Blogs e Colunistas

Getúlio Vargas

20/08/2010

às 23:05 \ Uncategorized

O retrato do velho começa a percorrer o caminho de volta às paredes do Brasil

“E se o senhor viesse a ser candidato? – perguntei”.
“Eu não sei… – começou Vargas. – Mas pode dizer uma coisa: eu voltarei. Eu voltarei, mas não como líder de partidos e, sim, como líder de massas.”

O diálogo, reproduzido no livro de memórias do jornalista Samuel Wainer, ocorreu em 1949 e descreve o momento em que Getúlio Vargas usou a primeira pessoa para endossar o aviso espalhado desde 1945 por muros de centenas de cidades do Brasil: Ele Voltará.

Em dezembro de 1945, Vargas fora eleito senador por dois estados e deputado por nove (naquela época, havia a possibilidade de se candidatar por mais de um estado e a mais de um cargo). Em 1947, convencido de que a oposição parlamentar tentaria desmoralizá-lo no Congresso, exilou-se voluntariamente em sua estância em São Borja e manteve distância da imprensa.

A reportagem assinada por Samuel Wainer foi ampliada pelos jornais da cadeia Diários Associados e pelas emissoras de rádio – o veículo mais influente da época: “O melhor programa noticioso do país era O Grande Jornal Falado Tupi, que começava às cinco da manhã e terminava às sete”, conta Wainer no livro Minha Razão de Viver. “Naquele dia, sucessivas vezes, repetiu-se uma gravação com a frase que se tornaria famosa: ‘Eu voltarei como líder de massas’. A gravação fora feita pelo locutor Silvino Neto, pai do humorista Paulo Silvino, que imitava à perfeição a voz de Getúlio. O presidente Eurico Dutra, que costumava acordar bem cedo, levou um susto enorme: ele pensou que a voz era a do próprio Getúlio”.

Em 9 de agosto de 1950, Vargas deixou a estância de Itu, na fronteira com o Uruguai, para começar a campanha pelo Brasil:

Além do rádio, já utilizado intensivamente pelos políticos, Vargas transformou o cinema em instrumento eleitoral. “Com os vídeos em forma de documentários, Getúlio reconstruía a história de seu próprio passado e divulgava seu programa de governo”, informa um dos textos do livro Marketing Político – do comício à internet, assinado pelos jornalistas Daniela Rocha e Lincon Franco. O cinejornal – noticioso apresentado antes dos filmes –, foi a grande carta na manga do candidato.

A imagem de “Pai dos Pobres” e “Salvador da Pátria”, foi sendo desenhada conscientemente antes mesmo do surgimento do marketing político, que nascerá somente em 1954, na campanha de Celso Azevedo para a prefeitura de Belo Horizonte. “O que existia até então era a simples propaganda dos candidatos”, explica Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos. “Só em 1954 surge o marketing político, ou seja, a ciência que estuda o mercado para adaptar um produto aos anseios daquele meio”. Mesmo que ditadas pelo instinto, a frase “é preciso conhecer os pequenos para conhecer-lhes as aspirações” – retirada do cinejornal reproduzido acima – mostra que Vargas já sabia disso.

Os jingles de Vargas dominavam as rádios:

áudio

áudio

áudio

E o retrato do velho começava a percorrer o caminho de volta às paredes do Brasil.

áudio

Branca Nunes

11/08/2010

às 21:01 \ Uncategorized

O Brasil surfou nas ondas do rádio nas eleições de 1945

Retratos de Eduardo Gomes e Eurico Gaspar Dutra

Assim como aconteceria com a televisão três décadas depois, uma ditadura interrompeu abruptamente o uso do rádio nas campanhas políticas no começo dos anos 30. A partir de 1934 e pelos 11 anos seguintes, apenas a palavra de Getúlio Vargas ou de seus aliados teria espaço na programação. A partir de 1938, um ano depois da implantação do Estado Novo, o mesmo elenco protagonizaria diariamente a “Hora do Brasil” – o mais antigo programa radiofônico, rebatizado em 1940 como “Voz do Brasil”.

Pressentindo o alcance desse meio de comunicação – usado pela primeira vez nas eleições de 1929 por Julio Prestes – Vargas liberou a publicidade para o rádio. “Até 1932 não eram permitidos comerciais de produtos nas emissoras, consideradas sociedades educativas”, explica Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos. Importando o modelo americano, Vargas eliminou a restrição. “A mudança atraiu dinheiro e impulsionou o mercado”, escreve o publicitário Fábio Ciaccia no livro Marketing Político – Do Comício à Internet. “As programações sofreram grandes mudanças, passando do erudito ao popular, e buscando levar às pessoas lazer e diversão”.

Nesse mesmo ano consumou-se o casamento entre o rádio e a política. Em 1932, Paulo Machado de Carvalho abriu os microfones da Rádio Record ao vozeirão de César Ladeira, locutor oficial da Revolução Constitucionalista. O programa “Palestras Instrutivas”, que recebia políticos como convidados, garantiu à emissora a liderança de audiência.

Com a revolução, o rádio passou a servir como ponte entre o governo e o povo. Cinco anos depois, numa carta ao Congresso Nacional, Getúlio Vargas escreveu:

“O governo da união procurará entender-se a propósito com os estados e municípios de modo que mesmo nas pequenas aglomerações sejam instalados receptores providos de alto-falantes em condições de facilitar a todos os brasileiros, sem distinção de sexo nem idade, momentos de educação política e social, informes úteis aos seus negócios e toda a sorte de notícias tendentes a entrelaçar os interesses diversos da nação. À radiotelefonia está reservado o papel de interessar a todos por tudo o quanto se passa no Brasil”.

Com a proliferação dos aparelhos de som, a campanha presidencial de 1945 surfou pelas ondas do rádio. De um lado, o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN e celebrado como o patriarca da Aeronáutica. De outro, o marechal Eurico Gaspar Dutra, lançado pelo PSD em coligação com o PTB. Ministro da Guerra de Getúlio Vargas durante o Estado Novo, Dutra mudara de lado a tempo de juntar-se aos conspiradores que derrubaram o governo e impediram que Vargas permanecesse no poder nos braços do movimento queremista. O PCB, recém legalizado, lançou – sem chances de vitória – a candidatura de Yedo Fiuza.

Favorito até a reta final da campanha, Eduardo Gomes amparou a candidatura em jingles criativos, comícios que atraíam multidões – e que reuniam alguns dos maiores tribunos do país, como Carlos Lacerda, Otávio Mangabeira e Juraci Magalhães – e num dos slogans mais populares da história:

“Vote no brigadeiro, ele é bonito e é solteiro”.

áudio

O jogo começou a mudar às vésperas da eleição, quando o deputado Hugo Borghi, do PTB, atribuiu a Eduardo Gomes o uso do termo “marmiteiros” para referir-se aos trabalhadores. Daí um dos principais jingles da campanha:

áudio

O lance decisivo foi o apoio de Getúlio Vargas. Embora indisposto com Dutra desde a queda, Vargas tinha Eduardo Gomes como inimigo preferencial. A poucas semanas do pleito que elegeu Dutra o novo presidente da República, os muros das cidades amanheceram com a inscrição: “Ele disse: vote em Dutra”.

Cinco anos depois, a palavra de ordem era outra: “Ele voltará”.

Vargas voltou. Voltou ao poder nos braços do povo e amparado no uso maciço de todos os meios de comunicação disponíveis.

Branca Nunes

04/08/2010

às 12:56 \ Uncategorized

A internet da República Velha

Nem propaganda no rádio, nem horário gratuito na TV, nem sequer pesquisas de opinião. Durante a República Velha (1889-1930), bastava a um candidato ser indicado pelo Partido Republicano para considerar-se eleito. A fraude generalizada, o sistema educacional indigente e a dominação dos coronéis se conjugavam no jogo de cartas marcadas. As manifestações da oposição eram frequentemente dissolvidas a bala. Os comícios eram muito mais uma demonstração de força que um instrumento para conquistar eleitores. Os anúncios e reportagens nos jornais, administrados pelos partidos, destinavam-se a popularizar um perfil positivo do escolhido.

É dessa época a primeira imagem em movimento de uma campanha eleitoral. Em15 de outubro de 1921, uma multidão – de chapéu – observa a passagem de Arthur Bernardes pela capital federal.

“Ao que tudo indica, esta gravação não teve qualquer efeito publicitário levando-se em conta que não era simples sua exibição, pois a TV ainda não existia”, escreve a publicitária Débora Tavares no livro Marketing Político – do Comício à Internet.

Num tempo em que a comunicação por telefone era extremamente precária, as informações viajavam a bordo dos telegramas. O telégrafo exercia o papel que hoje cabe à internet e era usado para a divulgação da notícia, a troca de ideia entre os correligionários (espécie de coordenadores de campanha) e o envio de mensagens cifradas de um chefe político para outro. O deslocamento dos políticos em campanha era feito por trem.

De acordo com o professor Moisés Stefano Barel, na primeira eleição direta do Brasil Republicano, em 1894, Prudente de Morais buscou votos com o “envio de cartas personalizadas aos eleitores, um intenso corpo-a-corpo e a publicação de mensagens na imprensa”. Ainda não havia sido instalada a política do café com leite, que dispensou os candidatos desse tipo de esforço.

Trinta e cinco anos depois, na campanha de 1929, Julio Prestes estreia no rádio com Seu Julinho Vem, o primeiro jingle político da história do Brasil.

áudio

“O rádio chegou ao país em 1923”, informa Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos. “Em 1929, embora ainda tivesse um alcance incipiente pela escassez de aparelhos, começou a ser usado de forma racional numa campanha eleitoral”. Manhanelli lembra que antes da campanha de Julio Prestes existiam apenas canções satíricas ou de protesto. “O jingle político é feito para exaltar um candidato e persuadir o eleitorado”.

Pouco mais tarde, Julio Prestes lançou Comendo Bola, composto por Jaime Reondo, e Eu Ouço Falar, de Francisco Alves:

áudio

áudio

Com a vitória do político paulista, que precipitou o início da Revolução de 1930, um jingle bem humorado procura mobilizar os brasileiros para a batalha.

áudio

A chegada de Getúlio Vargas ao poder sepultou a República Velha. E deu início a uma outra etapa da propaganda política brasileira.

Branca Nunes

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados