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Arquivo de dezembro de 2009

27/12/2009

às 22:18 \ Arquivo, Cenas

Batata

 batatas

Chega um dia para cada um de nós em que desistimos da humanidade. O meu chegou mais ou menos anteontem. Eu já desconfiava há muito tempo, desde a infância, que nós, humanos, não somos mesmo muito confiáveis. Os cachorros e violões que tive ao longo da vida sabem bem que sempre confiei mais neles que nos bípedes pensantes. Mas fui levando. Uma desilusão aqui, outra ali; uma decepção cá, outra acolá; e assim a descrença foi crescendo como um tumor desgovernado até se transformar agora numa certeza generalizada, como uma metástase agressiva atacando minha pobre, doce, frágil e inútil ilusão.

A gota d’água foi a tal da COP 15, em que os nobres governantes desse grande loteamento a que chamamos Terra não conseguiram chegar a nenhum acordo, ou a qualquer medida eficaz para evitar o aquecimento do já citado loteamento que, pelas contas dos cientistas, sofrerá mudanças tão radicais nos próximos anos que talvez nós, os arrogantes loteadores e pressupostos ‘donos’ do planeta, não consigamos sobreviver a esse aquecimento.

E o que fazemos a respeito de tal ameaça aterradora? Xongas. Já dizia o grande Machado, o bruxo do Cosme Velho, pela voz do filósofo (não confundir com o cão de mesmo nome) Quincas Borba: Ao vencedor, as batatas. Parabéns aos manifestantes e ativistas ambientais que, no frio de lascar o cano que fazia em Copenhague, escancararam publicamente aos ventos gélidos sua revolta, inconformismo e temor.

Talvez sejam eles os únicos vencedores do encontro e, portanto, merecedores legítimos das tais batatas com que se agraciam vencedores no nosso agonizante loteamento. Claro, sempre há a possibilidade de os cientistas estarem errados. Outro dia o Diogo Mainardi – meu companheiro de Veja.com e com quem eventualmente cruzo pneus de bicicletas pelas tardes mornas, normais, da Nascimento e Silva – afirmou que se os meteorologistas mal conseguem prever o tempo para o dia seguinte, como confiar em suas previsões para os próximos 50 anos?

Espero que o Diogo esteja certo. Caso contrário,estaremos – só para quem entende a língua do pê – pefopedipedos. E não estou dizendo tudo isso só porque o Papai Noel largou por engano um saco de batatas sob a minha árvore de natal.

Quincas BorbaLivro…

… uma boa opção para as férias e momentos festivos é ler e reler Quincas Borba, obra maior (junto com Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas) de nosso insuperável pajé literário, xamã de nossas letras, o encantado Machado de Assis, cada vez mais moderno, atual e relevante. Como se sabe, livros dispensam baterias, chips, pilhas, corrente elétrica e não desligam se der um apagão repentino. Aproveite.

Por Tony Bellotto

21/12/2009

às 2:04 \ Cenas

Dia de sorte

avenida-paulista

Caminho pela avenida Paulista – eis a avenida onde vive minha literatura! Entre bitucas de amaldiçoados cigarros, chicletes desgraçadamente mascados, fuligem, excremento de pombos e sujeira generalizada, lá está ela, a minha literatura! Se você se deparar por acaso com minha literatura ao caminhar pela avenida Paulista, não se sinta tão sortudo quanto alguém que encontra um maço de dinheiro vivo, tampouco azarado como aquele que pisa em cocô de cachorro, sinta-se apenas como alguém que conseguiu algo que eu ainda não consegui: encontrar minha literatura.

Aliás, se algum de vocês realmente encontrar minha literatura – na avenida Paulista ou em qualquer outro lugar – por favor avise-me. Vivo à procura dela, e nunca a encontrei. Intuo que ela viva na avenida Paulista, escondida numa esquina. É algo que eu sinto, embora perca tardes e tardes procurando por ela nas alamedas de Ipanema. Nessas horas, entre uma amendoeira e um flamboyant ipanemenses, eu penso: estou no lugar errado, minha literatura é como a sombra do Peter Pan, sempre fugindo de mim. Ela (a minha literatura, não a sombra do Peter Pan) deve estar agora na esquina da Peixoto Gomide com a Paulista, sob uma folha seca ou dentro de uma caixa de fósforos vazia.

A verdade é que não sei onde exatamente minha literatura se esconde, mas posso apostar que é na Paulista. Mas voltando ao início da crônica, caminho pela avenida Paulista e vejo fumantes por todos os lados. Como não podem mais fumar em recintos fechados, os fumantes se aglomeram na avenida em busca das tragadas redentoras. É uma coisa bonita de ver. Sei que o cigarro faz mal e tudo mais, mas o que é que NÃO faz mal? Se tivéssemos de sair à rua toda vez de fazer alguma coisa errada, haveria multidões a céu aberto comendo doces, manteiga, churros e pastéis embebidos em óleo reciclado; bebendo cerveja, pinga e uísque, agredindo-se uns aos outros; transando sem camisinha; usando todo tipo de droga e respirando o ar poluído por gases tóxicos e monóxido de carbono (e não é isso o que acontece pelas ruas o tempo todo?).

Bem, o que vejo agora é uma multidão de fumantes nas calçadas da Paulista. Alguns fumam com orgulho, como Robespierre, o boy de uma empresa de contabilidade. Ele traga o cigarro e me olha desafiadoramente, como quem diz, “fumo sim, mano, e daí? Problema meu!”. Há os que fumam envergonhados, como se sofressem uma humilhação ao serem testemunhados na fruição do prazer solitário (como se sabe, prazer solitário era como se denominava a masturbação no passado. Hoje em dia o termo se aplica perfeitamente ao tabagismo). Como Janete, por exemplo, secretária de uma grande multinacional. Ela solta a fumaça pelo nariz como a desculpar-se, “Perdão, juro que vou parar de fumar no dia 31 de dezembro…”. Teófilo Silva, o mendigo que esmola encostado às grades verdes do parque Trianon, mantém o meio cigarro aceso acoplado à boca banguela, como se o cilindro de papel e o tabaco fizessem parte de sua anatomia. E parece pensar, sorrindo: “Dia de sorte. Encontrei na rua uma bituca que era quase um cigarro inteiro. Tem alguém lá em cima olhando por mim”.

Diários da Bicicleta
Livro…

Diários da Bicicleta, de David Byrne. O
roqueiro escocês, habitante de Nova York,
narra suas aventuras de bicicleta por
várias cidades do mundo. Para
aqueles, como eu, que acreditam no poder do
rock, da literatura e da bicicleta, um guia inestimável.

Por Tony Bellotto

15/12/2009

às 9:05 \ Cenas

Padre enrustido

padre

Outro dia um leitor postou aqui um comentário em que reclamava de minha obsessão dicotômica com os temas religião e homossexualismo. Muda o disco, Tony!, alertava o arguto leitor, não sem alguma razão. Refleti sobre a questão. É verdade que tenho insistido nos temas. Tinha inclusive preparado para a semana duas crônicas que abordariam adivinhem quais questões? Religião e homossexualismo! A primeira versaria sobre a proibição na Itália de crucifixos em escolas públicas. É claro que eu defenderia no texto – com palavras agudas como unhas e dentes – a proibição de qualquer símbolo religioso em escolas públicas de estados laicos, e argumentaria que essa proibição era, em última análise, uma preservação do direito de cada um seguir a religião que bem entender (ou de não seguir nenhuma).

A crônica sobre o homossexualismo dissertaria sobre o fato de sermos um estado conservador e titubeante em relação aos direitos dos homossexuais, mas por outro lado, paradoxalmente, famosos mundialmente por nossos homossexuais. O Rio foi considerado o melhor destino gay do planeta, travestis brasileiros formam uma entidade das mais respeitadas e desejadas da Europa – uma verdadeira grife -, e nossas bichas são admiradas e imitadas planeta afora por sua criatividade e alegria.

Reli os rascunhos das duas protocrônicas e refleti. Serei eu um padre gay enrustido? Guardarei no armário um crucifixo e uma calcinha? Com medo de abrir o armário, resolvi variar os temas das crônicas. Menos trabalhoso. Pensei em falar sobre algum tema premente. Corrupção no Detrito Federal, Flamengo campeão brasileiro, polêmica em torno do filme O Filho do Brasil. Mas aí me deu uma preguiça danada.

Todo mundo já falou tudo o que podia ser falado sobre esses temas. Resolvi então olhar para dentro e contar sobre uma breve epifania que me aconteceu há algumas semanas numa turnê pelo sul do país. Ela não terá a menor importância para ninguém (a não ser confirmar, para alguns, que eu sou mesmo um padre gay enrustido). Numa viagem entre Horizontina e Cascavel, paramos num simpático restaurante próximo a Frederico Westphalen, no Rio Grande. Ali, à beira do rio Uruguai, comemos um dourado frito com cerveja. De repente, uma ventania balançou as árvores. Folhas voaram pelo ar, e um falcão voou solitário até a Argentina, do outro lado do rio.

O Leitor Apaixonado

 
Livro…

O Leitor Apaixonado, obra que reúne
crônicas de Rui Castro sobre literatura e
escritores. Eu, sempre um leitor apaixonado
do Rui, com seu estilo elegante e irônico,
devorei o livro em duas tardes.

Por Tony Bellotto

10/12/2009

às 22:49 \ Pessoas

Piada

 Getty

A celeuma causada pelas declarações do ator Robin Williams no programa do David Letterman – disse o ator que o Rio só ganhou a indicação de cidade sede das Olimpíadas de 2016 porque seus representantes seduziram os eleitores olímpicos com cocaína e strippers – é descabida. Foi uma piada, e como tal deve ser entendida. Ou alguém acredita que isso aconteceu de verdade?

Boas piadas costumam ser assim, politicamente incorretas, provocativas e até grosseiras. Por essa razão é que rimos delas. A declaração de Williams, ele mesmo um natural de Chicago, era muito mais crítica em relação a Michele Obama e Oprah Winfrey, pois sugere que cocaína e strippers brasileiras sejam mais convincentes que as duas damas em questão, enviadas como representantes de Chicago à votação do comitê olímpico (e não são?).

Não sei se Michele e Oprah se manifestaram a respeito, mas é provável que tenham entendido a piada e até rido dela. Há algum tempo houve situação parecida, com a indignação oficial do então prefeito do Rio, César Maia, com um episódio dos Simpsons que mostrava a cidade como uma selva subdesenvolvida. Não dá pra negar que o Brasil, e o Rio em especial, é em alguns momentos uma selva subdesenvolvida reinada por traficantes de cocaína e frequentada por mulheres nuas. Basta ler os jornais.

Atitudes ufanistas de indignação por parte de governantes contra piadas desse tipo só evidenciam nosso provincianismo. Temos problemas suficientes – como a violência urbana e o tráfico de drogas, por exemplo – com que nos preocupar para perder tempo com uma piada do Robin Williams. Mesmo que seja uma boa piada.

GettyDVD…

Sociedade Dos Poetas Mortos, uma bela atuação de Robin Williams, grande ator, que não merece virar um vilão só porque contou uma (boa) piada grosseira.

Por Tony Bellotto

08/12/2009

às 9:20 \ Cenas

Conjunto Nacional

conjunto-nacional

O Conjunto Nacional, em São Paulo, é um prédio modernista fincado na avenida Paulista. Quem passa por ali tem a impressão de que aquele edifício sempre existiu, como uma montanha de pedra remanescente de eras remotas. O andar térreo é também uma galeria tradicional, e passagem que liga a avenida Paulista à alameda Santos e a rua Augusta à Padre João Manoel, ocupando todo o quarteirão.

Na galeria há lojas, livrarias, farmácias, bancos, cinemas, restaurantes, cafés, barbearias, joalherias e outros pontos comerciais. É um lugar mítico pra mim. Passei grande parte da infância, adolescência e juventude perambulando pelo Conjunto Nacional. Até meus 30 anos, sempre vivi ali por perto. Quando voltava da escola, e saltava do ônibus na avenida Paulista, antes de descer a Padre João Manuel rumo à minha casa, dava sempre uma fuçada nas lojas de discos. Foi ali que descobri The Who e Rolling Stones.

Nas livrarias fui apresentado a John Fante, Bukowski, Cortazar e outros autores. Assisti a inúmeros filmes nos cinemas – hoje em dia um deles virou a maior livraria da América Latina, onde já lancei alguns livros – em que vislumbrei pela primeira vez a arte refinada de Kurosawa e Kubrick (isso só para ficar nos cineastas em K) e, se não me falha a memória, dei meus primeiros beijos.

Quando formamos os Titãs, várias vezes nos encontrávamos ali para irmos juntos a ensaios e outros compromissos. Quando lançamos o primeiro disco, eu passava pelas lojas e ficava olhando disfarçadamente meu disco na vitrine entre Led Zeppelins e Caetanos. O Branco Mello morou por uns tempos num apartamento no prédio, e era como se frequentássemos uma cobertura na pirâmide de Gizé.

A primeira vez em que ouvi uma música minha tocando no rádio – Sonífera Ilha – eu estava ali ao lado, no Longchamp, um bar na rua Augusta. Conto tudo isso porque, há poucos dias, estava em São Paulo hospedado num hotel na avenida Paulista e decidi dar uma voltinha na galeria do Conjunto Nacional. Olhei as lojas e livrarias, andei pra lá e pra cá reconhecendo velhos e novos fantasmas. Quando parei para um espresso num bar, escutei um sujeito assobiando distraído o solo de Sonífera Ilha. Agradeci em silêncio e segui andando, nostálgico, com a impressão de que o Conjunto Nacional me agradecia por alguma coisa.

dvd DVD…

…. eu já recomendei o filme, não é porque é a história da minha banda, mas o filme é muito bom e agora foi lançado o DVD com cenas extras. Titãs, A Vida Até Parece Uma Festa, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves. Imperdível.

Por Tony Bellotto

03/12/2009

às 4:30 \ Cenas

Antenas

GettyNum mundo em que o Twitter causa grande alvoroço, todos conectados, sabendo uns dos outros o que fazem, onde estão, o que vestem, o que comem, o que falam e o que pensam – no caso dos que pensam, evidentemente –, soa estranho dizer que ainda há gente, hoje em dia, que prefere se isolar.

Numa sociedade em que o celular nos transforma a todos em zumbis tagarelando em monólogo pelas ruas – é só impressão, não estamos sozinhos, nunca mais estaremos sozinhos! – e o Big Brother e centenas de outros programas – essas desgraças da modernidade conhecidas genericamente por “reality shows” – se especializam em devassar, penetrar, devastar e tornar públicas e banais todas as formas possíveis de privacidade, parece insano afirmar que existem pessoas que preservam sua intimidade.

Num momento em que homens, mulheres, crianças e cachorros fazem qualquer negócio e pagam qualquer preço para aparecer por aparecer, e rezam por uma oportunidade de se tornar celebridades – seja lá o que isso for –, é uma loucura imaginar que há alguns poucos idiossincráticos que detestam aparecer. Dois desses seres em extinção social são – não por acaso – os nossos dois maiores escritores vivos.

Refiro-me a Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, um mineiro carioca por adoção, outro paranaense, ambos com 84 anos. Destes homens você não verá fotos na imprensa, salvo raríssimas exceções. De Dalton, uma ou outra imagem roubada enquanto caminha desavisado pela sua Curitiba mítica, de óculos e boné. Não é à toa que lhe apelidaram, roubando o título de seu livro antológico, o Vampiro de Curitiba. De Rubem, no máximo, uma pose para a capa da revista Bravo – clicada por seu próprio filho – em que ele parece nos perscrutar com seu olhar arguto e irônico de escritor.

Rubem, solvitur ambulando, é o autor do conto A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro. Destes homens você não ouvirá ou lerá entrevistas, blábláblá, papo furado ou opiniões sobre isso ou aquilo. Se estiver com sorte talvez você os veja passando furtivamente por uma rua do Rio ou de Curitiba. Estes homens escrevem – e como escrevem! – e sabem que todo tempo e solidão do mundo são insuficientes para um escritor. Sabem também que o que têm a dizer está escrito nos livros.

O poeta Ezra Pound dizia que os artistas são as antenas da raça. Sorte nossa que estas duas anteninhas não param de caminhar por suas cidades, em silêncio, bloquinho de papel e caneta à mão, em busca das palavras que nos iluminem o caminho mesmo quando estivermos desatentos, falando ao celular.

Violetas e pavõesLivro…

Já citei aqui outro dia o novo livro de Rubem Fonseca, O Seminarista, recomendo agora a leitura do novo do Dalton Trevisan, Violetas e Pavões. Estes dois octogenários escrevem com a energia de adolescentes.

Por Tony Bellotto


 

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