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02/09/2010

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Dos sonhos de JK às vassouras de Jânio

João Goulart, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek, na posse do homem da vassoura

Uma das mais extraordinárias peças de propaganda política nasceu do acaso. Em 4 de abril de 1955, Juscelino Kubitschek, ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência, desembarcou em Jataí, no interior de Goiás, avisando que, caso fosse eleito, cumpriria integralmente a Constituição. Acabou saindo de lá comprometido com a construção de Brasília.

A ideia começou a tomar forma quando Antonio Soares Neto, um corretor de seguros de 29 anos, indagou se, “conforme determinado nas Disposições Transitórias da Constituição”, JK mudaria a capital para o interior do país. Depois de refletir alguns segundos, o candidato endossou uma das mais fascinantes aventuras de todos os tempos: “Cumprirei na íntegra a Constituição. Durante o meu quinquênio, farei a mudança da sede do governo e construirei a nova capital”.

Começavam os 50 anos em 5 de JK:

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Os adversários de Juscelino eram Juarez Távora, da UDN, e Adhemar de Barros, do PSP:

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Com 35% dos votos, o presidente Bossa Nova – um de seus codinomes mais conhecidos – foi eleito 290 comícios e 1.215 discursos depois.

Restrita às ondas do rádio em 1955, a campanha política alcançou a televisão cinco anos mais tarde. Na campanha de Jânio Quadros em 1960 foi ao ar o primeiro comercial eleitoral da história do Brasil:

“Ainda havia poucos televisores no país, mas eram suficientes para atingir os formadores de opinião”, conta Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos. “Foi o primeiro uso racional da TV no processo eleitoral brasileiro”. Um ano antes, em 1959, Jânio havia assumido, a convite de Paulo Machado de Carvalho, na época dono da TV Record, um programa de entrevistas onde seus convidados tratavam dos problemas nacionais. Com o jeito de falar também peculiaríssimo – o sotaque juntava o acento de Mato Grosso, onde nasceu, do Paraná, onde se criou, e de São Paulo, onde amadureceu politicamente – Jânio ampliou com os telespectadores a multidão de devotos.

Treze anos depois de eleito suplente de vereador, o ex-prefeito, ex-governador e ex-deputado Jânio Quadros candidatou-se à Presidência. Os adversários eram o general Henrique Teixeira Lott, que garantiu a posse do presidente Juscelino Kubitscheck e foi o ministro da Guerra do seu governo, e Adhemar de Barros, com quem Jânio reprisou nacionalmente a disputa regional que se desenrolava em São Paulo desde o começo dos anos 50.

O emblema de Lott, estampado em flâmulas, bottons e cartazes, era a espada. O de Adhemar, o trevo. Jânio usou a vassoura, que simbolizava o combate à corrupção. Foi essa a origem de “Varre, varre, vassourinha, um dos mais conhecidos jingles da história política nacional, e de outras trilhas memoráveis:

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Lançado pelo inexpressivo Partido Trabalhista Nacional (PTN), a candidatura de Jânio recebeu o apoio da União Democrática Nacional (UDN). Logo virou mania nacional aquele político de estilo estranhíssimo, com cabelos desgrenhados, caspa no paletó, gesticulação elétrica e que devorava sanduíches de mortadela durante os comícios. Ao perceber o franco favoritismo de Jânio, João Goulart, candidato a vice-presidente na chapa de Lott, incentivou o movimento JanJan, que pregava o voto em Jânio para presidente e em Jango para vice (naquela época os dois cargos eram escolhidos separadamente).

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Milton Campos, um político mineiro extremamente correto e vice oficial de Jânio, não recebeu praticamente nenhuma ajuda do companheiro de chapa.

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As táticas de marketing da campanha de 1960 incluíam a transformação de acusações e apelidos pejorativos em trunfos eleitorais dos alvejados. Os adversários de Adhemar de Barros, por exemplo, mencionavam sistematicamente a “caixinha do Adhemar”, expressão que indicava a fortuna particular acumulada com o desvio de dinheiro público. O ex-governador de São Paulo inverteu a acusação com um jingle:

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No âmbito regional, a técnica foi usada por Aluísio Alves, candidato ao governo do Rio Grande do Norte pelo PSD. O jingle surgiu depois que um de seus adversários o chamou de “cigano”.

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Com a ausência de compositores profissionais, a trilha sonora da campanha ficava por conta de músicos e cantores famosos da época. É o caso desses dois jingles de Jango, cantados por Elizeth Cardoso e Ivon Curi:

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Embora Lott fosse o candidato oficial do governo, JK pouco se empenhou na campanha. Conjugado com o carisma incomparável de Jânio Quadros, essas circunstâncias ajudam a entender mais um caso de esquizofrenia eleitoral dos brasileiros. Apaixonados por Juscelino, risonho e conciliador, elegeram Jânio Quadros, brigão e carrancudo. Lott terminou a eleição em segundo lugar e Adhemar em terceiro. João Goulart foi o vice.

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Eleito com 48% dos votos sem necessitar da ajuda dos grandes partidos, Jânio Quadros descobriu tarde demais que era impossível governar sem a maioria no Congresso. Em 21 de agosto de 1961, oito meses depois da posse, o homem da vassoura renunciou ao cargo com a esperança de retornar ao poder pela aclamação popular. O país recuperou-se rapidamente do choque proporcionado pelo ato insano e passou a tratar da posse do vice-presidente.

Com duas décadas de atraso, a televisão foi a grande novidade da campanha de 1960 no Brasil – Franklin Roosevelt, candidato à Presidência dos EUA, já havia feito o primeiro discurso que acoplava imagem à voz em 1939.

Assim como aconteceu com o rádio, interceptado pela decretação do Estado Novo quando começava a ser usado de maneira racional nas campanhas políticas, a TV também tropeçaria em leis autoritárias. Em 1964, a ditadura militar resolveu impedir o uso intensivo da televisão. A proibição vigorou por 20 anos.

Branca Nunes

 

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