COLUNISTAS

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Livros

Bellini e a Esfinge

Tony Bellotto
Romance policial
1995
Companhia das Letras Adaptado para o cinema pelo diretor Roberto Santucci Filho.

Bellini e o Demônio

Tony Bellotto
Romance policial
1997
Companhia das Letras

BR-163 - Duas histórias na estrada

Tony Bellotto
Romance
2001
Companhia das Letras

Bellini e os Espíritos

Tony Bellotto
Romance policial
2005
Companhia das Letras

Os Insones

Tony Bellotto
Romance
2007
Companhia das Letras
Quinta-feira, 02 de Julho de 2009

Nilá


Seu nome era Nilá. Ou pelo menos soava assim, a quem ouvisse sua mãe chamando por ela. O que vivia acontecendo. Nilá sempre ficava para trás nas caminhadas. Distraía-se com uma flor, um pássaro, uma borboleta voando. Quando um animal feroz se aproximava, Nilá era a última a perceber. E a correr. E lá estava a mãe, preocupada como são as mães, a gritar seu nome: Nilá! Nilá, ao contrário dos irmãos, estava invariavelmente pensativa, quieta, preocupada com outras coisas.

Coisas às quais ninguém prestava atenção: o barulho do vento, o som da água correndo, o canto distante de um pássaro noturno. Nas tempestades, quando todos se acotovelavam para proteger-se do frio, lá estava Nilá, no mundo da Lua, olhando para fora da caverna. Por que gostava de ficar longe dos outros quando a chuva caía? O pai não entendia. Nem os irmãos. Mas a mãe, sensível como são as mães, sabia que Nilá gostava de ouvir o ruído da chuva caindo e batendo nas pedras. Nilá!, gritava a mãe, preocupada com a filha. E a chamava para juntar-se à família para se aquecer e proteger-se da chuva.

Foi numa manhã de sol que Nilá mudou a história do mundo, embora não tivesse consciência disso. Caminhava, como sempre, distante dos outros familiares. Os homens estavam caçando e as mulheres cuidavam das crianças pequenas. Nilá passeava - no futuro inventariam um termo melhor, "flanava" - como sempre fazia nas belas manhãs de sol quando a temperatura era amena e as plantas e os bichos pareciam comemorar e celebrar o fato de estarem vivos.

Nilá viu de longe os restos de um animal morto. Aproximou-se, observou ossos e cartilagens do que fora um abutre. As carnes já haviam sido devoradas por outros animais. Nilá viu um osso fino e oco, de pouco mais de 20 centímetros. Num impulso, Nilá pegou aquele osso. Deixou-o ao sol, para secar. Depois, com o auxílio de algumas pedras usadas pelo pai (que teve de pegar escondida, já que o pai não entenderia o que ela tinha em mente), Nilá fez alguns furinhos no osso. Depois desse dia, a vida de Nilá mudou. Ficou famosa e várias famílias vinham de longe, em algumas noites de céu claro, ouvi-la soprar aquele osso em torno da fogueira. Há 40.000 anos, Nilá inventou a primeira flauta da história e criou a Música. Sua flauta foi descoberta há poucos dias por arqueólogos na Alemanha.

Livro...

... a série Canopus em Argos, de Doris Lessing, em que cria mundos imaginários que muito nos ajudam a pensar o nosso próprio mundo.
Por Tony Bellotto - 21:26 | Enviar Comentário  
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Free at last!


Do ser mitológico diz-se que nasceu em meados do século XX. E que, tendo nascido homem, foi aos poucos transformando-se numa mulher. No fim, tornou-se um ser de aspecto hermafrodita, com sexualidade indefinível. Sabe-se que o ser mitológico nasceu negro e morreu branco. Foi, na infância, um adulto: compromissos profissionais, responsabilidades, obrigações e pressão foram experimentados desde cedo em doses altas. Na maturidade, tornou-se uma criança: gostava de brincar, passear em carrosséis e montanhas russas, ter crianças por perto e jamais compreendeu exatamente do que se tratava o tal  "mundo dos adultos".

Do ser mitológico diz-se que foi acusado de abusar sexualmente de crianças, o que nunca se comprovou. O que se sabe com certeza é que foi brutalmente espancado pelo pai, na infância, e submetido por este a tortura e pressão psicológicas. É comprovado que durante sua existência o ser mitológico ajudou crianças pobres e doentes, não só com dinheiro, mas com carinho e compreensão verdadeiros. Com essas crianças comunicava-se da mesma forma com que são Francisco de Assis conversava com passarinhos.

Do ser mitológico compreende-se que revolucionou a música pop mundial ao elevar a música negra (é importante lembrar: não importa quantas transformações e mutações tenha o ser sofrido em sua existência, ele nunca deixou de ser um grande, talvez o maior, artista da música negra norte-americana) a um status nunca antes alcançado: qualidade musical irresistível, ousadia de produção, competência e muito - muuuiiito - suingue.

Quincy Jones, músico, maestro e arranjador de excepcional talento, ajudou o ser mitológico nessa jornada. Do ser mitológico aceita-se que tinha habilidades múltiplas - dançava, cantava e compunha como poucos - e que com elas conseguiu apaixonar pessoas do mundo inteiro, independente de suas raças, classes sociais, nacionalidades, religiões, crenças etc.

Dele compreende-se que foi coroado rei pelos humanos e amado por estes como um anjo. A morte chegou-lhe como alívio, inadaptado que era ao mundo estranho que o amou e não o compreendeu. Na morte sabe-se que a imprensa, que o criticara impiedosamente nos últimos anos de vida - e tanta atenção dera a suas bizarrices, idiossincrasias e excentridades - acabou por reconhecer que o que prevalecerá de seus feitos será tão somente a brilhante música que concebeu, cantou e dançou.

Diz-se por fim que, ao morrer, o ser mitológico livrou-se do corpo que era ao mesmo tempo depósito de dons e talentos e também de dores e sofrimentos. E que se lembrou, no último instante de vida, da frase do discurso de um grande e admirável conterrâneo: free at last!

CD...

... Off The Wall, de 1979, o primeiro disco da fase adulta do ser mitológico, e primeira parceria com o produtor Quincy Jones. Está tudo ali: a riqueza da música negra, desenvolvida em décadas de trabalho por gravadoras como a Motown - e a mistura com elementos de rock e pop. É um disco que aprendi a amar graças a minha mulher, Malu - a quem dedico esta crônica -, uma das maiores devotas de Michael Jackson de que se tem notícia. Ela já passou essa paixão aos nossos filhos, também admiradores do grande músico negro norte-americano.
Por Tony Bellotto - 08:50 | Enviar Comentário | Ler Comentários (86)  
Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Super-Secreta, o anti-herói brasileiro


Secreta é um homem sem rosto, sem nome e sem caráter. Nem sei se é mesmo um homem. Pode ser uma mulher. Ou um personagem do folclore brasileiro. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Secreta é um símbolo. E também o mais novo super anti-herói nacional. Como Clark Kent, Secreta se faz passar por um homem comum. Serve a uma dessas inúmeras famílias poderosas brasileiras. Secreta é um faz tudo: dirige o carro de sinhô, paga as contas no banco, leva sinhá ao cabeleireiro, acompanha sinhazinha a um baile, troca uma lâmpada, ajuda a carregar as compras, limpa o cocô do cachorrinho de estimação de sinhá.

Quando sinhozinho sai para farrear com os amigos e termina a noite bêbado numa boate, Secreta está lá, para amparar sinhozinho e garantir que ele volte em segurança para casa, sem problemas com o bafômetro. Secreta é descendente direto dos escravos domésticos, que até hoje arrancam suspiros de saudades de sinhá e sinhô. Secreta é de "confiança". Limpinho, segundo os patrões. Honestíssimo. Passam um cheque em branco para o Secreta sem pestanejar. Sua fidelidade a sinhô e seus descendentes é canina. Secreta é simpático e bonachão e está sempre disposto ao trabalho.

Sinhô, que é muito letrado, gosta de elogiá-lo citando Euclides da Cunha: "Secreta é antes de tudo um forte", diz, rindo o riso largo dos coronéis. Secreta fica todo pimpão, agradecido. Mas Secreta tem uma identidade secreta (que trocadilho, hein?). Assim como Clark Kent transforma-se em Super-Homem, Secreta vira o Super-Secreta uma vez por mês, quando precisa ir a Brasília buscar o salário que pagamos a ele. É, nós pagamos o salário do Secreta. Nada mais lógico. Afinal, o Secreta é um patrimônio cultural brasileiro.

E então, no âmago da noite nordestina, quando Secreta vira o Super Secreta e veste sua capa rota para deslocar-se pelos céus do Maranhão até Brasília - nada contra o Maranhão, terra linda e berço de grandes brasileiros como Ferreira Gullar, Turíbio Santos, Gonçalves Dias, Souzândrade e Zeca Baleiro, só para citar alguns. É que quero ambientar meu personagem num desses estados de baixíssimo IDH. Poderia ser Alagoas, por exemplo -, ele assume a forma de um boto voador com rosto de curupira e olho de ciclope. E enxerga, lá do alto, com seu olho único mitológico, as terras devastadas por séculos de oligarquias, coronelismos e outras formas cruéis de atraso e exploração.

Super Secreta vê famílias pobres e miseráveis, crianças subnutridas e analfabetas, mulheres melancólicas e sem esperança, homens cansados e desiludidos, lavouras secas e sem vida. E pensa, com seu supercérebro de anti-herói: "Eu não tenho nada a ver com isso, estou defendendo o meu, a vida é assim. Foda-se".

Livro...

... Macunaíma, de Mário de Andrade. Obra fundamental do grande modernista paulistano, Macunaíma é o pai de todos os Secretas.
Por Tony Bellotto - 15:05 | Enviar Comentário | Ler Comentários (10)  
Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Sociedades secretas


São inúmeras as sociedades secretas. Há os Templários, sociedade instituída no século 12 para dar segurança a lugares e templos sagrados de Jerusalém; a Maçonaria, sociedade secreta fundada no século 18, com forte influência nas políticas de vários países; os Bildberg, grupo secreto de banqueiros internacionais que atua nas sombras desde 1954; os Illuminati, criada em 1776 por Adam Weishaupt, e que reúne aqueles que se acreditam "iluminados pela luz de Lúcifer"; os Skull and Bones (caveira e ossos), que existe desde 1833 quando seus membros iniciaram a sociedade na Universidade de Yale, e da qual fazem parte, segundo dizem, Bush pai e Bush filho; o Grupo Carlyle, grupo secreto de grandes investidores privados que aplicam fortunas em armamentos, telecomunicações e laboratórios; a Rosacruz, fraternidade fundada em 1915 e dedicada ao estudo das leis místicas; os Rothschilds, a Ku Klux Klan, a Máfia...

Agora mais uma gloriosa sociedade secreta brota no seio de nossa grande nação: a Sociedade Secreta do Senado, a SSS (não confundir com $$$) criada para dar privilégios e empregos a parentes e amigos de seus membros, algumas das Excelências por nós escolhidas para viver em castelos no longínquo reino de Brasília. Seu lema, pelo que descobri em minuciosa pesquisa secreta, é uma transcrição para o latim da famosa frase "Estou me lixando para a opinião pública" (alguém se habilita a traduzir a frase para o latim? Meus conhecimentos não chegam a tanto), cunhada em suas próprias hostes por um de seus proeminentes membros.

Na verdade acho que o cara que disse isso era deputado, mas os deputados nem precisam de sociedades secretas para fazer suas lambanças, já as praticam às claras mesmo. Então a frase vai para a SSS, novo orgulho nacional. Numa hora dessas eu me pergunto, como muitos devem estar se perguntando, cadê o Pedro Simon, o Suplicy, o Jarbas Vasconcellos? Por que não se manifestam e explicam que negócio é esse de "atos secretos"? Como já não faz sentido pedir tanto aos políticos, dirijo a pergunta a nós mesmos, eleitores: quando vamos tomar vergonha na cara?

DVD...

...Cidadão Kane, considerado o melhor filme de todos os tempos, obra-prima de Orson Welles, um banho de cinema e uma aula sobre o poder da política e do jornalismo.

Por Tony Bellotto - 06:42 | Enviar Comentário | Ler Comentários (32)  
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

A arte de andar de bicicleta pelas ruas do Rio


Na adolescência eu li a trilogia "maldita" de Henry Miller, Sexus, Nexus e Plexus, e lembro de ter ficado fascinado com a leitura - menos pelas descrições de sexo do que pelas narrativas de seus passeios de bicicleta. Desde então, a arte de escrever está para mim intrinsecamente ligada ao ato de pedalar. Gosto de andar de bicicleta. Sempre gostei. Invento histórias enquanto pedalo. Em Assis, quando era adolescente, pegava minha bicicleta depois do almoço e percorria quilômetros pelas estradinhas de terra. Mais tarde, durante o tempo que passei nos Estados Unidos num programa de intercâmbio, pedalava por estradas bucólicas que serpenteavam as plantações e pastos do Kentucky.

Quando viajei com a Malu em nossa primeira lua de mel (já que nunca nos casamos, estamos sempre inventando luas de mel) atravessamos Amsterdã de cabo a rabo com nossas bikes alugadas. Hoje em dia, no Rio, vou de bicicleta para todo lado: uma reunião de trabalho na Gávea, uma consulta médica no Leblon, um cinema em Copacabana e até mesmo uma pesquisa literária em Botafogo. Não vou dizer que é fácil. Ciclistas são ainda muito desrespeitados, embora o futuro, meus caros, seja da bicicleta.

Hoje em dia, no entanto, bicicletar pelas ruas é extremamente arriscado. Como não há ciclovias disponíveis em todos os pontos da cidade, sobra a incômoda opção de andar pela calçada. Andar de bike na calçada é chato principalmente porque é uma ameaça aos pedestres. E a calçada, convenhamos, é dos pedestres. Quantas manobras complexas sou obrigado a realizar para não dar de cara com um carrinho de pipoca ou uma velhinha desavisada. Isso sem falar daqueles pedestres que insistem em andar em ziguezague.

Mas tudo bem, sou um sonhador, idealista e otimista inveterado. No futuro teremos ciclovias atravessando o Rio de Janeiro e quando um ancião claudicante, porém impávido, for avistado pedalando sua velha bicicleta, podem ter certeza: serei eu.

 TV....
.... Lugar Incomum, do canal Multishow. A apresentadora, Érika Mader, minha sobrinha, dá um show nesse programa delicioso que mostra uma Nova York pitoresca e não-turística. Érika, além de talentosa apresentadora, atriz, roteirista e diretora de cinema, é também uma ativa ciclista urbana.

Por Tony Bellotto - 06:24 | Enviar Comentário | Ler Comentários (23)  

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