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19/10/2009

às 9:42 \ Cenas

O apontador

goldens-casal

Apontador, no meu tempo, era aquele pequeno objeto com que se apontavam os lápis na escola. Ou alguém que apontasse o dedo para alguma coisa (um informante do DOPS, por exemplo). Ontem, aprendi que apontador é também o profissional que cuida do cruzamento de cães. No meu tempo (a pessoa percebe que está envelhecendo quando repete no meu tempo duas vezes em menos de quatro linhas) ‘cruzamentos’ de cães aconteciam normalmente pelas ruas. Era comum olhar para uma esquina e deparar-me com um cão sobre uma cadela, copulando. Havia cães que ficavam presos às fêmeas e assim desfilavam, constrangendo e divertindo os transeuntes (no meu tempo pedestres eram chamados de transeuntes e ainda se chocavam ou se divertiam com coisas como cães copulando, por exemplo).

Ontem, por acaso (que dia, ontem!), também fiquei sabendo que cães foram domesticados pelos humanos há dezesseis mil anos. Quer dizer, houve um tempo em que o cachorro não era o melhor amigo do homem (e para minha felicidade houve também um tempo que não era o meu tempo). O cachorro era um inimigo feroz e selvagem. Não sei o que nossos antepassados fizeram para conquistar a lealdade daqueles caninos rosnantes, mas valeu a pena. Talvez tenham prometido a eles que no futuro seriam astros de tv – como Lassie e Rin-tin-tin -, da literatura – como Cérbero e Marley -, ou ainda das Histórias em Quadrinhos – como Pluto, Bidu e Milu.

Hoje em dia cães comentam entre si que o homem é o melhor amigo do cão. Pois foi assim que me senti ontem, ajudando o Apontador a conseguir que meu cachorro fecundasse uma cadela. É, a vida não anda fácil nem para os cachorros. Uma coisa que deveria ser natural – aliás, a coisa mais natural do mundo, dois cachorros trepando -, transformou-se num verdadeiro acontecimento. Uma operação delicada. Por alguma razão, a cadela – a simpática Luna – não queria ceder aos encantos de meu cão, o Guga.

O apontador (aquele que visa o alvo para abrir fogo sobre ele, na acepção do Houaiss), com seus olhos de Peter Lorre, colocou uma focinheira em Luna e mostrou como a dona e seu filho deveriam imobilizá-la. Depois, indicou a mim e a minha mulher como segurar o Guga, mantendo-o sobre a cadela, para que o “cruzamento” (existe palavra mais idiota para expressar relação sexual? Dá pra imaginar alguém num bar dizendo pra outro: e aí, vamos cruzar?) corresse a contento. Ficamos ali, cinco pessoas arfando em torno de dois cães, acompanhando em tempo real aquele ato tão prosaico. Uma verdadeira sessão de sexo grupal. Enquanto – finalmente! – o Guga ejaculava, o Apontador, com seu sorriso enigmático de Ciro Gomes, disse: “Três minutos de ejaculação ininterrupta. Você sente a vibração?”. Eu não senti nada. Mas fiquei orgulhoso de meu cão Guga e de nossos dezesseis mil anos de amizade.

Livro…
Timbuktu, de Paul Auster, em que o cão Mister Bones narra a história de sua tocante amizade com o poeta viramundo Willy.

Por Tony Bellotto
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24 Comentários

  1. rosana rodrigues

    -

    21/12/2010 às 20:33

    Deprimente Tony, com certeza vc caiu no meu conceito de pessoa. Lamentavel fazer isso com seu cão, pior com a pobre da cadela. Forçação de barra deprimente!!!! Vc gostaria de ser obrigado a transar a força????

  2. Vanessa

    -

    12/01/2010 às 12:07

    Tony

    Desde que acompanho sua coluna sempre tenho uma atenção especial a suas dicas… depois que li a dica do Timbuktu, foi o tempo de correr atrás a achar o livro para iniciar a leitura, sempre adorei leituras que envolvem cães e fiquei bem curiosa para conhecer. Posso dizer que fiquei realmente maravilhada com o livro, um modo diferente de se ver a história, e um desfecho inesperado.
    Devorei o livro em três dias e vim agradecer a dica!

    Essa valeu mesmo!

  3. gileana rabi

    -

    03/11/2009 às 23:48

    Caro Tony,
    Outro dia li, que não devemos dizer, ou escrever, “no meu tempo”. Teu tempo é agora, cara! Você tá aí, vivendo e nos presenteando com seus textos brilhantes! Valeu!

  4. aurora gomes

    -

    31/10/2009 às 18:29

    oi Tony, que coisa triste e horrivel- isto é cruel com o seu” melhor amigo” o pior é que te achava um cara inteligente.
    Imagine um apontador tentando te ajudar nessa hora ????????

  5. Tereza

    -

    25/10/2009 às 22:37

    Boa noite!
    Fiquei muito triste com que li. Espero que vcs reflitam melhor sobre isso e que não passe esses valores para seus filhos. Gosto muito de vcs e não do que fizeram.

  6. Cacau

    -

    25/10/2009 às 11:17

    Tony,
    Também tive que passar por essa bizarra experiência…
    Shelties são cães timidos e o macho que escolhi para minha cadela não tinha sex appeal nenhum (risos). Deixamos os cães se aproximarem e nada aconteceu, foi então que o handler me apresentou a idéia do “apontador”. No dia seguinte lá estava eu para aquela estranha experiência…e pior, a cadela não engravidou…tivemos que fazer uma nova tentativa no seu próximo cio.
    Valeu à pena, ela me deu 6 filhotes lindos! Uma delas, uma fêmea tricolor é alegria diária em nossa casa, uma grande companheira para meus filhos. E tenho contato semanal com outros 3 filhos da minha adorada Harmony.
    O tempo passa! Me lembro do Guga filhotinho passeando com seus filhos.
    - Já fomos vizinhos de rua antes de eu me mudar do Rio ;)

  7. marcelo borges

    -

    25/10/2009 às 7:10

    Tony,
    O que ouve com o Guga ?????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    veio a falecer ???????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    snif,snif,snif

  8. Mari

    -

    23/10/2009 às 10:54

    É Tony, aqui na minha cidade apontador já virou profissão. Conheço uma criadora que tem mais de 50 cães e nenhum cruza sem o “querido” apontador. Eu mesma já vi isso! Tenho 2 cadelinhas york shire( Peta e a Flor), no mês de julho levei a Peta para cruzar, você acredita que o cachoro olhava para a minha cadelinha e para o apontador como quem dizia “e aí não vem ajudar?”. Segundo a criadora todos os cães dela só cruzam se tiver a ajuda do apontador. É tempos modernos…

  9. Jéssica

    -

    22/10/2009 às 22:24

    Poxa, Tony, você é mesmo a favor desse tipo de coisa? Forçar uma cachorra a cruzar!? Que horror!

  10. Everaldo Costa

    -

    22/10/2009 às 16:20

    Quanta demência. Não acredito que o país se afundando numa merda monumental, jamais vista, onde toda nossa cultura foi pro ralo, vem um sujeito, querendo estrear no mundo literário, falar em cópula canina. Ocupar um espaço nobre da mídia, valendo-se da sua popularidade musical, para falar em assuntos sem fundamento. Acredito que durante a empreitada os coadjuvantes ficaram excitados, pois de outro modo não se dariam ao trabalho de compartilhá-lo com seus leitores. Fala sério.

  11. Roberta

    -

    22/10/2009 às 16:18

    Puts eu estava começando a gostar dos textos do Tony,mas isso foi a coisa MAIS ESTRANHA que já li na minha vida.Tomara que a Luna não tenha engravidado,e que da da proxima vez que tentarem algo assim ela morda o cachorro,ou os donos.

  12. Reinaldo Cozer

    -

    22/10/2009 às 14:41

    Prezado Belloto

    Adoro cães, sempre tive em casa de diversas raças, acho até que consigo me comunicar com eles atraves da fala e porque não, através do olhar. Mas esse texto, essa sua experiencia urbana é lamentavel diria Stanislau Ponte Preta. Murilo Rubião ficaria pensativo pelo menos uma semana, após ler o seu texto.
    Minha revolta não é com voce, mas com os humanos de dezesseis mil anos atras terem domesticado a raça canina para pagar esse mico pelos humanos de hoje!!
    Abraços
    Reinaldo Cozer

  13. Berenice

    -

    22/10/2009 às 1:09

    Que Cachorrada!!! Fizeram uma cachorrada com os pobres coitados…
    Bem se ve que essa amizade nao e’ correspondida em um mesmo nivel, pois o respeito muitas vezes e’ unilateral. Enfim, fica claro que o que levou milhares de anos para ser construido ,pode muito bem ser destruido em um piscar de olhos. Sem duvida o cao e’ o melhor amigo do homem…ja o homem…nao e’ amigo de ninguem.

  14. Rafael Campos

    -

    21/10/2009 às 17:23

    Tony
    É sério, “Três minutos de ejaculação ininterrupta. Você sente a vibração?”. Foi a coisa mais estranha que eu já li.
    Não consigo imaginar quatro pessoas segurando dois cães enquanto eles “trepam” e achar legal.
    Texto e situação surreais.

  15. Teresa Rivero

    -

    20/10/2009 às 22:40

    Desculpe-me,mas achei uma sacanagem forcar a Luna a “fazer amor” (ja que voce nao gosta de cruzar) com seu cao.Pode-se saber o porque?Juro que pensava que voce era um pouco menos machista e um pouco mais inteligente.Nessa,voce dancou…

  16. Cláudio Vilaça

    -

    20/10/2009 às 18:12

    Caro Tony essa crônica da semana está muito “Vera Loyola” ou fresca demais. Vamos ser mais realistas!! Nota 3 !!!

  17. Toninho Leite

    -

    20/10/2009 às 18:09

    O mais genial é que uma história dessas pode ser contada com tanta delicadeza e detalhismo por uma pessoa que mora numa cidade invadida pelo narcotráfico. Daí a crança de que nem tudo está perdido, e que o RJ tem solução!

  18. MONICA ROSANE

    -

    20/10/2009 às 15:37

    AH EU QUERIA VER ESSA CENA, E IMAGINEI OUVIR DE AI? VAMOS CRUZAR?
    BEIJOS!!

  19. Denise

    -

    19/10/2009 às 17:10

    O texto é bom ler, interessante. Mas qto ao assunto central mesmo do texto, me pergunto: para quê forçar uma cadela que não quer cruzar a fazê-lo? Me soa muito insensível por parte de seus donos e todos ali. Como disse Tony Bellotto, deveria ser uma coisa natural e deve ainda… Até porque hoje a gente sabe que os mecanismos de atração entre humanos e tbm entre os animais tem todo um sentido de selecionar os pares mais compatíveis para uma melhor procriação… O macho e fêmea deveriam ser deixados em paz, se o cruzamento ocorresse, bem, se não, paciência…

  20. Thais

    -

    19/10/2009 às 14:25

    Que horror que Luna teve que passar por isso! Parecia que estava narrando um estupro. Sempre tive caes, e o que fazemos ‘e deixar o macho e a femea juntos por algum dia ate que a femea seja seduzida pelo macho. Eles acabamo se entendendo.

    Pobre Luna!

  21. Milla

    -

    19/10/2009 às 13:46

    Pobres Guga e Luna, queimaram etapas de um “relacionamento”, para atender a ansiedade de seus donos. Tenho um Dachshund muito espevitado que completou 01 ano em setembro, pretendo deixá-lo bem a vontade para “curtir” muuuuito a namoradinha que certamente aparecerá em seu futuro.

  22. Anouk

    -

    19/10/2009 às 13:37

    Bellotto,

    Eu tenho uma cadelinha Parson Jack Russell, mas apontador nenhum aponta a minha cadelinha, nao.

    Os caes também gostam de ambientes reservados para o ato sexual. É claro que eles também precisam de tempo para que a copulacao seja um sucesso.

    Guga e Luna lhes perdoaram, afinal, os caes sao mesmo os melhores amigos do homem.

  23. Diego Felipe Pireira Noleto

    -

    19/10/2009 às 11:34

    Éeee amigo Tony, seu cão lhe agradeçe por essa forcinha. Mas, acho que com o tempo e com “o tempo moderno” eles vão optar por inceminação artificial, também.

  24. Samantha

    -

    19/10/2009 às 11:20

    Ri muito imaginando a cena. Se eu visse isso, poderia morrer feliz e realizada!
    Imagina só, foi praticamente um estupro, tanto para Luna quanto para Guga.

    Mas cá entre nós, é bem melhor ser um “apontador” do que um “cruzador” né?!


 

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