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Arquivo de 18 de fevereiro de 2010

18/02/2010

às 21:04 \ Cenas

2001

avatar

Quando Stanley Kubrick e Artur C. Clarke idealizaram o filme 2001, Uma Odisséia no Espaço, não imaginaram que o ano de 2001 entraria para a história não como o ano em que se encontrou – como no filme – um enigmático monolito enterrado na Lua, artefato místico e alienígena que conteria informações misteriosas sobre a evolução de nossa inteligência; mas como o ano em que as Torres Gêmeas de Nova York foram derrubadas numa guerra estranha, que misturava fundamentalismo religioso com disputa por petróleo. De qualquer forma, Stanley Kubrick e Artur C. Clarke entraram eles mesmos para a história por terem realizado um dos mais perturbadores e geniais filmes de ficção científica de todos os tempos.

Pelo menos foi essa a sensação que tive em 1970 em Assis, aos 10 anos de idade, ao sair do saudoso cine Peduti com um vazio perturbador n’alma e uma grande interrogação metafísica infiltrada no peito. Desde então a fenda metafísica volta a se manifestar de vez em quando e acabei por entender que não se pode viver integralmente sem que se mergulhe, às vezes, no vazio d’alma. Mas isso não ocorreu, quando saí da sessão de Avatar.

Sorte sua, dirá você. Quem quer pagar ingresso para sair deprimido do cinema? O filme é muito bom, não dá para negar. Efeitos técnicos de derrubar queixos em série, produção impecável e muitos outros méritos o transformam incontestavelmente num dos grandes eventos cinematográficos dessa primeira década do século 21. Mas não conseguiu me abrir aquele fosso n’alma, nem me cravar a tal interrogação metafísica nas entranhas. E daí? insistirá você. Quem falou que a função do cinema é abrir buracos metafísicos em peitos alheios? Não bastam as pipocas, a nos rechear os estômagos de gorduras trans?

Sim, sim, concordo. O filme agrada a todos, é um excelente programa família, daqueles em que pai, mãe, filhos, avós, bebês, babá, motorista e gato de estimação saem satisfeitos da sala de projeção. Ok, ok, isso é mérito suficiente. Mas desde o começo da projeção – ainda que embasbacado com todo a exuberância técnica, 3D, ainda por cima! – eu sabia que de alguma forma aquilo tudo acabaria bem. Haveria reviravoltas engenhosas de roteiro, mas nada escaparia aos eixos: os maus são castigados, os bons, recompensados, a ciência tem sua cota de reconhecimento, assim como o misticismo e uma certa religiosidade florestal, na construção da grande fábula moral que nos enternece e alerta sobre a destruição do planeta. Alguns até saem da sala escura a refletir sobre as terríveis consequências do imperialismo, invasões bélicas e destruições sistemáticas de culturas indígenas.

Sim, pude constatar depois, saímos todos recompensados do cinema, a imaginar que de alguma forma o controle está em nossas mãos. Que se nos comportarmos direitinho, com coragem, altruísmo e abnegação, conseguiremos construir um mundo melhor. Sim, sim. Mas e o vazio d’alma, a interrogação metafísica cravada no tórax, a fenda perturbadora que nos liga ao nada, onde estão?

avatar-filmeFilme….

…. Acho que já recomendei aqui o filme 2001. Recomendo Avatar (em 3D de preferência). Com ou sem pipoca.

Por Tony Bellotto


 

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