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Arquivo de 1 de fevereiro de 2010

01/02/2010

às 7:30 \ Cenas

Em busca da literatura escondida

Literatura escondida

Se Proust tem o seu Em Busca do Tempo Perdido, eu tenho o meu Em Busca da Literatura Escondida. Já é de conhecimento público que minha literatura repousa incógnita em algum lugar da avenida Paulista. Como Bin Laden nas montanhas afegãs, minha literatura se esconde e escapa de qualquer tentativa de aproximação. Alguns leitores têm me ajudado nessa busca insana, mas é difícil reconhecer uma literatura escondida, reconheço. Todas as tentativas até agora falharam miseravelmente.

Mas, Tony, como é a sua literatura para que eu possa reconhecê-la?, me pergunta amavelmente a Regina, de Santo André. Regina tem 27 anos, é analista de sistemas e está recém-separada. Dizem as más línguas que o marido estranhou quando ela disse que passava as tardes procurando minha literatura na avenida Paulista. Regina, se eu soubesse como é minha literatura, que forma ela tem, eu já a teria encontrado, concorda? Esse é o problema, não faço a menor ideia de como é minha literatura.

O Jefferson, aluno do segundo ano de ensino médio, em BH, diz que está juntando grana para procurar minha literatura nas férias. Mas ele precisa de mais informações. Meu leitor assíduo, Jefferson sabe, por exemplo, que o detetive Remo Bellini – minha criação e alter-ego predileto – mora ali na Paulista esquina com a Peixoto Gomide, no edifício Baroneza de Arary. É verdade, Jefferson, bem observado. O problema é que passei por lá dia desses, e perguntei ao porteiro do Baroneza de Arary como anda o Bellini, dono de uma quitinete sem número no terceiro andar, com vista para o Trianon. O porteiro me respondeu preocupado que faz meses que ele não aparece. E me mostrou contas a pagar e, pior, uma notificação de despejo!

Portanto, desistam de procurar minha literatura no Baroneza de Arary. Ela não está lá, garanto. Alguns amigos íntimos sabem que estudei no colégio Rodrigues Alves em 1969 e 1970, mas insisto que é inútil procurar minha literatura no Rodrigues Alves. O edifício ainda é o mesmo, mas várias reformas o transfiguraram. Além do mais, a calçada devorou o antigo jardim do colégio. Quem sabe minha literatura não está vivendo lá embaixo, num túnel do metrô, como uma ratazana faminta? A conferir.

Livro…

Deus o Abençoe, Dr. Kevorkian, de Kurt Vonnegut Jr. O genial escritor norte americano narra para uma estação de rádio novaiorquina suas experiências como repórter do além, entrevistando mortos conhecidos e desconhecidos. Toda a ironia, criatividade, humor negro e presença de espírito desse grande escritor estão presentes nesse livrinho delicioso.

Por Tony Bellotto


 

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