Depois de quinze anos longe da Colômbia, Sebastián Marroquín retorna ao seu país. O coração bate descompassado enquanto Sebastián caminha; emoções variadas nublam-lhe o espírito. Lembra-se da vez em que o pai, foragido, apareceu de surpresa na sua primeira comunhão. Como podia o pai que lhe sorria afetuoso dentro da igreja ser ao mesmo tempo o criminoso mais procurado do mundo?
Caminhando, Sebastián lembra-se rapidamente de quando o pai o ensinou a montar num elefante de verdade. Não é qualquer pai que pode manter um zoológico particular em casa. O pai de Sebastián podia. Outras imagens vêm à mente de Sebastián enquanto caminha para o encontro, num turbilhão. A viagem à Disney, os passeios de bicicleta, as situações corriqueiras de pai e filho.
Um pai tão comum quanto incomum. Um pai carinhoso e um criminoso cruel convivendo no mesmo corpo roliço e rosto bonachão. Sebastián chega ao encontro e se depara com os filhos do político Luis Carlos Galán. Galán, candidato à presidência da Colômbia nos anos oitenta, foi morto a mando do mais poderoso traficante internacional de cocaína da época, Pablo Escobar.
Pablo, o pai de Sebastián – que na verdade chama-se Juan Pablo Escobar –, chegou a comandar, sozinho, um cartel que controlava 80% do mercado mundial de cocaína. Tornou-se um dos homens mais ricos, poderosos e cruéis do planeta. Foi morto em 2 de dezembro de 1993, numa troca de tiros com o Search Bloc, grupo da polícia colombiana especialmente montado para capturá-lo.
Juan Pablo Escobar, um arquiteto de 32 anos, vive hoje na Argentina com uma nova identidade - Sebastián Marroquín -, sob a guarda do governo da Colômbia, como testemunha protegida. Agora, de volta ao país natal para o encontro, Juan Pablo encara os filhos de Galán. E diz: “Estou aqui para pedir perdão e olhar nos olhos de cada um de vocês”.
Rodrigo Lara, filho de um outro político também assassinado a mando de Escobar - o ministro da Justiça Rodrigo Lara -, afirmara dias antes, ao encontrar-se com Juan Pablo num parque em Buenos Aires: “Não podemos continuar alimentando esse círculo de ódio, ou nunca vamos sair”. Estas cenas e diálogos estão registradas no documentário Pecados De Mi Padre, do argentino Nicolas Entel, responsável pelo encontro conciliador entre o filho de Escobar e os filhos de Lara e Galán. A Colômbia, aos poucos, vai juntando os cacos e se recompondo.
Livro…
Notícia de Um Sequestro, em que o colombiano Gabriel Garcia Márquez analisa, com seu talento de jornalista e romancista, a situação política da Colômbia nos anos 90. Ficção e realidade se misturam na narração do drama dos sequestrados pela narco-guerrilha colombiana.
Por Tony Bellotto










Excelente essa iniciativa! Se outras rivalidades fossem tratadas de igual maneira o mundo seria melhor.
Satisfatóriamente vai cicatrizando, para o bem da Colombia estas coisas precisam ficar bem resolvidas para não ocorrer o revanchismo do 3º PNDH do Brasil, as feridas do passado por aqueles que não foram personagens, mas sim vítimas, os que sofreram as consequências da história de vida dos seus ascendentes.
Não acho que ficção e realidade se misturem em “Notícia de Sequestro”. Aliás, acho que ali é realidade pura, talvez a única obra jornalística dele que hoje em dia esteja ao nosso alcance.
Diz a lenda que ele pisou muitíssimo em ovos quando escreveu esse livro, já que a maioria dos sequestrados deram seu depoimento quando o “Cartel de Medellín” ainda tinha muita força. Pra quem nunca leu Márquez, certamente não é em “Notícia de um Sequestro” que vai encontrar sua marca registrada.
Forte abraço.
Caro Tony,
Bela crônica.Fico feliz que as qualidades humanas ainda rendem boas e verdadeiras lições de vida.
Penso que nenhum filho deve se sentir culpado ou envergonhado pelos os erros dos pais. Mas se esse filho segue as pegadas do progenitor… E isso é o que mais se vê por aí e por aqui. Vamos lá ver se algum filho de político vem a público se desculpar pelos pais ou denunciá-los.
Queria saber se o filho de Escobar viria a público denunciar o pai se esse ainda estivesse vivo e com o poder que tinha??? Será que denunciava o pai? ou será que ficava a espera de recerber o legado criado por Pablo Escobar?
Que bom que a Colombia caminha rumo ao futuro, livre de Pablo Escobar. Que bom que o atual presidente colombiano parta pra cima das Farc, bando de gente criminosa e admirada pelos esquerditas - Chico Buarque e Cia- e petralhas. Enquanto Colombia e Chile caminham prá frente, esta esquerda criminosa do Brasil quer instalar aqui uma ditadura.
Muito bom, Tony! Escrito com sensibilidade. É, vc escreve bem. Tem uma linguagem coloquial de um alcançe impressionante. A Veja tem a qualidade de saber escolher quem é bom. A Colombia hoje caminha com passos certos, mas entrou no casuísmo político, votando um 3º mandatopara o Presidente. Precisamos acabar, não interessa quem for o próximo presidente, com o voto de cabresto com o dinheiro público, onde programas sociais existem para perpetuar a miséria e assim eternizar o grupo no poder. A alternância é necessária para o bem de todos.
Esse negócio,de olhar nos olhos da vitíma e pedir perdão é puro cabotinismo,já vi que não é igual ao pai,esse sim foi ”cabra macho”,ao enfrentar um sistema que ,quando quis sair democraticamente candidato não lhe permitiram.Nem sempre tal pai é tal filho.Escobar para mim é tão herói quanto Lamarca,Mariguela,etc….,ah esqueci do Duque de Caxias.
Também não acho que ficção e realidade se misturem, em Notícia de um seqüestro. Sou formado em jornalismo, e utilizei este livro na minha monografia, e a conclusão foi de que o autor se utilizou do Realismo Mágico para ilustrar passagens verdadeiras, o que faz com que um fato se torne ficção. Diferente de Capote, em A sangue frio, que se utiliza realmente de ficção em alguns trechos. Muitos dos autores que eu estudei concordam com isto. É um livro excelente. Se quiser, posso enviar minha mono para você dar uma olhadela. Abraços.
Acabei de voltar de uma viagem pela Colombia e Venezuela e fiquei impressionado pela tranquilidade de Bogota em contraste com o clima tenso na Venezuela.