Blogs e Colunistas

Arquivo de fevereiro de 2010

28/02/2010

às 20:02 \ Cenas

Abbey Road

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As primeiras notícias davam conta de que o lendário estúdio de Abbey Road, em Londres, seria vendido. O estúdio está imortalizado na capa do disco Abbey Road, dos Beatles, aquela em que os quatro meninos de Liverpool aparecem atravessando a dita rua da abadia em fila indiana. Depois da grande celeuma e comoção generalizada causadas pela notícia, o governo britânico anuncia que o estúdio será tombado como patrimônio histórico. Isso não adocica a constatação amarga que a notícia proporciona: o mercado do disco está não somente em crise, está em colapso, claudicante, agonizando a passos rápidos.

Antes que alguém consiga atravessar a abbey road de um lado ao outro, a indústria do disco não existirá mais. Ela está despencando, rodopiando em queda livre como aquele helicóptero que caiu outro dia em São Paulo. E como diria a mamãe, não adianta chorar. Os indícios estão berrando aos nossos ouvidos, como um ensandecido cantor de heavy-metal. É a crônica de uma morte anunciada, parafraseando García Márquez. Qualquer astrólogo de quinta categoria não tem como errar as previsões para o futuro próximo: o fim do disco e o aquecimento da temperatura na Terra. Batata. Até mesmo seu cachorrinho Rex será capaz de prever isso.

Li na revista VEJA de algumas semanas atrás uma entrevista muito interessante com o escritor inglês Nick Hornby. Nela Hornby divaga sobre o futuro da indústria não somente do disco, mas da indústria cultural como um todo. Ele diz, por exemplo, que daqui a dez anos talvez seja muito difícil fazer dinheiro com música, livros ou filmes. Essa situação poderá afetar a qualidade das obras e, no caso da música, a idade das pessoas que trabalharão no ramo.

É simples: a única maneira de ganhar dinheiro com música será fazendo shows. E como bem observa Hornby, “se você está na faixa dos 40 ou 50 anos e tem família e filhos para cuidar, a estrada não é necessariamente compatível com seu estilo de vida”. Sei do que ele está falando, acredite. Bem, não nos resta muito a não ser esperar para ver. Para os músicos sobrará sempre a glória de um discreto sorriso de vingança: e toda aquela ganância, prepotência e arrogância dos antigos executivos da indústria do disco, por onde andarão?
Livro…
… Já  que falei de Nick Hornby, taí uma boa dica, Alta Fidelidade – que também já rendeu um filme muito bom –, uma boa pedida de leitura para estes dias de apocalipse do disco.

Por Tony Bellotto

25/02/2010

às 21:01 \ Mundo

2012

embriao-humano

Preparem as pedras e as lanças! Afiem as espadas! Aqueles que concordarem comigo podem atirar pétalas vermelhas e amarelas. Falaremos de – tchan-tchan-tchan-tchan! -: Espanha! Calma, infelizmente não dissertarei sobre castanholas, paellas, touradas ou Penélope Cruz. Sei que decepcionarei muita gente, mas vamos debater assuntos menos glamurosos. Religião e…aborto. Desculpe. É o que dá ler o jornal todo dia.

Está lá, li hoje de manhã na Folha de São Paulo: o Senado da Espanha aprovou em definitivo lei que libera o aborto até a 14ª semana de gestação e permite a adolescentes entre 16 e 18 anos interromper a gravidez mesmo sem o consentimento dos pais. Façamos uma reflexão. A Espanha é um estado moderno, democrático, cuja maioria absoluta da população é católica, certo? Os senadores espanhóis, ao que me consta, não são monstros eleitos para aprovar leis que permitam matanças generalizadas (com exceção dos touros, talvez), correto?

Calma, continue comigo, depois você poderá argumentar. O que a Espanha acaba de fazer – como muitos outros países já fizeram – foi reconhecer o direito das mulheres à assistência médica e psicológica em casos de gravidez interrompida. É diferente de dizer: aprovamos o aborto porque somos sádicos, desalmados, insanos, cruéis e antirreligiosos. É muito diferente, não?

Sei que sempre que abordo o assunto sou alvejado por críticas e chuvas de impropérios, mas eu não estou sozinho. Tenho comigo, pelo menos, a maioria do senado espanhol. Não acompanho a política espanhola em profundidade, e sei que o país vive no momento reflexos negativos da crise financeira mundial. Mas não é difícil deduzir que a imagem dos senadores espanhóis é bem melhor que a dos nossos senadores brazucas, confere? (precisamos relembrar de todos os escândalos? Teremos tempo para tanto?). Então vamos dar um crédito aos senadores espanhóis e acreditar que um país civilizado e decente (e religioso) pode sim aprovar o aborto. Ainda vamos chegar lá, boto fé.

Ok, falei da Espanha e do aborto. Onde entra a religião nessa crônica? É que toda vez que falo de estado laico sempre me aparece um engraçadinho – um, não, dezenas – vociferando contra minhas convicções o mais pueril e estúpido dos argumentos: “Quer dizer, Tony, que se levarmos em conta as suas propostas, teremos de implodir o Cristo Redentor?”.

Ai, ai. Preciso responder a uma bobagem dessas? A França (outro país razoavelmente confiável, não?) proibiu imagens religiosas em suas escolas públicas e nem por isso determinou a implosão da igreja de Notre-Dame. Aliás, quem costuma implodir – e explodir – imagens religiosas, que eu saiba, são justamente fanáticos religiosos. E sempre o fazem em nome de alguma religião, invariavelmente a sua própria. Como os talibãs, por exemplo, que mandaram pelos ares imagens antiquíssimas de Budas de imenso valor artístico, histórico, cultural e religioso. Mas isso não vem ao caso. É que li no jornal – além da notícia da aprovação do aborto na Espanha – uma outra notícia interessante: a de que a Arquidiocese do Rio quer processar a produtora de cinema Columbia por usar sem autorização a imagem do Cristo Redentor despencando do Corcovado no filme 2012. Não é piada, juro. A Arquidiocese do Rio não tem nada melhor pra fazer? Dá o que pensar.

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Filme…

Educação, com roteiro de Nick Hornby,
mostra os conflitos de uma moça inglesa na década de
1960, em busca de liberdade e realização pessoal.

Por Tony Bellotto

22/02/2010

às 10:49 \ Pessoas

Lagartixa

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Não sou dos foliões mais animados. Já dei minhas voltas no salão do clube Recreativo de Assis, os braços estendidos aos céus, os cabelos – outrora bastos e encaracolados – salpicados de confete, cantando: “A estrela dalva, no céu desponta…”. Já molhei os pés na avenida, como alguém que não sabe nadar, uma vez na Vai-Vai, em São Paulo, outra na Mangueira, no Rio. Sim, eu vi a Mangueira entrar, se me permitem o trocadilho infame. Vi também o chão deslocar-se até minha cabeça, vitimado por inalações exageradas de lança perfume (exagero do chão, não meu).

Teve um carnaval em que me embrenhei pelas dantescas antesalas do inferno conhecidas como camarotes de cervejarias famosas. Lembro de ver o Millôr Fernandes cochilando no sofá de um desses camarotes enquanto o sol raiava lá fora. Grande Millôr. Quem sabe, sabe. Com tantas mulheres gostosas saltitando daqui pra lá e eu me lembro logo do Millôr roncando no sofá como um Cérbero extenuado. Se dependesse de mim, o carnaval seria tão popular quanto o dia internacional da meditação transcendental. Sabe que dia é esse? Nem eu.

Esse último carnaval passei em retiro espiritual – e etílico – numa casa de campo. Estava mais preocupado com a repercussão da nota que anunciava que Charles Gavin, baterista dos Titãs – minha banda -, decidira deixar o grupo por “motivos pessoais”. Existe alegação mais impessoal do que “motivos pessoais”? Bem, pelo que sei, o querido Charlão deixou a banda porque é difícil envelhecer num grupo de rock. O Jethro Tull, uma banda inglesa dos anos setenta, tem um disco chamado Too Old to Rock and Roll, Too Young To Die (muito velho pro rock, muito jovem pra morrer, numa tradução apressada). O título, irônico, expressa um conflito imperioso para um roqueiro. Como envelhecer – ok, amadurecer, se você prefere um eufemismo – numa banda de rock, se o rock é, acima de tudo, a celebração máxima da juventude e da irresponsabilidade?

Qualquer roqueiro que se preze, qual Hamlet, já passou por esse questionamento fundamental: to be or not to be? Imagine Elvis Presley, gordo e inchado, com um crânio nas mãos, proferindo a frase de Shakespeare num banheiro cheio de espelhos na suíte de um hotel em Las Vegas. Isso é rock’n roll.

Os Rolling Stones estão aí pra provar que toda a regra tem várias exceções. E olha que eles já perderam um baixista, Bill Wyman, que decidiu – como o Charles – se afastar da banda por estar cansado da estrada e de todo o desgaste proporcionado por excursões intermináveis, paradoxalmente cansativas e divertidésimas. Eu, do alto de meus quase cinquenta irresponsáveis anos, prefiro pensar como Keith Richards – o guitarrista dos Stones – que, ao observar a platéia em êxtase ensandecido enquanto ele dedilha as três notas que compõe o imortal riff (frase de guitarra) de Satisfaction, conclui: e ainda me pagam pra isso!

Nós, os Titãs remanescentes – Eu, Paulo Miklos, Branco Mello e Sérgio Britto – continuaremos a poluir sonoramente os céus brasileiros com nossa música. Sinto-me, apesar de tudo, ainda muito jovem para me aposentar. E àqueles que imaginam – ou comemoram – que a cada perda ou impasse nos enfraquecemos, um segredo: as adversidades nos fortalecem. Como uma lagartixa, quando nos decepam um membro, ele renasce com força e vigor renovados.

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Some Kind Of Monster, um documentário sobre o Metallica, que mostra a banda de rock em crise, no eterno paradoxo que é envelhecer e permanecer ativo e relevante no Rock and Roll.

Por Tony Bellotto

18/02/2010

às 21:04 \ Cenas

2001

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Quando Stanley Kubrick e Artur C. Clarke idealizaram o filme 2001, Uma Odisséia no Espaço, não imaginaram que o ano de 2001 entraria para a história não como o ano em que se encontrou – como no filme – um enigmático monolito enterrado na Lua, artefato místico e alienígena que conteria informações misteriosas sobre a evolução de nossa inteligência; mas como o ano em que as Torres Gêmeas de Nova York foram derrubadas numa guerra estranha, que misturava fundamentalismo religioso com disputa por petróleo. De qualquer forma, Stanley Kubrick e Artur C. Clarke entraram eles mesmos para a história por terem realizado um dos mais perturbadores e geniais filmes de ficção científica de todos os tempos.

Pelo menos foi essa a sensação que tive em 1970 em Assis, aos 10 anos de idade, ao sair do saudoso cine Peduti com um vazio perturbador n’alma e uma grande interrogação metafísica infiltrada no peito. Desde então a fenda metafísica volta a se manifestar de vez em quando e acabei por entender que não se pode viver integralmente sem que se mergulhe, às vezes, no vazio d’alma. Mas isso não ocorreu, quando saí da sessão de Avatar.

Sorte sua, dirá você. Quem quer pagar ingresso para sair deprimido do cinema? O filme é muito bom, não dá para negar. Efeitos técnicos de derrubar queixos em série, produção impecável e muitos outros méritos o transformam incontestavelmente num dos grandes eventos cinematográficos dessa primeira década do século 21. Mas não conseguiu me abrir aquele fosso n’alma, nem me cravar a tal interrogação metafísica nas entranhas. E daí? insistirá você. Quem falou que a função do cinema é abrir buracos metafísicos em peitos alheios? Não bastam as pipocas, a nos rechear os estômagos de gorduras trans?

Sim, sim, concordo. O filme agrada a todos, é um excelente programa família, daqueles em que pai, mãe, filhos, avós, bebês, babá, motorista e gato de estimação saem satisfeitos da sala de projeção. Ok, ok, isso é mérito suficiente. Mas desde o começo da projeção – ainda que embasbacado com todo a exuberância técnica, 3D, ainda por cima! – eu sabia que de alguma forma aquilo tudo acabaria bem. Haveria reviravoltas engenhosas de roteiro, mas nada escaparia aos eixos: os maus são castigados, os bons, recompensados, a ciência tem sua cota de reconhecimento, assim como o misticismo e uma certa religiosidade florestal, na construção da grande fábula moral que nos enternece e alerta sobre a destruição do planeta. Alguns até saem da sala escura a refletir sobre as terríveis consequências do imperialismo, invasões bélicas e destruições sistemáticas de culturas indígenas.

Sim, pude constatar depois, saímos todos recompensados do cinema, a imaginar que de alguma forma o controle está em nossas mãos. Que se nos comportarmos direitinho, com coragem, altruísmo e abnegação, conseguiremos construir um mundo melhor. Sim, sim. Mas e o vazio d’alma, a interrogação metafísica cravada no tórax, a fenda perturbadora que nos liga ao nada, onde estão?

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…. Acho que já recomendei aqui o filme 2001. Recomendo Avatar (em 3D de preferência). Com ou sem pipoca.

Por Tony Bellotto

12/02/2010

às 11:29 \ Pessoas

Boa viagem, vizinho!

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O prédio onde moro aqui em Ipanema tem algumas peculiaridades. Aparentemente um edifício comum, desses que se erguem não muito altos (cinco andares) pelas alamedas ensolaradas do bairro, revela-se único a um olhar mais atento. Abriga uma memória triste e outra feliz de nossa história. Situado na rua Nascimento Silva, rua imortalizada por Vinícius e Toquinho em sua Carta ao Tom (não, não moro no número 107, ali morou o Tom, não o Tony), foi a última morada do general Castelo Branco, o primeiro presidente da ditadura militar, que daqui zarpou numa viagem da qual não regressaria. Um voo nos céus do Ceará onde nascera conduziu-o à morte. Há até hoje especulações de que o acidente aéreo que o vitimou teria sido proposital. É o que dizem também do acidente automobilístico que matou Juscelino Kubitschek na via Dutra (outro presidente). Pelo jeito, presidentes e ex-presidentes não têm o direito de morrer em acidentes. Acabam, de uma maneira ou de outra, dando nomes a rodovias e aeroportos. Mesmo que se discorde – e eu discordo! – das posições políticas do general Castelo Branco, não há como negar que ele faz parte da história do Brasil. Uma parte trágica dessa história, com certeza.

Então meu prédio abriga uma parte triste da história do nosso país. Mas abriga igualmente uma parte feliz dessa mesma história. E agora eu falo de um vizinho – por muito tempo também o síndico – de que me orgulho muito. Orlando Peçanha, um dos titãs do futebol brasileiro, zagueiro titular – ao lado de Bellini – da seleção que conquistou nossa primeira Copa do Mundo em 1958 na Suécia. Ontem acordei com a triste notícia de que o Orlando morreu. É estranho perder um vizinho. Porque vizinho não é amigo – embora sejam, em alguns casos. Às vezes se tornam inimigos também, e dos mais ferrenhos.

Não era o meu caso com o Orlando. Nem amigos, nem inimigos, vizinhos simplesmente. Tínhamos uma convivência esporádica e pacífica, composta de bons dias e boas noites, mas sempre com olhares simpáticos e sorrisos mútuos. Não sei se ele curtia rock and roll, mas eu sempre o olhava com admiração. Além da participação nas Copas de 58 e 66 (a copa de 62 ele não jogou por estar atuando no futebol argentino, defendendo a zaga do Boca Juniors), Orlando foi várias vezes campeão pelo Vasco, Boca Juniors e Santos, o glorioso alvinegro praiano, que vem a ser o meu time de coração (hoje em dia ele divide a vaga com o Flamengo, que me conquistou pelos corações dos meus filhos e o da minha mulher). Quando Castelo Branco morreu, eu ainda não morava aqui. Se morasse, não sei se teria desejado a ele uma boa viagem naquele julho cinzento de 1967. Também não consegui me despedir do Orlando Peçanha. A ele eu teria desejado sorte. Fica então registrado aqui, vizinho campeão, meu desejo de uma boa viagem.

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…Futebol e Rio de Janeiro inspiram a música de Benjor, o imortal Jorge Ben para os íntimos. A recém lançada caixa de CDs SALVE, JORGE! que reúne seus sucessos e algumas raridades é absolutamente imperdível. Boa pedida para o Carnaval (e para a Páscoa, Dia dos Namorados, das Mães, dos Pais, da Criança etc).

Por Tony Bellotto

08/02/2010

às 12:49 \ Cenas

Singing in the rain

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Amigos paulistas me contam que já marcam encontros e compromissos para antes ou depois da ‘chuva’. Antigamente comentava-se que isso acontecia em Belém e Manaus e parecia a todos uma história pitoresca amazônica, como a lenda do boto rosa e a da Iara. Que legal, eu pensava, um sujeito chega para o outro e diz: te encontro depois da chuva para um cafezinho. Ou um açaí. E imaginava um pacato cidadão belenense aguardando calmamente sob uma bela mangueira a chuva passar. Ao que me consta, os paulistanos não têm a mesma sorte: as árvores de São Paulo têm despencado durante os sinistros temporais que assolam a cidade nesse verão.

As imagens de ruas e casa cobertas pela água já viraram um cartão postal da cidade tão genuíno quanto a foto do Monumento às Bandeiras, do Victor Brecheret, ali no Ibirapuera, o popular Deixa que Eu Empurro. Fugir das enchentes é atualmente um programa tão paulistano quanto era, no passado, ir até o aeroporto de Congonhas ver os aviões pousar e decolar ou passear pelo Salão do Automóvel numa tarde triste de domingo.

Passei pelos sufocos das chuvas paulistas na semana passada. Saí do Rio na quinta-feira no voo das 15hs15 e relaxei quando o piloto avisou:  “São Paulo com tempo nublado, 30 graus, previsão de chuva para o fim da tarde, bem depois do nosso voo”. Menos de vinte minutos depois, a não sei quantos mil quilômetros acima do nível do mar, volta o piloto: “Parece que a chuva chegou um pouco antes do esperado…”, e assim passei as duas horas seguintes dando voltas no ar sobre Santos. Sensação fantástica, bastante relaxante.

Quando conseguimos pousar, depois da chuva, o estrago estava feito: nosso voo para Londrina – programado para sair às 18:30, acabou saindo às 22:00 hs. Não fui o único operário pop vitimado pela chuva, é claro. Encontrei Zezé de Camargo no restaurante do aeroporto, aguardando seu voo para Goiânia. E vi Eduardo Suplicy (posso chamá-lo de operário pop também? Vida de senador não é fácil…) saindo com uma cara de “até que enfim” de um avião que chegara de Brasília. E olha que o Suplicy é um cara tranquilo, hein? No fim das contas deu tudo certo, chegamos a Londrina a tempo de fazer o show – só não deu pra passar no hotel – mas decidi que durante o verão, voos para São Paulo, só pela manhã. Catch me if you can, São Pedro! Aliás, o mais petista dos santos, não?    

singingSugestão …

…. Sem sacanagem, sugiro aqui o kit chuva: DVD de Singing In The Rain, o clássico musical estrelado por Gene Kelly, e o livro cult Deus da Chuva e da Morte, do Jorge Mautner. Depois de lido o livro e visto o filme, a canção Chove Chuva, para cantar junto com o Benjor: hoje eu vou fazer uma prece, pra deus, nosso senhor, que é pra chuva parar, de molhar, o meu amor assim…

Por Tony Bellotto

04/02/2010

às 21:47 \ Cenas

Mais do mesmo

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Vamos lá, esta promete ser uma daquelas minhas crônicas clássicas: falaremos de sexo (oba!), mulheres, homossexualismo, religião, bispos, generais, política, direitos individuais etc, etc. Meus detratores já estarão pensando: “Lá vem ele de novo, propor alguma polêmica para ganhar Ibope!” Uma torrente de comentários indignados de meus inúmeros leitores pode gerar algum transtorno no trânsito online, assim como a avalanche de comentários favoráveis talvez entupa alguns dos bueiros de nosso site. Peço desculpas pelo incômodo desde já. Duas notícias me deixaram com a pulga atrás da orelha essa semana. A primeira, a divulgação do manifesto dos bispos católicos contra pontos do Programa Nacional de Direitos Humanos. É a mesma ladainha de sempre, e não se poderia esperar outra coisa de um manifesto de bispos católicos: rejeição à legalização do aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao direito de adoção por casais homoafetivos e à criação de mecanismos para impedir a exibição de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos. Ok, ok.

Surpreendente seria se os bispos decidissem apoiar tais medidas. Senhores bispos, permitam-me respeitosamente apresentar algumas questões: continuaremos deixando que milhares de mulheres brasileiras morram ou sofram sequelas físicas e psicológicas por conta de abortos mal feitos? Ou os senhores acreditam que elas deixarão de fazer abortos só porque a igreja condena a prática? Não estariam melhor assistidas se o governo as apoiasse e criasse campanhas preventivas para evitar a gravidez indesejada? E os homossexuais? Dois homens ou mulheres que se amem não têm o direito de viver juntos e formar uma família? Tenho um amigo que foi impedido num hospital de visitar o companheiro que agonizava na UTI. Motivo: só a parentes ou cônjuges era permitida a entrada. Os senhores definiriam isso como um comportamento cristão? Desculpem-me, talvez eu não tenha entendido nada quando li o sermão da montanha de Jesus Cristo. Quanto aos símbolos religiosos em estabelecimentos públicos, bem, os senhores estariam dispostos a dividir o espaço dos crucifixos com imagens de Iemanjá e fotos do Chico Xavier?

Agora vamos à segunda notícia: um general do Exército afirmou no Congresso que os gays só devem ser aceitos nos quartéis se mantiverem a opção sexual em segredo. Puxa, senhor general, com todo o respeito, o Obama tenta aprovar uma lei nos Estados Unidos que determina exatamente o contrário: gays devem ser aceitos nas forças armadas norte-americanas. E existe Exército mais poderoso e macho que o americano? Sei que não precisamos imitar os americanos em tudo, mas entendo que a afirmação do general é motivada por preconceito. Segundo ele soldados não se sentem à vontade para obedecer a um superior gay etc, etc. Se não se sentem é por puro preconceito, nada mais. Não é por que o sujeito é homossexual que ele vai querer comandar uma tropa vestido de Carmen Miranda e dando gritinhos histéricos. Essa visão estereotipada do homossexual também é fruto do mais abominável preconceito. E a melhor forma de combatê-lo é mostrando aos soldados que um homem (ou uma mulher) pode ser digno independente de sua opção sexual.

Despidos das fardas, senhor general, e das batinas, senhores bispos, somos todos iguais.

Livro…

… Já que falamos de polêmicas, não percam o novo livro de contos de Marcelo Mirisola, Memórias da Sauna Finlandesa. O homem é um dos expoentes da nossa literatura atual, e escreve de uma maneira única, numa linguagem ao mesmo tempo iconoclasta e sedutora.

Por Tony Bellotto

01/02/2010

às 7:30 \ Cenas

Em busca da literatura escondida

Literatura escondida

Se Proust tem o seu Em Busca do Tempo Perdido, eu tenho o meu Em Busca da Literatura Escondida. Já é de conhecimento público que minha literatura repousa incógnita em algum lugar da avenida Paulista. Como Bin Laden nas montanhas afegãs, minha literatura se esconde e escapa de qualquer tentativa de aproximação. Alguns leitores têm me ajudado nessa busca insana, mas é difícil reconhecer uma literatura escondida, reconheço. Todas as tentativas até agora falharam miseravelmente.

Mas, Tony, como é a sua literatura para que eu possa reconhecê-la?, me pergunta amavelmente a Regina, de Santo André. Regina tem 27 anos, é analista de sistemas e está recém-separada. Dizem as más línguas que o marido estranhou quando ela disse que passava as tardes procurando minha literatura na avenida Paulista. Regina, se eu soubesse como é minha literatura, que forma ela tem, eu já a teria encontrado, concorda? Esse é o problema, não faço a menor ideia de como é minha literatura.

O Jefferson, aluno do segundo ano de ensino médio, em BH, diz que está juntando grana para procurar minha literatura nas férias. Mas ele precisa de mais informações. Meu leitor assíduo, Jefferson sabe, por exemplo, que o detetive Remo Bellini – minha criação e alter-ego predileto – mora ali na Paulista esquina com a Peixoto Gomide, no edifício Baroneza de Arary. É verdade, Jefferson, bem observado. O problema é que passei por lá dia desses, e perguntei ao porteiro do Baroneza de Arary como anda o Bellini, dono de uma quitinete sem número no terceiro andar, com vista para o Trianon. O porteiro me respondeu preocupado que faz meses que ele não aparece. E me mostrou contas a pagar e, pior, uma notificação de despejo!

Portanto, desistam de procurar minha literatura no Baroneza de Arary. Ela não está lá, garanto. Alguns amigos íntimos sabem que estudei no colégio Rodrigues Alves em 1969 e 1970, mas insisto que é inútil procurar minha literatura no Rodrigues Alves. O edifício ainda é o mesmo, mas várias reformas o transfiguraram. Além do mais, a calçada devorou o antigo jardim do colégio. Quem sabe minha literatura não está vivendo lá embaixo, num túnel do metrô, como uma ratazana faminta? A conferir.

Livro…

Deus o Abençoe, Dr. Kevorkian, de Kurt Vonnegut Jr. O genial escritor norte americano narra para uma estação de rádio novaiorquina suas experiências como repórter do além, entrevistando mortos conhecidos e desconhecidos. Toda a ironia, criatividade, humor negro e presença de espírito desse grande escritor estão presentes nesse livrinho delicioso.

Por Tony Bellotto


 

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