16/11/2009
às 17:31 \ ArquivoApagão

O ministro – com seu jeitão de figurante de filme do Zé do Caixão – tentava explicar a razão do apagão inesperado. Algumas palavras eram balbuciadas com aquela certeza sobre o nada que só os políticos têm: “Eventos climáticos”, “chuvas torrenciais”, “ventos fortíssimos”. Com a cara de quem acabou de cair da cama (ou de que foi arrancado dela), como um zumbi empedernido do planalto, o ministro só conseguiu reafirmar a convicção daquele que profere: “Só sei que nada sei”.
É provável que em alguns mal iluminados redutos petistas plantonistas imaginassem em nebuloso delírio José Serra manchado de graxa, segurando uma chave inglesa na mão, sorrindo um meio sorriso transilvânico ao escapar sorrateiramente de Itaipu depois de sabotar alguma engrenagem. Qualquer coisa ruim que acontece no governo é sempre culpa do Serra, já repararam?
Por outro lado, pode-se imaginar também uma reunião secreta à meia-luz, em plena madrugada, com oposicionistas brindando com champanha quente – as geladeiras estavam desligadas – o tropeço do governo. “Não lhes perdoaremos o blecaute!”, bradaria babando borbulhas um velho cacique do DEM, a tintura negra do cabelo a escorrer lentamente pela testa suarenta. Enquanto isso, nalguma esquina sinistra de qualquer cidade brasileira, um grupo de bandidos doidões de crack organizava – à luz de cachimbos – um arrastão halloween, aproveitando aquela máxima que diz que à noite todos os gatos são pardos.
Aqui em casa eu tentava dissipar a depressão de meus filhos – como quaisquer adolescentes que se prezem, meus filhos são dependentes de tv, computador, jogos eletrônicos e ar-condicionado – com histórias pra boi dormir de minha longínqua infância, quando viajava com a família para um rancho à beira do rio Paranapanema em que não havia luz nenhuma à noite, e só o coaxar dos sapos, cricrilar dos grilos e piscar de vagalumes proporcionavam algum lazer. Acabei jogando uma partida surrealista de xadrez com meu filho Antônio, numa peleja em que bispos eram confundidos com peões e torres com cavalos no negror do tabuleiro onde todas as peças e casas eram pretas. Se no futuro teremos de conviver com surpresas assim, proporcionadas por essa entidade nebulosa a que chamamos genericamente de “mudanças climáticas”, a noite do blecaute serviu como um belo ensaio.

DVD…
…Adeus, Lênin, em comemoração aos vinte anos da queda do Muro de Berlim,
uma bem humorada reflexão sobre o momento histórico em que o Muro veio
abaixo, tempos em que a paranóia do momento era a guerra
nuclear e não as mudanças climáticas.
Tags: apagão, blecaute, mudanças climáticas







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13 Comentários
Tiago
-20/11/2009 às 4:04
Racho à beira do Paranapanema? só pode ter sido em Florínea.
Juliana Amado
-20/11/2009 às 1:15
Quando eu era criança, eu passava as férias e os finais de semana em Itaboraí. Lá, no meio daquele mato, onde nos servíamos de gato (já que a empresa da região – que não me lembro mais qual era – não queria instalar luz na rua do sítio), a luz acabava sempre. Quando meu pai estava, acendíamos o lampião e abríamos o vidro das portas. Foi naquele tempo que eu descobri uma coisa muito útil de se fazer quando a luz evapora-se: conversar um pouco e dormir.
Agora, anos depois, já não temos mais lampião. Conversei com minha mãe com a luz da lanterna de uma caneta – coincidência ou não, ganhei uma caneta com lanterna duas semanas antes – e dormi. Estava quente pra caramba, e dormindo, dá muito bem para ignorar o calor, não?
Luiz Antonio
-18/11/2009 às 22:02
Não existe sistema elétrico nenhum no mundo livre de um apagão ( interrupção de energia ), por motivos os mais diversos – erro humano, acidente, etc. Já tivemos apagões até maiores do que esse. E mais, tivemos racionamento de energia em 2002. Racionamento é resultado da má gestão, da falta de planejamento. E não esqueça que naquele ano o Brasil estava com a economia estagnada. Devemos cobrar das autoridades explicações sobre as causas, e também medidas que diminuam o risco.
Nei Carlos
-18/11/2009 às 15:53
É Tony, mas a sua imaginação te enganou. Foi o PSDB que veiculou propaganda ontem (17/11) na televisão acusando o governo de culpado pelo apagão (pode ter sido mesmo culpado, não nego isso). Mas o fato é que foi o PSDB que comemorou o apagão e não o DEM como vc. imaginou.
Samara
-18/11/2009 às 12:54
É bom desconfiar desse apagão. Do Serra também, mas não pelo apagão. Aqui em Fortaleza nenhuma lampada piscou, mas fui dormir receosa, imaginando um monte de táticas para uma eventual falta de energia, ela tarda, mas não falha. Jogar xadrez entrou na lista, mas precisaria de uma vela potente.
Ah, e viva aos geradores do hotel da Madonna, que não ficou um minuto sem luz (sem trocadilhos). Azar dos outros meros mortais não abençoados por Jesus (desculpa o trocadilho).
Giovana
-18/11/2009 às 11:09
Quando leio suas crônicas sinto um pouco de alívio. Nossa, ainda existe gente que pensa e sabe se expressar no mundo!!!
Olha Tony, as forças ocultas que nos rondam, como “mudanças climáticas” por exemplo, devem ser originárias dos diversos fantasmas que transitam por Brasília, que acredito ser uma cidade fantasma, pois os deputados, senadores a afins chegam na terça (se chegam) e voltam para a casa na quinta de manhã. E o apagão será apagado da memória dos brasileiros, pois o próximo assunto será o filme “eleitoreiro” sobre Lula (o filho da…, quero dizer, do Brasil). E assim vamos caminhando… às escuras.
Regiane (Punk Rocker)
-17/11/2009 às 20:11
No fim das contas? Quem para e passa perrengue? Quem? Quem? O povoooooooooooooo! =/
Agora, vc descrevendo o Serra, saindo de Itaipu, no estilo pé ante pé, com a chave inglesa na mão huahaua num pooode Bellotto, minha mente é como o mundo de Bob, eu já imaginei o Mrs. Burns, dos Simpsons chegando nas linhas de transmissões, fazendo uma cara de “Agora, se vira nos 30″ Luiz Inácio” e pfff hauahuahuahauhuahauhaua
Ok, sério (ok, nem tanto), o jeito é improvisar jantar a luz de velas por livre e espontânea pressão, tentar ler um pouco (tb sobre a pressão das velas) e papear! Queria ver vc e o João jogando essa partida, deve ter sido engraçada! rs
E a Dilma hein? Ela disse algo sobre apagões há uns meses atrás, não disse?? O que ela disse mesmo, a nossa ‘Nostradamas’!??????? o.O =p
Bjo Bellotto
Julio Leone
-17/11/2009 às 18:40
Comecei a ler semana passada e acredite, lí todos os outros postados.Acaba mesmo em junho de 2008?Muito bons textos!Vira e mexe tomo um susto quando fala dos Titãs:”Ei, ele gosta tambem da minha banda favorita?”
cristiane
-17/11/2009 às 17:22
Esse filme é lindo, incrível… me surpreendeu a tardia citação…
Quanto aos Bastardos, imagino o inconformismo…. Já há em DVD. É a chance da molecada!
Sobre o apagão, mais uma vez a desculpa fica por conta de “outros fatores”, agora os climáticos. Nenhum governo é capaz de assumir a própria ineficiência administrativa e a equivocada aplicação do dinheiro público. Ainda que o problema persistisse, a verdade já seria um alento.
André
-17/11/2009 às 15:45
Independente da causa do apagão e das justificativas do atual Governo, que mais parecem apagões de explicações, fato é que foi sombrio olhar pela janela do 12º andar de uma tranquila rua no bairro da Vila Mariana, em São Paulo e ver a cidade inteira apagada. Conseguia ouvir algumas noticias pelo mp3 ou 4, não sei ao certo, porque tecnologia não é meu forte, mas foi fato constatar o quanto o ser humano é dependente dela. As informações que chegavam davam conta do trânsito caótico, da irresponsabilidade de alguns motoristas, que tentavam a todo custo chegar a seu destino, provocando alguns acidentes. Os locutores pedindo que a população que estava na rua sua agrupassem para evitar assaltos e arrastões. Avisos para que as pessoas não saissem de sua casas, nos remetendo aos filmes catastrofes americanos. Tudo isso para demosntrar que o ser humano é sim civilizado, mas só até a página 2.
Samantha
-17/11/2009 às 12:58
Com o atual (des)governo, a tendência é que a coisa piore e ao invés de algumas horas, passe a durar dias.
Assim como o João e o Antonio eu ficaria profundamente deprimida no blecaute se estivesse acordada (e olha que já passei da adolescência), mas por sorte, justamente na noite X, resolvi dormir cedo, coisa que faço no máximo uma vez por ano e acertei em cheio a data.
cereal killer
-16/11/2009 às 20:41
Muito bom texto, Tony! Você escreve com a mesma naturalidade com que as pessoas leem (não tem + acento?). Eu continuo não gostando da tua música, mas cada vez gosto mais da tua palavra. Acho que, como músico, você é um grande cronista. E, olha! É raro um bom cronista de seu tempo. Eu gosto do Serra. Eu sempre digo que o Serra é o grande líder brasileiro da sua época, mas gosto também do Presidente Lula, que é um homem intuitivo.
André
-16/11/2009 às 18:35
Perdão, Tony, por, de alguma forma, fugir do assunto. Mas este país sofre um apagão constante. Um apagão de decência política, de respeito, de honestidade, de lisura, de educação e, principalmente, de inteligência. Este apagão começou em 01 de janeiro de 2003.