Blogs e Colunistas

25/04/2012

às 11:50 \ Cenas

Rolling Stone

Vaticinava Muddy Waters, com a sabedoria dos velhos blueseiros, que “pedra que rola não cria musgo”. Quer o destino que eu continue “rolando”, e portanto me despeço aqui deste blog, o que faço com uma pontadinha no peito. Sentirei saudades dos leitores instigantes, que nunca deixaram de comentar minhas crônicas. Sentirei falta também da agradável e instrutiva companhia de meus companheiros de blog, cronistas variados que sempre honraram a tradição da VEJA no jornalismo atuante e investigativo. Quando eu era garoto, e não havia ainda internet, lembro de esperar com ansiedade a chegada da revista VEJA às bancas de Assis, onde morava, e sempre que abria a revista, já me deparava com a página do Millôr Fernandes, que tinha como bordão a frase: “Millôr, enfim um escritor sem estilo”. Pois é essa “falta de estilo”que continuarei perseguindo por aí (acompanhem minha crônica quinzenal no blog da Companhia Das Letras, o blogdacia.com.br). Deixo aqui também um abraço carinhoso para editora do blog, a Kátia Perin, que sempre me tratou com muita gentileza e profissionalismo. Mas é hora de partir, pois afinal de contas, Kátia, como dizia Groucho Marx, “eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”.

Por Tony Bellotto

29/03/2012

às 14:33 \ Cenas

Encontros inesperados

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No avião que me conduzirá de São Paulo ao Rio, eu já sentado, vejo embarcar meu urologista. Urologista, para um homem com mais de 50 anos, adquire a aura mítica de um Batman, por exemplo, para um homem com menos de 10. Em rodas de cinquentões, urologistas desbancam futebol e mulheres no quesito assunto mais comentado. No entanto, encontrar o urologista fora de seu habitat natural, o consultório, é como se deparar com um garçom conhecido longe do restaurante: temos a impressão de que conhecemos aquela pessoa, mas no contexto em que a encontramos naquele momento estranhamos sua presença.

Minha primeira reação é de sorrir educadamente e cumprimentar meu urologista. Noto, porém, que ele, depois de me olhar de relance, segue caminho para o fundo do avião como se não tivesse me reconhecido.

Será possível que ele não me reconheceu?, pergunto-me, um pouco frustrado. Depois de tantos anos de uma intimidade tão arrebatadora, ainda que fugaz, naqueles breves momentos, uma vez por ano, em que, com as calças arriadas e deitado de lado, deixo tranquilamente que ele me perscrute em recôndito tão íntimo? Será que sou só mais um para ele? Ele não me reconhece? Talvez, penso, para um urologista a parte mais marcante de um homem não seja o rosto… teria reconhecido meu recôndito (ué, mudou de nome?) se o perscrutasse numa prova cega ali mesmo, em pleno corredor do Air Bus? Reconheceria, com a argúcia de um sommelier treinado, os blends e até a safra de meu esconso (é preciso ser criativo com o uso dos substantivos)? Ou será que ele, educadamente, fingiu não me reconhecer para não me deixar constrangido? Afinal, há muitos homens que relutam em admitir que sentem carinho por – e às vezes até saudades de – seus urologistas.

Durante o voo rememoro algumas de minhas visitas anuais ao urologista. Já foram 11 vezes até agora (desde os 40), mas é sempre um enorme alívio quando, depois dos breves e desagradáveis procedimentos do exame, ele diz; “tudo certo com a tua próstata!”.

Sim, talvez eu seja só mais uma próstata para ele, mas meu urologista é único para mim.

Por Tony Bellotto

26/03/2012

às 8:29 \ Cenas, Pessoas

Da difícil arte de acordar

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Leio compulsivamente os romances de Philip Roth – os que eu ainda não havia lido – um atrás do outro. Acontece comigo de vez em quando. Fico anos acumulando livros não lidos de um determinado autor, abrindo eventualmente um ou outro para uma olhada descompromissada, um passar de olhos desavisado por páginas aleatórias, até que de repente um deles me captura e pronto, dá-se a mágica: começo a ler todos os livros desse autor com uma sofreguidão digna de um condenado. É como se eu desvendasse algum código secreto de determinado autor, e isso me proporcionasse o livre acesso a seu universo literário.  Aconteceu com Paul Auster, Marçal Aquino, Don DeLillo, John Fante, Roberto Bolaño e por aí vai (devo confessar que tal fenômeno ainda NÃO se deu com Saramago, por exemplo, com quem simpatizo muito).

Atualmente passo por uma fase Philip Roth. Lendo Pastoral Americana numa noite dessas, adormeci com a frase “Ele aprendera a pior lição que a vida pode ensinar – que ela não faz sentido”. A frase se refere a um determinado personagem do livro que, tendo vivido uma infância e adolescência gloriosas, como um grande atleta e campeão esportivo amador, um herói, acaba se depararando na vida adulta com uma tragédia pessoal que o consome e o conduz ao fracasso e à derrota, sentimentos por ele desconhecidos até então.

Durante a noite sonhei com meu pai, morto há seis meses, e no sonho ele apenas sorria para mim numa calçada da alameda Lorena, em São Paulo (não sei porque cargas d’água a alameda Lorena entrou no sonho, não tenho nenhuma ligação especial com essa rua, e nunca soube que meu pai tivesse), e eu o abraçava com o ímpeto de um filho pequeno, para quem o pai personaliza todas as idealizações e referências. Eu o abraçava com muita força mesmo, tentando matar a saudade, e dizia “que saudades, pai”, e ele apenas se limitava a sorrir.

Quando acordei li no jornal as notícias sobre a descoberta do autor das mortes de sete pessoas, entre elas crianças de uma escola judaica, nas cidades de Toulouse e Montauban, na França. Tudo indica que o suspeito, um radical islâmico, é um terrorista simpatizante da Al-Qaeda que teria matado as crianças judias para vingar crianças palestinas mortas. Que a vida não faz sentido eu já sei há muito tempo. O que eu não sabia é que naquele dia dia seria tão difícil acordar.

 

Por Tony Bellotto

19/03/2012

às 14:56 \ Arquivo

O xis do problema


No domingo passado, assistindo ao programa Esquenta, da Regina Casé, vi um ator defender o uso da palavra “pobrema” como correto, afirmando que o fato de certas palavras serem faladas de uma determinada maneira – ainda que incorreta – por grande parte da população, confere a elas o satus de genuínas e aceitáveis como uma forma não “errada”, mas “diferente” de se falar. Sua argumentação era supostamente apoiada por um livro que ele brandia com determinação, livro este, se não me engano, publicado ou adotado pelo Ministério da Educação em algumas escolas.

Discordo peremptoriamente (e aqui uso um termo “difícil”de propósito) da afirmação. Sei que o ator teve a melhor das intenções, assim como os roteiristas do programa, ao defender um uso popular e dinâmico da língua portuguesa, em contraponto ao elitismo paralisante, digamos assim, e erudição afetada de certos gramáticos, linguistas e filólogos. Mas aí é que está o xis do problema. Não podemos relativizar as coisas a esse ponto. Do alto de minhas convicções de roqueiro escritor, muitas vezes erradamente confundido com uma espécie de “Professor Pasquale com brinco na orelha e guitarra Fender tatuada no braço”, afirmo que todo o nosso esforço deve ser feito no sentido de ensinar aqueles que falam “pobrema” a falarem “problema”, sob o risco de fazermos secar a exuberante fonte de nossa identidade (e resistência) cultural, e mais, de avariarmos a escadaria que nos conduz ao conhecimento e, por consequência, à liberdade: nossa língua.

É claro que, como organismo vivo, a língua se transforma e incorpora gírias, estrangeirismos e até eventualmente erros. Mas esses processos demandam mais que opiniões pessoais, doutrinação e confusão política, além de uma perceptível preguiça de encarar os degraus do estudo, aqueles que nos alçam às torres do saber. É preciso combater a ideia de que falar direito é um esforço inútil. Não vale também, como fez alguém no programa, usar o “Samba do Arnesto” do Adoniran Barbosa, como um exemplo de que falar “errado” é “certo”. Há uma distância imensurável entre o uso consciente e criativo da língua e o uso ignorante (sem nenhum preconceito contra pessoas que falam errado) da mesma.

Como diz uma velha professora aposentada, personagem de A Marca Humana, de Philip Roth, dirigindo-se a Nathan Zuckerman, o personagem narrador do livro: “No tempo do meu pai, e ainda no meu e no seu, quem fracassava era o indivíduo. Agora é a disciplina. Ler os clássicos é muito difícil, por isso a culpa é dos clássicos. Hoje o aluno afirma sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender essa matéria, então essa matéria deve ter algum problema. E deve ter algum problema também o professor que resolve ensiná-la. Não há mais critérios, senhor Zuckerman, só opiniões”.

Por Tony Bellotto

15/03/2012

às 20:34 \ Cenas, Pessoas

O Príncipe Maldito

No mesmo dia da renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF, assisto à pré-estreia de Heleno, O Príncipe Maldito, filme de José Henrique Fonseca sobre a vida do jogador Heleno de Freitas, com Rodrigo Santoro no papel principal. É irônico que o futebol consiga criar figuras tão díspares e até antagônicas. Talvez por isso carregue essa dimensão trágica, o futebol sempre teve, no Brasil, uma função parecida com que tinha o teatro na Grécia antiga: ele traduz paixões, glórias, fracassos e tragédias.

Se Ricardo Teixeira representa o pior que o futebol conseguiu criar, os cartolas-múmia, homens que exploram o futebol e o transformam num negócio apenas, muito lucrativo, em grande parte sujo e corrompido, por outro lado figuras como Heleno de Freitas – apelidado de Gilda por torcedores do rival Fluminense, numa referência à personagem de Rita Hayworth, evocando ironicamente, não sem alguma poesia malandra, a elegância, arrogância e estrelismo do atacante do Botafogo nos anos 40 – expressam o que há de mais sublime no futebol, e sua capacidade única de criar mitos e heróis.

É certo que os craques de hoje não têm a aura mítica de um Heleno, mas o mundo de hoje também não. É interessante como o filme retrata a cidade do Rio de Janeiro nos anos 40, ela também uma outra cidade, romântica e mesmo onírica em alguns momentos. A fotografia em preto e branco evidencia paradoxalmente a atemporalidade do filme, que apesar de retratar a vida de um jogador de futebol há mais de 60 anos, revela um drama que sempre acompanhará o ser humano, independente da época em que viva. Tanto o futuro quanto o passado, sabem os bons cineastas, é preto e branco.

De Príncipes e Vilões se faz a história do futebol, e muitas vezes o príncipe e o vilão são a mesma pessoa. Mas não hoje, dia em que Ricardo Teixeira nunca esteve tão distante de Heleno de Freitas.

Por Tony Bellotto

12/03/2012

às 8:28 \ Cenas

Perdido no lobby

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No lobby do hotel Maksoud Plaza há uma vitrine com um livro de autoria de Claudio Maksoud intitulado “Perdido no Lobby”. O título é sugestivo, pois assim me senti algumas vezes na semana passada, hospedado no hotel, ao voltar dos shows históricos do Cabeça Dinossauro no SESC Belenzinho. Foi uma semana agitada recheada de ensaios, entrevistas, lembranças variadas e a participação mágica no programa de Ronnie Von (voltarei ao Ronnie com mais calma numa crônica futura, o homem merece um estudo mais aprofundado). Se estava perdido no lobby, vagando como um fantasma sorridente por esculturas e fontes luminosas, era por puro êxtase, rememorar o Cabeça Dinossauro, assim como reencontrar o Maksoud Plaza e jantar sob câmeras e holofotes com Ronnie Von, tiveram um sabor de madeleine proustiana para mim.

A semana que se inicia agora segue em ritmo alucinado, pois retorno à Pauliceia Desvairada para a continuação da temporada do show, de quarta a sábado, e também para o lançamento do livro São Paulo 1971-2011, História Recente, Versões Literárias, Resíduos Visuais, na quarta-feira, dia 14, na Livraria da Vila, na alameda Lorena 1731, às 19:00 horas. O livro, da editora Olhares, reúne contos de Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Ruffato, Vanessa Barbara, além de um conto meu, claro, e fotos em que a cidade de São Paulo em diferentes décadas é a personagem principal. Estão todos convidados para o lançamento, em que os autores estarão autografando o livro, mas cheguem cedo, pois às 20:30 tenho de sair correndo para o SESC (só não convido todo mundo para o show porque os ingressos já estão esgotados).

No domingo, ao voltar para o Rio depois da semana agitada em São Paulo, encontrei no aeroporto meu amigo Guilherme Fiúza, jornalista e escritor. Ao entrar no avião, ele me brindou com a frase: “Em São Paulo matei a saudade da chuva”. Eu também, Guilherme. Da chuva e de outras coisas mais.

Por Tony Bellotto

08/03/2012

às 15:38 \ Cenas

Cabeça Dinossauro

Os ingressos para a temporada do show Cabeça Dinossauro que está no SESC Belenzinho e vai até o sábado da semana que vem, dia 17 de março, esgotaram-se em poucas horas na semana passada, logo que foram postos à venda. Portanto ninguém pode me acusar de fazer aqui propaganda do show, pois já não é mais possível vê-lo. Não agora, no SESC Belenzinho, pelo menos. É claro que depois desse sucesso todo, voltaremos à cidade, pois muita gente tem ligado e pedido ingressos, mas eu realmente já dei todos os que estavam à minha disposição (não adianta pedir!).

O que me leva a escrever sobre esse show é a tremenda e surpreendente repercussão que ele tem gerado. Me lembra aqueles dias em 1986 quando, logo depois de termos gravado o disco, nós, os Titãs, nos surpreendíamos a cada dia com a força do disco e com o entusiasmo com que ele era recebido (e percebido) pelo público.

Passaram-se 26 anos e estamos aqui, de volta, com várias cicatrizes, mas com a mesma gana e disposição de sempre, prontos a balançar as estruturas da cidade a começar pelas ruas pacatas (não nas duas próximas semanas…) do Belenzinho.

Muita gente pode pensar que há um certo passadismo nessa celebração de algo ocorrido há quase três décadas. E há mesmo. Por outro lado, pode se pensar que a excitação que o disco ainda causa tanto tempo tempo depois de ser lançado só confirma a sua importância e o quanto permanece atual, o que se é bom por um lado, é ruim por outro (como quase tudo que acontece por aí, o sucesso atual do Cabeça também tem os seus “dois lados”).

Não importa, já vaticinavam os Glimmer Twins Mick Jagger e Keith Richards há muito tempo: “I know, it’s only rock’n roll, but I like it”. Se isso serve de consolo para quem está com água na boca e não conseguiu comprar seu ingresso no SESC, nós vamos viajar o Brasil inteiro, neste primeiro semestre de 2012 (se o mundo não acabar antes), com o show Cabeça Dinossauro, como parte das comemorações de 30 anos da banda. Para o segundo semestre, aguardem mais surpresas.

Já dizia Chico Buarque, outro dinossauro que anda esgotando ingressos por aí, em Bom Conselho: “está provado, quem espera nunca alcança”.

Por Tony Bellotto

05/03/2012

às 8:16 \ Cenas

Um dia perfeito para o Peixe-banana

Thinckstock

 

Um dia perfeito para o Peixe-banana é o nome de um conto de J.D. Salinger publicado pela primeira vez em 1948 e imediatamente reconhecido pelo público e pela crítica como uma obra-prima. Eu gosto muito do conto, e o recomendo imperiosamente aos que não o leram, mas nunca soube se esse “Peixe-banana” existe mesmo ou se foi criação da mente brilhante de J.D.

Por que um peixe ganharia esse nome? Por se assemelhar a uma banana? Ou por gostar de comer banana? Peixes comem banana? Bem, dúvidas assim serão finalmentes esclarecidas agora que Marcelo Crivella é o ministro da Pesca. Algo me diz, porém, que Crivella entende tanto de peixes quanto eu entendo de engenharia naval. Ouço por aí que esse ministério, na melhor tradição “história de pescador”, não passa de uma abstração, um lugar estratégico para alocar políticos aliados descontentes ou companheiros sem aparente função no governo. Dizem que o “Bispo” ganhou o cargo para acalmar as bancadas evangélicas – sempre tão irritadas com qualquer possibilidade de luz que ilumine as trevas em que vivem – e para facilitar a vida do candidato do PT nas eleições municipais de São Paulo.

É dose. Como se não bastasse, leio que parlamentares evangélicos tentam reverter uma resolução do Conselho Federal de Psicologia – que proíbe qualquer profissional da psicologia de tratar a homossexualidade já que esta NÃO é doença -, pois querem ter o direito de “curar” homossexuais em seus ritos. Assim já é demais, galera das Trevas, vamos maneirar na maluquice, por favor. Aqui vai um velho ditado de pescadores para a reflexão do novo ministro da pesca e de toda a bancada evangélica: “Que peixes cegos queiram viver como peixes cegos, tudo bem. Mas não podem querer que TODOS os peixes vivam como peixes cegos”.

O provérbio me foi dito ainda na década de 70, numa praia da Ilha do Mel, no Paraná, por Santiago, um velho pescador, enquanto assava uma tainha (ou seria um robalo?) numa fogueira à beira-mar, depois de oitenta e quatro dias sem conseguir pescar um peixe.

Sei não, algo me diz que hoje é um dia perfeito para o peixe-banana.

 

Por Tony Bellotto
 

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