Blogs e Colunistas

Arquivo de janeiro de 2012

30/01/2012

às 14:45 \ Cenas, Pessoas

Sergipe já tem uma inimiga pública número 1

Rita Lee despediu-se dos palcos dando uma lição de rock às novas e futuras gerações: protestou contra a truculência da polícia em um show em Aracaju, Sergipe, e acabou presa, acusada de “desacato e apologia ao crime ou ao criminoso”, nas palavras do venerável artigo 287 de nosso Código Penal. Ok, quer dizer que a criminosa é a Rita? Como se já não tivéssemos suficientes problemas de segurança pública, não?

Sergipe já tem sua inimiga pública número 1! Os policiais sergipanos, em vez de escoltarem com reverência a grande dama de nosso rock de volta ao hotel para um merecido e glorioso descanso, depois de lhe pedir autógrafos, claro, preferiram, à moda do que se fazia na ditadura – que Rita muito ajudou a combater -, levá-la à delegacia (e ainda foram cumprimentados pelo governador do estado…).

Parabéns, Rita, mais uma vez você provou que é mesmo nossa rainha. Recolham-se os policiais e seus cavalos aos seus quartéis e estábulos, vanglorie-se o governador de sua polícia violenta, todos vocês serão merecidamente esquecidos. Rita Lee, a eterna menina sapeca vestida de noiva, ficará para sempre na memória dos brasileiros como um exemplo de irreverência, criatividade e liberdade. Se uma roqueira espivetada do alto de seus 60 anos de idade ainda consegue ameaçar a ordem e a segurança pública, o rock no Brasil continua mais vivo do que nunca.

Longa vida ao rock! Viva Rita!

Por Tony Bellotto

26/01/2012

às 15:32 \ Cenas

Crônicas de um mundo em decomposição

(Foto: Thinkstock)

O cara pensa assim: que perrengue passavam nossos ancestrais na idade da pedra! Dificuldade para conseguir alimento, fragilidade diante dos predadores de maior porte e velocidade, incapacidade de lidar com os reveses causados por tempestades, secas e enchentes, falta de defesa contra doenças e epidemias, medo de ataques de tribos rivais.

O cara pensa assim: que sorte a minha, de viver em pleno século XXI, cheio de iPhones, iPads, iPods, net, internet, e-mails, e-books e Facebooks.

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Por Tony Bellotto

23/01/2012

às 15:37 \ Cenas

Deus me livre!

(Foto: Thinkstock)

Outro dia, no táxi a caminho do Galeão, passou por mim um carro vermelho em alta velocidade. O motorista parecia um rapper latino de filme independente americano, com boné virado pra trás e imensos óculos escuros. O interior do carro emanava um funk ensurdecedor que ajudava a compor a barulhenta sinfonia da Linha Vermelha às 8h30 da manhã, em que buzinas, roncos de motores e turbinas de avião se misturam numa música que nem John Cage poderia conceber.

Depois que o carro passou, reparei num plástico enorme no vidro de trás com os dizeres: DEUS É FIEL. Não foi a primeira vez que vi a frase, claro, ela é bastante difundida, mas foi a primeira vez que refleti sobre ela. Essa frase sempre me intrigou. A que se refere, afinal de contas? Deus é fiel a quem? A Ele mesmo?

Ora, se Deus, por definição é “causa necessária e fim último de tudo que existe” Ele não tem que se preocupar em ser fiel a si mesmo, pois já que está acima de todas as coisas não precisa, por definição, “não contrariar a confiança depositada”. O mesmo vale para a sua, digamos assim, ideologia, ou doutrina. Mesmo que Ele envie um planeta em rota de colisão com a Terra e destrua a vida humana por estas plagas, ainda assim continuará sendo fiel aos seus desígnios, já que estes são, também por definicão, insondáveis. Portanto dizer que Deus é fiel a si mesmo é afirmar uma tremenda de uma redundância.

Pode-se, por outro lado, argumentar que Deus é fiel aos que Nele crêem. Mas como todo fiel é por definição passível de ser traído, não seria errado afirmar, no caso de um crente que “abandone” Deus para flertar com o diabo, por exemplo – o que vive acontecendo -, que Deus é traído em alguns casos. Nesse caso seria tão correto afirmar que DEUS É TRAÍDO quanto que DEUS É FIEL.

Isso me remete a uma outra frase, também muito difundida, que me intriga igualmente: DEUS É DEZ. Só dez? Deus deveria ser, no mínimo, Mil, ou Milhão, quando não, Infinito, certo? Claro que a frase quer dizer que Deus está no nível máximo de qualquer escala, o topo da linha. Mas o número dez não me parece à altura do Todo Poderoso, na boa, e olha que eu nem acredito na existência Dele (acredito na do número dez, no entanto).

Mas caso os crentes queiram passar uma dimensão do poder e da força do Senhor, deveriam usar o número zero, já que este, por definição, é o “elemento inicial de qualquer série”, além de representar a “total ausência de quantidade”, ou ainda um “conjunto vazio”, que cabem muito melhor na definição do que seria esse “não lugar” que Deus habita, do que o raquítico número dez. Nesse caso, seria tão correto afirmar que DEUS É ZERO quanto que DEUS É DEZ.

Mas imagine o que aconteceria com alguém que saísse num carro com os dizeres DEUS É TRAÍDO e DEUS É ZERO. Deus me livre…

Por Tony Bellotto

20/01/2012

às 16:41 \ Mundo

Ponto Ômega

Exposição de Maurizio Cattellan no Museu Guggenheim, em Nova York (Foto: Cindy Ord/Getty Images)

Situado temporariamente num ponto ômega qualquer – a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro -, onde permaneço por algumas horas numa improvável escala entre Nova York e Manaus ainda sob os efeitos do jet lag num intervalo efêmero entre uma rápida viagem de férias e o primeiro show do ano, penso em Maurizio Cattelan.

Cattelan é um artista plástico italiano, e me chama a atenção que tenha nascido em 1960, o mesmo ano em que nasci eu mesmo, o que nos coloca lado a lado nessa espécie de gaveta transcendental a que chamamos “geração”.

Vi uma exposição de Cattelan em Nova York, no Museu Guggenheim, e foi a coisa que mais me impressionou até agora nesse incipiente 2012. O Museu Guggenheim de Nova York, única obra na cidade do arquiteto Frank Lloyd Wright, ostenta um gigantesco vão aberto que faz o visitante sentir-se do lado de dentro de um imenso formigueiro oco. Foi ali, nesse espaço livre, que Cattelan literalmente pendurou o trabalho de mais de trinta anos, e com isso resolveu aposentar-se do fazer artístico, dando por encerrada a sua obra.

As obras/esculturas conceituais de Cattelan revelam um humor muito particular, e pode-se discernir na grande cascata de objetos que pende do céu desde um papa João Paulo II derrubado por um meteorito, até um angelical Hiltler flutuando no ar como um sinistro anjo da morte, passando por um Kennedy descalço dentro de um caixão.

Mas a obra, e o conjunto que ela forma ali, pendurada, de Cattelan vai muito além dos aspectos pitorescos e das figuras reconhecíveis. Percebe-se ali uma representação ao mesmo tempo bem humorada e amarga de nossa era.

Cattelan é da minha geração, e me identifico com ele em sua busca por uma arte pop, mas perturbadora e surpreendente.

Entre as inúmeras figuras que se avolumam na cascata de objetos, ícones e imagens que pendem no vão do Guggenheim, me chama a atenção em particular um sujeito sentado sobre um imenso cofre arrombado, olhando para o fundo do abismo. Pressente-se que ele vai se jogar dali no instante seguinte. E com essa dúvida, ele vai se jogar ou não?, Cattelan consegue arrancar do visitante um sorriso.

Por Tony Bellotto

16/01/2012

às 14:15 \ Mundo

Trilogia de Nova York

(Foto: Thinkstock)

Enquanto você me lê, agora, me preparo para ir com meus filhos ao Madison Square Garden assistir ao jogo do NY Knicks contra o Orlando Magic. Faz frio em Nova Iorque, e me lembro de I Love Paris, a canção em que Cole Porter diz que ama Paris no verão, no outono, no inverno e na primavera. Sinto a mesma coisa por Nova Iorque. E minha família, num ritual que se repete quase todo ano desde que minha mulher estava grávida de nosso primeiro filho, agora com quase dezessete anos, está aqui reunida novamente.

Acho que não somos tão unidos em nenhum outro lugar do planeta, em casa muito menos, com todos os problemas domésticos e cada um levando sua vida. Em Nova Iorque estamos sempre juntos, seja correndo para assistir a uma palestra de Paul Auster (e não conseguindo chegar a tempo), seja lembrando com saudades das Torres Gêmeas e das extintas Tower Records, a rede de lojas de discos em que dispendemos muitos dias de nossas vidas e torramos milhares de dólares, seja comendo o “melhor hambúrguer de Nova Iorque” (acredite, há dezenas de restaurantes, bares e barraquinhas que se orgulham de prepará-lo), seja procurando no museu errado (MOMA) uma exposição de desenhos de Richard Serra (que acontecia no Metropolitan), seja comendo a “melhor espiga de milho do mundo” no La Eskina (há controvérsias), seja chorando de nostalgia em frente ao antigo, lendário e mitológico CBGB, agora uma prosaica loja de roupas, ou simplesmente dando de cara com John Travolta no Central Park.

Outro dia um companheiro de aula de Pilates no Rio declarou, ao saber que eu vinha para Nova Iorque: “Eu não conheço os Estados Unidos”. Ao que respondi: “Nova Iorque não é Estados Unidos. É Nova Iorque”.

Aqui, por exemplo, escrevi Impasses de um Ateu, minha crônica mais lida e comentada neste blog, meu, por assim dizer, maior hit na carreira de blogueiro. O que me inspirou a escrever a crônica, me lembro agora nesse frio danado, foi quando, numa tarde de verão, tomando cerveja mexicana numa mesa de bar na calçada tentando me refrescar do verão manaura de Manhattan, vi passar um ônibus com os dizeres Você não precisa acreditar em Deus para ser uma pessoa ética.

Num país tão religioso, até há pouco governado por um louco fundamentalista, é de espantar que uma frase como essa passeie livremente pelas ruas. É porque Nova Iorque não é Estados Unidos. É Nova Iorque.

Por Tony Bellotto

12/01/2012

às 14:00 \ Cenas

Traição

(Foto: Thinkstock)

Embora todo mundo a experimente uma vez ou outra, a traição é uma das sensações mais ásperas e amargas que se pode vivenciar.

A traição amorosa é talvez a maior responsável pelas dores na alma (no cotovelo e nos cornos também) que acometem seres humanos mundo afora. Nem a enxaqueca e a popular dor nas costas conseguem ser tão comuns e tão essencialmente humanas quanto uma boa traição. Um sabor que todos conhecemos, mas evitamos com a determinação de vampiros que correm à visão de cabeças de alho. Apesar de amarga, e talvez por isso mesmo, a traição sempre rendeu grandes personagens e excelentes tramas.

Nós, homens, do alto de nossa imensurável arrogância masculina, criamos ao longo da História personagens femininas que se destacam por trair os homens: Eva, Dalila, Madame Bovary, Capitu…e quem são os grandes “traidores” masculinos da história e da literatura: Marquês de Sade? Don Juan? Dorian Gray? Nathan Zuckerman? Não, os adúlteros masculinos não estão à altura de seus pares femininos.

Se o sabor da traição amorosa é aguda como o sabor do alho, o que dizer da traição de um amigo? Nesse caso, dando continuidade à tradição misógina que nos orienta, o maior “amigo traidor” da humanidade, o popular Traíra-Mor, é obviamente um homem, Judas Iscariotes, o amigo da onça que traiu Jesus Cristo, entregando-o à sanha dos soldados romanos.

No Brasil temos dois outros grandes exemplos: Joaquim Silvério dos Reis, o homem que entregou Tiradentes, e o menos conhecido Calabar, o senhor de engenho pernambucano que no século XVII traiu os colonizadores portugueses, seus antigos aliados, virando a casaca para apoiar os invasores holandeses.

O que comprova que, na traição, assim como em quase tudo na vida, há sempre duas versões: a do traidor e a do traído. Esta, invariavelmente mais amarga que aquela.

Por Tony Bellotto

09/01/2012

às 15:22 \ Cenas

1984

(Foto: Thinkstock)

Estou lendo A Vitória de Orwell, de Christopher Hitchens, que discorre sobre a vida, obra e legado de George Orwell, o grande escritor, jornalista, ensaísta e pensador inglês do século XX. Das inúmeras ideias e obras deixadas por Orwell nos seus 47 intensos anos de vida, a mais conhecida é sem dúvida o romance 1984.

Publicado em 1949, o livro narra as desventuras de um homem comum numa sociedade futurista, repressora e totalitária, em que os cidadãos são constantemente vigiados e julgados por um Grande Irmão onipresente. Mais de meio século depois, o Big Brother voltaria de maneira surpreendente, e muito menos aterradora, na forma do programa de TV que faz tanto sucesso no mundo todo, em particular no Brasil.

Ao contrário das previsões sombrias de Orwell – que dizem respeito muito mais à época em que foi escrito o livro do que propriamente ao futuro – o Big Brother de hoje atesta que a luta e a obra de Orwell em favor de um mundo mais livre e democrático não foram em vão.

Para aqueles que, como eu, acham o Big Brother (o programa de TV) meio sem gração, fica aqui a sugestão da leitura de 1984 e, caso você já o tenha lido, ou relido, a leitura de A Vitória de Orwell. As sugestões valem também para quem gosta do programa, afinal não tenho nada contra e, como Orwell, acredito que as pessoas têm de ter liberdade para fazer o que bem entendem.

Essa ideia, a ideia da liberdade, me remete aos recentes acontecimentos na Cracolândia de São Paulo. Não tenho condições de julgar se a iniciativa do governo e da prefeitura paulistas será eficiente no combate à droga e na recuperação dos viciados. O que acho positivo, e louvável, é que alguma coisa está sendo feita, e que isso não se limita a prender usuários e mandá-los para a cadeia. Pelo contrário, segundo as informação veiculadas na imprensa, os viciados estão sendo conduzidos a instituições de saúde e tratamento.

Esse é o ponto principal na luta contra as drogas. Mais do que repressão e criminalização, é preciso compreender que o problema, assim como o do aborto, é de saúde pública, e não de polícia. Ou assim deveria ser na minha modesta e leiga opinião de cidadão ci-vi-li-za-do. Encontrei enfim um motivo para me alegrar em 2012. Comemoremos a vitória de Orwell!

Por Tony Bellotto

05/01/2012

às 14:30 \ Cenas

Velhas dicas para um ano novo

(Foto: Keith Bedford/Getty Images)

Não sei por quê, mas ainda não me sinto num ano novo. A ficha não caiu. Aliás, essa expressão, “a ficha não caiu”, não faz mais muito sentido hoje em dia, faz? Quem ainda manipula, nos dias de hoje, fichas de telefone ou fichas de máquinas de fliperama que não seja, na melhor das hipóteses, um funcionário de museu ao limpar o pó dos objetos expostos numa mostra sobre o século XX? Viu como estou nostálgico e atolado em algum lugar do passado? Talvez pelo fato de ter cruzado o átimo que dividiu 2011 de 2012 praticamente sobre um palco, trabalhando, o que não fazia desde 1984, a última que vez que os Titãs tinham tocado numa noite de réveillon – adentramos 1985 sobre o palco de uma extinta casa de shows na Lagoa, aqui no Rio – ou talvez pelo fato de que, aos 51 anos de idade tudo me pareça de certa forma igual, tenho passado os dias como um zumbi, me arrastando pelos mesmos lugares de sempre, vivendo uma sensação constante de déjà vu, a bela expressão francesa para algo já visto, ou vivido.

Nessas horas, as horas de melancolia e desespero contido, me refugio na arte, a única e verdadeira autoajuda que conheço.

São as minhas velhas dicas para um ano novo:

Um CD imperdível para esse início de 2012 é o antigo e misógino álbum dos Stones, esses grandes conhecedores da alma e de outras partes mais interessantes da anatomia feminina, agora reeditado numa edição comemorativa: Some Girls. O disco foi lançado em 1978, em plena efervescência punk, e mostra porque os Stones sempre serão a melhor banda de rock em atividade no planeta Terra.

Por falar em planeta Terra, minha segunda dica é o sensacional e perturbador filme de Lars Von Trier, Melancolia, de 2011, que tem como trilha sonora a excelsa Tristão e Isolda, de Wagner. Esqueça as bobagens que Lars falou em Cannes. O filme é revelador.

Por fim, recomendo vivamente o Zuckerman Acorrentado, de Philip Roth, livro lançado no ano passado, mas que reúne livros lançados em 1979, 1981, 1983 e 1985, todos trazendo como protagonista o impagável Nathan Zuckerman, o maravilhoso escritor criado por Roth. Zuckerman parece mais real que a maioria das pessoas reais que conheço. Eu, por exemplo.

Por Tony Bellotto

 

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