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Singing in the rain

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 | 12:49

singing-in-the-rain

Amigos paulistas me contam que já marcam encontros e compromissos para antes ou depois da ‘chuva’. Antigamente comentava-se que isso acontecia em Belém e Manaus e parecia a todos uma história pitoresca amazônica, como a lenda do boto rosa e a da Iara. Que legal, eu pensava, um sujeito chega para o outro e diz: te encontro depois da chuva para um cafezinho. Ou um açaí. E imaginava um pacato cidadão belenense aguardando calmamente sob uma bela mangueira a chuva passar. Ao que me consta, os paulistanos não têm a mesma sorte: as árvores de São Paulo têm despencado durante os sinistros temporais que assolam a cidade nesse verão.

As imagens de ruas e casa cobertas pela água já viraram um cartão postal da cidade tão genuíno quanto a foto do Monumento às Bandeiras, do Victor Brecheret, ali no Ibirapuera, o popular Deixa que Eu Empurro. Fugir das enchentes é atualmente um programa tão paulistano quanto era, no passado, ir até o aeroporto de Congonhas ver os aviões pousar e decolar ou passear pelo Salão do Automóvel numa tarde triste de domingo.

Passei pelos sufocos das chuvas paulistas na semana passada. Saí do Rio na quinta-feira no voo das 15hs15 e relaxei quando o piloto avisou:  “São Paulo com tempo nublado, 30 graus, previsão de chuva para o fim da tarde, bem depois do nosso voo”. Menos de vinte minutos depois, a não sei quantos mil quilômetros acima do nível do mar, volta o piloto: “Parece que a chuva chegou um pouco antes do esperado…”, e assim passei as duas horas seguintes dando voltas no ar sobre Santos. Sensação fantástica, bastante relaxante.

Quando conseguimos pousar, depois da chuva, o estrago estava feito: nosso voo para Londrina – programado para sair às 18:30, acabou saindo às 22:00 hs. Não fui o único operário pop vitimado pela chuva, é claro. Encontrei Zezé de Camargo no restaurante do aeroporto, aguardando seu voo para Goiânia. E vi Eduardo Suplicy (posso chamá-lo de operário pop também? Vida de senador não é fácil…) saindo com uma cara de “até que enfim” de um avião que chegara de Brasília. E olha que o Suplicy é um cara tranquilo, hein? No fim das contas deu tudo certo, chegamos a Londrina a tempo de fazer o show – só não deu pra passar no hotel – mas decidi que durante o verão, voos para São Paulo, só pela manhã. Catch me if you can, São Pedro! Aliás, o mais petista dos santos, não?    

Sugestão …

…. Sem sacanagem, sugiro aqui o kit chuva: DVD de Singing In The Rain, o clássico musical estrelado por Gene Kelly, e o livro cult Deus da Chuva e da Morte, do Jorge Mautner. Depois de lido o livro e visto o filme, a canção Chove Chuva, para cantar junto com o Benjor: hoje eu vou fazer uma prece, pra deus, nosso senhor, que é pra chuva parar, de molhar, o meu amor assim…

Por Tony Bellotto

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Mais do mesmo

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 | 21:47

sexo-figura2

Vamos lá, esta promete ser uma daquelas minhas crônicas clássicas: falaremos de sexo (oba!), mulheres, homossexualismo, religião, bispos, generais, política, direitos individuais etc, etc. Meus detratores já estarão pensando: “Lá vem ele de novo, propor alguma polêmica para ganhar Ibope!” Uma torrente de comentários indignados de meus inúmeros leitores pode gerar algum transtorno no trânsito online, assim como a avalanche de comentários favoráveis talvez entupa alguns dos bueiros de nosso site. Peço desculpas pelo incômodo desde já. Duas notícias me deixaram com a pulga atrás da orelha essa semana. A primeira, a divulgação do manifesto dos bispos católicos contra pontos do Programa Nacional de Direitos Humanos. É a mesma ladainha de sempre, e não se poderia esperar outra coisa de um manifesto de bispos católicos: rejeição à legalização do aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao direito de adoção por casais homoafetivos e à criação de mecanismos para impedir a exibição de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos. Ok, ok.

Surpreendente seria se os bispos decidissem apoiar tais medidas. Senhores bispos, permitam-me respeitosamente apresentar algumas questões: continuaremos deixando que milhares de mulheres brasileiras morram ou sofram sequelas físicas e psicológicas por conta de abortos mal feitos? Ou os senhores acreditam que elas deixarão de fazer abortos só porque a igreja condena a prática? Não estariam melhor assistidas se o governo as apoiasse e criasse campanhas preventivas para evitar a gravidez indesejada? E os homossexuais? Dois homens ou mulheres que se amem não têm o direito de viver juntos e formar uma família? Tenho um amigo que foi impedido num hospital de visitar o companheiro que agonizava na UTI. Motivo: só a parentes ou cônjuges era permitida a entrada. Os senhores definiriam isso como um comportamento cristão? Desculpem-me, talvez eu não tenha entendido nada quando li o sermão da montanha de Jesus Cristo. Quanto aos símbolos religiosos em estabelecimentos públicos, bem, os senhores estariam dispostos a dividir o espaço dos crucifixos com imagens de Iemanjá e fotos do Chico Xavier?

Agora vamos à segunda notícia: um general do Exército afirmou no Congresso que os gays só devem ser aceitos nos quartéis se mantiverem a opção sexual em segredo. Puxa, senhor general, com todo o respeito, o Obama tenta aprovar uma lei nos Estados Unidos que determina exatamente o contrário: gays devem ser aceitos nas forças armadas norte-americanas. E existe Exército mais poderoso e macho que o americano? Sei que não precisamos imitar os americanos em tudo, mas entendo que a afirmação do general é motivada por preconceito. Segundo ele soldados não se sentem à vontade para obedecer a um superior gay etc, etc. Se não se sentem é por puro preconceito, nada mais. Não é por que o sujeito é homossexual que ele vai querer comandar uma tropa vestido de Carmen Miranda e dando gritinhos histéricos. Essa visão estereotipada do homossexual também é fruto do mais abominável preconceito. E a melhor forma de combatê-lo é mostrando aos soldados que um homem (ou uma mulher) pode ser digno independente de sua opção sexual.

Despidos das fardas, senhor general, e das batinas, senhores bispos, somos todos iguais.

Livro…

… Já que falamos de polêmicas, não percam o novo livro de contos de Marcelo Mirisola, Memórias da Sauna Finlandesa. O homem é um dos expoentes da nossa literatura atual, e escreve de uma maneira única, numa linguagem ao mesmo tempo iconoclasta e sedutora.

Por Tony Bellotto

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Em busca da literatura escondida

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 | 7:30

Literatura escondida

Se Proust tem o seu Em Busca do Tempo Perdido, eu tenho o meu Em Busca da Literatura Escondida. Já é de conhecimento público que minha literatura repousa incógnita em algum lugar da avenida Paulista. Como Bin Laden nas montanhas afegãs, minha literatura se esconde e escapa de qualquer tentativa de aproximação. Alguns leitores têm me ajudado nessa busca insana, mas é difícil reconhecer uma literatura escondida, reconheço. Todas as tentativas até agora falharam miseravelmente.

Mas, Tony, como é a sua literatura para que eu possa reconhecê-la?, me pergunta amavelmente a Regina, de Santo André. Regina tem 27 anos, é analista de sistemas e está recém-separada. Dizem as más línguas que o marido estranhou quando ela disse que passava as tardes procurando minha literatura na avenida Paulista. Regina, se eu soubesse como é minha literatura, que forma ela tem, eu já a teria encontrado, concorda? Esse é o problema, não faço a menor ideia de como é minha literatura.

O Jefferson, aluno do segundo ano de ensino médio, em BH, diz que está juntando grana para procurar minha literatura nas férias. Mas ele precisa de mais informações. Meu leitor assíduo, Jefferson sabe, por exemplo, que o detetive Remo Bellini – minha criação e alter-ego predileto – mora ali na Paulista esquina com a Peixoto Gomide, no edifício Baroneza de Arary. É verdade, Jefferson, bem observado. O problema é que passei por lá dia desses, e perguntei ao porteiro do Baroneza de Arary como anda o Bellini, dono de uma quitinete sem número no terceiro andar, com vista para o Trianon. O porteiro me respondeu preocupado que faz meses que ele não aparece. E me mostrou contas a pagar e, pior, uma notificação de despejo!

Portanto, desistam de procurar minha literatura no Baroneza de Arary. Ela não está lá, garanto. Alguns amigos íntimos sabem que estudei no colégio Rodrigues Alves em 1969 e 1970, mas insisto que é inútil procurar minha literatura no Rodrigues Alves. O edifício ainda é o mesmo, mas várias reformas o transfiguraram. Além do mais, a calçada devorou o antigo jardim do colégio. Quem sabe minha literatura não está vivendo lá embaixo, num túnel do metrô, como uma ratazana faminta? A conferir.

Livro…

Deus o Abençoe, Dr. Kevorkian, de Kurt Vonnegut Jr. O genial escritor norte americano narra para uma estação de rádio novaiorquina suas experiências como repórter do além, entrevistando mortos conhecidos e desconhecidos. Toda a ironia, criatividade, humor negro e presença de espírito desse grande escritor estão presentes nesse livrinho delicioso.

Por Tony Bellotto

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Um dia ideal para os Peixes-Banana

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 | 22:21
Obit Salinger

J.D. Salinger

Hoje é um daqueles dias ideais para os peixes-banana. Um dia de sol quente manchado pelo perfume da morte. Falei outro dia numa crônica sobre dois escritores brasileiros reclusos: Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Há outros pelo mundo, como Thomas Pynchon, por exemplo. Mas nenhum deles foi mais recluso que o mestre dos mestres, o verdadeiro Príncipe das Trevas da literatura mundial: J.D. Salinger. Foi Salinger quem ensinou a todos eles, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Thomas Pynchon e a torcida do Flamengo, que escrever é um ato solitário e que todo o tempo do mundo é insuficiente para um escritor.

Ensinou-lhes outros truques, também. O homem era um craque. Era. Salinger morreu, infelizmente. E fico com vergonha de escrever aqui sobre o assunto, pois de todas as invasões de privacidade, nenhuma é mais obscena que a invasão da privacidade de um morto. Mortos, todos sabemos, não podem se defender. Posso no entanto falar, discorrer, discutir e até gritar sobre aquilo que em Salinger era – e continuará sendo – imortal. Imortal e escancarada a toda e qualquer curiosidade: sua obra. É uma obra barulhenta, de poucos títulos, mas vibrante de vida e tônus literário.

Holden Caulfield será para sempre um adolescente adorável que continuará a abrir pela eternidade as portas da percepção a milhões e milhões de adolescentes mundo afora. O Apanhador no Campo de Centeio, livro protagonizado por Holden, vende cerca de 250.000 exemplares por ano. E já ultrapassou, nos seus 59 anos de vida, mais de 60 milhões de cópias vendidas. Nem tudo está perdido! Viverão para sempre os membros da família Glass! Até mesmo Seymour Glass, o inesquecível personagem do conto Um Dia Ideal para os Peixes-Banana, continuará vivo, ainda que seu suicídio – desculpe estragar a surpresa – no final do conto seja uma das passagens mais marcantes e bem escritas da literatura de todos os tempos. Registro aqui o meu respeitoso silêncio – e o silêncio de qualquer um é sempre uma homenagem ao grande escritor. Façamos um minuto de silêncio para o Salinger. Agora, isso.

apanhador-campo-centeio

Além do minuto de silêncio, sugiro como homenagem a leitura da obra completa de J.D. Salinger, que não é muito extensa, e em particular o conto citado, Um Dia Ideal Para os Peixes-Banana, que abre o livro de contos Nove Histórias.

Por Tony Bellotto

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Notícia de um encontro

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 | 1:55

pablo-escobar-cenas-urbanas-400

Depois de quinze anos longe da Colômbia, Sebastián Marroquín retorna ao seu país. O coração bate descompassado enquanto Sebastián caminha; emoções variadas nublam-lhe o espírito. Lembra-se da vez em que o pai, foragido, apareceu de surpresa na sua primeira comunhão. Como podia o pai que lhe sorria afetuoso dentro da igreja ser ao mesmo tempo o criminoso mais procurado do mundo?

Caminhando, Sebastián lembra-se rapidamente de quando o pai o ensinou a montar num elefante de verdade. Não é qualquer pai que pode manter um zoológico particular em casa. O pai de Sebastián podia. Outras imagens vêm à mente de Sebastián enquanto caminha para o encontro, num turbilhão. A viagem à Disney, os passeios de bicicleta, as situações corriqueiras de pai e filho.

Um pai tão comum quanto incomum. Um pai carinhoso e um criminoso cruel convivendo no mesmo corpo roliço e rosto bonachão. Sebastián chega ao encontro e se depara com os filhos do político Luis Carlos Galán. Galán, candidato à presidência da Colômbia nos anos oitenta, foi morto a mando do mais poderoso traficante internacional de cocaína da época, Pablo Escobar.

Pablo, o pai de Sebastián – que na verdade chama-se Juan Pablo Escobar –, chegou a comandar, sozinho, um cartel que controlava 80% do mercado mundial de cocaína. Tornou-se um dos homens mais ricos, poderosos e cruéis do planeta. Foi morto em 2 de dezembro de 1993, numa troca de tiros com o Search Bloc, grupo da polícia colombiana especialmente montado para capturá-lo.

Juan Pablo Escobar, um arquiteto de 32 anos, vive hoje na Argentina com uma nova identidade - Sebastián Marroquín -, sob a guarda do governo da Colômbia, como testemunha protegida. Agora, de volta ao país natal para o encontro, Juan Pablo encara os filhos de Galán. E diz: “Estou aqui para pedir perdão e olhar nos olhos de cada um de vocês”.

Rodrigo Lara, filho de um outro político também assassinado a mando de Escobar - o ministro da Justiça Rodrigo Lara -, afirmara dias antes, ao encontrar-se com Juan Pablo num parque em Buenos Aires: “Não podemos continuar alimentando esse círculo de ódio, ou nunca vamos sair”. Estas cenas e diálogos estão registradas no documentário Pecados De Mi Padre, do argentino Nicolas Entel, responsável pelo encontro conciliador entre o filho de Escobar e os filhos de Lara e Galán. A Colômbia, aos poucos, vai juntando os cacos e se recompondo.

Livro…

noticia-de-um-sequestro1Notícia de Um Sequestro, em que o colombiano Gabriel Garcia Márquez analisa, com seu talento de jornalista e romancista, a situação política da Colômbia nos anos 90. Ficção e realidade se misturam na narração do drama dos sequestrados pela narco-guerrilha colombiana.

Por Tony Bellotto

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Brasília fashion

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 | 0:24

dinheiro-meia

O deputado da meia será afastado do cargo. E assim entrará para a história: como o deputado da meia. Não se fazem mais políticos importantes com nomes imponentes como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves ou Rui Barbosa. Agora os políticos se imortalizam por alcunhas edificantes como o deputado da meia, o senador do bigode, o prefeito da cueca, o vereador da peruca, o governador do panetone, a deputada da bolsa, o assessor da mala, a senadora da propina, o ministro do cartão corporativo, o suplente da pochete e assim por diante.

Já que São Paulo e Rio fervem nesta época do ano com grandes acontecimentos da moda, sugiro que Brasília também crie sua fashion week. A capital federal está precisando de uma hypada, gente! Imagine só, um desfile transadíssimo pelas passarelas desanimadas do senado e da assembleia. Manecos sarados e manecas anoréxicas desfilando os modelos exclusivos para políticos corruptos, assessores propineiros, suplentes mau caráter, lobistas safados, simpatizantes e puxa-sacos em geral.

Meias equipadas com bolsinhos para facilitar o armazenamento do dinheiro, com divisórias para moedas. Cuecas aerodinâmicas com compartimento especial para cheques: o político, além de rechear a cueca de dinheiro público, ainda dará a impressão de que é bem dotado. Perucas com fios sintéticos à prova d’água: o senador ou deputado pode sair na chuva apertando as mãos de eleitores que o dindin não vai ficar molhado. Barrigas falsas com capacidade para armazenar grandes fortunas em dinheiro vivo, revestidas de camada fina de chumbo para não serem detectadas por raios-X.

Para as mulheres, toda uma coleção específica: falsos absorventes íntimos no formato opcional de notas de dólares, euros ou reais. Bolsas Luis Vuitton com fundo falso. Sutiãs que modulam, além do tamanho dos seios, o montante da propina. Isso sem contar os acessórios especiais unissex, como falsos bigodes com chips contendo senhas de contas na Suíça, Ilhas Cayman e outros paraísos fiscais, e o luxo dos luxos: um chapéu deslumbrante em forma de urna eleitoral, que serve também como um cofrinho ambulante, para que as nobres excelências não fiquem nem um minuto longe de seu precioso e suado dinheirinho. O DJ do desfile será o Jesus Luz, para dar um tom mais espiritual ao evento. Tudo pago, evidentemente, com dinheiro público.

hangoverFilme…

Se rir é mesmo o melhor remédio, não percam Hangover, que no Brasil recebeu o título idiota de Se Beber Não Case. Uma comédia divertidíssima, para lavar a alma e desopilar o fígado.

Por Tony Bellotto

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Um alô para o velho Buck

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010 | 9:48

Buckminster Fuller

A história é relativamente conhecida, e já falei sobre ela numa crônica passada (o Denis Russo, meu colega colunista aí ao lado, também): o homem de 32 anos olha desolado para o lago. Está em silêncio, os olhos inchados pelo choro. Passara a noite em claro, bebendo. Quando o dia nasceu, foi até o lago com a determinação de acabar com a própria vida. Agora ele apenas pensa de que forma consumará o suicídio. Há inúmeras maneiras de se matar. Veneno, forca, revólver. Saltar de um prédio, jogar-se em frente ao trem em movimento, nadar pelo lago até que as forças lhe faltem ou o frio lhe paralise os braços e pernas. Ele analisa as possibilidades com a racionalidade de um cientista. E pensa em Alexandra, sua filhinha morta há poucos dias, vítima de pneumonia.

A lembrança da filha é insuportável e ele sabe que só a morte poderá livrá-lo daquela dor. Decide matar-se ali mesmo, no lago. Nesse instante ele vê um pássaro riscar o céu gélido e azul num voo rasante. E então seu espírito reage. O espírito inquieto e insubordinando, que o levou a ser expulso da universidade apesar de aluno brilhante. O espírito curioso que sempre o impelira a querer entender como e por que as coisas são como são. Em vez de suicidar-se, decidiu fazer uma experiência. Em suas palavras: “descobrir o quanto poderia um único indivíduo contribuir para mudar o mundo e beneficiar toda a humanidade”. Falo de Richard Buckminster Fuller, o arquiteto, designer e inventor norte-americano, que só viria a morrer cinquenta e seis anos depois, em 1983.

Buck (se me permitem chamá-lo pelo apelido carinhoso, tenho-o como um velho amigo, apesar de nunca tê-lo conhecido pessoalmente) deixou uma vasta obra, inúmeras invenções - das quais a mais conhecida é o Domo geodésico -, fecundos pensamentos e vários livros. Entre eles o Manual de Operação da Espaçonave Terra, uma obra visionária que antecedeu em muitos anos a preocupação objetiva com a preservação do meio ambiente. Buck afirmava que no século XXI a humanidade teria de decidir se quer continuar a existir.

Na época, parecia uma figura de retórica, ou um delírio de profeta. Hoje, com todas as evidências desabando literalmente sobre nossas cabeças, as palavras e pensamentos do velho Buck parecem mais urgentes e realistas do que nunca. Quem me conhece sabe que não creio em deus, religiões, políticos, Papai Noel, milagres, mandingas e desconfio piamente da humanidade em geral. Mas alguns poucos homens ainda fazem com que eu consiga levantar de manhã, caminhar até o lago e continuar acreditando que um único indivíduo pode mudar o mundo e beneficiar toda a humanidade.

Livro…

Misto QuenteAcho que já sugeri a leitura do Manual de Operação da Espaçonave Terra, do Buckminster Fuller, numa outra crônica (o Denis Russo com certeza também já recomendou alguns outros textos do Buck). Por isso, recomendo aqui a leitura de um livro de um outro Buk (sem o “c”), também um amigo inseparável que nunca conheci pessoalmente, um outro profeta imprescindível: Charles Bukowski, autor de Misto Quente. De Buck em Buk quem sabe a gente não acaba salvando a humanidade da extinção?

Por Tony Bellotto

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Promessas para 2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010 | 6:49

Promessas de ano novo

Não passar o ano inteiro repetindo: “Nossa, como esse ano tá passando rápido!”.

Não exclamar a cada chuva, temporal, frio, calor ou vento repentino: “O tempo tá maluco!”.

Não usar a expressão “no meu tempo” para justificar a incapacidade de adaptação ao presente. Por exemplo: “No meu tempo era muito mais fácil ler os encartes dos elepês” (desculpe se você não sabe o que é elepê. Era o CD do “meu tempo”).

Não responder a perguntas com frases e palavras mecânicas, que se pronuncia sem saber por quê: “Sem dúvida”. “Exatamente”. “Justamente”. “Sem dúvida”. “Perfeitamente”. “Se deus quiser”. “Sem dúvida”.

Não usar a toda hora palavras oriundas da língua inglesa, contribuindo com a entrada das mesmas a fórceps no dicionário: deletar, lincar, overizar, estartar.

Perder uns dois quilinhos.

Não rir de portugueses por eles chamarem mouse de rato, já que mouse é rato.

Chamar mouse de camundongo.

Não enxertar palavras em inglês em frases prosaicas, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo: “Essa lua tá me dando um insight…”. “Tô com overdose do Lula…”. “As crianças estão no playground, por que não passamos ao living room?”.

Xingar de filho de uma cadela tradutores que, em legendas de filmes, traduzem son of a bitch por filho de uma cadela.

Decorar as datas de aniversário do pai e da mãe.

Mandar de volta à escola o pessoal do gerúndio: “Estaremos voltando às aulas de português, onde estaremos aprendendo que estaremos podendo falar bem melhor. Vocês não estarão perdendo por estarem esperando”.

Evitar certezas.

Não confiar em quem afirma que as têm.

Não achar plausível que, num calor de 40 graus, senhores em busca de um reforço no orçamento se esvaiam em suor sob roupas ridículas de Papai Noel, imersos em neve de algodão, num país tropical no auge do verão.

Não comemorar o Halloween.

Parar de rir quando a TV mostrar políticos fanfarrões enfiando dinheiro público na meia.

Começar a chorar quando a TV mostrar políticos fanfarrões enfiando dinheiro público na meia.

Não assistir ao Big Brother.

Nem ao horário político.

Desconfiar de promessas feitas no primeiro dia do ano.

Junky, de William BurroughsLivro…

Junky, de William Burroughs. O escritor americano, um dos três pilares do movimento Beat (os outros dois pilares chamam-se Jack Kerouac e Allen Ginsberg), prova que sob o olhar de um bom escritor até o dia-a-dia de um viciado em heroína pode se transformar num divertido e vibrante passatempo.

Por Tony Bellotto

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