03/12/2009
às 4:30 \ CenasAntenas
Num mundo em que o Twitter causa grande alvoroço, todos conectados, sabendo uns dos outros o que fazem, onde estão, o que vestem, o que comem, o que falam e o que pensam – no caso dos que pensam, evidentemente –, soa estranho dizer que ainda há gente, hoje em dia, que prefere se isolar.
Numa sociedade em que o celular nos transforma a todos em zumbis tagarelando em monólogo pelas ruas – é só impressão, não estamos sozinhos, nunca mais estaremos sozinhos! – e o Big Brother e centenas de outros programas – essas desgraças da modernidade conhecidas genericamente por “reality shows” – se especializam em devassar, penetrar, devastar e tornar públicas e banais todas as formas possíveis de privacidade, parece insano afirmar que existem pessoas que preservam sua intimidade.
Num momento em que homens, mulheres, crianças e cachorros fazem qualquer negócio e pagam qualquer preço para aparecer por aparecer, e rezam por uma oportunidade de se tornar celebridades – seja lá o que isso for –, é uma loucura imaginar que há alguns poucos idiossincráticos que detestam aparecer. Dois desses seres em extinção social são – não por acaso – os nossos dois maiores escritores vivos.
Refiro-me a Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, um mineiro carioca por adoção, outro paranaense, ambos com 84 anos. Destes homens você não verá fotos na imprensa, salvo raríssimas exceções. De Dalton, uma ou outra imagem roubada enquanto caminha desavisado pela sua Curitiba mítica, de óculos e boné. Não é à toa que lhe apelidaram, roubando o título de seu livro antológico, o Vampiro de Curitiba. De Rubem, no máximo, uma pose para a capa da revista Bravo – clicada por seu próprio filho – em que ele parece nos perscrutar com seu olhar arguto e irônico de escritor.
Rubem, solvitur ambulando, é o autor do conto A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro. Destes homens você não ouvirá ou lerá entrevistas, blábláblá, papo furado ou opiniões sobre isso ou aquilo. Se estiver com sorte talvez você os veja passando furtivamente por uma rua do Rio ou de Curitiba. Estes homens escrevem – e como escrevem! – e sabem que todo tempo e solidão do mundo são insuficientes para um escritor. Sabem também que o que têm a dizer está escrito nos livros.
O poeta Ezra Pound dizia que os artistas são as antenas da raça. Sorte nossa que estas duas anteninhas não param de caminhar por suas cidades, em silêncio, bloquinho de papel e caneta à mão, em busca das palavras que nos iluminem o caminho mesmo quando estivermos desatentos, falando ao celular.
Livro…
Já citei aqui outro dia o novo livro de Rubem Fonseca, O Seminarista, recomendo agora a leitura do novo do Dalton Trevisan, Violetas e Pavões. Estes dois octogenários escrevem com a energia de adolescentes.
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