. E independente de crenças e mandingas acho que foi ótima iniciativa citar o Bucky em um texto seu. Nem a comunidade arquitetônica tem se importado muito com ele nos últimos anos e é incrível ver como suas idéias estão cada vez mais atuais quando o mundo clama por sustentabilidade, equilíbrio e leveza. Ele foi sem dúvida um titã do século XX, abraços, João Diniz.
Alex
-25/01/2010 às 18:12
Senhores, Senhoras e Belotto
Sugiro a Leitura do Livro “Manual de Instruções da Nave Espacial Terra”. Vocês descobrirão que o “Buck”era não só um genio, mas muito louco. Ficou ANOS sem pronunciar uma palavra para “Desapegar-se dos vícios de linguagem”.
Ah, e o DOMO GEODESICO, é uma estrutura como a “Bola” do Epcot CEnter. Sabe onde tem uma cúpula Geodésica? No Teto do Conjunto NAcional, na Cidade de SÃo Paulo, em plena Avenida Paulista..
Abraços e tolerância a todos…
Alan Aguiar Paulino
-25/01/2010 às 16:49
Compartilhamos muitas opiniões,caro Tony.Pelo que me pareceu no seu texto,você é uma pessoa muito cética,e eu considero isso uma qualidade que infelizmente está muito escaça atualmente,talvez isso seja uma consequência da péssima educação que a maioria das pessoas recebe.Gostei muita da maneira que você usou para homenagear seus heróis,como você mesmo disse:”homens que ainda fazem com que eu consiga levantar de manhã, caminhar até o lago e continuar acreditando que um único indivíduo pode mudar o mundo e beneficiar toda a humanidade.”Assim como você,eu também tenho ”meus heróis”,e tomo a liberdade de citar o nome de um deles aqui:Carl Sagan,um cientista e escritor notável,do qual me lembrei imediatamente quanto li essa sua afirmação:”Quem me conhece sabe que não creio em deus, religiões, políticos, Papai Noel, milagres, mandingas e desconfio piamente da humanidade em geral.”Essa sua pequena frase descreve fielmente as ideias do melhor livro de Sagan,O Mundo Assombrado Pelos Demônios.Gostei muito do seu texto e passarei a acompanhar sua coluna.Caso ainda não conheça o livro que mensionei,procure-o imediatamente,garanto que valerá a pena!
GiuliaNapoli
-25/01/2010 às 13:52
Tony, você está duas crônicas na frente e nós ainda estamos aqui. rsrsrs.
Bom, mas tenho que responder ao Sérgio Té:
“Provocar é preciso, ofender não é preciso”. E se eu lhe ofendi de alguma forma, desculpe-me, prometo melhorar na próxima.
Quando saí em defesa do Tony com todo o seu ateísmo, mesmo eu sendo católica, acreditando em Deus, anjos, santos e se bobear até em duendes, foi para mostrar que aceitar a opinião do outro é um exercício de educação e que só nos faz crescer neste “mundinho de meu Deus”.
Abraços para você… nos encontramos por aí… em outros comentários.
P.S.: Milla, abração pra ti, acredito que você me entendeu melhor.
rosemeire carvalho
-24/01/2010 às 9:48
Tony,
Gosto do seu estilo e acredito que o texto só é bom quando incomoda.
Continue semeando sentimentos, mesmo que sejam contraditórios.
Abraços.
Rose
Milla
-23/01/2010 às 21:18
Giulia não sou seu conhecido Felipe. Giulia, é bom saber as diversas opiniões. Mas concordo que algumas opiniões contrárias não acrescentam nada, por serem apenas simples provocações. Gentileza gera gentileza. Mas também não devemos entrar no clima dos provocadores, uma vez que eles gostam mesmo é de um “barraco”. Abraços prá você também!!!
Sérgio Té
-22/01/2010 às 17:18
Toni
Você vai até o lago… Com tudo o que já deve ter vivido…
Triste o homem que não viveu (ou não enxergou) nenhum milagre de Deus em sua vida…
“GiuliaNapoli: Acho que você não está respeitando as opiniões contrários. E não vi gentileza alguma em suas palavras.”
Abs
GiuliaNapoli
-22/01/2010 às 11:56
Olá Milla, conheço um Felipe Milla, é você? Bom, de qualquer forma, o debate é fundamental, mas gentileza gera gentileza, até mesmo quando temos opiniões contrárias.
Abraços,
Milla
-20/01/2010 às 16:44
Giulia Napoli, acho que a sua defesa foi desnecessária, porque quando alguém abre um espaço na mídia, para expor seus textos e os deixam disponíveis à reflexão e comentários, ela está aberta a toda e qualquer opinião(opiniões contrárias inclusive). As diferenças acrescentam é muito bom saber o que as pessoas pensam sobre um mesmo assunto.
GiuliaNapoli
-19/01/2010 às 16:43
Tony,
Sempre leio sua coluna e sempre tem comentários de uns “viciados” em te criticar. Acho até engraçado. Te chamam de um monte de coisas, de “incrivelmente incompetente” a outros impropérios. Falam que você deveria ficar fazendo música e não crônicas, etc. Pode ser um povo revoltado com tudo, pode ser caretisse ou pode ser só inveja mesmo.
Acho que ver um cara de sucesso pessoal e profissional como você, com espaço num grande veículo de comunicação para escrever com vontade e liberdade deve causar náuseas em muita gente.
Em mim causa satisfação. Plena.
E por falar em satisfação, adorei a crônica de um cara que fez da dor uma “compulsão” para melhorar o mundo.
Continue provocando, caro Tony.
Jaime
-19/01/2010 às 15:42
Caro Tony,
…“pras mandingas que a gente não vê,mil coisas que a gente não crê,valei meu pai´´…Como você já fui cético,mas muitas coisas não se explica pelo raciocinio logico ou experiencias cientificas.Então que Deus seja amor,poesia,intuição.Então até a total destruição,o mundo ainda existe.Nós existimos!
Milla
-19/01/2010 às 9:42
Sim, existe um Deus, ou uma Energia, que faz alguém enxergar além dos livros e de seus conhecimentos, temos que estar abertos a este Deus, esta Energia. Se não fosse assim o pássaro em vôo rasante, não iria de forma alguma demover Richard Buckminster Fuller de sua intenção de suicidar-se.
J. Roberto
-19/01/2010 às 8:23
Tony Bellotto cronista e intelectual. É o sinal do fim dos tempos. Depois questionam as causas dos desastres naturais; o Lula presidente; etc. São as forças superiores demonstrando sua revolta com tantos descalabros.
Paticio Franco
-18/01/2010 às 18:50
Oi Tony,
Acho que eu e este senhor do seu brilhante post, tem tudo a ver comigo também, que vejo o mundo de maneira cada vez mais lógica e objetiva, mesmo sem esperar reconhecimento nenhum de nada a não ser, apenas expressar o que vejo e sinto sobre o futuro da Humanidade e para onde estamos indo.
Talvez um dia, até venha a escrever um livro porém, nem mesmo isto está nos meus planos pois não planejo nada e sim, sempre faço tudo para acontecer, da maneira e na hora que eu estabelecer.
Se porventura quiser saber das coisas que penso e vivo fazendo, meu nick é Brasileiro do Sertão e, faço parte junto com uma galera incrível e super mentes especiais do blog METAMORFOSE DIGITAL, cujo nosso site é http://www.amigos.mdig.com.br.
Seria um prazer tê-lo em nosso meio também, expondo algum comentário, mesmo que com um nick diferente do teu nome, que tanto queremos bem e me orgulho de ser seu fã e da sua nobre esposa que, tem feito falta em nossas telinhas.
Abraços companheiro e, aguardo em breve sua visita que, me sentirei honrado se você comparecer quando tiver um tempinho e, se aceitares meu convite para ver o que vivemos fazendo e dizendo todos os dias, durante mais de 5 anos.
Felipe Dias
-18/01/2010 às 14:43
Você é incrivelmente incompetente para afetar um conhecimento que você não tem. Vergonhoso.