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Arquivo de março de 2010

29/03/2010

às 12:31 \ Cenas

Antígona

mulheres-branco

 

Mulheres sempre dão uma dimensão especial a qualquer manifestação ou confronto político de que participem. Aliás, dão dimensão especial à qualquer coisa, na minha opinião. O que seria do paraíso sem Eva? Um lugar infinitamente mais tedioso. Temos a impressão arraigada de que enquanto homens (aqueles seres do sexo masculino, descendentes de Adão) estão lutando, brigando, guerreando, discutindo sobre futebol ou simplesmente matando-se uns aos outros numa guerra qualquer, está tudo certo. É da natureza estúpida dos homens se engalfinhar uns com os outros por motivos pueris, torpes ou nobres que sejam

 

Homens adoram brigar e se esgoelar por uma opinião ou time contrário, cuspir ou urinar no chão para demarcar território, disputar uma bola, uma nação ou até mesmo uma mulher, eventualmente. Mas quando as mulheres entram na briga, a coisa muda de figura. Não que já não estivéssemos todos (os de bom senso) bastante desconfiados da ditadura de Fidel Castro (agora sob o comando do irmão Raul) em Cuba. Mas é que sempre foi muito difícil para muitos enxergar o velho ditador intransigente e cruel naquele jovem barbudo que junto com Che Guevara tornou-se símbolo da revolução e da liberdade nos anos 60.

 

Os heroicos barbudos que libertaram Cuba do jugo de um tirano tornaram-se eles próprios tiranos com o passar dos anos, apesar de ainda barbudos e fardados como libertadores idealistas recém desembarcados do Granma (apenas um pouquinho mais alquebrados). E em nada ameniza essa constatação o fato de Fidel ser amigo de e admirado por gente como Garcia Márquez e muitos outros, aí incluídos nosso presidente e vários de nossos intelectuais.

 

Que ironia cruel. Precisamos que mulheres vestidas de branco nos clareiem a visão, como santas Luzias. As Damas de Branco estão nas ruas de Havana protestando contra a prisão de seus companheiros, maridos e filhos, presos políticos do regime cubano. O fato de estarem vestidas de branco sugere uma manifestação pacífica, gandhiniana e feminina na forma de fazer política. Mas as porradas que estão levando da repressão cubana comprovam que os libertários barbudos revolucionários (ou o que sobrou deles) não estão nem aí para feminismo e princípios políticos de não-violência preconizados por Mahatma Gandhi.

 

As Mães da Praça de Maio, movimento que uniu mães de desaparecidos vítimas da ditadura argentina na década de 70 e 80, também souberam o que é tomar no lombo as cacetadas dos trogloditas. Coisa que as mulheres islâmicas conhecem há séculos. Há homens que sentem prazer especial em dar porrada em mulher. O que torna tudo ainda mais trágico, patológico e inaceitável.

 

Livro….

… Antígona, de Sófocles, uma peça que merece ser lida sob a ótica da luta da mulher. A protagonista, Antígona, filha de Édipo e Jocasta, ousa se insurgir contra o rei, seu tio Creonte, e contrariando uma ordem deste, decide enterrar o irmão Polinice com as próprias mãos, numa atitude que lhe custará a vida.

Por Tony Bellotto

22/03/2010

às 12:05 \ Cenas

8 de janeiro de 1935

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Fazia muito calor naquele verão em Memphis, no Tenessee. Quando Sam Phillips, o dono da Sun Records – um pequeno estúdio especializado em gravações de música country e jazz -, chegou para a sessão daquela tarde, os meninos já estavam tocando. Sam entrou na sala de controle e perguntou a um dos técnicos de gravação que som era aquele que os malucos estavam fazendo. Jack não soube explicar. “Estão zoando com o blues do Crudup”.

Só então Sam se deu conta de que os garotos estavam tocando That’s All Right, Mamma, um blues de Artur Crudup.

“Quer que eu peça pra eles pararem?”, perguntou Jack.
“Não!”, disse Sam. “Grave o que eles estão tocando”.
“Mas, Sam, isso não é blues, não é country, não é pop…”.
“Não importa Jack, grave!”, ordenou Sam.

Sam tinha gostado do som que os garotos estavam fazendo. Era um blues, mas eles estavam tocando num andamento mais rápido, como uma canção country. Os garotos eram três figuraças. O cantor tinha um topete enorme, parecia uma couve-flor negra e brilhante no alto da cabeça.
“Quem é o cantor?”, Sam perguntou. “Não sei”, disse Jack. “Parece que é um chofer de caminhão de Tupelo”.

Não sei se as coisas aconteceram exatamente assim naquela tarde de 5 de julho de 1954 em Memphis, mas imagino que sim. Agora em janeiro, no dia 8, comemorou-se o nascimento do garoto do topete, Elvis Aaron Presley, que se não o foi o único, foi sem dúvida um dos mais importantes inventores desse ritmo musical que transcendeu a música e virou um modo de vida: o Rock.

Estudiosos dizem que o rock nasceu naquela sessão de gravação no dia 5 de julho de 1954 em Memphis, no Tenessee. Eu acho que o rock nasceu em Tupelo, Mississippi, no dia 8 de janeiro de 1935.

CD…
…Num verão quente como esse que vivemos, nada melhor que escutar o primeiro disco do Elvis, ELVIS PRESLEY. Você não encontrará nada mais moderno por aí, apesar do disco estar completando 54 anos de idade.

Por Tony Bellotto

18/03/2010

às 22:11 \ Cenas

Moqueca curitibana

moqueca

A moqueca baiana é famosa e imbatível. Gostamos, os Titãs, de saboreá-la em Salvador no restaurante Yemanjá contemplando o oceano Atlântico. A moqueca capixaba, sem dendê, também tem o seu valor e sempre que estamos em Vitória não deixamos de nos refestelar no Pirão, ali na praia do Canto. Mas a moqueca curitibana, essa é para poucos. Pouquíssimos.

Tivemos o privilégio de conhecê-la na casa de amigos queridos, a Lu e o Wella, em Curitiba, depois de um show (um, não: dois. O sucesso foi tanto que tivemos de abrir uma data extra) com os Paralamas do Sucesso no teatro Guaíra. E olha que para trocar o churrasco suculento do restaurante Palácio por uma moqueca, só sendo mesmo uma moqueca muuuuito especial.

O que faz da moqueca curitibana única, em primeiro lugar, é o cozinheiro. João Suplicy – homônimo e parente do músico paulistano – é um proeminente arquiteto e fazendeiro paranaense, amigo de longuíssima data. Bota longa nisso. Ainda na década de 1980 do finado século passado, começamos a frequentar a casa do João – que apelidamos de Sam Shepard, devido ao seu charme de cowboy intelectual. Ali encontrávamos amigos e artistas locais, como o inesquecível Paulo Leminsky, poeta dos poetas, expoente de uma geração, grande figura.

Já naquela época João Suplicy, o Shepard, se destacava na cozinha, preparando, junto com Marcelo Fromer, antológicos peixes assados em folhas de bananeira. Mas a culinária de Shepard (assim como sua arquitetura) se sofisticou com o passar dos anos. E sua moqueca, no domingo passado, já entrou para a História da gastronomia ocidental. Não foi só o cozinheiro. As boas lembranças, as conversas e as risadas contribuíram para transformar a moqueca curitibana em verbete imprescindível.

Ajudaram na avaliação, é claro, os saborosos vinhos que Wella sacava sem parar de sua adega mágica. Ao fim do banquete, tivemos direito a uma sessão de stand-up comedy com o Branco Mello, que como sempre, fez todo mundo rir até não haver mais nenhum sinal de tristeza ou injustiça no mundo. Viva a moqueca curitibana!

Livro…
…depois de minhas loas à moqueca curitibana, recomendo a leitura dos livros de poemas e hai-kais desse grande poeta, também prosador, tradutor e compositor paranaense: Paulo Leminsky. Gosto especialmente de Distraídos Venceremos e O Ex-Estranho.

Por Tony Bellotto

15/03/2010

às 22:16 \ Arquivo

Ele está no meio de nós

Getty
 “O demônio está instalado no coração da Igreja”.

 “Há cardeais que não acreditam em Jesus e bispos que estão ligados ao demônio”.

 “O demônio mora no Vaticano”.

 “O demônio pode se esconder, ou falar diversas línguas, ou até aparecer para ser solidário. Às vezes ele ri de mim. Mas sou um homem feliz com meu trabalho”.

Antes que você comece a me xingar, não sou eu quem assino as frases acima. Elas foram proferidas semana passada pelo padre – sim, o padre – Gabrielle Amorth, de 85 anos, exorcista há 25. O homem sabe do que fala. Serviu o exército italiano durante a Segunda Guerra Mundial. A experiência na guerra confirma sua crença de que os nazistas estavam possuídos e, segundo ele, comprovam que o demônio existe.

Agora, Amorth vê evidências irrefutáveis de que o Anti-Cristo está vencendo a batalha contra a Santa Sé. Palavras dele, o padre. “Sua Santidade acredita de todo o coração na prática do exorcismo. Ele tem encorajado e parabenizado nosso trabalho”, afirma.

A experiência na Igreja leva Gabrielle Amorth a concluir que a tentativa de assassinato do papa João Paulo II em 1981 e as recentes revelações de violência e pedofilia cometidas por sacerdotes que trabalham na educação de crianças também são obra do demônio.

Peraí, deixa ver se eu entendi: se a violência e atos de pedofilia cometidos contra as crianças é obra do demônio – que “possui” pobres e inocentes padres -, a quem devemos responsabilizar por tais atos? O demônio? Alguém tem o endereço do Dito-Cujo, para que possamos chamá-lo a depor numa delegacia? Sei não, essa história de demônio no Vaticano não me cheira bem. E não é cheiro de enxofre, não. É cheiro de desculpa esfarrapada.

Pessoas como eu, que não acreditam no demônio, preferem ver esses padres violentadores de crianças pagando por seus crimes aqui na justiça terrena, como qualquer outro criminoso, que me perdoe o simpático exorcista feliz com seu trabalho.


Numa semana triste para os brasileiros, registro
minha homenagem ao Glauco, o grande cartunista
assassinado estupidamente, junto de seu
filho, o Raoni. Sugiro que olhemos seus cartuns,
suas tiras e histórias em quadrinhos,
e busquemos encontrar alguma alegria nessa
vida que às vezes parece não ter sentido algum.

Por Tony Bellotto

11/03/2010

às 22:40 \ Arquivo

A Florença do Elba

bombas-dresden

Meu pai me liga e diz que os índices melhoraram no último exame hematológico. Ele está bem. Sendo assim, estou bem também. Torço sempre pelos leucócitos do meu pai. O que nos liga vai além da genética. Ele e a namorada, Neide, lançaram há poucos meses o livro que recomendo abaixo: Dresden, a Florença do Elba, sob o olhar pictórico de Bernardo Bellotto, o Canaletto.

Apesar dos vários Bellotto envolvidos, não se trata de uma simples ação em família. A reconstrução de Dresden – possível graças aos quadros de Bernardo Bellotto – prova que o espírito humano, embora paradoxal, é capaz às vezes de grandes feitos. Como se sabe, a cidade alemã de Dresden foi bombardeada faltando poucas semanas para o final da II Guerra Mundial. Foi um dos massacres mais sangrentos e lastimáveis da História, produzindo um número ainda maior de vítimas do que o famoso bombardeio de Hiroxima.

Dresden, mesmo durante a guerra, era uma cidade de espírito humanista – que nunca apoiou as políticas de Hitler –, e foi usada pelos alemães durante o conflito mundial como uma base hospitalar e de prisioneiros. Dresden era um centro de arte e cultura, não à toa conhecida como a Florença do Elba, o rio que lhe banha as bucólicas paisagens barrocas.

Com a justificativa de destruir alvos militares e industriais que apoiavam o esforço alemão de guerra, os aliados – Força Aérea Real, da Inglaterra, e Força Aérea dos Estados Unidos – despejaram sobre a cidade 3.900 toneladas de bombas altamente explosivas que transformaram a maior parte de seus edifícios em pó, assim como algo em torno de 300.000 pessoas em fragmentos de pele, músculos e ossos flutuando no ar frio.

O lado bom da história – se é que existe lado bom numa matança desenfreada como essa – é que Dresden foi reconstruída (está sendo reconstruída até hoje) graças aos quadros de Bernardo Bellotto, um pintor veneziano que vivera na cidade entre 1747 e 1758. A arte, ao contráriobellotto-livro-93 da guerra, é capaz de construir sonhos e reconstruir cidades.

Livro…

Dresden, A Florença do Elba, sob o olhar pictórico de Bernardo Bellotto, o Canaletto, De Manoel Bellotto e Neide Marcondes, Altamira Editorial.

Por Tony Bellotto

08/03/2010

às 6:23 \ Arquivo

Q.I.

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Fiquei sabendo, aqui em VEJA.com, que uma pesquisa divulgada pela revista Social Psychology Quarterly mostra que homens que traem suas parceiras tendem a ter o Q.I. mais baixo, enquanto ser fiel a mulheres e namoradas é sinal de que eles são mais inteligentes e “evoluídos”. Tudo bem, cada um que faça sua própria avaliação, não estou aqui para dividir os homens entre aqueles que tendem a ter Q.I. baixo e aqueles que são “evoluídos”. Acho, aliás, tudo isso uma besteirada sem tamanho, se você quer saber. Trair – êta verbinho pesado – ou não trair é uma questão individual, que cada um – ou cada casal, ou trio, ou quarteto – resolve entre si.

Alguém tem notícia de palhaçada maior do que aquele pedido de “desculpas” públicas protagonizado pelo Tiger Woods? O que foi aquilo? Fiquei com pena do cara. E não foi por cumplicidade machista, juro. Considero-me evoluído. Nem por ser fã de golfe, que entendo como maçante e um pouco esnobe. É que achei aquele espetáculo do Tiger Woods na tv o fim da picada. De um moralismo ridículo. A quem um homem deve desculpas por ter traído – perdão pela insistência, palavrinha pesada, essa – a mulher? À própria mulher, e ninguém mais. O tipo da coisa que se resolve (ou não se resolve) em casa. A famosa roupa-suja. Tudo bem, alguém pode argumentar que o pedido de desculpas foi movido muito mais por interesse financeiro – leia-se contratos publicitários que Tiger está perdendo por conta de suas “puladas de cerca” – do que por arrependimento e compaixão conjugal. Pior ainda. O que se espera de Tiger Woods? Que jogue golfe e vença torneios. O que faz de Tiger Woods um ídolo? Sua excelência na técnica do esporte. Por que se exigiria que ele fosse, além de um fenômeno do golfe, um exemplo de comportamento conjugal?

Já imaginou se adotássemos o mesmo modelo de moralismo norte-americano? O que seria de nossos craques de futebol, por exemplo? De nossos artistas? Ok, não vou generalizar, alguns de nossos craques e alguns de nossos artistas. Talvez até mesmo alguns de nós, não? Ainda bem que, nesse ponto, damos de mil nos irmãos do norte. Lembro do escândalo Mônica Lewisnky, durante o governo Clinton. Bill Clinton quase foi obrigado a renunciar à presidência da república por ter brincado com uma estagiária e um charuto na sala oval da Casa Branca. O homem fazia um governo exemplar e não teve o direito sequer de dar uma “escorregada” conjugal. Na época, num artigo brilhante, ninguém menos que Gabriel García Márquez saiu em defesa de Clinton. Logo o García Márquez, fã incondicional de Fidel Castro. Não sou nenhum Gabo, mas registro aqui minha solidariedade ao Tiger Woods. Mesmo que ele tenha o QI baixo.


Livro…

Já que ando falando muito do Gabo – a quem admiro por sua literatura e de quem não exijo que se comporte como um modelo de correção política – sugiro aqui a leitura de Crônica de Uma Morte Anunciada. A novela de 1981 é de uma escrita exemplar, em que se destaca a exuberante técnica narrativa do escritor colombiano.
Por Tony Bellotto

04/03/2010

às 20:55 \ Arquivo

Desterro

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Agentes de segurança iranianos sequestraram o diretor de cinema Jafar Panahi na noite de segunda-feira e desde então o paradeiro do diretor é desconhecido. Ele estava acompanhado da mulher e de uma filha, que também foram levadas e permanecem desaparecidas. O sequestro de Panahi expõe a ferida do totalitarismo e a chaga da intolerância aos olhos públicos. Panahi é um diretor conhecido e premiado internacionalmente e aborda em seus filmes questões sociais da República Islâmica, principalmente a questão da mulher, o receptáculo final de toda a intolerância e preconceito do regime islâmico.

Não é de estranhar que, além do diretor, tenham levado junto sua mulher e sua filha. Mesmo quando acusam um homem de alguma coisa, dão um jeito da mulher também pagar o pato. Pahani, diretor de filmes consagrados como O Balão Branco, O Círculo e Fora do Jogo, já é perseguido há muito tempo pela política obtusa de Ahmadinejad. Seus filmes quase nunca tem permissão para serem exibidos no Irã, quando não são abertamente censurados. Isso não impediu que Pahani tenha vivido há pouco tempo uma situação paradoxal, e ridícula, bastante reveladora de nossa época: convidado a apresentar O Círculo nos Estados Unidos, teve o visto de entrada ao país negado, pois o fato de ser iraniano o associava – segundo o pensamento do governo Bush – aos atentados de 11 de setembro.

Pouco depois, convidado a voltar ao festival de Berlim, que já premiara Fora do Jogo, foi impedido de sair do Irã. Pahani, por seu espírito crítico e seu apreço à liberdade, é mais uma vítima dessa grande guerra da intolerância, que é também a guerra da ignorância, que condena homens e mulheres de espírito livre ao desterro, mesmo quando estão dentro de suas próprias casas.

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O Balão Branco, de Jafar Pahani. A aventura da menina Razieh em busca do peixinho dourado dos seus sonhos mostra o talento e a sensibilidade de Pahani, que junto com alguns outros diretores, faz do cinema iraniano uma voz de insubmissão e resistência à intolerância do regime islâmico.

Por Tony Bellotto


 

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