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Diretas Já

09/09/2010

às 21:23 \ Uncategorized

Eleições sob censura

Restritas a dois partidos e constantemente ameaçadas pelas vontades armadas dos quartéis, as eleições no Brasil aconteceram durante quase todo o regime militar. Embora não pudessem eleger o presidente da República, os brasileiros continuaram a escolher pelo voto direto governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores.

A primeira eleição legislativa depois do golpe aconteceu em 15 de novembro de 1966, pouco depois da decretação do Ato Institucional número 2 (AI-2), que extinguiu os 13 partidos legais existentes e na prática instituiu o bipartidarismo. Foram formados a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Nenhuma das legendas criadas pela reforma partidária de 1966 incluía no nome a palavra “partido”.

Eleições em São Paulo, em 1966

Embora timidamente, os candidatos animaram-se a criar jingles e fazer campanha de rua. Foi o caso de Dinarte Mariz, candidato ao governo do Rio Grande do Norte.

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Depois da avassaladora derrota sofrida em 1970 pelo MDB, que chegou a discutir a hipótese da autodissolução, o regime militar afrouxou as amarras eleitorais em 1974. “O governo acreditava que o chamado ‘milagre brasileiro’ seria suficiente para conquistar a maioria dos votos e permitiu programas eleitorais ao vivo na televisão”, conta Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos. “O resultado foi uma derrota humilhante do governo.”

Orestes Quércia, um dos 16 senadores eleitos pelo MDB na ocasião, debita aos programas televisivos a vitória. Começou a campanha com apenas 5% das intenções de voto, contra 75% do ex-governador Carvalho Pinto. Na edição de 25 de setembro de 1974, uma reportagem publicada por VEJA descreveu o clima da época: “Uma campanha eleitoral para a renovação do Senado da República, da Câmara Federal e das Assembléias Legislativas inundou o país com slogans, cartazes, jingles, foguetes, refrigerantes e discursos sobre assuntos como a revogação do AI-5, os problemas da agricultura e da pecuária, o combate à inflação e o endividamento externo”. O MDB conquistou 59% dos votos e praticamente duplicou a bancada na Câmara, além de eleger quase o triplo do número de senadores arenistas.

Diante do crescimento gigantesco da oposição – ainda menosprezado por setores do governo – o presidente Ernesto Geisel declarou: “Não podemos tapar o sol com a peneira”. As apurações de 1974 resultaram na Lei Falcão, que impôs severos limites à propaganda política no rádio e na televisão. Na TV, só podia aparecer uma foto do candidato ao lado do número, enquanto uma voz em off narrava um breve currículo. No rádio, o locutor dizia somente o nome e o número do candidato.

Em 1982, o fim da Lei Falcão permitiu que as eleições para governador, senador e deputados voltassem a desfrutar das várias possibilidades do marketing político.

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Com a restauração do pluripartidarismo, cinco partidos disputaram a preferência do eleitorado: o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o Partido Democrático Social (PDS), o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Fundado por Tancredo Neves e Magalhães Pinto, o Partido Popular (PP), que reunia dissidentes da Arena e moderados do MDB, desistiu de concorrer e seus filiados se uniram ao PMDB.

Franco Montoro venceu Reynaldo de Barros e Jânio Quadros na disputa pelo governo de São Paulo. Candidato pelo PTB, um partido fraco, o Homem da Vassoura conseguiu provar que mantinha boa parte da força política, principalmente entre os eleitores mais jovens. Três anos depois, seria eleito prefeito de São Paulo.

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Era o início do uso maciço da TV na política, que atingiria o auge dois anos depois com a campanha das Diretas Já. Houve gigantescos comícios em todas as capitais. Na Candelária, no Rio de janeiro, e no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, reuniram mais de 500 mil pessoas. A Rede Globo, que tentou ignorar o movimento, acabou sendo obrigada a cobrir intensamente as manifestações populares que exigiam a volta de eleições diretas para presidente da República.

A Emenda Dante de Oliveira, que refletia a vontade da maioria dos brasileiros, não foi aprovada. Com 298 votos a favor, 65 contra e 3 abstenções – 112 deputados estavam ausentes no dia da votação – não foi levada à apreciação do Senado. Faltaram 22 votos.

Branca Nunes

 

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