28/02/2011
às 14:22 \ CenasVeni, vidi, vici

Alea jacta est!, pronuncio segundos antes de me lançar às ondas verdes e frias do mar de Guaratiba. Como César, que às marges do Rubicão proferiu a frase ao cruzar com suas legiões o rio que divisava a Gália da Itália, também me lanço a um desafio. A frase, que em latim significa “os dados estão lançados”, mas que traduzimos como “a sorte está lançada”, diz respeito à decisão de César de desobedecer uma ordem do Senado Romano e enfrentar Pompeu, seu antigo aliado, agora um desafeto.
No meu caso, a frase se justifica pelo desejo há muito acalentado de participar de uma travessia no mar. Praticante de natação há anos, costumo nadar nas águas serenas e confortáveis de uma piscina, onde o maior risco que se corre é eventualmente dar uma cotovelada ou pernada no nadador da raia vizinha. Mas as travessias no mar sempre implicam maiores perigos e desafios.
Há muito que eu já acompanhava com algum desdém meus companheiros de piscina se aventurarem pelas travessias aqui no Rio, das quais a mais famosa é a travessia dos Fortes, em Copacabana, que atrai milhares de atletas e tem grande cobertura da imprensa. Em geral impedido pelo meu trabalho, faço shows nos finais de semana e as travessias acontecem quase sempre aos domingos, nunca tinha conseguido participar de uma dessas provas. Mas confesso que não era só a incompatibilidade de agendas que me impedia de me lançar ao mar. Algum medo ancestral, ou talvez o fato de ser paulista e ter passado boa parte da minha vida numa cidade do interior de São Paulo distante mais de 500 quilômetros do litoral, me fazia desistir sempre que aparecia uma oportunidade de me inscrever numa travessia.
No último final de semana, por conta das folgas do Carnaval – quando o rock entra em recesso no Brasil -, decidi finalmente enfrentar meus Netunos interiores e me inscrevi numa travessia em Guaratiba. A situação parecia perfeita: o mar de Guaratiba é calmo, quase uma piscina, e a travessia prometia ser tranquila. O dia estava lindo, céu azul, brisa fresca e sol quente. Mole, pensei, vou tirar de letra. Mas alguns minutos antes da largada, ao entrar na água para um rápido aquecimento, percebi que as águas estavam gélidas. Um esquimó nadador do Alasca não encontraria uma água mais fria. Sim, lá estava ele, o velho sacana chamado Destino com suas armadilhas inesperadas: pensou que ia ser moleza, mano? Sente a temperatura da água, rá, rá…
Ao ouvir o apito de largada, e depois de proferir a imortal alea jacta est de César, iniciei o ciclo repetitivo de braçadas, pernadas, inspirações e expirações que me conduziriam, 1.500 metros adiante, à linha de chegada. No começo tudo transcorreu bem, apesar da ansiedade, dos nadadores que surgiam por todos os lados me acertando braçadas e safanões, e do frio desgraçado. Passei pela primeira bóia, pela segunda, pela terceira, e a caminho da quarta e última bóia, o frio começou a mostrar suas garras: fui perdendo a sensibilidade dos pés, e um formigamento generalizado se impôs às extremidades do meu corpo.
Ainda assim fui em frente e consegui chegar razoavelmente vivo ao fim da prova. Apesar de um pouco tonto, e de não conseguir falar direito devido ao frio que me congelara as mandíbulas, olhei em torno e citei César pela segunda vez: Veni, vidi, vici. Vim, vi, venci. Grande frasista esse César, não?
Música para se ouvir contemplando o mar de Guaratiba: Wonderful, com João Gilberto.







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12 Comentários
Regina Paranhos
-13/03/2011 às 18:58
Oi,Tony,parabéns!Pratico natação,mas ainda não tive coragem de encarar o marzão.Por isso,admiro sua façanha.Tenho um blog e postei em janeiro um texto em homenagem ao Luiz Lima,o Rei das Travessias.O cara é um “monstro” e marinho,deve ter algum parentesco c Netuno.Se quiser dar uma espiadinha,disponha: rpcontosedescontos.blogspot.com
Gilberto
-04/03/2011 às 8:20
Tony, te arriscas a fazer um post sobre a derrubada das ditaduras no norte da África e arredores? Será que alguém consegue expressar o que realmente acontece naquelas regiões. Quem quer o quê? Quem está puxando as cordinhas? Até onde a religião comanda, até onde é apenas desejo de poder e petróleo? Até onde o objetivo é a implatação de um governo único mundial?
Toninho Leite
-03/03/2011 às 17:58
Ô tony vc devia ter falado:
“Vou não, quero não, posso não
Minha mulher não deixa, não”
hahahahahaha !!!!
“NÃO É Q EU VOU FAZER IGUAL…EU VOU FAZER PIOOOOOOOOOORRRR”
[WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ’0 which is not a hashcash value.
Glau
-03/03/2011 às 16:27
Toni, adorei esse dia!! Adorei o time que sofreu e vibrou !!! beijos Adorei a matéria!!
Gilberto
-02/03/2011 às 13:19
Quem sabe um post sobre o filme “Cisne Negro”, que trata também de superação, transformação.
Patrícia
-02/03/2011 às 11:22
Tony,
Parabéns por enfrentar seus ‘medos ancestrais’ é sempre bom e recompensador quando superamos limites que nós mesmos nos impomos.
Fernando C.
-02/03/2011 às 10:00
Como no último filme do Rocke Balboa “não importa o quanto você apanha, mais o tempo que você apanha e consegue seguir lutanto” neste caso é “não importa quão ríspido é o mar, mas o quanto você consegue encarar e nadar nele”
É a essência do que venha a ser o VENCER, é o que diferencia o vencedor do perdedor.
Tony,
como tocador vocé é um bom nadador haha
Araço
Juliao
-02/03/2011 às 2:44
Parabens por ter finalizado a prova!
Daylane Lopez
-01/03/2011 às 21:59
Tony é um verdadeiro tipo completo e ainda nada
A Malu tem muita sorte..
Bjs Que Deus te abençoe.
Denise Yumi
-01/03/2011 às 15:08
Ô Tony, querido…
Escreve estórias,
Ainda toca e nada…
ME ENCHE DE ORGULHO!
hahahahhahahahahahahhahahaha
Gilberto
-01/03/2011 às 8:33
Tony, também faço natação e graça a deus (oops!) ela tem me ajudado bastante. Nadar no mar é realmente outra praia, mas quando acreditamos na nossa capacidade, quando não ficamos inibidos por conceitos religiosos mentirosos, quando os nossos neurônios e não a nossa alma ( que não existe) recebem motivação, o nosso corpo fica mais forte e supera qualquer obstáculo. A fé em acreditar na energia nosso corpo é o que nos move. A fé em acreditar em coisas misticas que não existem nos derrubam e não evoluimos.
Regiane (Punk Rocker)
-01/03/2011 às 7:40
“swim Bellotto swim!!” ahuahuahauhauhauahauhauhauahuahau
Ei, é recesso do rock no Carnaval pq vcs rockeiros param e nos deixam ofãos, a mercê daquelas cuícas ensurdecedoras =(
Bjo!!!’