Da difícil arte de acordar
Leio compulsivamente os romances de Philip Roth – os que eu ainda não havia lido – um atrás do outro. Acontece comigo de vez em quando. Fico anos acumulando livros não lidos de um determinado autor, abrindo eventualmente um ou outro para uma olhada descompromissada, um passar de olhos desavisado por páginas aleatórias, até que de repente um deles me captura e pronto, dá-se a mágica: começo a ler todos os livros desse autor com uma sofreguidão digna de um condenado. É como se eu desvendasse algum código secreto de determinado autor, e isso me proporcionasse o livre acesso a seu universo literário. Aconteceu com Paul Auster, Marçal Aquino, Don DeLillo, John Fante, Roberto Bolaño e por aí vai (devo confessar que tal fenômeno ainda NÃO se deu com Saramago, por exemplo, com quem simpatizo muito).
Atualmente passo por uma fase Philip Roth. Lendo Pastoral Americana numa noite dessas, adormeci com a frase “Ele aprendera a pior lição que a vida pode ensinar – que ela não faz sentido”. A frase se refere a um determinado personagem do livro que, tendo vivido uma infância e adolescência gloriosas, como um grande atleta e campeão esportivo amador, um herói, acaba se depararando na vida adulta com uma tragédia pessoal que o consome e o conduz ao fracasso e à derrota, sentimentos por ele desconhecidos até então.
Durante a noite sonhei com meu pai, morto há seis meses, e no sonho ele apenas sorria para mim numa calçada da alameda Lorena, em São Paulo (não sei porque cargas d’água a alameda Lorena entrou no sonho, não tenho nenhuma ligação especial com essa rua, e nunca soube que meu pai tivesse), e eu o abraçava com o ímpeto de um filho pequeno, para quem o pai personaliza todas as idealizações e referências. Eu o abraçava com muita força mesmo, tentando matar a saudade, e dizia “que saudades, pai”, e ele apenas se limitava a sorrir.
Quando acordei li no jornal as notícias sobre a descoberta do autor das mortes de sete pessoas, entre elas crianças de uma escola judaica, nas cidades de Toulouse e Montauban, na França. Tudo indica que o suspeito, um radical islâmico, é um terrorista simpatizante da Al-Qaeda que teria matado as crianças judias para vingar crianças palestinas mortas. Que a vida não faz sentido eu já sei há muito tempo. O que eu não sabia é que naquele dia dia seria tão difícil acordar.
Tags: pai, Pastoral Americana, Philip Roth








Deixe o seu comentário
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.
» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA
16 Comentários
Maria
-23/04/2012 às 16:55
Ô Tony, cadê você, eu vim aqui só prá te ler!
[WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ’0 which is not a hashcash value.
Teobaldo Alves
-23/04/2012 às 15:05
Volta Tony! já estou entediado sem ler as suas crônicas!!!!!
Cícero Pithan Reis
-22/04/2012 às 13:00
E o pior que uns(muitos),agradecem a deus!
carlos
-20/04/2012 às 19:30
onde estás Tony, com suas interessantes crônicas?
Sidney
-20/04/2012 às 9:51
Fora difícil, mas acordei… mas não vejo o próximo texto, faz falta…
wesley
-10/04/2012 às 16:58
E aí Tony? Saiu de ferias e não avisou os leitores?
Rosimere Ferreira
-10/04/2012 às 12:43
Caro Tony,
provavelmente a Alameda Lorena tenha sido o local “escolhido” pelo seu encontro com seu pai, por ser na mesma alameda que você irá lançar seu livro daqui a alguns dias. Um livro é parte da vida… a pensar mais sobre isto. Beijos
Neide Ganimi
-08/04/2012 às 23:32
Tony,
Triste saber da morte de seu pai. Era estudante na Unesp de Assis, ainda FAFIA, quando o conheci. Figura impressionante pela elegãncia, educação e por que não dizer: beleza. Olhos azuis límpidos e doces. Pena, mas as pessoas e as coisas findam, por mais que desejemos que isso se protele ad infinitum.
Liliane de Paula Martins
-08/04/2012 às 9:19
Acho que tenho 2 livros de Phillip Roth, catalogados(Sim. Catalogo meus livros). Não consigo lembrar quase nada dos livros a menos que vá procurar o que grifei.
Os livros são: Complexo de Portnoy e Diário de uma ilusão.
jose ferreira santos
-06/04/2012 às 16:33
Nao consigo entender porque ainda nao escreveu sobre o documentario Raul Inicio, meio e fim” Vc nao curte Raul? Vc o conheceu?
Jose Ferreira
-05/04/2012 às 13:40
Nao entende porque vc ainda nao falou do filme do Raul Seixas, vc nao curte?
Amâncio
-04/04/2012 às 15:27
Caro Tony Belloto,
Os únicos autores que me fizeram ler uma obra atrás da outra foram: Charles Bukowski e John Fante.
Kaos
-29/03/2012 às 19:12
Tony, se você quer leitores e gente que faça comentários … Saia da cama e ligue o computador!!! Mais um pouco eu desisto do seu blog…
Kaos
-27/03/2012 às 0:50
E pensar que grande parte dos conflitos entre as nações são causados pelas religiões, obviamente em busca de poder político. E pior, as religiões foram inventadas em nome de coisas que nunca existiram, os deuses.
Realmente é difícil acordar, mas um dia a humanidade vai entender de onde viemos, quem somos e como funcionamos. Sem deus, sem espírito, sem alma, etc. Apenas maravilhosos animais da espécie humana.
Um dia vamos acordar e deixar de ser enganados.
Felipe de Almeida
-26/03/2012 às 17:23
É engraçado isso… Às vezes nos defrontamos com certas situações que dão um aparente sentido às coisas. Um encontro casual, um filme cujo tema se encaixe em nossas angústias, etc. De vez em quando, parece que tudo tem um encadeamento lógico. Ou até mesmo uma enxurrada de fatos te levam a trilhar determinado caminho. Sinais, digamos assim. Mas isso provavelmente é a nossa vontade de travestirmos o acaso com uma roupagem que denote consciência e lógica. É difícil aceitar que estamos à disposição de toda a sorte de acontecimentos, desde o “big bang”. A sensação de desamparo é fatal para o ser-humano. Somos mesmo um “cadáver adiado”? Ganhamos na loteria da vida e agora estamos aqui, a observar os acontecimentos? Será que a certeza do desamparo pode vir a nos amparar algum dia? Ora, se as coisas não tem o menor sentido, se não há ninguém que nos proteja a não ser nós mesmos, será que precisamos necessariamente achar um sentido para a vida e criar uma entidade sobrenatural que nos proteja? Ou podemos fazer de outra maneira?
Sei lá… Eu ainda acho que enquanto seguirmos nossas intuições e nossos corações, teremos alguma chance de proteção. Eu poderia ser uma das crianças mortas – uma pessoa que viveu pouquíssimo e nem chegou a ter noção da falta de sentido que as coisas possam ter -, e ter morrido assassinada sem nem sabe por que e sem que isso significasse qualquer compensação para alguém, fazendo com que a minha morte tenha sentido. Mas mesmo assim, ainda acho que precisamos achar um nexo causal individual e coletivo que nos mova a um mundo melhor. Já que nascemos do caos aleatório, que pelo menos deixemos um sentido descente para ser seguido pelas próximas gerações. E que o sentido seja seguir um coração puro, sincero e amparado pelo desamparo iminente da natureza.
Felipe de Almeida.
NADSON
-26/03/2012 às 9:00
Caro Tony Belloto, não é que a vida não tem sentido, mas é que talvez você ainda não o tem. Talvez esteja procurando o sentido da vida nas coisas, nas pessoas, nas organizações humanas. Pense o seguinte: Um homem, uma vida, um viver por 33 anos e meio, uma morte, uma vida de novo, um reino interior, de justiça e paz, uma eternidade, simples assim assim.E isso se você crer estará dentro de você e será você. O sentido da vida é você mesmo, creia e verá. Se a vida não tem sentido para você é por que você realmente ainda não tem o sentido da vida em você.