Batata

Chega um dia para cada um de nós em que desistimos da humanidade. O meu chegou mais ou menos anteontem. Eu já desconfiava há muito tempo, desde a infância, que nós, humanos, não somos mesmo muito confiáveis. Os cachorros e violões que tive ao longo da vida sabem bem que sempre confiei mais neles que nos bípedes pensantes. Mas fui levando. Uma desilusão aqui, outra ali; uma decepção cá, outra acolá; e assim a descrença foi crescendo como um tumor desgovernado até se transformar agora numa certeza generalizada, como uma metástase agressiva atacando minha pobre, doce, frágil e inútil ilusão.
A gota d’água foi a tal da COP 15, em que os nobres governantes desse grande loteamento a que chamamos Terra não conseguiram chegar a nenhum acordo, ou a qualquer medida eficaz para evitar o aquecimento do já citado loteamento que, pelas contas dos cientistas, sofrerá mudanças tão radicais nos próximos anos que talvez nós, os arrogantes loteadores e pressupostos ‘donos’ do planeta, não consigamos sobreviver a esse aquecimento.
E o que fazemos a respeito de tal ameaça aterradora? Xongas. Já dizia o grande Machado, o bruxo do Cosme Velho, pela voz do filósofo (não confundir com o cão de mesmo nome) Quincas Borba: Ao vencedor, as batatas. Parabéns aos manifestantes e ativistas ambientais que, no frio de lascar o cano que fazia em Copenhague, escancararam publicamente aos ventos gélidos sua revolta, inconformismo e temor.
Talvez sejam eles os únicos vencedores do encontro e, portanto, merecedores legítimos das tais batatas com que se agraciam vencedores no nosso agonizante loteamento. Claro, sempre há a possibilidade de os cientistas estarem errados. Outro dia o Diogo Mainardi – meu companheiro de Veja.com e com quem eventualmente cruzo pneus de bicicletas pelas tardes mornas, normais, da Nascimento e Silva – afirmou que se os meteorologistas mal conseguem prever o tempo para o dia seguinte, como confiar em suas previsões para os próximos 50 anos?
Espero que o Diogo esteja certo. Caso contrário,estaremos – só para quem entende a língua do pê – pefopedipedos. E não estou dizendo tudo isso só porque o Papai Noel largou por engano um saco de batatas sob a minha árvore de natal.
Livro…
… uma boa opção para as férias e momentos festivos é ler e reler Quincas Borba, obra maior (junto com Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas) de nosso insuperável pajé literário, xamã de nossas letras, o encantado Machado de Assis, cada vez mais moderno, atual e relevante. Como se sabe, livros dispensam baterias, chips, pilhas, corrente elétrica e não desligam se der um apagão repentino. Aproveite.
Tags: batata, Diogo Mainardi, esperança, Machado de Assis







DVD…
DVD…
Num mundo em que o Twitter causa grande alvoroço, todos conectados, sabendo uns dos outros o que fazem, onde estão, o que vestem, o que comem, o que falam e o que pensam – no caso dos que pensam, evidentemente –, soa estranho dizer que ainda há gente, hoje em dia, que prefere se isolar.
Livro…



